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As lesões fizeram o samarinês Marco Macina se aposentar cedo, como eterna promessa

A seleção de futebol de San Marino definitivamente não é conhecida por ter bons desempenhos dentro de campo – aliás, como é composta por alguns jogadores que nem têm o esporte como principal ocupação, é um verdadeiro saco de pancadas. Na década de 1980, porém, o país revelou um atacante que chegou a ser considerado um craque em potencial. Seu nome era Marco Macina e se você não o conhece, não lamente. Ele nunca atingiu o nível esperado.

Antes mesmo de a seleção samarinesa se filiar à Fifa, o que aconteceria em 1988, o jovem Macina despontou. Após iniciar seu percurso esportivo no Tre Penne, de seu país, o atacante foi recomendado à Inter, mas uma infecção viral lhe impediu de participar da peneira nerazzurra. Assim, acabou se transferindo ao Bologna em 1977, aos 13 anos. Na base rossoblù, formaria uma das duplas de ataque mais promissoras do futebol italiano, ao lado de Roberto Mancini.

Enquanto concluía sua formação como atleta, Macina viu seu compatriota Massimo Bonini ser o primeiro samarinês a atuar na Serie A, em setembro de 1981 – o volante se destacara pelo Cesena, na segundona, e foi contratado pela Juventus, equipe em que se firmaria. Marco debutaria dois meses depois, aos 17 anos.

Entretanto, a aguardava primeira temporada de Macina como profissional seria apenas um prelúdio do quão pouco prodigiosa seria sua carreira. Em 1981-82, a dupla de atacantes da base foi promovida ao time adulto e, enquanto Mancini marcou nove gols em 30 jogos, sendo o melhor do rebaixado Bologna, Marco só entrou em campo oito vezes pelos rossoblù – e sem balançar as redes sequer uma vez.

A última dança de Macina e Mancini se deu no Europeu Sub-16, disputado no início de maio de 1982 – vale destacar que jogadores de até 18 anos podiam ser convocados. Como San Marino não era filiada à Uefa, Marco representava a seleção italiana. E foi dele o gol que puniu a Alemanha Ocidental na decisão do torneio.

Na temporada seguinte, as estradas de Mancini e Macina se separariam. Enquanto Roberto rumou à Sampdoria, onde se tornaria ídolo, Marco ficou no Bologna. O objetivo do time emiliano, que jamais havia sido rebaixado à segundona até aquele momento, era voltar rapidamente à Serie A. Porém, a realidade foi cruel: bagunçado dentro e fora de campo, o clube rossoblù teve três treinadores e encerrou a época em antepenúltimo, sacramentando assim o inédito rebaixamento para a C1. Os números do atacante continuaram inexpressivos: 17 presenças e três gols, somando todas as competições.

A segunda temporada de Macina como profissional também foi marcada por problemas disciplinares: no dia 21 de fevereiro de 1983, o jovem jogador recebeu uma carta de Giacomo Bulgarelli, lenda do Bologna e diretor geral do clube. Na missiva, lhe era comunicado que “por ter sido visto contrariando as disposições contidas no regulamento societário, por expoentes da sociedade, em um local público”, seria afastado do elenco rossoblù por tempo indeterminado. Marco começou a campanha de 1983-84 no elenco felsineo e, após entrar em campo em algumas partidas da Coppa Italia, acabou sendo emprestado ao Arezzo, que disputava a Serie B.

Pelo Arezzo, Macina disputou apenas 11 jogos, sem gols marcados – pouco contribuindo para que o time encerrasse a temporada na sexta posição. A pequena quantidade de partidas estava relacionada a algo que Marco se acostumaria em sua curta carreira: as lesões. Neste caso, uma cirurgia no nariz, que o deixou de fora de boa parte da campanha.

Em 1984, o samarinês passou ao Parma, também na Serie B. Sua estreia ocorreu contra o Milan, pela Coppa Italia, e a assistência fornecida na derrota por 2 a 1 chamaria a atenção dos rossoneri – que viviam grande crise financeira durante a gestão desastrada do presidente Giussy Farina. Marco foi contratado em novembro, mas, por já ter se transferido do Bologna ao Parma e as regras da época não permitirem mais de uma troca de clube por temporada, foi obrigado a permanecer na Emília-Romanha até o fim da época.

Macina chegou a vestir a camisa do Milan, mas nunca explodiu para o futebol e parou cedo (imago)

Macina viu o seu time ser rebaixado novamente, mas dessa vez teve um desempenho aceitável: em sua melhor temporada até então, o samarinês somou 33 presenças, três gols e cinco assistências pelos gialloblù. Vale lembrar que o atacante ainda tinha 20 anos e, ao trocar o Parma pelo Milan, muitos ainda acreditavam que ele poderia se firmar. O técnico Nils Liedholm era um dos maiores admiradores: chegara a dizer que jamais havia visto um jogador como Marco, mais veloz com a bola nos pés do que sem ela.

