Jogadores

O inglês Ray Wilkins foi uma das poucas peças confiáveis de um Milan em crise

Correção, profissionalismo, boa qualidade técnica. Qualquer jogador que possua estes atributos pode se gabar por ultrapassar a linha que separa os esportistas banais daqueles acima da média. Ray Wilkins os tinha. O meio-campista pode até não ser muito conhecido pelas novas gerações de amantes do esporte do Brasil, mas demonstrou sua importância no futebol da Inglaterra entre os anos 1970 e 1980. Ele também teve uma passagem sólida pelo Milan.

Raymond não enfrentou grandes obstáculos para se tornar jogador de futebol. O talento e a prática eram inerentes à sua família: o pai, George, atuou no Brentford e no Nottingham Forest; e os irmãos Graham (ex-Chelsea), Dean (ex-Brighton & Hove) e Stephen também foram profissionais. Nenhum deles, no entanto, teve tanto sucesso quanto “Butch”, que estreou pelo Chelsea aos 17 anos e assumiu a braçadeira de capitão em sua segunda temporada pelo clube.

O meia ficou seis anos em Stamford Bridge, período no qual segurou as pontas de um Chelsea recheado de jovens, que alternava entre a primeira e a segunda divisões. Wilkins rapidamente virou sensação: tanto entre as adolescentes britânicas, que gostavam de seu visual, quanto dos Blues e da seleção inglesa. Ray foi artilheiro da equipe na disputa a segundona em 1975-76, com 12 gols, e recebeu as primeiras convocações para o English Team no final daquela temporada. Acabou sendo peça frequente do elenco dos Três Leões por uma década.

Com o rebaixamento do Chelsea à Division 2, em 1979, Wilkins foi negociado com o Manchester United: o negócio custou 825 mil libras e foi a venda mais lucrativa da história dos Blues, até então. Ray começou a jogar de forma mais recuada e se tornou o cérebro dos Red Devils, revelando-se um autêntico regista. Em cinco anos de Old Trafford, marcou menos gols, mas foi o responsável por pensar as jogadas de um time que foi campeão de duas copas nacionais, mas não conseguia bater de frente com o hegemônico Liverpool de Kenny Dalglish, Ian Rush e Graeme Souness no Campeonato Inglês.

Quando atuava pelo United, Wilkins ajudou a Inglaterra a se classificar para a Euro 1980, devolvendo o English Team a uma competição oficial após 10 anos. No torneio, disputado em solo italiano, o meia marcou um golaço na estreia da fase de grupos contra a Bélgica: chapelou três marcadores de uma vez e ainda encobriu o mitológico goleiro Jean-Marie Pfaff. Após o empate no primeiro jogo, a Inglaterra, porém, perdeu para a Itália e não conseguiu se classificar. Em 1982, Butch disputou todas as partidas da Copa do Mundo, vencida pela Squadra Azzurra.

Wilkins ocupou o meio-campo do Milan e vestiu a camisa 8 rossonera por três anos (Twitter)

Em 1984, após ser eleito jogador do ano pela torcida do Manchester United, Wilkins acertou transferência para o Milan pelo valor de 1,5 milhão de libras. Com o negócio, o meia seguiu os passos de Joe Jordan, ex-companheiro de clube que havia passado pelos rossoneri entre 1981 e 1983. Em San Siro, Ray faria uma parceria com o compatriota Mark Hateley, contratado também para aquela campanha.

A dupla inglesa, porém, foi acolhida por um gigante adormecido. Durante os três anos de permanência na Itália, o Milan atravessou alguns dos piores momentos de sua história, nas esfera esportiva e administrativa. Quando apostou em Wilkins e Hateley, os rossoneri tinham conquistado apenas um scudetto nos últimos 16 anos e sido rebaixados duas vezes nesse período: em 1980, por participação de jogadores no escândalo Totonero, e novamente em 1982, por mau rendimento no campo. Envolto em problemas judiciais, Giuseppe Farina, presidente do clube entre 1982 e 1986, levou o Diavolo a uma crise econômica profunda e chegou a se exilar na África do Sul e na Espanha para não ser preso. Acusado de evasão de divisas e fraude fiscal, Giussy costurou um acordo com a justiça italiana e passou suas ações do Milan a Silvio Berlusconi.

Enquanto o Milan dissolvia nos bastidores, Nils Liedholm, mito do clube, tentava fazer isto não afetar os jogadores de maneira decisiva. Em sua terceira passagem em Milão, que durou de 1984 a 1987, o treinador sueco comandou uma equipe cheia de jovens: Paolo Maldini, Filippo Galli, Mauro Tassoti, Alberigo Evani, o próprio Hateley e até o capitão Franco Baresi e o vice, Sergio Battistini, não tinham nem 25 anos. Wilkins, ao lado do goleiro Giuliano Terraneo, o meia Agostino Di Bartolomei e do atacante Pietro Paolo Virdis, eram os mais experientes do time.

A primeira tarefa de Ray foi reduzir o percentual de gordura em seu corpo, já que os conceitos de preparação física eram muito diferentes na Inglaterra e na Itália. Após atingir o que descreveu como “a melhor forma de sua carreira”, Wilkins ajudou o Milan a ficar com a quinta posição da Serie A e o vice da Coppa Italia. Os pontos altos da campanha 1984-85 foram a invencibilidade nos quatro dérbis disputados contra a Inter e a ótima campanha no mata-mata da copa, que contou com as eliminações da rival milanesa e também de Napoli e Juventus. O meia inglês ficou de fora de apenas três dos 43 jogos realizados pelos rossoneri.

