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Ernst Ocwirk: uma divindade em ação pela Sampdoria

Considerado por muitos como um dos melhores meio-campistas de toda a história, o austríaco Ernst Ocwirk criou laços com a Itália por acaso e, depois disso, se tornou um dos grandes ídolos da história da Sampdoria. Ossi foi tão querido pela torcida blucerchiata que chegou a virar uma espécie de ícone religioso em Gênova: era chamado de “Il Dio”. Deus, simplesmente.

Ocwirk nasceu em Viena, capital da Áustria, em 1926. Na infância, era apaixonado por futebol, mas o primeiro esporte praticado por ele foi o handebol. Depois de alguns anos num clube pequeno da cidade, ingressou no Floridsdorfer, onde encontrou Josef Smistik. Foi o ex-atleta do Wunderteam que sugeriu que Ossi atuasse como meio-campista. Antes dessa indicação, Ernst jogava no ataque, muito devido a sua estatura: 1,83m.

Na primeira convocação da seleção austríaca após a Segunda Guerra Mundial, Ocwirk foi chamado para disputar um jogo contra a Hungria, em Budapeste. Os alvinegros venceram pelo placar de 5 a 3, com uma bela exibição de Ernst, que já encantava. As boas atuações do jovem de 19 anos nos amistosos com a equipe nacional repercutiram na Áustria e Ossi começou a ser procurado pelos principais clubes do país.

Em 1947, os rivais Austria Vienna e Rapid Vienna disputavam para ver quem ficaria com Ocwirk. Mesmo com as tentativas de persuasão de Smistik, que desejava que o inteligente volante fechasse com o seu Rapid, Ernst, então com 21 anos, acertou com os adversários. O clube violeta fez uma proposta irrecusável para o Floridsdorfer: prometeu ajudar na reforma do estádio do modesto time da capital e efetuar a doação de alguns equipamentos de treino.

Com lançamentos magistrais, marcação impecável e muita habilidade no jogo aéreo, Ocwirk foi o protagonista do time que conquistou o campeonato nacional três vezes entre 1949 e 1953, e a Copa da Áustria em duas edições. Em 1951, Ernst foi eleito o melhor futebolista austríaco do ano. Consagrado como um dos craques de seu país, o Clockwork – apelido que o meio-campista ganhou dos ingleses por sua precisão – teria, em 1954, o maior desafio de sua carreira: a Copa do Mundo disputada na Suíça. Ossi poderia, então, esquecer da precoce eliminação na Olimpíada de 1948.

A seleção austríaca chegava ao Mundial cheia de expectativas. Nas eliminatórias para a competição, os alvinegros haviam vencido Portugal com um sonoro 9 a 1, com um tento anotado por Ocwirk, que era capitão da equipe desde 1952. A Áustria tinha uma geração de incríveis jogadores: além de Ossi, destacavam-se Ernst Happel e Gerhard Hanappi. Esse grupo iria superar o quarto lugar que o chamado Wunderteam havia conquistado em 1934.

Na Copa, Ocwirk jogou como volante, sendo peça-chave da seleção que abocanharia o terceiro posto. Com duas vitórias nos dois primeiros duelos, sobre Checoslováquia e Escócia, a seleção austríaca avançava para as quartas de finais com grande confiança. Contra a Suíça, na famosa Batalha de Lausana, Clockwork faria o quarto gol das águias e o sétimo da partida, ainda aos 32 minutos. A peleja terminou com um placar de 7 a 5 para a Áustria.

Com precisão nos movimentos e líder em campo, Ocwirk virou ídolo e capitão da Sampdoria (Arquivo/Sampdoria)

A seleção liderada por Ocwirk não conseguiria bater a forte Alemanha na semifinal, perdendo o jogo por um fatídico 6 a 1. Ainda houve a disputa de terceiro lugar contra o Uruguai, na qual os austríacos venceram os celestes com um golaço de Ossi, num chute de longa distância. O craque foi um dos 11 atletas presentes no onze ideal da Copa, confirmando a magnificência de suas exibições.

Em 1956, o húngaro Lajos Czeizler, então técnico da Sampdoria, pediu ao presidente Alberto Ravano que fizesse uma proposta para o Austria Vienna a fim de contratar Ocwirk. O clube havia sido fundado apenas 10 anos antes, com a fusão de Sampierdarenese e Andrea Doria, e estava em busca de estrelas. Ravano fez uma proposta de 30 milhões de velhas liras ao time austríaco, que não hesitou, assim como Ossi.