Entretanto, a concorrência no ataque milanista era forte. Liedholm tinha, a sua disposição, nomes como Mark Hateley, Pietro Paolo Virdis e Paolo Rossi. Macina, apesar de contar com grande apreço do técnico sueco, sabia que partiria com poucas oportunidades de jogar e que teria de lutar por espaço. E aí residia o problema: o samarinês não gostava de treinar e ficaria conhecido pela falta de disciplina. Marco entrou em campo apenas 10 vezes pelo Milan, realizando somente duas partidas completas. Gol? Nenhum.

Em fevereiro de 1986, o Milan foi adquirido por Silvio Berlusconi e, ao início da temporada 1986-87, Macina foi emprestado à Reggiana para ganhar experiência – e, mais uma vez em sua carreira, disputaria a Serie C1. Com 23 jogos e quatro gols, o atacante viveu uma de suas melhores fases, contribuindo para que a equipe emiliana terminasse como terceira colocada de sua chave na categoria. Não foi o bastante para o samarinês ganhar nova oportunidade na Lombardia: seu novo destino seria o Ancona.

O empréstimo ao Ancona viria a ser o capítulo mais importante da carreira de Macina. Em sua quinta presença pelos biancorossi, diante do Ospitaletto, o jovem sentiu o joelho e a lesão, que parecia ser de menisco, na verdade se revelaria bem mais séria. Marco chegou a passar alguns meses treinando e fazendo tratamento conservador, mas depois ficou evidente que os ligamentos haviam se rompido. O samarinês precisou se operar e perdeu o restante da temporada.

O contrato de Macina com o Milan chegou ao fim em 1988. Na época, um jogador que ficasse sem vínculo empregatício e se tornasse dono de seu próprio passe era obrigado a passar dois anos parado e essa acabou sendo a decisão do samarinês, após períodos de testes infrutíferos com Rimini e Lucchese. Neste biênio, tratou do seu joelho e analisou ofertas, com a expectativa de voltar a jogar na temporada que se iniciaria em 1990.

Mas a realidade mais uma vez foi dura com Macina, que não recebeu nenhuma proposta animadora e viu o jogo contra o Ospitaletto, em 1987, ser o último de seu carreira por clubes – tinha apenas 23 anos recém-completos na época. Entretanto, em 1990 o atacante ainda fez mais duas partidas pela seleção de San Marino, que havia se filiado à Uefa e à Fifa. Marco, que entrara em campo pela Serenissima em 1986, num amistoso não oficial contra o Canadá, atuou nas derrotas por 4 a 0, para a Suíça, e 6 a 0, para a Romênia, pelas Eliminatórias para a Eurocopa de 1992.

Precocemente aposentado aos 26 anos, Macina é assunto até os dias de hoje. Mancini, por exemplo, costuma citá-lo quando fala do seu percurso de carreira. Na condição de técnico da seleção italiana, Mancio lembrou do colega em uma palestra para jovens jogadores do Bologna. “Técnica e qualidade não são tudo. Perdi dois anos pensando que eram. Eu sabia que era talentoso, mas tinha que trabalhar para melhorar. Se não tivesse feito isso, teria ficado pelo caminho, como Macina”, afirmou. “Ele nasceu em 1964, como eu. Foi meu companheiro nos juvenis do Bologna e o melhor sub-15 do mundo, com um talento que jamais vi igual. Poderia ter sido como [Lionel] Messi. Mas ele não gostava de treinar e acabou se perdendo”, completou.

Macina, por sua vez, afirma que cometeu erros, mas também defende que lhe faltou sorte na carreira. “As coisas não se encaixaram em minha trajetória e, sem sorte, você não vai a lugar algum. Erros? Claro que cometi alguns. Depois da lesão, deveria ter voltado a jogar, mesmo na Serie C1, para mostrar meu valor. Não era presunção. Naquele momento estava desmoralizado e não aceitei ofertas, na espera de algo melhor. Errei e, a partir de certo ponto, não me procuraram mais”, disse ao site Goal.

Azar e decisões erradas ou desleixo e falta de comprometimento? Certamente, uma soma desses fatores impediram que Macina, considerado como mais talentoso do que Mancini – inclusive pelo próprio craque – atingisse o máximo de seu potencial. No fim das contas, o samarinês não explodiu e acabou sua carreira de forma precoce, sendo considerado como uma das maiores eternas promessas do futebol italiano. Depois de pendurar as chuteiras, o ex-jogador se afastou definitivamente do mundo da bola e passou a trabalhar no setor do turismo de San Marino, seu país natal.

Marco Macina
Nascimento: 30 de setembro de 1964, em San Marino, San Marino
Posição: atacante
Clubes: Bologna (1981-83), Arezzo (1983-84), Parma (1984-85), Milan (1985-86), Reggiana (1986-87) e Ancona (1987-88)
Títulos: Eurocopa Sub-16 (1982) e Serie C1 (1988)
Seleção samarinesa: 3 jogos

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