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O goleiro Jens Lehmann não fez bom negócio ao rejeitar o Real Madrid para jogar no Milan

A imagem do goleiro Jens Lehmann sempre esteve atrelada ao Arsenal. Em Londres, participou do grupo dos “Invencíveis” em 2003-04, foi vice-campeão da Liga dos Campeões em 2006 e alcançou o ápice de sua carreira. No entanto, cinco anos antes de chegar ao time londrino, o alemão teve uma ligeira passagem pelo Milan de Alberto Zaccheroni.

Lehmann estreou no futebol profissional no ano de 1988, a serviço do Schalke 04. O começo no time de Gelsenkirchen foi difícil, especialmente em um jogo contra o Bayer Leverkusen, fora de casa, em 1993. Depois de sofrer três gols no primeiro tempo, o arqueiro foi substituído no intervalo, deixou o estádio sozinho e pegou um bonde ao invés de retornar no ônibus junto com a delegação dos azuis reais.

O alemão, contudo, não deixou se abater por episódios como esse e foi evoluindo gradativamente. Ainda no Schalke 04, em março de 1995, ele sacramentou a goleada por 6 a 2 sobre o 1860 Munique com a conversão de um pênalti aos 39 minutos do segundo tempo. O fato incomum voltou acontecer quase três anos depois, mas desta vez seu gol salvou o S04 da derrota no Revierderby: no último minuto do clássico contra o Borussia Dortmund, o goleiro marcou, de cabeça, o tento que cravou o 2 a 2 no placar.

Mais que titular do Schalke 04, Lehmann ganhou em 1997 seu primeiro título como profissional, a Copa Uefa. Os azuis reais toparam com a Internazionale de Roy Hodgson na final. Os resultados iguais de 1 a 0 na Alemanha (vitória do Schalke) e na Itália (triunfo da Inter) fizeram a decisão ir para os pênaltis. E foi aí que brilhou a estrela de Lehmann: o camisa 1 pegou o primeiro disparo dos nerazzurri, cobrado pelo matador Iván Zamorano – ironicamente, foi ele quem marcou o gol da vitória interista no tempo normal. No fim, os alemães venceram nos pênaltis por 4 a 1.

Campeão europeu e eleito pela Uefa como melhor arqueiro de 1997, Lehmann fez sua estreia pela seleção alemã em fevereiro de 1998, num amistoso disputado em Mascate contra o selecionado de Omã, no qual os germânicos venceram por 2 a 0. Na Copa do Mundo, foi reserva de Andreas Köpke e do histórico goleiro Oliver Kahn, ídolo do Bayern de Munique, e partiu para alçar voos maiores na carreira.

Quis então o destino que o goleiro assinasse com o rival local da Inter, o Milan. Entretanto, as atuações do arqueiro não chegaram perto às dos tempos de Schalke 04. Lehmann não atendeu às expectativas no rubro-negro de Milão, realizando apenas seis jogos (cinco pela Serie A e um pela Coppa Italia) em cinco meses pelo clube.

Lehmann até terminou duas partidas sem buscar bolas na rede. Uma delas foi a sua estreia: um 3 a 0 sobre o Bologna, em 12 de dezembro de 1998. O alemão, porém, teve péssima exibição na derrota por 3 a 1 contra a Fiorentina, no San Siro, pela terceira rodada da Serie A. Gabriel Bastistuta foi o carrasco dos rossoneri e marcou uma tripletta: o último gol saiu de um lance livre na área do Diavolo, depois de o árbitro assinalar infração de Lehmann, que pegou com as mãos uma bola recuada por Alessandro Costacurta.

No jogo seguinte, o camisa 16 rossonero fechou sua meta e garantiu a vitória do Milan por 2 a 0 sobre o Venezia, fora de casa. Porém, o duelo contra o Cagliari, na Sardenha, pela quinta rodada da liga, marcou o fim da linha do alemão no Milan. Isso porque ele falhou no gol que deu a vitória simples aos sardos e cometeu um pênalti no camisa 10 uruguaio Fabián O’Neill. Logo depois que o árbitro marcou a penalidade máxima, o técnico Alberto Zaccheroni tirou o germânico do jogo e colocou em campo o italiano Sebastiano Rossi, que acabou defendendo o tiro do atacante Roberto Muzzi. No jogo seguinte, contra a Roma, em Milão, Rossi começou entre os titulares e Lehmann foi para o banco.

Sem mais oportunidades, o alemão acertou seu retorno à Alemanha em janeiro de 1999. “Eu não aguentava mais. No Milan a situação se tornou intolerável”, desabafou o arqueiro. “Faltava força a Zaccheroni para impor quem era o número um contra o ‘partido italiano’, que pressionava por Sebastiano Rossi”.

Em 2013, quando já havia pendurado as chuteiras, Lehmann concedeu entrevista ao jornal espanhol Marca e revelou que recusou o Real Madrid para fechar com o Milan. Segundo ele, foi um erro. “Naquele verão, um dirigente do Real Madrid me chamou para verificar a minha disponibilidade para jogar no Bernabéu, mas eu preferi o Milan porque a Serie A era considerada a liga mais competitiva. Escolher os rossoneri foi um erro. Eu deveria ter fechado com os merengues”, lamentou o goleiro, que pelo menos ganhou a medalha de campeão da Serie A 1998-99.

