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A lenta agonia da Lega Pro

A fanática torcida da Salernitana é uma das que corre o risco de ver o clube ficar sem campeonato (ultrasalerno.it)

Em nosso último artigo sobre a Lega Pro, traçamos um panorama do desastre que se anunciava na categoria. E, embora se tratasse de uma morte anunciada, era complicado pensar que se tornaria tão violenta e abrangente quanto o que se viu: praticamente 40% dos clubes da terceira e quarta divisões acabaram sugados por este turbilhão.

Casos sem solução

Não houve esperanças para Rimini, Gallipoli, Mantova, Pescina, Itala San Marco, Monopoli e Scafatese, que desaparecem do futebol profissional. Dentre eles, apenas o Rimini parece ter futuro definido: o clube retomará as suas atividades na Serie D (quinta divisão). Os demais ainda dependem das complexas negociações que o futebol de sociedades exige e, caso a elite do futebol amador não seja possível, o torneio de Eccellenza (sexta) uma possibilidade a todos – com exceção do Monopoli, que, segundo os comentários da imprensa local, poderia recomeçar, na melhor das hipóteses, do campeonato de Promozione (sétima).

De 30 junho a 7 de julho, algumas situações foram resolvidas, e muitas outras regrediram ou se mostraram evidentes. A Covisoc (entidade que rege as contas dos clubes profissionais) foi severa em seu julgamento e, baseada em diversos motivos, negou temporariamente a inscrição a 26 clubes. Na Prima Divisione, a decisão da entidade afetou Arezzo, Cavese, Cremonese, Figline, Foggia, Real Marcianise, Salernitana, Spal, Triestina e Viareggio. Na Seconda Divisione, as equipes que tiveram o registro negado foram Alghero, Cassino, Chieti, Fondi, Gavorrano, Legnano, Manfredonia, Olbia (decretou falência), Paganese, Potenza, Prato, Pro Vasto, Pro Vercelli, Sangiovannese, Sangiustese e Villacidrese.

Operação resgate

A maior surpresa desta relação é a Cremonese, uma das propriedades mais ricas da Lega Pro. É provável que, como já aconteceu com muitos clubes em anos anteriores, a exclusão seja revertida com tranquilidade e sem qualquer penalização – ou um sinal de que os três anos seguidos de grandes investimentos, que não foram seguidos pelo acesso à Serie B, estejam “gritando” por justiça. A situação também parece quase resolvida para a Triestina, que apresentava estabilidade na Serie B e deverá administrar problemas financeiros com jogadores e funcionários. No caso do Chieti, que retorna ao futebol profissional após anos entre amadores, um problema de adaptação do estádio Guido Angelini impediu uma boa avaliação da Covisoc. Mas o clube conta com o apoio da Prefeitura e a inscrição não corre risco, segundo a sociedade.

De acordo com o site Calciopress.it, as situações mais graves (excluído o Olbia, que já anunciou o fim de suas atividades) são as de Alghero, Cassino, Cavese, Figline, Legnano, Manfredonia, Potenza, Real Marcianise, Salernitana, Sangiustese, Sangiovannese e Villacidrese. Os demais clubes podem encontrar soluções para seus casos, mas provavelmente serão esportivamente punidos com o desconto de pontos.

Sem estrutura

A Lega Pro contabilizou o maior de seus recordes negativos ao ver quase 30% dos pedidos de inscrição de suas equipes serem negados, ainda que temporariamente. Um percentual que, se somado aos oito clubes que já não haviam conseguido o aval da federação, sobe para assustadores 40% entre as 90 equipes que espalhadas pela duas divisões da categoria. Fruto de um grave problema estrutural.

A Serie B, agora administrativamente separada e festejada como Serie Bwin, está entregando à Lega Pro clubes em difíceis situações econômicas. Nos últimos anos, muitos deles chegaram praticamente “mortos” à terceira divisão do futebol italiano. Para a próxima temporada, Mantova, Gallipoli e Salernitana (a última, mesmo que não entre em bancarrota) engrossarão a estatística que já viu a falência de quatro sociedades recém-rebaixadas nos últimos três anos.

A própria Lega Pro já provou, mais de uma vez, que não está pronta para promover clubes verdadeiramente fortes à Serie B. Basta pensar que em 2008-09, a Pro Patria, que havia falido com o campeonato em andamento, esteve a um gol de subir no spareggio contra o Padova. No mesmo ano, o Gallipoli conquistou o acesso às portas da falência e não fez mais que atrapalhar a disputa da serie cadetta. Isto acontece porque a Lega Pro não consegue elencar quais são seus clubes mais saudáveis. É possível que Legnano e Sangiovannese, que ficaram próximos de subir para a Prima Divisione (o primeiro, inclusive, chegou à final dos play-offs) hoje estejam à beira da falência? Ora, o problema não pode ter surgido e se agravado desta forma em pouco mais de um mês. Mesmo caso do Arezzo, que chegou às semifinais dos play-offs de acesso à Serie B.

Fragilidade da Serie D

Entre os clubes previamente excluídos, à parte o caso do Chieti, já se encontram dois times provenientes da Serie D 2009-10: Fondi e Gavorrano. Outros dois clubes que disputavam a máxima série amadora duas temporadas atrás, Pro Vasto e Villacidrese, também estão ameaçados. Não há critérios para aceitar quais clubes podem atuar no amadorismo nacional, e menos ainda para estabelecer quais entre estes poderão, de fato, disputar campeonatos profissionais.

A Serie D é uma categoria fraca e dita nacional, mas que separa os campeões regionais de Eccellenza em grupos, no máximo, interregionais. O maior exemplo da fragilidade da iniciativa é o caso da Real Casertana: o novo clube seria formado a partir da transferência do título esportivo da Real Marcianise para a cidade de Caserta, que possui equipe na Serie D. Até hoje, nada se fez de concreto e os dois clubes correm o risco de desaparecerem juntos. Se nem o título esportivo de uma sociedade profissional foi o suficiente para dar prestígio àquela amadora, recompor uma eventual baixa quantitativa de clubes da Seconda Divisione com o método das repescagens é ilógico.

Possíveis soluções

Como na Lega Pro o caráter nacional é apenas ilusório, a disputa deveria ser regionalizada ao extremo, subdividida em grupos menores formados a partir de um total de participantes também menor. É urgente a criação de um sistema de redimensionamento severo, que não apenas rebaixe ou exclua equipes, mas qualifique as divisões italianas em profissionais ou amadoras de acordo com critérios estruturais e patrimoniais, não só dos clubes, mas de suas cidades.

Também é fundamental que exista cooperação entre as diversas ligas italianas – Lega Serie A, Lega Serie B, Lega Pro e LND –, que estão ramificadas em blocos de interesses particulares sem se darem conta de que o movimento divisional desqualificado enfraquecerá, em médio ou longo prazo, as categorias mais elevadas. E o futebol italiano tem provado que há urgência quanto ao tema.

Até o momento de publicação deste texto, Arezzo, Manfredonia, Pro Vasto e Legnano haviam declarado oficialmente suas desistências.


Horas após o post, Cassino, Alghero, Potenza e Real Marcianise também foram oficialmente excluídos. Os três primeiros devem recomeçar as atividades entre os amadores. O time de Marcianise pode ficar parado por uma temporada.

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