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Da glória na Inter à crise no Genoa, o macedônio Goran Pandev fez história na Itália

Goran Pandev é um personagem emblemático para os fãs de futebol italiano nos anos 2000 e 2010. Conhecido por marcar muitos gols de cavadinha e ser calvo desde jovem, o maior jogador macedônio de todos os tempos entrou para os livros de história de Lazio, Inter, Napoli e Genoa. O atacante se moldou como homem e atleta na Velha Bota e fez do país a sua segunda casa.

Pandev nasceu em Strumica, considerada a maior cidade do leste da Macedônia do Norte, próximo à fronteira com a Bulgária. Aos 16 anos, o garoto já demonstrava sua habilidade a serviço do Belasica, equipe de sua terra natal. Bastou uma temporada atuando no Campeonato Macedônio para que Goran fosse negociado. A Inter o comprou por 250 mil euros, no verão europeu de 2001, e o colocou para se desenvolver no setor juvenil.

Estabelecido na Itália, Pandev ajudou os nerazzurri a vencerem a Copa Viareggo e o Campeonato Primavera, na temporada 2001-02. Aquela equipe também contava com o veloz Obafemi Martins. Ainda nas categorias de base da Beneamata, o jovem chegou a treinar algumas vezes com o elenco profissional, a ponto de dividir o campo de treinamento com Ronaldo Fenômeno, que, segundo o macedônio, foi o “melhor atacante dos últimos 30 anos”. Inclusive, quando possível, Goran ia a jogos no Giuseppe Meazza para prestigiar o brasileiro fazer miséria com as defesas adversárias.

A história de Pandev na máxima seleção de seu país teve início em agosto de 2002. Após passar por quase todas as equipes juvenis da Macedônia do Norte, o jogador foi convocado para o amistoso contra Malta e balançou as redes logo no começo da peleja. Os macedônios golearam por 5 a 0. Depois de sua atuação, o atleta virou figurinha carimbada no time nacional.

Após começar a ter papel mais ofensivo na Lazio, Pandev ganhou destaque na Serie A (imago/Gribaudi)

A fim de dar experiência ao jogador, que na época atuava como meia-atacante, a Inter o emprestou ao Spezia em 2002-03. Na época, o time da Ligúria disputava a Serie C1. Goran concluiu a campanha com 23 jogos e quatro gols. Acabou cedido novamente, dessa vez ao Ancona, então promovido à elite italiana. Os biancorossi, no entanto, decepcionaram na primeira divisão e foram rebaixados. Pandev disputou 21 partidas e anotou um tento, em derrota por 3 a 2 para o Bologna: recebeu passe em profundidade, fintou o defensor e soltou um balaço quase sem ângulo.

Apesar do descenso com o Ancona, Pandev mostrou algum brilho. Não por acaso foi adquirido pela Lazio em um esquema de copropriedade. O sérvio Dejan Stankovic fez o caminho inverso, deixando as águias para se juntar à Beneamata, ainda em janeiro de 2004. Em julho, foi a vez do macedônio. A primeira temporada de Goran na Cidade Eterna foi cheia de lampejos. Vale frisar que o time enfrentava uma forte crise financeira, e grandes jogadores haviam sido negociados para o clube fazer caixa. Aliás, a agremiação celeste só não faliu porque o empresário Claudio Lotito a comprou e assumiu as dívidas da gestão de Sergio Cragnotti.

Talvez o grande momento de Pandev em seu primeiro ano como laziale tenha sido um golaço contra a Juventus. Os biancocelesti perderam da Vecchia Signora por 2 a 1, mas o macedônio pintou e bordou com a forte defesa bianconera e soltou uma pancada; Gianluigi Buffon nem viu a cor da bola. Já adaptado à capital da Itália, o meia-atacante se estabeleceu, na temporada seguinte, como titular sob o comando do técnico Delio Rossi e formou boa dupla de ataque com Tommaso Rocchi.

Diante do bom desempenho de Pandev, a Lazio comprou o jogador em definitivo, por 4 milhões de euros, no verão de 2006 – a Udinese quis atravessar o negócio, mas o macedônio seguiu com a equipe celeste. Goran viveu ótimos momentos pelas águias: doppietta contra o Real Madrid, pela fase de grupos da Liga dos Campeões 2007-08; gols e assistências no Derby della Capitale, tripletta em cima da Reggina, título e artilharia da Coppa Italia 2008-09, com seis tentos… Porém, na pré-temporada 2009-10, a relação entre as partes estremeceu.