No segundo ano em Milão, Butch continuou a guardar as chaves do meio-campo rossonero, com muita inteligência tática e habilidade nos passes de longa distância. O inglês até marcou seus dois únicos gols pelo clube, nos empates com Avellino e Sampdoria, mas o Milan teve uma temporada bem negativa, na qual o atacante Paolo Rossi, contratado com pompa, anotou o mesmo número de gols que Wilkins. Além do sétimo lugar na Serie A, o Diavolo amargou quedas nas oitavas de final da Coppa Italia e da Copa Uefa para Empoli e Waregem, respectivamente. Os belgas chegaram a ganhar em pleno San Siro.

Depois de uma temporada como protagonista num Milan não muito competitivo, Wilkins foi convocado para defender a seleção inglesa, que capitaneou em 10 partidas, em mais uma Copa do Mundo. Na competição disputada no México, Ray foi titular nos dois primeiros jogos, mas após ter sido expulso contra o Marrocos – se tornando o primeiro inglês a levar vermelho em mundiais – não voltou mais ao time. A Inglaterra caiu para a Argentina nas quartas de final.

Wilkins e Hateley comemoram pelo Milan (Sport Bible)

O início da gestão de Berlusconi, em julho de 1986, veio acompanhado pela chegada de Roberto Donadoni e uma maior utilização de Evani por parte de Liedholm. O Milan venceu os dois clássicos contra a Inter e ficou na quinta posição da Serie A, mas Wilkins acabou perdendo espaço na equipe e só fez 24 jogos na temporada – 17 a menos que em 1985-86 e 16 em relação a 1984-85. Com isso, após 105 aparições com a camisa rossonera, o inglês de quase 31 anos decidiu acertar com o Paris Saint-Germain.

Ofuscado pelo argentino Gabriel Calderón e pelo bósnio Safet Susic, Wilkins ficou apenas alguns meses na capital francesa. Ainda em 1987, Ray foi convidado por Graeme Souness para se juntar ao Glasgow Rangers e embarcou para a Escócia. Realizando a mesma função que seu treinador executava em campo, o meia inglês conquistou dois títulos nacionais e uma copa. Numa vitória por 5 a 1 contra o arquirrival Celtic, Butch marcou um golaço num sem pulo e só aumentou a idolatria que a torcida tinha por ele: apesar de ter ficado apenas dois anos no clube, entrou para o Hall da Fama dos light blues.

Na reta final da carreira, Wilkins trocou os Gers pelo Queens Park Rangers, clube que defendeu de 1989 a 1994. Xodó da torcida, Ray participou das primeiras temporadas do QPR na Premier League e só deixou o clube com quase 38 anos, para atuar com jogador e auxiliar técnico no Crystal Palace. Depois de quebrar o pé na estreia pelos eagles, Wilkins acabou acertando seu retorno ao Queens Park Rangers, onde também seria o técnico da equipe. Ray levou os hoops à oitava posição na temporada 1994-95, mas não conseguiu evitar o rebaixamento no campeonato seguinte.

Em 1996-97, o veteraníssimo teve a última temporada da longa carreira dividida entre quatro clubes: Wycombe Wanderers (segundona inglesa), Hibernian (Premier League da Escócia), Millwall (segunda; Inglaterra) e Leyton Orient (terceira; Inglaterra). Depois de se aposentar, Wilkins teve trabalhos como treinador do Fulham e da seleção da Jordânia, mas teve uma longa carreira mesmo como auxiliar técnico.

Seus empregos mais duradouros nesta função foram na seleção sub-21 da Inglaterra (2004-07) e pelo seu amado Chelsea (1998-2000 e 2008-10), clube que chegou a dirigir interinamente e no qual foi colaborador de Carlo Ancelotti. O último trabalho de Wilkins como auxiliar técnico foi no Aston Villa, em 2015. O ex-jogador também foi comentarista da Sky Sports e da Talksport.

Nos últimos anos, Butch começou a ter diversos problemas de saúde – a maioria deles decorrente de seu alcoolismo. Wilkins era portador de colite ulcerosa, mas o que lhe derrotou foi o coração: no final de março de 2018, o ex-jogador sofreu um infarto e acabou internado. Seis dias depois, não resistiu e faleceu, deixando a esposa Jackie e dois filhos.

Ray morreu num dia de clássico. Justamente o Derby della Madonnina, que ele só perdeu uma vez. Antes do jogo contra a Inter, Wilkins recebeu uma justíssima homenagem do Milan. Representando o clube, Franco Baresi depositou uma coroa de flores em frente à Curva Sud.

Raymond Colin Wilkins
Nascimento: 14 de setembro de 1956, em Hillingdon, Inglaterra
Falecimento: 4 de abril de 2018, em Londres, Inglaterra
Posição: meio-campista
Clubes como jogador: Chelsea (1973-79), Manchester United (1979-84), Milan (1984-87), Paris Saint-Germain (1987), Rangers (1987-89), Queens Park Rangers (1989-94 e 1994-96), Crystal Palace (1994), Wycombe Wanderers (1996), Hibernian (1996-97), Millwall (1997) e Leyton Orient (1997)
Títulos conquistados: Copa da Inglaterra (1983), Charity Shield (1983), Campeonato Britânico de Futebol (1978, 1982 e 1983), Taça Stanley Rous (1986), Campeonato Escocês (1989 e 1990) e Copa da Liga Escocesa (1989)
Carreira como técnico: Queens Park Rangers (1994-96), Fulham (1997-98), Chelsea (2000 e 2009; interino) e Jordânia (2014-15)
Seleção inglesa: 84 jogos e 3 gols

Deixe um comentário