Extracampo

Kaká, Baggio, Weah: o futebol italiano sob a ótica religiosa



O fim de um ano e a chegada de um novo têm grande significado espiritual. Não à toa, as passagens dos anos são definidas, em geral, por motivos associados à religiosidade – e muitas crenças as celebram em datas diferentes da nossa, que foi definida pelo Papa Gregório XIII. Religião e futebol também caminham de mãos dadas. Sinal da cruz; comemorações de gols com os braços alçados ao céu ou com o corpo curvado e joelhos, mãos e testa no gramado; a oração antes do início da partida; o apego ao terço num momento de dificuldade; oferendas aos orixás e velas acesas em busca de bons augúrios. Muitos jogadores, técnicos, dirigentes e torcedores recorrem a tais práticas quando a bola rola no campo retangular forrado com grama. Na Itália, país que é o berço do catolicismo, não é diferente.

De acordo com dados da Ipsos, empresa de pesquisa de mercado, 74,4% dos italianos (ou 45 milhões de pessoas) são adeptos do catolicismo. Os não-religiosos e ateus somam 22,6%, o que equivale a 13 milhões de pessoas, enquanto as outras crenças contabilizam 3% de fiéis. A pesquisa foi finalizada em novembro de 2017. Outros institutos, porém, já indicaram que o número de católicos na Velha Bota pode ultrapassar 80%.

Meia da Juventus, Federico Bernardeschi, de 24 anos, é um católico praticante. Prova disso é a escolha do número 33 quando ele deixou a Fiorentina e assinou com a Juve, em julho de 2017. “Eu escolhi o número 33 porque acredito em Deus e 33 são os anos de Jesus [segundo evidências da Bíblia, Jesus morreu e ressuscitou por volta dos 33 anos]”, disse o jogador, que, à época, poderia ter optado pela camisa 10. Fã de rock and roll, Bernardeschi tem várias tatuagens distribuídas pelo seu corpo, mas a primeira é especial: a face de Jesus desenhada no antebraço direito.

Na Itália, a Liga da Serie A faz marcação cerrada com jogadores que professam xingamentos a entidades ou figuras religiosas. Em agosto passado, a entidade puniu o meio-campista Rolando Mandragora, da Udinese, com um jogo de gancho por causa da sequência de frases “Porca Madonna, vaffanculo, Dio cane”, pronunciada na partida contra a Sampdoria, em Údine. O júri desportivo entendeu que não foram insultos direcionados a nenhum jogador, mas sim à Virgem Maria, a Madonna, e a Deus. Sim: blasfêmias podem suspender atletas no futebol italiano.

Devoto do catolicismo desde criança, Bernarderschi tatuou o rosto de Jesus no antebraço direito (Getty)

A liga adotou essa postura rígida contra blasfemadores em 2010. Gianluigi Buffon, goleiro lenda da Juventus, foi o primeiro a se complicar com a nova regra. Em fevereiro daquele ano, ele teve de pedir desculpas por proferir o nome de Deus em vão na vitória por 3 a 2 sobre o Genoa, em Turim. “A ideia pode ser justa, mas difícil de implementar. O esporte profissional, às vezes, cria situações de pressão que podem fazer você perder a lucidez. Não sei como poderão provar se o jogador poderá dizer Dio [Deus], Zio [Tio] ou Dino”, defendeu-se.

Se insultos a personagens religiosos incomodam, a exaltação de atletas cristãos protestantes devem alegrar os integrantes da Federação Italiana de Futebol, a FIGC. É que os evangélicos são os que mais demonstram fervor por suas crenças dentro de campo. Um dos pioneiros a expor publicamente, de forma efusiva, seu amor por Jesus, Kaká sempre levantava os braços para cima, em um ato de agradecimento a Deus, quando marcava gol.

“Nunca falei que Deus fez gol para mim”, argumentou o ídolo milanista, em entrevista ao UOL Esporte. “Sempre levantei a mão e agradeci pelo momento que estava vivendo. É um agradecimento. Mas começam discussões, pequenas coisas que cada um vai pegando, para criar esse tipo de polêmica. Eu não podia ser na frente das câmeras o Kaká jogador de futebol e, longe dela, o Ricardo cristão. Os valores eram os mesmos”, completou.

Quando atuava no Milan, o ex-meia gravou uma mensagem de “Deus te abençoe” para deixar na sua secretária eletrônica. Assim, toda vez que alguém ligava e não encontrava quem pudesse atender o telefone, poderia ser abençoado pelo astro. Ainda nos tempos de rossonero, Kaká também abriu em Milão uma célula – lugar onde grupos de pessoas se reúnem para compartilhar a palavra de Deus.

