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Campeão mundial com a França, Christophe Dugarry fracassou num Milan medíocre

Nem só de craques incontestáveis vivia o Milan de antigamente. Alguns jogadores de qualidade questionável e com pouca técnica tiveram seu lugar ao sol no glorioso passado dos rossoneri – ainda que alguns deles tenham passado por Milanello em fases de vacas magras. É o caso do francês Christophe Dugarry. Embora tenha defendido os Bleus durante suas maiores conquistas, o atacante nunca foi imune a críticas. Pelo contrário: era até motivo de chacota entre torcedores rivais.

Natural do sudoeste da França, Dugarry iniciou a sua carreira no maior time da região da Nova Aquitânia, o Bordeaux. Em 1988-89, o centroavante recebeu do técnico Aimé Jacquet as primeiras chances no time principal girondino, juntamente ao lateral esquerdo Bixente Lizarazu. O treinador deixou o time azul marinho ao fim da temporada e Dugarry só teve as primeiras chances reais na equipe principal em 1990-91. O ano foi amargo para os bordaleses: de vice-campeões na temporada anterior, acabaram sendo rebaixados com o jovem no comando do ataque.

O Bordeaux abocanhou o título da segundona francesa e voltou à elite com força, conquistando por três vezes seguidas a vaga na Copa Uefa – uma delas após vencer a Copa Intertoto. Em todas essas temporadas, Dugarry foi titular da equipe girondina e teve, como melhor marca no campeonato local, os nove gols anotados em 1994-95. Conhecido de Jacquet, que àquela altura já era treinador da seleção, o atacante já havia sido convocado para defender os Bleus.

Em 1995-96, por sua vez, o Bordeaux flertou com o rebaixamento. Isso tem uma explicação: a equipe, cujo elenco não era tão numeroso, dividia suas atenções com a Copa Uefa, da qual foi vice-campeão. Na campanha, o time girondino eliminou o Milan de Fabio Capello nas quartas de final… com dois gols de Dugarry. Os rossoneri haviam feito 2 a 0 na partida de ida, em San Siro, mas o time de Lizarazu, Dugarry e um certo Zinédine Zidane conseguiu a reviravolta na França.

Na partida disputada no Parc Lescure, o centroavante aproveitou assistências de Zizou (uma delas, com desvio nas costas do árbitro) para balançar as redes num intervalo de seis minutos e decretar o 3 a 0. O segundo gol foi uma bomba no ângulo e chamou a atenção da diretoria milanista, que optou por contratar Dugarry como sombra de George Weah. Adriano Galliani foi até Bordeaux e pagou 9 bilhões de velhas liras para assinar com o jogador de 24 anos, que interessava ao Napoli e se destacava por seu físico e poder de cabeceio. Dugarry, no entanto, não era um goleador e não foi na Itália que passou a sê-lo.

Duelo entre campeões: Dugarry e Zidane em disputa pela Serie A (France Football)

Aficionado por moda, Dugarry chamou mais atenção numa das capitais mundiais deste ramo pelo extracampo do que pelo que demonstrou nos gramados de San Siro. Em 1996-97, o francês só disputou 21 partidas pelo Campeonato Italiano, num total de 971 minutos. Weah, Marco Simone e Roberto Baggio nem tiveram sua titularidade ameaçada pelo ex-jogador do Bordeaux, que chegou à Itália comparando o seu futebol com o de Gianluca Vialli. Convenhamos, uma declaração menos megalomaníaca do que a feita em janeiro de 2017: na ocasião, Dugarry disse ter a mesma técnica de Zidane.

A temporada milanista foi simplesmente a segunda pior do pós-II Guerra, abaixo apenas da de 1981-82 – quando os rossoneri foram rebaixados. Foi, também, a mais complicada de toda a gestão de Silvio Berlusconi. Contratado para suceder Capello, campeão italiano no ano anterior, Óscar Tabárez não engrenou e foi demitido após a 11ª rodada da Serie A. Dugarry só jogou cinco partidas do campeonato e duas da Champions League sob o comando do uruguaio (todas como reserva) e marcou os primeiros pelo clube no dia da queda do treinador – numa derrota por 3 a 2 para o Piacenza.