Pandev foi importante num dos melhores times da história da Inter (imago/Ulmer/Cremer)

No verão europeu de 2009, o camisa 19 se revoltou porque Lotito, presidente da Lazio, não quis estender seu contrato, o que resultaria em aumento salarial esperado há tempos pelo atleta. Além disso, segundo a alegação do próprio Pandev, o cartola recusou ofertas de outras equipes, que se interessavam por seu futebol. Com o imbróglio, ele pediu para ser negociado, mas o cartola não aceitou e optou por afastá-lo até dezembro de 2009, quando o meia-atacante conseguiu, através de vias legais, romper vínculo com os laziali e ser indenizado pelo clube romano. Em meio à confusão, Goran guardou uma doppietta na derrota por 3 a 2 ante a Espanha, ultrapassou Gjorgji Hristov e se tornou o maior artilheiro da história da seleção macedônia, com 17 gols.

Após seis meses sem jogar, Pandev se despediu da Lazio como o maior artilheiro estrangeiro da história da agremiação – fruto de um processo progressivo de transformação em segundo atacante. Além dos 64 tentos distribuídos em cinco temporadas, ainda incluiu dois canecos (Coppa Italia a Supercopa Italiana) em seu currículo. Logo no início janeiro de 2010, foi oficializado como reforço da Inter, sua antiga equipe. À Gazzetta dello Sport, o macedônio revelou que Sevilla, Juventus, Milan, Napoli, Zenit e Manchester City estavam de olho nele, mas preferiu voltar à sua primeira casa na Itália.

Uma pessoa em especial foi o responsável por convencer Goran a integrar um elenco com grandes atacantes. Afinal, ele teria de disputar posição com jogadores da grife de Diego Milito, Samuel Eto’o e Mario Balotetti. “Se você merece, se está bem, você vai jogar”, foram as palavras que José Mourinho proferiu a Pandev. O habilidoso canhoto, então, aceitou o desafio e partiu para Milão, onde desfrutaria dos maiores louros de sua longa carreira, fazendo parte de um time histórico.

Uma das atuações mais notáveis de Pandev com a camisa nerazzurra ocorreu em um Derby della Madonnina, em sua quarta aparição pela equipe. A Inter, com dois homens a menos, venceu o Milan, por 2 a 0, e Goran participou de ambos os gols – o que fizera na partida anterior, contra o Bari. No primeiro, o camisa 27 lançou a bola por cima da defesa rossonera, Ignazio Abate cortou errado, Milito aproveitou e finalizou de canhota, no canto esquerdo de Dida. O segundo, por sua vez, foi uma bela cobrança de falta. Curiosamente, Mourinho estava pronto para substituir o atacante, mas lhe manteve em campo até cobrar a falta. Ainda no clássico, o macedônio chegou a acertar a trave, em um de seus habituais arremates de cavadinha, quando o placar apontava 1 a 0.

Pelo Napoli, o atacante macedônio também levantou taças (imago)

Apesar da forte concorrência, Pandev ganhou muitas chances com Mourinho, foi peça importante no returno de 2009-10 e contribuiu bastante para a Tríplice Coroa da Inter naquela temporada, se encaixando como titular no 4-2-3-1 do português – sobretudo, no mata-mata da Liga dos Campeões. Outros dois títulos foram parar no lado azul e preto de Milão no ano seguinte, já que os nerazzurri, agora sob as ordens de Rafa Benítez, faturaram a Supercopa Italiana e o Mundial de Clubes da Fifa. Na Champions League, os italianos caíram nas quartas de final para o Schalke 04, mas Goran marcou, contra o Bayern Munique, nas oitavas, o gol que classificou os interistas à fase seguinte.

Entretanto, embora tenha assinado contrato de quatro anos com a Inter, o macedônio permaneceu somente duas temporadas em Appiano Gentile. É que, em agosto de 2011, ele seria emprestado ao Napoli. Sua estreia pelos partenopei ocorreu contra o Cesena, mas foi diante de outro time bianconero que o meia-atacante balançaria as redes pela primeira vez como napolitano. No empate em 3 a 3 com a Juventus, em Nápoles, Pandev anotou dois gols e conquistou os torcedores.

Em maio daquele ano, Goran sentiu o gostinho de derrotar a Vecchia Signora e faturar o título da Coppa Italia. Os comandados de Walter Mazzarri derrotaram a equipe de Antonio Conte, por 2 a 0, na capital italiana. Edinson Cavani abriu o placar, de pênalti, enquanto Marek Hamsík, recebendo passe do macedônio, fechou o placar. Pandev se tornou o primeiro jogador a vencer quatro vezes seguida a copa nacional, ainda que por times diferentes. Alguns dias depois de alcançar tal feito, o Napoli comprou o atleta em definitivo e pagou 7,5 milhões de euros à Inter.

