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O goleiro Guido Masetti foi bicampeão mundial e pilar do primeiro scudetto da Roma



Considerado como o goleiro mais fiel da história da Roma, Guido Masetti é lembrado por ter sido um jogador alegre e piadista. Pelo nariz avantajado também, é verdade. Apesar do estilo despojado, contudo, o lendário camisa 1 sempre demonstrou ser um líder, dentro e fora de campo. A recompensa pela postura foi utilizar a braçadeira de capitão da Loba após as saídas de Attilio Ferraris e Fulvio Bernardini. Dessa forma, Masetti foi o responsável por erguer o primeiro troféu de Serie A da Roma, em 1942.

Filho de um trabalhador da estrada de ferro, Guido Masetti começou a jogar futebol em sua cidade natal, Verona. Pelo Hellas, que acabara de voltar à Serie A, estreou na primeira Divisão aos 19 anos, na temporada 1926-27. No primeiro jogo, sofreu seis gols na goleada de 6 a 0 para a Juventus. Nada que pudesse abalar o jovem arqueiro, que naquela temporada foi titular em 18 partidas do campeonato.

A relação com a Roma demorou alguns anos para começar, mas em 1927 Masetti demonstrava que poderia ser opção para o futuro. No duelo válido pela 3ª rodada do Campeonato Italiano, o goleiro foi protagonista ao dificultar o jogo para a Roma. No fim, a equipe da capital venceu o confronto por 3 a 1, mas se deparou com um arqueiro corajoso: para vencê-lo, o time precisou ser muito eficiente.

Nas temporadas seguintes, Guido Masetti alternou a titularidade na meta do Hellas Verona com Bonifacio Smerzi. A perda do posto talvez tenha sido o principal motivo que tenha feito o goleiro a pedir para deixar o clube. O destino desejado? A Roma. Em 1929, a direção do clube de Verona não quis liberar o jogador, que rescindiu com a equipe e foi jogar futebol amador até conseguir acertar com o time giallorosso na temporada 1930-31.

No início, o técnico inglês Herbert Burgess não achava a contratação necessária. O talento do goleiro, no entanto, convenceu o treinador a não só aceitar a chegada do arqueiro como o colocou como titular na equipe da capital. Ele foi recebido por Zi Checco, histórico segurança do Campo Testaccio nos anos 1930 com sua esposa, Angelica: os dois entregaram a Guido o seu novo uniforme. Nos primeiros jogos pela Roma, o jogador mostrou suas qualidades, mas também uma espécie de ritual da sorte: sempre jogava um copo no fundo das redes e dava chutes nas traves antes de a bola rolar.

Bem colocado, o goleiro tinha como ponto fraco o jogo com os pés. Foi em um erro em uma saída de bola com o lateral Mario de Micheli, que Guido Masetti sofreu seu primeiro gol pela Roma na estreia do Campeonato Italiano de 1930-31, contra o Modena, um adversário que acabou sendo especial para o jogador anos mais tarde. O duelo terminou empatado por 1 a 1. Após o jogo, o goleiro assumiu publicamente a responsabilidade pelo empate e isso o ajudou a ganhar a confiança do elenco.

Masetti vestiu a camisa 1 romanista por 13 longos anos (Arquivo/Roma)

O goleiro viveu uma situação que, nos tempos atuais, seria inadmissível. No início da sua segunda temporada pela Roma, Guido Masetti foi cedido por empréstimo para disputar três amistosos com a Lazio. Na época, em 1931, era uma prática normal. A equipe biancoceleste solicitou o empréstimo porque o seu titular e capitão, Ezio Sclavi, foi emprestado à Juventus no período.

De volta à meta da Roma, Masetti seguiu, entre 1931 e 1936, mostrando qualidades que o ajudaram a torná-lo ídolo da equipe. Se atualmente a maioria dos clubes de futebol possuem departamentos de análises de desempenho e ajudam os jogadores com orientações sobre os pontos fortes e fracos dos adversários, o italiano, no entanto, analisava sozinho. Em especial, os cobradores de pênaltis. Lendo notícias de jornais, o goleiro estudou a forma como seus adversários cobravam penalidades. Das 32 enfrentadas na carreira, 12 não foram convertidas por seus oponentes.

Com a saídas dos ídolos Ferraris, em 1934, e Bernardini, em 1939, coube a Masetti utilizar a braçadeira de capitão da equipe a partir da temporada 1939-40. O goleiro permaneceu com a faixa durante cinco temporadas, mas revezando com alguns companheiros. É que, com 33 anos, o jogador alternou a titularidade com goleiros mais novos, por opção do técnico Alfréd Schaffer, que comandou a Loba entre 1940 e 1942.

Na temporada 1941-42, porém, Guido Masetti foi titular em 29 dos 30 jogos da Roma no Campeonato Italiano. O único jogo em que o goleiro não foi escalado ocorreu no dia 29 de março de 1942, na vitória por 2 a 0 da equipe giallorossi contra a Atalanta. Pode-se dizer, portanto, que o veronês foi um pilar na campanha do primeiro scudetto da Loba.

