Serie A

Maldição alvinegra? Para jogadores, deixar a Juventus pode não ser um bom negócio



Nesta década, a Juventus se tornou o grande bicho papão da Itália em termos de mercado de transferências. Se um jogador ganha destaque no Belpaese, lá está a Vecchia Signora para avaliar sua contratação. Jovem ou experiente, o atleta entra na pauta de reforços dos bianconeri e acaba balançando com o possível interesse do clube. Quem não gostaria de assinar com um time que disputa (e, hoje em dia, ganha) títulos toda temporada? Nos últimos anos, essa tendência se acentuou.

Além de contar com várias prodígios emprestados pelos quatro cantos da Velha Bota, a Juventus pinça nos rivais os melhores jogadores a fim de ampliar sua supremacia no país. Foi assim que Wojciech Szczęsny, João Cancelo, Mehdi Benatia, Mattia Caldara, Miralem Pjanic, Juan Cuadrado, Federico Bernardeschi e Gonzalo Higuaín rumaram ao Piemonte no passado recente, após se destacarem em equipes rivais.

A qualidade dos jogadores é tanta que, encaixados dentro de um contexto favorável, dificilmente algum deles vire “flop” vestindo a camisa bianconera. Entretanto, quando resolvem deixar a agremiação, independentemente do motivo, a maioria tem uma queda notória de rendimento. E não é de hoje que isso acontece.

O matador Pietro Anastasi teve passagens fracas por Inter, Ascoli e Lugano depois de oito anos (1968 a 1976) implacáveis na Vecchia Signora. Protagonistas do tricampeonato mundial da Itália em 1982, Paolo Rossi e Marco Tardelli marcaram época num esquadrão de ouro da Juve. Porém, após saírem do clube, em 1985, já caminhavam para o fim de suas carreiras e, consequentemente, caíram de produção.

Melhor jogador da Copa do Mundo de 1990, o atacante Salvatore Schillaci se consolidou como artilheiro feroz na Juventus durante a temporada 1989-90. No Mundial de 1990, passou em branco somente no segundo jogo da fase de grupos, contra os Estados Unidos. Ele terminou como artilheiro do torneio, com seis gols. Depois de três anos no Piemonte, foi adquirido pela Inter, mas as constantes lesões limitaram sua presença em campo.

Morata ainda não se encontrou depois de deixar Turim (Reuters)

O português Paulo Sousa, um volante dinâmico e inteligente nos anos 1990, gozou de muito prestígio em duas temporadas na Juventus (1994-95 e 1995-96). No entanto, não conseguiu repetir as boas exibições atuando por Borussia Dortmund, Inter, Parma e Panathinaikos, até pendurar as chuteiras em 2002, aos 32 anos, pelo Espanyol. O mesmo aconteceu com o talentoso iugoslavo Vladimir Jugovic, contemporâneo de Sousa na equipe vencedora da Liga dos Campeões de 1995. Após o sucesso em branco e preto, vagou por seis clubes até o fim de sua carreira.

Já o icônico Edgar Davids brilhou com a camisa da Juventus por mais tempo que Schillaci, Paulo Sousa e Jugovic. O holandês, no entanto, fracassou nas equipes pelas quais defendeu depois de deixar a Vecchia Signora. Inclusive, ele chegou a ser liberado de graça ao Tottenham, em 2005, após temporada aquém das expectativas na Inter.

Recentemente temos peripécias mais conhecidas. Carlos Tévez, grande acerto da cúpula das zebras na guinada à hegemonia atual, foi a principal peça juventina nas temporadas 2013-14 e 2014-15. Com ele em campo, a Juventus ganhou quase tudo que disputou. Suas atuações também lhe renderam várias premiações individuais. Contudo, quando o argentino decidiu encerrar sua jornada pela Europa para retornar à sua casa, o Boca Juniors, seu rendimento caiu bruscamente. Em 2017, chegou a desbravar o rico futebol chinês pelo Shanghai Shenhua, mas no ano seguinte retornou ao Boca.

