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Coadjuvante e multicampeão, Santiago Solari também foi bem-sucedido na Itália

A história do futebol está repleta de jogadores que não tiveram grande destaque individual, mas que foram peças importantes em equipes campeãs – às vezes, em até mesmo mais de uma. Considerando as duas últimas décadas, um bom exemplo desse tipo de atleta é Santiago Solari, que integrou um River Plate dominante na Argentina, o Real Madrid galáctico e ainda ajudou a Inter a iniciar sua hegemonia na Itália nos anos 2000.

Santi nasceu numa família destinada ao sucesso. Seu pai, Eduardo, e seu tio, Jorge, foram grandes jogadores nas décadas de 1960 e 1970, seus irmãos Esteban e David também viraram futebolistas – o primo, Augusto, enveredou com menos glamour pelo esporte e a irmã, Liz, compensou, ao se tornar atriz e modelo. Sua infância e adolescência foram bastante movimentadas, com direito a vivência na Colômbia e passagens por Newell’s Old Boys e Renato Cesarini, na base. No entanto, foi pelo River Plate que Solari se profissionalizou.

O meia canhoto, que gostava de jogar aberto pelo lado esquerdo, chegou aos Millionarios aos 20 anos, e com um nome a honrar. Afinal, seu tio Jorge fora ídolo do clube e recebeu o apelido de El Indio. Logo, Santi se tornou El Indiecito. Em um primeiro momento, foi difícil encontrar espaço numa equipe recheada de craques, como Juan Pablo Sorín, Enzo Francescoli, Marcelo Gallardo e Ariel Ortega – sem falar em Marcelo Salas e Julio Cruz, com quem Solari não disputava posição. Tanto é que, mesmo participando do título do Apertura, em 1996, o jogador não foi incluído na delegação que viajou para Tóquio, em novembro, para decidir o Mundial Interclubes. A Velha Senhora faturou o caneco.

Depois de mais dois títulos locais e de uma Supercopa Libertadores, Santi ganhou a titularidade no River em 1998. Disputou, portanto, aquele histórico duelo nas semifinais da maior competição de clubes sul-americana, em que o Vasco eliminou o Millionarios com um golaço de Juninho. Com atuações regulares na Argentina, Solari chamou a atenção do futebol europeu e, em janeiro de 1999, acertou com o Atlético de Madrid.

Os primeiros meses na capital espanhola foram de adaptação para o jovem, então com 22 anos. Em geral, Solari era utilizado no segundo tempo, mas mesmo assim ajudou a equipe a ser vice-campeã da Copa do Rei, o que deu aos colchoneros uma vaga na Copa Uefa. Em 1999-2000, El Indiecito foi protagonista – talvez pela única vez na carreira – e recebeu as primeiras convocações para a seleção argentina. Absoluto no time rojiblanco, Santi marcou seis gols e foi um grande complemento a Jimmy Floyd Hasselbaink, que fez 24. Mesmo assim, o Atleti (que foi treinado por Claudio Ranieri em parte da campanha), acabou com a penúltima posição da liga e foi rebaixado.

Solari não fez nem 100 jogos pela Inter, mas conquistou seis taças (Getty)

Com o rebaixamento, Solari permaneceu na capital, mas mudou de cores. Trocou o vermelho e o branco do Atleti pelo merengue do Real Madrid. Para o técnico Vicente Del Bosque, El Indiecito seria uma peça importante para rodar o elenco e descansar os titulares, além de oferecer boa técnica e controle da posse de bola durante o segundo tempo. Em 2000-01, porém, Santiago foi mal e pouco atuou.

A reviravolta veio no ano seguinte, quando Solari finalmente engrenou e se tornou uma espécie de “12º titular” blanco. Não à toa, o argentino entrou em campo em 51 partidas em 2001-02 e foi titular na final da Uefa Champions League, vencida contra o Bayer Leverkusen. Santi, inclusive, iniciou a jogada para o antológico gol de voleio de Zinédine Zidane: foi dele o lançamento em profundidade para Roberto Carlos, que levantou a bola para Zizou assinar o mais belo tento das decisões da competição.

Solari ainda ficou mais três anos no Santiago Bernabéu e, no total, conquistou sete títulos pelo Real Madrid, com maior destaque para a LC, os dois campeonatos nacionais e o Mundial Interclubes. Mesmo atuando por um clube vitorioso, não foi convocado para a Copa de 2002 ou para a Copa América de 2004. Focado na equipe, nunca deixou de executar o papel de reserva utilitário, para o qual foi contratado, e teve como momento de maior destaque as exibições de 2003-04. O argentino marcou nove gols num ano ruim, no qual os merengues ficaram apenas com a quarta colocação em La Liga.

