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O religioso Nicola Legrottaglie não deslanchou na Juve, mas se destacou em clubes modestos



Quando estreou na Serie A, pelo Chievo, o zagueiro Nicola Legrottaglie parecia ter todos os atributos para entrar na lista dos melhores do país. Era técnico, se impunha tanto pelo alto quanto por jogadas rasteiras e ainda deixava seus golzinhos. A Juventus, então, contratou o jogador, mas nunca teve o retorno desejado.

Legrottaglie nasceu em Gioia del Colle, na Apúlia, e deu seus primeiros passos no maior time da região: o Bari. Quando militava nas categorias de base do clube biancorosso, o zagueiro chegou a ganhar a Copa Viareggio e ser convocado para a seleção sub-18 da Itália. Para ganhar experiência, Nicola foi emprestado para Pistoiese e Prato, times da parte de baixo da da tabela na Serie C1.

O defensor foi frequentemente escalado nessas equipes e, apesar do rebaixamento do Prato para a Serie C2, acabou indo parar na segundona. Por conta dos bons momentos na terceira divisão, o Chievo fez uma oferta ao Bari por Legrottaglie. Sendo assim, sem realizar algum jogo pelos apulianos, em 1998 Nicola rumou para o norte do país. Em Verona, o zagueiro teve dificuldades de se firmar nas primeiras temporadas e, depois de pouco entrar em campo, foi novamente emprestado – dessa vez, para Reggiana e Modena.

A passagem pelo Modena foi o divisor de águas na carreira do jogador apuliano. Pelos canários, Legrottaglie foi titular e conseguiu seus primeiros títulos como profissional: a Serie C1 e a Supercopa da Serie C. Mais maduro, o defensor foi chamado de volta pelo Chievo, em 2001. Era o ano de estreia do modesto time de bairro veronês na elite italiana e Nicola, embora reserva, contribuiu para uma campanha que já começava histórica.

Do banco, Legrottaglie viu o Chievo iniciar com fôlego total, com vitórias sobre Fiorentina e Bologna. Em substituição aos titulares Maurizio D’Angelo e Lorenzo D’Anna, o apuliano disputou 13 partidas no campeonato, marcando gols importantes, no empate contra a Lazio e no triunfo sobre o Lecce – ambos, fora de casa. Sensação da temporada, o time treinado por Luigi Delneri conseguiu concluir a Serie A na quinta posição e se classificar para a Copa Uefa.

Com a camisa do Chievo, Legrottaglie explodiu e chegou à seleção (Getty)

Legrottaglie ganhou a titularidade em 2002-03, depois que o veterano D’Angelo foi para o Napoli. Absoluto no centro da zaga clivense, não impediu que o time caísse na primeira fase do torneio continental frente o Estrela Vermelha, mas contribuiu com outra ótima campanha na Serie A: o Chievo foi sétimo colocado.

Nicola marcou quatro tentos, entre os quais o primeiro da equipe no campeonato, contra o Perugia, e gols que valeram triunfos ante Como e Reggina. Em evidência, ele entrou até no radar de Giovanni Trapattoni. O técnico da seleção italiana convocou o zagueiro goleador, então com 26 anos, e o fez atuar em cinco partidas naquela temporada. Legrottaglie se destacou e também fez mais um golzinho, em amistoso contra a Suíça.

Considerado como um dos zagueiros que poderiam herdar a titularidade na seleção depois que Fabio Cannavaro e Alessandro Nesta ficassem mais velhos, Legrottaglie foi disputado a tapa na janela de transferências de 2003. A Juventus, com uma oferta de 7,55 milhões de euros, venceu a disputa com a Roma e o levou para Turim. Contudo, o tiro saiu pela culatra: Nicola sofreu com uma incômoda pubalgia, cometeu muitos erros enquanto esteve em campo (foram 31 vezes) e acabou sendo eleito como Bidone d’Oro – ou seja, o pior da temporada.

Nos dois anos seguintes, Legrottaglie perdeu espaço de vez na Juventus. Marcello Lippi deu lugar a Fabio Capello, que o encostou durante metade da temporada 2004-05 – até em virtude da contratação de Cannavaro, que faria dupla de peso com Lilian Thuram. Em janeiro de 2005, o defensor foi emprestado para o Bologna, onde foi rebaixado, e depois passou ao Siena, junto com Igor Tudor. Na Toscana, os dois formaram uma zaga consistente, ao lado de outros bons nomes, como Daniele Portanova, Paolo Negro, Cristian Molinaro, Alberto e Daniele Gastaldello. Essa trupe ajudou o time a não ser rebaixado.

No Siena, o apuliano também teve uma mudança de estilo de vida. Por lá, ele fez amizade com o paraguaio Tomás Guzmán, outro jogador da Juventus que vivia sendo emprestado. O meia apresentou a Nicola o grupo evangélico Atletas de Cristo, ao qual Legrottaglie se uniu após adotar o protestantismo como religião.

No Siena, o defensor virou “atleta de Cristo” (imago/IPA Photo)

Em 2006, Legrottaglie voltou para a Juventus. Mais por necessidade do clube do que por vontade de contar com o seu futebol. É que o time fora rebaixado para a Serie B em virtude do escândalo Calciopoli e precisava reformular seu elenco para a disputa da segundona. Para evitar maiores prejuízos, a diretoria apertou os cintos e repatriou muitos de seus contratados que estavam emprestados. Nicola acreditou que teria mais oportunidades na categoria inferior, mas só jogou 10 partidas.

