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Lateral-artilheiro, Aldo Maldera foi peça importante em títulos de Milan e Roma

O futebol italiano é conhecido mundialmente por dar muita ênfase à fase defensiva. Embora a Serie A venha atingindo uma alta média de gols por rodada, inúmeros jogadores obtiveram sucesso na Itália atuando em times que priorizavam a retaguarda. O lateral-esquerdo Aldo Maldera, porém, foi na contramão do sistema, de modo a ser um expoente do jogo ofensivo quando vestiu as camisas de Milan e Roma, nos anos 1970 e 1980.

Maldera nasceu em uma família humilde. Seus pais tiveram cinco filhos, sendo três meninos e duas meninas. Após o nascimento das duas primeiras crianças, eles deixaram Bari e partiram para Milão, onde abriram um negócio próprio para vender frutas e verduras. Todos os garotos da família foram abençoados com o dom de jogar futebol e, até por isso, Aldo passou a ser chamado de “Maldera III”, já que era o caçula entre os moleques. Mas Attilio e Luigi, os irmãos mais velhos, jamais conseguiram o destaque do terceiro da fila.

Aldo cresceu jogando futebol em Cusano Milanino, comuna da Lombardia. Ele tinha como companheiro de pelada Gabriele Oriali, que anos depois se tornaria um grande volante e ídolo da Inter. Por pouco, aliás, Maldera não seguiu Oriali rumo ao clube nerazzurro: dirigentes do Milan convenceram o pai de Aldo, um milanista declarado, a impedir que o jovem vestisse azul e preto. Com isso, Maldera ingressou nas divisões de base do Diavolo.

Formado pelo Milan, Maldera ficou conhecido como um lateral goleador (imago/AFLOSPORT)

Sob a batuta de Nereo Rocco, o lateral-esquerdo fez sua estreia pelo Milan no dia 26 de março de 1972, em partida contra o Mantova, fora de casa, pela Serie A. Fato curioso é que o jogador utilizou, naquele jogo, a camisa de número 10, pois Gianni Rivera, craque do time, estava suspenso – e na época não havia numeração fixas. Em seu primeiro ano como profissional, Aldo comemorou o título da Coppa Italia, com uma vitória por 2 a 0 sobre o Napoli na decisão. Porém, ao fim da temporada, acabou emprestado ao Bologna, para que ganhasse minutos em campo e experiência.

Depois de entrar em campo em apenas três jogos da Serie A e totalizar nove, somando todas as competições, Maldera deixou a equipe rossoblù e voltou a Milão na temporada seguinte, para brigar pela titularidade com Giuseppe Sabadini. Ambos revezaram na posição entre 1973 e 1974, mas Aldo ganharia a disputa em 1975. As boas partidas pela equipe rossonera o levaram à seleção italiana: ele já tinha passagens pelas equipes de base da Nazionale, mas ser convocado para o selecionado principal é um marco para qualquer jogador. O debute ocorreu contra a Inglaterra, em Nova Iorque, pelo Torneio do Bicentenário dos Estados Unidos.

Já consolidado na lateral esquerda do Milan, Aldo se destacava por sua alta velocidade. Não por acaso, Enrico Albertosi, então goleiro do time, o apelidou de “Cavalo”. Na decisão da Coppa Italia de 1977, o defensor marcou um dos gols mais belos e importantes em sua trajetória pelo Milan. Os rossoneri empatavam com a rival Inter até que, aos 19 minutos do segundo tempo, surgiu uma falta na entrada da área. Maldera notou a desatenção da defesa interista e correu à área, enquanto Rivera percebeu a infiltração do lateral e serviu uma bola adocicada: Aldo pegou de canhota, em uma meia bicicleta, e estufou as redes. O Milan venceu a partida por 2 a 0 e conquistou a taça.

Aldo conquistou um scudetto pelo Milan e ainda chegou a usar a braçadeira de capitão da equipe (imago/Buzzi)

Tido como um dos melhores laterais-esquerdos da Itália, o “Cavalo” foi um dos 23 selecionados do técnico Enzo Bearzot para a Copa do Mundo de 1978, na Argentina. O atleta realizou somente uma partida no Mundial, contra o Brasil, em Buenos Aires, pela decisão do terceiro lugar – partida vencida pela Seleção por 2 a 1. Ele também representaria a Nazionale na Eurocopa de 1980, em solo italiano. Aldo, entretanto, não entrou em campo, e os italianos novamente amargaram uma quarta colocação.

Entre as duas participações em torneios de relevo com a Itália, o camisa 3 foi peça essencial na conquista do “scudetto della stella” do Milan, em 1978-79 – foi o décimo título de Serie A do Diavolo, que lhe deu o direito de estampar uma estrela na camisa. Maldera marcou nove gols em 30 jogos daquela campanha, a ponto de terminar o campeonato como vice-artilheiro da equipe, atrás apenas do atacante Alberto Bigon, com 12 tentos. Na posição de lateral-esquerdo, somente o ícone interista Giacinto Facchetti fez melhor que o “Cavalo” em uma única edição do Italianão: dez gols em 32 partidas.