O troco da derrota na copa nacional veio rápido. Abrindo a temporada 2012-13, a Juve bateu os azzurri, por 4 a 2, e levantou a Supercopa Italiana. O camisa 19 fez um dos gols do Napoli, mas foi expulso, aos 41 minutos do segundo tempo, após insultar o árbitro assistente. Ele tomou um gancho de duas rodadas e, assim, perdeu o início da Serie A, competição na qual a equipe do sul mostrou bom futebol e terminou em segundo, atrás somente da rival Juventus. Titular após a saída de Ezequiel Lavezzi para o Paris Saint-Germain, Pandev concluiu o campeonato com 33 jogos, seis tentos e nove assistências.

Já veterano, Pandev se tornou fiel da balança num Genoa em profundas dificuldades (LaPresse)

Em 2013, Pandev chegou a anunciar a aposentadoria da seleção macedônia, da qual era capitão. Porém, o atacante reviu sua decisão e voltou a defender o selecionado três anos depois. No Napoli, o jogador permaneceu até o fim da temporada 2013-14, depois de conquistar mais uma Coppa Italia – vitória napolitana sobre a Fiorentina, por 3 a 1, na decisão. O atleta, então, decidiu viver uma experiência longe da Itália, abdicando da desejo de pendurar as chuteiras no time azzurro – como havia dito em 2012, aos 28 anos, após ser contratado em definitivo. Ele fechou com o Galatasaray.

Na Turquia, contudo, Pandev não esteve 100% fisicamente, jogou pouco e acabou retornando ao Belpaese um ano depois. Foram só 17 partidas, sete gols e duas assistências a serviço do time turco. O Genoa seria o desafio seguinte do jogador em solo italiano. Na Ligúria, o atacante teria uma missão mais difícil do que as outras, uma vez que o clube, então presidido pelo polêmico Enrico Preziosi, já dava indicativos de declínio técnico e financeiro.

Os primeiros dois anos de Pandev no Marassi foram bem apáticos, dando a entender que o jogador já estava acabado. Entretanto, o cenário começou a mudar na temporada 2017-18. O Genoa não fez uma boa campanha na Serie A e lutou contra o rebaixamento, mas o camisa 19 jogou com mais regularidade e contribuiu para a permanência da agremiação na elite. Em março de 2019, alcançou a marca de 400 partidas disputadas na Serie A.

Já em 2020, Goran tinha planos de parar de jogar futebol profissionalmente após o fim da temporada. Porém, devido à pandemia de covid-19 e o adiamento da Eurocopa, torneio que tinha ambição de disputar, o veterano abriu mão da ideia e permaneceu atuando. Resultado: foi mais uma vez essencial para a salvezza dos grifoni – dessa vez alcançada na última rodada – e marcou o gol da vitória sobre a Geórgia, garantindo a participação dos macedônios pela primeira vez na Euro.

O Parma, na Serie B, foi o último clube da carreira de Pandev (Arquivo/Parma Calcio)

O último ato de Pandev pela seleção de seu país foi justamente na Eurocopa 2020, que acabou sendo disputada em 2021, por causa da pandemia. A Macedônia perdeu todas as três partidas da fase de grupos, mas o atacante foi devidamente homenageado, sobretudo no terceiro duelo, contra a Holanda. Ele é o recordista de jogos pela seleção (122), o seu maior goleador (38) e o atleta que mais vezes ganhou o prêmio de melhor jogador macedônio do ano (2004, 2006, 2007, 2008, 2010 e 2020).

Como de praxe, Pandev criou forte ligação no Genoa, apesar da bagunça que o clube se tornou no final dos anos 2010. A aventura do macedônio por Gênova durou até o início de 2022, quando contabilizava 187 partidas e 32 gols. Só pela Lazio atuou mais vezes – 192, com os já citados 64 tentos anotados. Vale destacar que Goran ainda teve forte ligação com Inter e Napoli, pelos quais somou, respectivamente, 69 e 124 aparições, e 8 e 22 bolas nas redes.

Pandev encerraria a carreira de vez após breve passagem pelo Parma, da segunda divisão. Entrou em campo 11 vezes no returno da temporada 2021-22 e participou de dois tentos. Em setembro, aos 39 anos, decidiu fechar o seu ciclo dentro das quatro linhas. Pendurou as chuteiras com o status de maior macedônio da história do futebol italiano e respeitado por grandes torcidas do país.

Goran Pandev
Nascimento: 27 de julho de 1983, em Strumica, Macedônia do Norte
Posição: atacante
Clubes: Belasica (2000-01), Inter (2001-02 e 2009-11), Spezia (2002-03), Ancona (2003-04), Lazio (2004-09), Napoli (2011-14), Galatasaray (2014-15), Genoa (2015-22) e Parma (2022)
Títulos: Coppa Italia (2009, 2010, 2011, 2012 e 2014), Supercopa Italiana (2009 e 2010), Serie A (2010), Liga dos Campeões (2010), Mundial de Clubes da Fifa (2010), Campeonato Turco (2015) e Copa da Turquia (2015)
Seleção macedônia: 122 jogos e 38 gols

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