A sorte estava do lado do zagueiro, contudo, e a situação mudou em 2007-08. Primeiro, Didier Deschamps deu lugar a Claudio Ranieri no comando da Juventus. Depois, o português Jorge Andrade, que fora contratado para fazer dupla de defesa com Giorgio Chiellini, nunca ficou apto a jogar, por conta de uma lesão crônica no joelho. Isso fez com que a diretoria vetasse uma transferência de Nicola ao Besiktas, da Turquia. Em seguida, Don Claudio, optou por Legrottaglie em detrimento do jovem Domenico Criscito e dos instáveis franceses Jean-Alain Boumsong e Jonathan Zebina.

Com Ranieri, Legrottaglie se fixou como companheiro de defesa de Chiellini e foi um dos jogadores de linha que mais minutos em campo tiveram na campanha do terceiro lugar da Juventus na Serie A – apenas David Trezeguet ficou mais tempo no gramado. O zagueiro, que teve seu contrato renovado durante a temporada, não só ajudou o time a voltar à Champions League como contribuiu para que o time bianconero terminasse a competição com a segunda melhor defesa, com os mesmos 37 gols sofridos pela Roma.

Em 2008, devido à sua melhor fase na Juventus, o jogador apuliano voltou à seleção, dessa vez convocado por Lippi. Depois de ajudar a Velha Senhora a ser vice-campeã italiana, Legrottaglie ainda disputou sua única competição pela Squadra Azzurra: a Copa das Confederações. Depois da eliminação da Itália na primeira fase, Nicola retornou a Turim e perdeu espaço no time da Juve, já treinado por Ciro Ferrara, por conta da contratação de Cannavaro.

Legrottaglie ainda fez 28 partidas em 2009-10, revezando com Zebina, Martín Cáceres e Zdenek Grygera, e chegou a integrar a lista de 30 jogadores pré-convocados por Lippi para a Copa do Mundo. Contudo, o defensor de 33 anos não foi escolhido para ir à África do Sul. Em seu lugar, foi Leonardo Bonucci, que a Juventus contratou na janela de verão em 2010. O mesmo Bonucci que tirou definitivamente o espaço de Nicola no time de Turim. Em janeiro de 2011, com a chegada de Andrea Barzagli, a Vecchia Signora se desfez do zagueiro apuliano.

Na Juventus, o zagueiro teve atuações irregulares, distribuídas em duas passagens que totalizaram sete temporadas (Reuters)

O Milan, precisando de um reforço para sua defesa, fechou um contrato curto com Legrottaglie no último dia do mercado de transferências, em janeiro de 2011. Nicola já sabia que seria reserva, mas acabou realizando apenas um jogo, no qual teve de ser substituído por lesão. Apesar da curta estadia em Milão, o zagueiro pode festejar o único scudetto de sua carreira.

Depois do Milan, Legrottaglie viveu uma das fases mais frutíferas de sua carreira, encontrando uma espécie de segunda juventude na ensolarada Sicília. Num forte time do Catania, primeiro comandado por Vincenzo Montella e depois por Rolando Maran, Nicola foi um importante pilar de sustentação, que muito contribuiu para que o time fosse 11º colocado da Serie A em 2012 e oitavo em 2013.

Enquanto jogadores como o regista Francesco Lodi e os argentinos Alejandro Gómez, Pablo Barrientos, Lucas Castro e Gonzalo Bergessio se encarregavam de brilhar com gols e jogadas no campo ofensivo, Legrottaglie era um dos que seguravam a onda na defesa. Ao lado do zagueiro Nicolás Spolli, do lateral-esquerdo Giovanni Marchese e dos volantes Sergio Almirón e Mariano Izco, Nicola guiou um dos melhores sistemas defensivos da Itália, principalmente em 2012-13. Essa boa turma ajudou o Catania a fazer 56 pontos e ter a melhor campanha de sua história.

Apesar desse legado deixado na Sicília, o Catania acabou sendo rebaixado em 2014. Legrottaglie, em virtude de sua idade (37 anos), jogou menos nessa fracassada campanha, e se aposentou logo na sequência. Assim que pendurou as chuteiras, Nicola se tornou técnico do time sub-16 do Bari, que comandou por um ano. Legrottaglie voltou à Sicília em 2015, para treinar o Akragas, da Serie C1. O trabalho não foi muito longo ou dos mais positivos dentro de campo, mas valeu por um bom exemplo: ele incentivou os jogadores a ajudar na manutenção do estádio da cidade de Agrigento.

Legrottaglie ainda teve uma experiência como assistente de Massimo Rastelli no Cagliari e no time sub-19 do Pescara. Em janeiro, o ex-defensor acabou assumindo o time principal, em virtude da demissão de Luciano Zauri, e segue no comando dos golfinhos. Fora do campo, Nicola dá muito espaço à sua fé. O apuliano já publicou dois livros religiosos e comanda um projeto social com apoio de igrejas evangélicas.

Nicola Legrottaglie
Nascimento: 20 de outubro de 1976, em Gioia del Colle, Itália
Posição: zagueiro
Clubes em que atuou: Bari (1995-96), Pistoiese (1996-97), Prato (1997-98), Chievo (1998-2000 e 2001-03), Reggiana (2000), Modena (2000-01), Juventus (2003-05 e 2006-11), Bologna (2005), Siena (2005-06), Milan (2011) e Catania (2011-14)
Títulos: Serie C1 (2001), Supercoppa da Serie C (2001), Supercopa Italiana (2003), Serie B (2007) e Serie A (2011)
Clubes como treinador: Akragas (2015-16) e Pescara (2020-)
Seleção italiana: 16 jogos e 1 gol



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