A reunião na residência do brasileiro vivia lotada, mas não pense que a Itália é um país que abriga muitos evangélicos. Segundo pesquisa da CESNUR (Centro de Estudos de Novas Religiões, em tradução livre), realizada em 2018, o Belpaese conta com 476,4 mil cristãos protestantes, o que corresponde a 23,3% das minorias religiosas do país. Uma fração mínima, se comparada aos 45 milhões de católicos citados no início da matéria.

>>> Leia também: O adeus a Davide Astori e o futebol como religião

Porém, à medida que ganhava sucesso no futebol europeu e levava o evangelismo a patamares maiores, Kaká influenciava compatriotas a agarrar a causa junto com ele. Após a conquista da Copa das Confederações de 2009, o meia e o zagueiro Lúcio, que, à época, estava a dias de assinar contrato com a Inter, tiraram o uniforme da seleção brasileira para usar camisas personalizadas que enalteciam o nome de Jesus. Kaká trajava uma camiseta com os dizeres “I belong to Jesus” (“Eu pertenço a Jesus”), a mesma que utilizara na decisão da Liga dos Campeões de 2007 contra o Liverpool e em diversas outras ocasiões, ao passo que o defensor vestia uma com a grafia “I love Jesus” (“Eu amo Jesus”).

Outro praticante fervoroso do evangelho é o nigeriano Taribo West. Ex-zagueiro de Inter e Milan no final dos anos 1990, abriu mão das tranças coloridas e trocou pelo cristianismo a sua profunda crença no jùjú – praticado pelo povo iorubá e espécie de antepassado do candomblé brasileiro. Apresentado a uma das correntes neopentecostais pela pastora Patience Ikemefuna, a quem se refere como irmã, se tornou pastor e tocou seu primeiro ministério nos subúrbios de Milão, quando atuava pela Inter – ou seja, entre 1997 e 1999. Mesmo depois de deixar a Itália e rumar ao Derby County, da Inglaterra, ele fez um “acordo de cavalheiros” com o técnico Jim Smith para folgar aos domingos, a fim de viajar ao Belpaese e pregar o amor de Cristo para suas ovelhas.

Uma noite, ele convidou eu e Iván Zamorano para um dos cultos religiosos que organizava em sua casa. “Vamos orar um pouco e depois jantamos”. Começamos às 19h, oramos às 20h, oramos às 21h, oramos às 22h. Ele foi nos dar comida à meia-noite
Anedota revelada por Javier Zanetti à Gazzetta dello Sport em 2011, sobre Taribo West

Após pendurar as chuteiras em 2008, West pôde se dedicar totalmente à religião. Em 2014, fundou o Ministério dos Milagres de Todas as Nações Abrigo na Tempestade, localizado no centro financeiro da Nigéria, Lagos. O objetivo é espalhar a palavra de Jesus pelos guetos e comércios abarrotados da cidade. Hoje, ele é pastor em tempo integral.

“O evangelho é para os pobres, ricos e nobres. Parte do dom que Deus me deu é alcançar os injustiçados. É bom chegar a eles, pregar a palavra e tentar ajudar com algumas de suas necessidades por meio de serviços humanitários. Sou grato a Deus por me usar para espalhar o evangelho entre essas pessoas”, afirmou, em 2015.

Legrottaglie comemora gol pela Juventus e mostra a mensagem na camisa: “Jesus é a verdade” (Getty)

Outro atleta-missionário que teve um ativismo igual ou maior ao de Kaká e West no futebol italiano foi o ex-zagueiro Nicola Legrottaglie. Um dos responsáveis pelo grupo Atletas de Cristo na Itália, o ex-jogador de Juventus, Milan, Chievo e Catania, se converteu ao evangelho graças ao atacante paraguaio Tomás Guzmán. Em 2006, quando ambos estavam emprestados ao Siena, o centroavante o apresentou à Bíblia. Desde então, ele leva a palavra de Deus aonde vai.

“Quem dera se todo mundo fosse igual a ele”, destaca à Calciopédia o ex-árbitro e hoje comentarista Andersinho Marques, integrante dos Atletas de Cristo e amigo de Legrottaglie. “Na Sardenha, ele deixou 33 pessoas numa célula que abriu quando era vice-treinador no Cagliari. Agora, ele fica um pouco em Milão, mas deixou uma casa na capital da ilha”, acrescenta.

Legrottaglie já escreveu dois livros, um em 2009 e outro em 2010, nos quais conta sua jornada religiosa. O nome do primeiro é “Eu fiz uma promessa – Por que a fé mudou a minha vida”, o segundo, “Cem vezes mais – Com a fé vivo melhor”. Em janeiro de 2017, o ex-zagueiro foi anunciado como auxiliar de Massimo Rastelli no Cagliari. Permaneceu no clube até outubro do mesmo ano, período o qual marcou a queda de Rastelli e sua demissão. No entanto, Legrottaglie plantou a semente de sua religião na maior cidade da Sardenha.