Quem só conhece Lehmann pelas boas exibições por outros clubes e pela seleção alemã nem imagina quão ruim foi sua passagem pelo Milan (Getty)

De volta à Bundesliga, Lehmann herdou a vaga de Stefan Klos, acertado com o Rangers, no Borussia Dortmund, arquirrival do Schalke 04, que o projetou para o futebol. Seu desempenho inicial foi aquém das expectativas, mas ele conseguiu dar a volta por cima e virou figura importante para o retorno dos aurinegros às vitrines europeias. Ajudou a equipe de Dortmund a vencer a edição 2001-02 do Campeonato Alemão e a chegar à final da Copa Uefa da mesma temporada, perdendo-a para o Feyenoord. Por outro lado, ele criou um histórico disciplinar muito ruim: foi expulso cinco vezes na Bundesliga 2001-02. Até hoje nenhum outro goleiro conseguiu tal proeza na primeira divisão alemã.

Em 2002, Lehmann participou de outro grande torneio pela Mannschaft – além do Mundial de 1998, disputou a Copa das Confederações de 1999 e a Euro 2000. Desta vez, foi convocado por Rudi Völler para ser reserva na Copa do Mundo e viu Kahn e companhia chegarem à decisão contra o Brasil, que se tornaria pentacampeão.

Mais tarde, o alemão fechou com o Arsenal. À procura de um substituto para o inglês David Seaman, os Gunners tiraram Lehmann do Dortmund para transformá-lo em um dos maiores goleiros da história do clube. Logo em sua primeira temporada vestindo vermelho e branco, o arqueiro não deixou os torcedores sentirem saudade do seu antecessor, trancando a porta do Arsenal que venceria a Premier League de forma invicta – único time até hoje a conseguir tal proeza.

Lehmann chegou a ter um período irregular na temporada 2004-05. Por isso, esquentou banco e viu o espanhol Manuel Almunia assumir o posto de titular. O germânico, contudo, recuperou a boa forma e voltou a ser o dono da posição. A época seguinte foi uma das melhores da carreira do arqueiro. É bem verdade que, na final da Liga dos Campeões contra o Barcelona, ele foi expulso aos 18 minutos de jogo por cometer falta em Samuel Eto’o, tornando-se o único goleiro a ser expulso numa decisão de Champions. Aquilo, porém, passou longe de estragar seu grande ano.

Em 2006, Lehmann finalmente conquistou uma vitória sobre Oliver Kahn, seu maior rival na carreira. Afinal, o técnico Jürgen Klinsmann deu ao arqueiro do Arsenal a titularidade na Copa do Mundo jogada em casa, deixando a lenda do Bayern no banco. As boas exibições de Lehmann o projetaram ao Olimpo do futebol mundial. Na competição, teve maior destaque nas quartas de final, quando defendeu as penalidades dos argentinos Roberto Ayala e Esteban Cambiasso e classificou os anfitriões para a semifinal contra a futura campeã Itália. Não por acaso foi eleito o melhor goleiro do ano pela Uefa e segundo pela Fifa, atrás de Gianluigi Buffon. Depois da Eurocopa 2008, quando a Alemanha perdeu a final graças ao gol solitário do espanhol Fernando Torres, o goleiro comunicou sua aposentadoria da Nationalmannschaft.

Lehmann permaneceu no Arsenal até o fim da temporada 2007-08 – nesta última, já com 38 anos, foi reserva de Almunia. Depois de 199 partidas e três títulos, ele deixaria a Inglaterra para assinar com o Stuttgart. Não conseguiu títulos, mas ajudou os Roten a concluírem a Bundesliga na terceira e na sexta colocação em 2008-10 e 2009-10, respectivamente. O Stuttgart é a única equipe pela qual Lehmann tem um número de gols sofridos superior às partidas disputadas: encerrou sua trajetória na agremiação sendo vazado 112 vezes em 90 jogos.

Eleito sétimo melhor arqueiro do mundo na primeira década do século XXI pela IFFHS (Federação Internacional da História e Estatística do Futebol, em tradução literal), o alemão se aposentou em junho de 2010. No entanto, voltou à ativa quase um ano depois para atender ao pedido do técnico Arsène Wenger, que estava em apuros depois que uma epidemia de lesões atacou quase todos os goleiros do plantel: com Wojciech Szczesny, Lukasz Fabianski e Vito Mannone contundidos, apenas Almunia estava disponível. Assim, assinou contrato até o fim da temporada 2010-11.

Apesar da irregularidade de Almunia, Wenger não deu muitas chances a Lehmann, que só atuou em um jogo (vitória por 3 a 1 sobre o Blackpool, fora de casa, pela Premier League, em 10 de abril de 2011) porque o arqueiro espanhol havia se machucado no aquecimento. O jogo marcou sua 200ª aparição com a camisa do Arsenal e a última de sua carreira. Ao todo, foram 848 jogos como profissional, 859 gols sofridos e 310 clean sheets – em bom português, partidas sem levar gols.

Aposentado de vez, Lehmann se tornou o comentarista principal do canal RTL nos jogos da seleção alemã. Em 2017, o germânico foi anunciado como assistente técnico de Wenger no Arsenal, mas durou apenas uma temporada por lá. Depois que o comandante francês pôs fim à sua longa passagem pelo time londrino, e Unai Emery foi contratado para seu lugar, o ex-goleiro acabou sendo desligado.

Jens Lehmann
Nascimento: 10 de novembro de 1969, em Essen, Alemanha
Posição: goleiro
Clubes: Schalke 04 (1988-98), Milan (1998-99), Borussia Dortmund (1999-03), Arsenal (2003-08), Stuttgart (2008-10), Arsenal (2011)
Títulos: Copa Uefa (1997), Serie A (1999), Bundesliga (2002), Premier League (2004), FA Cup (2005), FA Community Shield (2004)
Seleção alemã: 61 jogos

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