Após trabalhar com Vanderlei Luxemburgo, El Indiecito acabou se transferindo para a Inter, em 2005. Três anos antes, o técnico Héctor Cúper havia tentado atrair o compatriota para Milão, como parte do negócio que levou Ronaldo ao Real Madrid, mas não teve sucesso. Dessa vez, já sob as ordens de Roberto Mancini, Solari finalmente defenderia a Beneamata. E se sentiria em casa – afinal, outros sete argentinos compunham o elenco nerazzurro.

Na primeira parte da temporada de estreia na Pinetina, Solari fez apenas quatro partidas na Serie A e seis na Champions League. Depois da virada do ano, o meia começou a ser mais utilizado, geralmente invertido: canhoto, jogava pelo lado direito e buscava centralizar as jogadas. Em março, marcou o primeiro gol pela equipe – e em grande estilo.

Do banco para o campo: assim foi a passagem de Solari pela Inter de Mancini (Getty)

Na ida das semifinais da Coppa Italia, contra a Udinese, Santi recebeu passe de Obafemi Martins e, de letra, decretou a vitória nerazzurra. A equipe levantaria a taça, dois meses depois, e também comemoraria o scudetto, em junho. Após a explosão do escândalo Calciopoli, a Juventus teve o título cassado, o Milan (vice) foi punido com perda de pontos e a Inter, terceira colocada, herdou o lugar mais alto do pódio, saindo de uma fila de 17 anos. Na campanha, o meia anotou uma doppietta contra o Messina e também balançou as redes contra o Cagliari.

Em 2006-07, a Inter aproveitou o rebaixamento da Juventus e a fragilidade do Milan para nadar de braçada na Serie A: o título nacional foi conquistado com seis rodadas de antecedência e um recorde de pontos (97) que só foi superado pela própria Juve, em 2014 (102). Única adversária de porte que não foi punida, a Roma não foi páreo para os nerazzurri e terminou o campeonato com o vice, mas 22 pontos a menos. Este foi o ano em que Solari mais vezes entrou em campo pela equipe milanesa: foram 30 jogos, 12 deles como titular na campanha do scudetto.

Depois de completar 31 anos, Solari perdeu muito espaço na hierarquia interista – até mesmo apostas, como o chileno Luis Jiménez e o português Pelé, foram mais observados por Mancini, que só o utilizou 15 vezes. Em 2007-08, a Inter ganhou a Serie A sem convencer e também não apresentou futebol competitivo na Champions League. Era o fim de ciclo de Mancini e El Indiecito não faria parte dos planos de José Mourinho, que chegava para impulsionar a equipe no panorama continental. Dessa forma, no fim de agosto de 2008, o meia acertou com o San Lorenzo e se despediu de Milão com seis títulos na bagagem.

No retorno a seu país, Solari quase voltou a ser campeão nacional. No Apertura 2008, um tríplice empate na liderança entre os cuervos, o Boca Juniors e o Tigre forçou um triangular final, vencido pelos xeneizes. El Indiecito passou suas duas últimas temporadas como profissional fora do futebol argentino, e chegou a emprestar sua experiência aos mexicanos do Atlante no Mundial de Clubes da Fifa. Aos 34 anos, após curtíssima passagem pelo Peñarol, decidiu se aposentar em dezembro de 2010.

Pouco menos de três anos depois de se aposentar, Santiago Solari voltou ao Real Madrid. Entrou no estafe do clube que defendeu por mais tempo na carreira para ser treinador das categorias de base. Começou de baixo, no sub-15, e foi galgando posições até assumir o time B, também conhecido como Castilla, em 2016. Agora, precisa administrar um turbilhão. Com o time principal em profunda crise, Julen Lopetegui caiu e lhe cedeu o seu posto, inicialmente de forma interina. Nesta semana, porém, Santi foi efetivado por Florentino Pérez e terá um dos maiores desafios da sua vida. Novamente como substituto. Mais uma vez para fazer o básico e ser vitorioso?

Santiago Hernán Solari Poggio
Nascimento: 7 de outubro de 1976, em Rosario, Argentina
Posição: meio-campista
Clubes em que atuou: River Plate (1996-98), Atlético de Madrid (1999-2000), Real Madrid (2000-05), Inter (2005-08), San Lorenzo (2008-09), Atlante (2009-10) e Peñarol (2010)
Títulos: Apertura (1996 e 1997), Clausura (1997), Supercopa Libertadores (1997), La Liga (2001 e 2003), Supercopa da Espanha (2001 e 2003), Liga dos Campeões (2002), Supercopa Uefa (2002), Mundial Interclubes (2002), Supercopa Italiana (2005 e 2006), Serie A (2006, 2007 e 2008) e Coppa Italia (2006)
Carreira como técnico: Real Madrid Castilla (2016-18) e Real Madrid (2018-atual)
Seleção argentina: 11 jogos e 1 gol

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