O Milan trouxe de volta o ídolo Arrigo Sacchi para substituir Tabárez, mas a sua estreia aconteceu com derrota. Os rossoneri precisavam pontuar em casa contra o Rosenborg, da Noruega, para avançar na Liga dos Campeões, e Sacchi escalou Dugarry como titular. Os visitantes saíram na frente e o francês empatou, após uma jogada inteligente de Baggio. Mas aquele Milan era tão fraco do ponto de vista mental que a derrota veio com falha conjunta de ídolos como Sebastiano Rossi, Franco Baresi e Paolo Maldini. Dessa forma, o Diavolo foi eliminado num grupo muito acessível, que tinha ainda Porto e IFK Gotemburgo.

Com Sacchi, Dugarry ganhou mais espaço. Na Serie A, foi utilizado mais vezes como titular e participou de 16 das 23 rodadas em que o treinador comandou os rossoneri. O Milan, no entanto, não engrenava de jeito nenhum e o francês se destacava por erros crassos e falta de técnica: rapidamente recebeu o status de bidone (lixeira); o equivalente a cone, no Brasil. Ele marcou mais três vezes naquela temporada: diante dos rebaixados Cagliari e Reggiana e numa vitória magra sobre o Vicenza, que foi o sétimo colocado. A equipe milanesa flertou com o rebaixamento e concluiu a temporada apenas com 11ª posição.

Dugarry simbolizou uma temporada horrorosa do Milan em nível nacional e continental (Reuters)

Com o final da temporada maldita, o Milan se reformulou. Arrigo Sacchi deixou a equipe, Franco Baresi e Mauro Tassotti se aposentaram; Pietro Vierchowod saiu em fim de contrato e jogadores como Robi Baggio e Marco Simone foram vendidos. Michael Reiziger e Christophe Dugarry, que haviam reforçado os rossoneri na janela anterior, decepcionaram tanto que acabaram deixando Milanello após apenas um ano de casa. A dupla, no entanto, ganhou uma nova chance no Barcelona.

Dugarry, é verdade, nem tanto. O francês chegou a contragosto do técnico Louis van Gaal e pouco foi utilizado. Quatro meses depois, sem ter marcado um gol sequer, o atacante se transferiu ao Olympique Marseille para continuar com chances de defender a França na Copa do Mundo de 1998. Dugarry também fracassou em suas primeiras oportunidades no OM, mas tinha a confiança de Aimé Jacquet e fez parte do elenco azul. Reserva dos Bleus no Mundial, o atacante participou de três partidas e marcou um gol, diante da África do Sul. Na competição, o camisa 21 da França esbanjou lances esdrúxulos e desperdícios de chances claras – como um célebre, na final vencida contra o Brasil.

No restante da carreira, Dugarry continuou tendo desempenho medíocre por clubes. No Marseille, foi vice-campeão da Copa Uefa em 1999, mas não jogou a final porque foi suspenso por envolvimento numa briga contra o Bologna, na fase anterior. Ele não balançou as redes pelo OM nem 10 vezes entre 1998 e janeiro de 2000.

De volta ao Bordeaux, o centroavante só conseguiu marcar nove gols durante três temporadas e meia. Os números baixíssimos não impediram que Roger Lemerre (ex-auxiliar de Jacquet, alçado ao cargo de técnico da França) o convocasse para as jornadas vitoriosas na Euro 2000 e na Copa das Confederações, no ano seguinte. Dugarry também participou da vexaminosa campanha francesa na Copa do Mundo de 2002, na qual os Bleus não anotaram um golzinho sequer.

Antes de se aposentar, Dugarry ainda defendeu o Birmingham, da Inglaterra, por duas temporadas. O atacante marcou apenas seis gols (cinco no ano de estreia), mas ganhou o carinho dos torcedores, que o chamavam de “artista”, e entrou no hall da fama do clube.

O francês foi para o Qatar em 2004, mas não fez nenhum jogo no Oriente Médio. Ele optou por rejeitar uma proposta do Benfica para anunciar sua aposentadoria em fevereiro de 2005, pouco antes de completar 33 anos. Para despertar a saudade em pouca gente no mundo do futebol: até hoje, Dugarry é considerado como uma das piores contratações da história do Barcelona e do Milan.

Christophe Jérôme Dugarry
Nascimento: 24 de março de 1972, em Lormont, França
Posição: atacante
Clubes: Bordeaux (1988-96 e 2000-03), Milan (1996-97), Barcelona (1997-98), Marseille (1998-2000), Birmingham (2003-04) e Qatar SC (2004-05)
Títulos: Copa do Mundo (1998), Eurocopa (2000), Copa das Confederações (2001), Ligue 2 (1992), Copa da Liga Francesa (2002), Copa Intertoto (1994) e La Liga (1998)
Seleção francesa: 55 jogos e oito gols

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