Durante boa parte do campeonato, o Torino esteve à frente da Roma na classificação. O time da capital italiana assumiu a ponta da tabela apenas na 28ª rodada, restando duas para o término da competição. Em casa, com Masetti como titular, a Roma venceu a Inter por 6 a 0 e contou com tropeço da adversário de Turim, que empatou por 1 a 1 com o Modena. Os resultaram deixaram a Loba com 38 pontos, um a mais do que a equipe grená.

O título – o primeiro scudetto da Roma na história – foi confirmado na última rodada. Renato Cappellini e Ermes Borsetti marcaram os gols da vitória de 2 a 0 sobre Modena, que foi o primeiro adversário de Masetti pela Loba, e levaram o clube giallorossi aos 42 pontos, três a mais do que o Torino, que perdeu para a Fiorentina, fora de casa por 2 a 1. A Roma seria a última equipe a faturar o título nacional antes de o Grande Torino ser pentacampeão, entre 1943 e 1949.

Rara imagem mostra um dos primeiros clássicos entre Lazio e Roma, em 1932: de boina, Masetti se antecipa a Demaría (Storia della Roma)

Guido Masetti foi titular da Roma durante anos e isso, além das boas atuações, chamou atenção do técnico da seleção italiana Vittorio Pozzo. Antes mesmo de levantar um caneco pela Roma, o camisa 1 da Loba já tinha em seu currículo os títulos da Copa do Mundo de 1934 e 1938. Nas duas edições, uma disputada na Itália e outra na França, o goleiro foi terceira opção, atrás de Gianpiero Combi e Aldo Olivieri. Ele não disputou jogos nos mundiais, mas é um dos poucos bicampeões da competição. Apenas 21 detêm essa honraria e Masetti é um dos quatro italianos – os outros são Eraldo Monzeglio, Giovanni Ferrari e Giuseppe Meazza.

O fim da carreira de Masetti como jogador chegou duas temporadas depois da conquista do scudetto com a Roma. Por causa de uma lesão, no final da temporada 1942-43 o goleiro resolveu pendurar as chuteiras, com 364 jogos e 390 gols sofridos pela equipe da capital. No ano seguinte, o italiano assumiu o posto de treinador – que já havia saboreado em algumas partidas à frente do amador Colleferro, na quarta divisão de 1940-41. Em 1943-44 e 1944-45, o Campeonato Italiano não foi disputado por causa da II Guerra Mundial.

O futebol, contudo, não parou. A FIGC, Federação Italiana de Futebol, organizou torneios regionais. Alguns deles, sem caráter oficial, como o Campeonato Romano de Guerra. Nele, o jogador-técnico disputou algumas partidas e terminou sua relação de campo com a Roma no dia 7 de maio de 1944, justamente em um Derby Della Capitale. Machucado, com problema no ombro esquerdo ocasionado após uma defesa, Guido Masetti jogou a reta final do segundo tempo do confronto, conforme relatos de jornais da época, utilizando uma tipoia. Foi aplaudido pelos cerca de 18 mil torcedores presentes no Estádio do Partido Nacional Fascista e atuou na etapa final como jogador de linha. O clássico terminou empatado sem gols.

A partir da temporada 1945-46, Guido Masetti deixou a Roma e passou a treinar equipes como Viterbese, Gubbio e Rimini, antes de retornar à capital para comandar a Loba em 1951, salvando a equipe do rebaixamento à segunda divisão. Ele não permaneceu por muito tempo e, na temporada 1951-52, deixou a Roma para assumir o comando técnico do Palermo. O ex-goleiro ainda passou por Reggiana, Pisa e Colleferro até voltar ao comando giallorosso em 1956-57. Seria a terceira e última vez.

Guido Masetti, contudo, manteve ligação com o dia a dia da Roma e, volta e meia, aparecia em treinamentos. Em 1983, ocupou mais um posto na hierarquia romanista: o de talismã. Para dar sorte à equipe, o ex-goleiro foi levado pela diretoria para a viagem a Gênova que garantiu aos giallorossi o seu segundo scudetto.

Masetti faleceu em 27 de novembro de 1993, dias depois de completar 86 anos. Em 2011, foi homenageado pela prefeitura de Roma, que deu seu nome a uma rua. Quatro anos depois, foi a vez de a Roma incluir o ex-jogador no Hall da Fama da equipe. Ele é um dos quatro ex-atletas que foram eternizados na história giallorossa na classe de 2015, com Sergio Santarini, Damiano Tommasi e Gabriel Batistuta. O ex-goleiro é o décimo jogador com mais partidas disputadas pela equipe capitolina em toda a história.

Guido Masetti
Nascimento: 22 de novembro de 1907, em Verona, Itália.
Falecimento: 27 de novembro de 1993, em Roma, Itália.
Posição: goleiro
Clubes como jogador: Verona (1926-29) e Roma (1930-43).
Títulos como jogador: Campeonato Italiano (1942) e Copa do Mundo (1934 e 1938).
Clubes como técnico: Colleferro (1940-41 e 1955-56), Roma (1943-45, 1951 e 1956-57), Viterbese (1945-46), Gubbio (1946-47), Rimini (1948-50), Palermo (1951-52), Reggiana (1952-53), Pisa (1954), Romulea (1958-60).
Títulos como técnico: Serie C (1947)
Seleção italiana: dois jogos e quatro gols sofridos



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