“Sirvo a Deus na esfera social e organizo encontros sobre valores e princípios cristãos”, disse à revista online Il Posticipo. “Também aqui em Cagliari eu tento dar às pessoas a possibilidade de conhecer umas às outras, viver uma vida mais plena, ajudá-las a ter um relacionamento espiritual com elas mesmas, a fim de desfrutar plenamente do mundo ao seu redor”, completou. Em síntese, Legrottaglie é o maior modelo de um membro dos Atletas de Cristo, cujo objetivo, afirma Andersinho, é “falar do amor de Deus” e “ser exemplo no dia a dia”.

Weah foi adepto do islamismo; já Baggio ficou mais calmo depois que encontrou o budismo (Getty)

Outras crenças

Embora o catolicismo e o evangelicalismo sejam, historicamente, os credos predominantes no ambiente futebolístico italiano, há jogadores que seguem outras religiões e deuses. Roberto Baggio, por exemplo, encontrou a serenidade através do budismo. Quando jogava, utilizava uma faixa de capitão personalizada, com cores e versos da crença. Em 2014, inaugurou um centro budista em Turim, cidade em que morou de 1990 a 1995, quando defendeu a Juventus. “Estou aqui porque acredito no budismo. Eu o descobri há mais de 20 anos e desde então não o deixei. O budismo me ajudou a encontrar o meu equilíbrio como pessoa”, disse o ex-jogador, eleito pela Fifa como o melhor do mundo de 1993.

George Weah, um dos maiores jogadores africanos de todos os tempos, é um caso peculiar. Ele era adepto do cristianismo, se converte ao islamismo e, dez anos depois, retornou à sua primeira fé. Agora, o ex-atacante, nomeado como melhor do mundo pela Fifa e pela France Football em 1995 e outras três vezes como o melhor da África, espera que cristãos e muçulmanos fiquem em paz, pois eles são “um só povo”. Certamente consegue influenciar muitas pessoas, sobretudo depois que foi eleito presidente da Libéria, em dezembro de 2017.

Por sua vez, o turco Hakan Sukür, ex-Torino, Inter e Parma, é um muçulmano fervoroso. Aposentado desde 2008, o ex-centroavante, que é ídolo no Galatasaray, chegava a implicar, em sua época de jogador, com alguns companheiros de seleção turca que levavam um estilo de vida mais “laico” – isto é, sem obrigações e funções religiosas. Sukür também não deixava de orar em direção à Meca em seu quarto quando atuava profissionalmente.

Desde a maior abertura das fronteiras do futebol italiano para estrangeiros, nos anos 1990, tem se verificado um aumento considerável da presença de atletas muçulmanos e cristãos ortodoxos no país. Isso se deve, principalmente, à chegada de jogadores provenientes de países do Leste Europeu, da África e da França. Zinédine Zidane, francês de origem argelina, provavelmente é o muçulmano que obteve o maior destaque no país, quando atuou pela Juventus. Outro que brilhou muito foi Paul Pogba. Já Blaise Matuidi, por exemplo, acreditava no Islã, mas foi convertido pelo defensor Ceará, seu colega no Paris Saint-Germain, e hoje é evangélico.

Mais recentemente, por sua vez, a Roma tem tido vestiário bastante islâmico – talvez seja o clube do Belpaese que mais tem acolhido seguidores da religião que tem o segundo maior número de fiéis no mundo. Passaram por lá ou ainda se encontram no elenco os bósnios Edin Dzeko, Ervin Zukanovic e Miralem Pjanic, o sérvio Adem Ljajic, o marroquino Mehdi Benatia, o malinês Seydou Keita, o egípcio Mohamed Salah, os marfinenses Seydou Doumbia e Gervinho, os turcos Cengiz Ünder e Salih Uçan e o nigeriano Umar Sadiq. Além, claro, de Stephan El Shaarawy, o primeiro jogador muçulmano a vestir a camisa da seleção principal da Itália. O Faraó, no entanto, não é um grande seguidor do Islã. “Acredito em Alá, mas me limito a não comer carne de porco e não beber álcool. Acho que a religião para mim é uma questão de valores”, declarou ao La Repubblica, em 2016.

O fato é que, independentemente da crença, é impossível dissociar a religião do futebol. Alguns jogadores são mais reservados ao manifestar sua fé, enquanto outros não hesitam ao propagar os mandamentos de sua doutrina. No futebol raiz ou no moderno, sempre haverá personagens, dentro ou fora de campo, dispostos a expressar suas convicções espirituais, sejam elas quais forem. O que se espera é que, principalmente por parte, das entidades esportivas, das torcidas e dos adversários, todos saibam oferecer e garantir o respeito à liberdade de credo de cada um.



Deixe um comentário