Dos nove gols que o camisa 3 guardou na caminhada rumo ao scudetto de 1979, o contra a Inter, em 12 de novembro de 1978, no Giuseppe Meazza, certamente possui um peso maior. Na área, o defensor recebeu um passe de cabeça do atacante Stefano Chiodi, subiu mais alto que seu marcador e testou firme no canto superior, à direita do goleiro Ivano Bordon. Ainda em 1979, o lateral-esquerdo realizou sua última aparição com a camisa azzurra da Itália: foi em um amistoso contra a Suíça, em Údine, no qual a Nazionale ganhou por 2 a 0. Ao todo foram dez jogos e nenhum gol defendendo a Squadra Azzurra.

Depois de período negativo do Milan, Maldera rumou à capital italiana e também foi vitorioso na Cidade Eterna (Arquivo/AS Roma)

Para conquistar o décimo scudetto de sua história, o Milan saiu de uma fila de 11 anos. Nos anos 1980, contudo, a agremiação voltaria a amargar um jejum de quase uma década. O principal motivo foi o escândalo Totonero. O vexame causou a detenção de 13 jogadores e o rebaixamento à segunda divisão de Lazio e Milan. Em junho, os clubes apelaram da sentença, mas de nada adiantou. O então presidente do Diavolo, Felice Colombo, sofreu uma dura suspensão: foi banido para sempre do futebol. Apesar da situação desastrosa, Maldera decidiu permanecer na equipe para a disputa da Serie B e acabou usando a faixa de capitão.

Com certa facilidade, o clube milanês se sagrou campeão da segundona e voltou à elite. Porém, fez uma campanha horrorosa na Serie A, terminou o campeonato na 14ª posição (naquela época, a primeira divisão contava com 16 times), com um ponto a menos que o Genoa, e desceu as escadas da Serie B novamente. Dessa vez, Aldo preferiu colocar um ponto final em sua trajetória rossonera. Assim, após 310 jogos e 39 gols, o lateral-esquerdo deixou San Siro.

Em 1982, o jogador, então com 29 anos, aceitou o convite de Nils Liedholm, seu ex-treinador na época de Milan, e partiu para a capital. Seu novo time seria a Roma, onde usaria a camisa de número 6. Já conhecido por seu estilo ofensivo, o “Cavalo” integrou um timaço na Cidade Eterna. A Loba possuía jogadores do calibre de Falcão, Agostino Di Bartolomei, Carlo Ancelotti, Bruno Conti, entre outros craques. Era de se imaginar que os giallorossi brigassem por títulos. E não deu outra: eles lideraram a Serie A desde as primeiras rodadas e levantaram o scudetto, em 1983.

O lateral construiu carreira bastante sólida, sendo bandeira do Milan e respeitado na Roma (imago/Buzzi)

Na Roma, Aldo potencializou ainda mais os chutes de longa distância. Não à toa, anotou bonitos gols com a camisa giallorossa, tornando-se ainda mais importante para a construção ofensiva do time. Na temporada seguinte, a Loba manteve o alto nível e teve a chance de vencer a Copa dos Campeões jogando em casa, no Olímpico. Porém, os comandados de Liedholm sucumbiram nos pênaltis frente ao Liverpool. Maldera, suspenso devido ao acúmulo de cartões amarelos, desfalcou a equipe no grande duelo. Na Serie A, a Roma terminou em segundo lugar, dois pontos atrás da Juventus.

A Roma perdeu força a partir da 1984-85. A queda de rendimento foi visível: a equipe não conseguiu lutar por títulos e, ao fim da temporada, Maldera trocou o clube romano pela Fiorentina. Com a Viola, o lateral-esquerdo disputou duas temporadas de pouco brilho e, aos 34 anos, em 1987, pendurou as chuteiras. No entanto, mesmo depois da aposentadoria, Aldo seguiria respirando futebol. Ele trabalhou nas categorias de base romanista e até chegou a treinar um tal de Francesco Totti.

Em 2004, Maldera largou o emprego que possuía na Roma, mas continuou vivendo na capital. Cinco anos depois, assumiu a função de diretor técnico do Panionios, da Grécia. No dia 1º de agosto de 2012, porém, o ex-lateral-esquerdo veio a falecer, com apenas 58 anos: ele foi retirar um angioma da cabeça e, após a cirurgia, foi vítima de embolia pulmonar.

Aldo Maldera
Nascimento: 14 de outubro de 1953, em Milão, Itália
Morte: 1º de agosto de 2012, em Roma, Itália
Posição: lateral-esquerdo
Clubes: Milan (1971-72 e 1973-82), Bologna (1972-73), Roma (1982-85) e Fiorentina (1985-87)
Títulos: Coppa Italia (1972, 1977 e 1984), Serie A (1979 e 1983), Serie B (1981) e Copa Mitropa (1982)
Seleção italiana: 10 jogos

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