Outro atacante que desceu a ladeira – em termos de desempenho – após deixar a Juve foi Álvaro Morata. Embora fosse considerado uma espécie de 12º jogador, o espanhol teve duas temporadas muito boas na Zebra. Além dos cinco títulos obtidos durante sua passagem por Turim, marcou em cinco dos sete jogos do mata-mata da Liga dos Campões de 2014-15, incluindo a final perdida para o Barcelona (3 a 1). Em 2016, foi recontratado pelo Real Madrid, ficou à sombra de Karim Benzema, e em 2017 rumou ao Chelsea, onde está até hoje e sofre com críticas por perder muitos gols.

E o nome ventilado nos arredores de Stamford Bridge neste início de 2019 para substituir Morata no Chelsea é o de Gonzalo Higuaín, ex-Juventus. Contratado junto ao Napoli numa transação que beirou os 90 milhões de euros, Pipita também marcou seu nome na história da Vecchia Signora. Porém, com a contratação de Cristiano Ronaldo, Higuaín viu seu espaço se reduzir e acabou aceitando ser emprestado ao Milan, em agosto do ano passado. Só que a vida do argentino não tem sido fácil no Diavolo, e cogita-se até que, ao fim da atual temporada, o camisa 9 vá para o Chelsea de Maurizio Sarri – técnico com quem trabalhou no Napoli.

O negócio que levou Higuaín ao Milan teve outros dois atletas envolvidos: Leonardo Bonucci e Mattia Caldara. O primeiro era um dos alicerces juventinos, mas decidiu deixar o clube após desavenças com o técnico Massimiliano Allegri. O destino foi o time milanista. A aventura por San Siro, contudo, foi breve – apenas uma temporada – e ruim. No início da atual temporada, retornou ao Allianz Stadium em um negócio que levou Caldara ao lado rossonero. Em seu retorno ao Piemonte, Leo passa longe de brilhar: na verdade, tem sido um raro fator de inconsistência da líder.

Mattia, aliás, deu um grande azar, pois não chegou a fazer sequer um jogo oficial pelos bianconeri antes de reforçar o Milan. Nos rossoneri, ainda não entrou em campo devido a uma lesão muscular e uma laceração parcial do tendão de Aquiles.

Henry, por sua vez, virou uma lenda depois de trocar a Velha Senhora pelo Arsenal (Arquivo/Juventus)

Saíram e vingaram

Existem também casos de jogadores que conseguiram crescer ainda mais no futebol após vazar da Juventus. É o caso de Thierry Henry, Filippo Inzaghi, Zinédine Zidane e Paul Pogba. Para ocupar a lacuna deixada pelo lesionado Alessandro Del Piero, a Vecchia Signora buscou no Monaco, em 1999, uma joia francesa: Henry. Porém, o atacante não rendeu o esperado e, um ano depois, acertou com o Arsenal numa transação que custou 10 milhões de libras aos Gunners. No clube londrino, Thierry se tornou um dos maiores jogadores do mundo.

Inzaghi e Zidane, por sua vez, não “floparam” na Juventus tal qual Henry. Pelo contrário, ambos brilharam no final dos anos 1990 – Zizou até mais que Pippo. Em 2001, os dois alcançaram voos maiores ao acertarem, respectivamente, com Milan e Real Madrid. Por esses clubes, alcançaram a glória e se tornaram lendas.

Por fim, Pogba, um achado da diretoria juventina no Manchester United. Descartado por Alex Ferguson, Pogba foi acolhido, em 2012, por uma Juve que estava começando seu plano de domínio absoluto na Itália. Lá, moldou-se como atleta e encaixou como luva no meio-campo de Max Allegri junto com Andrea Pirlo, Arturo Vidal, Claudio Marchisio, Pjanic, entre outros. Em agosto de 2016, o United pagou incríveis 105 milhões de euros para levá-lo novamente a Old Trafford. Pelos Reds Devils, foi campeão da Liga Europa, “tretou” com o excêntrico José Mourinho e foi um dos principais nomes da seleção francesa na conquista da Copa do Mundo de 2018.



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