Ernst, então, se tornava o segundo jogador de seu país a atuar na Itália, após Engelbert König, atacante com passagens por Fiorentina, Catania, Lazio, a própria Samp, Genoa e Messina. Ao aceitar se transferir num clube de fora da Áustria, Ocwirk abria mão da seleção. Naquela época, apenas atletas do campeonato local podiam ser convocados para a equipe que representava o país.

Curiosamente, o Clockwork já tinha admiração pelos italianos. O afeto tivera início em 1949, anos antes da proposta da Sampdoria. Em um amistoso contra a Itália, em Florença, Ocwirk sofreu um duro golpe de Giampiero Boniperti. Logo depois do incidente, o ídolo juventino ofereceu ajuda ao austríaco e o levou até um hospital local. Na cidade, Ossi ainda conseguiu um novo time para Martha, sua esposa, jogadora profissional de handebol.

Quando chegou na Itália, Ocwirk teve grande ajuda de Aldo Quaglia, histórico dirigente doriano – e um dos grandes responsáveis pela transferência do austríaco. Assim, os dois logo se tornaram amigos. Além disso, Aldo era o tradutor do craque nos seus primeiros anos na Velha Bota. Com 30 anos e sem o vigor de outrora, Ernst foi posto numa posição mais avançada pelo técnico Czeizler, sem que precisasse desempenhar tantas tarefas de marcação.

Não foi preciso de muito tempo para Ocwirk cair nas graças da torcida doriana. Os italianos, com dificuldade de pronunciarem o nome do austríaco, rapidamente utilizaram o apelido que ele carregava há anos: Ossi. Em sua estreia na Serie A, Ernst marcou dois gols na vitória da Sampdoria por 6 a 2 contra o Padova.

Na sequência, o craque balançou as redes em empates ante Juventus, Fiorentina e também no dérbi contra o Genoa, vencido pelos blucerchiati por 3 a 2. Ao todo, Clockwork anotou 12 gols em 34 jogos na primeira temporada na Itália, dividindo a artilharia da equipe com Eddie Firmani. O time terminou a Serie A na quinta colocação, empatada com outros três adversários.

Jogador de raça e classe, Ocwirk foi um dos maiores da história da Samp e da Áustria (Museo Sampdoria)

A segunda época em Gênova seria especial para Ossi, que ganharia a faixa de capitão e se tornaria o principal motivo para a presença dos torcedores dorianos nos jogos disputados no Marassi. Sem muito brilho, a Samp teve dois treinadores na campanha e terminou na 13ª colocação. Il Dio, contudo, mantinha a boa forma. E se destacaria ainda mais em 1958-59, quando seria um pilar de meio-campo em auxílio a um grupo de excelentes atacantes que a Sampdoria reuniu: Bruno Mora, Aurelio Milani e Ernesto Cucchiaroni compensavam a venda de Firmani à Inter. Sob a batuta do técnico Eraldo Monzeglio, o time foi quinto colocado na Serie A. Ernst anotou seis gols em 25 aparições.

Depois do oitavo posto em 1969-60, a Sampdoria chegou com um bom elenco àquele que seria o último ano do já ídolo Ocwirk em Gênova. Ao lado do sueco Lennart Skoglund, do argentino Cucchiaroni e do italiano Sergio Brighenti, Ossi guiaria o clube, então com apenas 16 anos de existência, a uma histórica quarta colocação num campeonato cheio de estrelas. Em sua última temporada pelos blucerchiati, Ernst atuou em 32 partidas e marcou seis gols. Sua última aparição ocorreu no frenético jogo contra o Bologna na última rodada, terminado em um 4 a 4.

Sua esposa Martha admitira, em uma entrevista, que Ossi preferia a vida na Itália do que a que levava em seu próprio país. Contudo, aos 35 anos, Ocwirk retornou ao Austria Vienna, se despedindo dos dorianos após 162 partidas e 39 gols. O meio-campista disputou a temporada 1961-62 pelos violetas, vencendo o título nacional, e, pouco após o início da campanha de 1962-63, se aposentou para retornar a Gênova. Ernst foi convidado para treinar a Sampdoria por Glauco Lolli Ghetti, sucessor de Alberto Ravano na presidência e grande admirador do austríaco.

Os blucerchiati enfrentavam sérios problemas financeiros naquele momento. Ocwirk assumiu a Sampdoria na 10ª rodada da Serie A e conseguiu evitar o rebaixamento da equipe, que tinha um elenco mais modesto do que em anos anteriores. Na temporada seguinte, a salvação foi obtida num jogo de desempate contra o Modena e, em 1963-64, uma sequência de maus resultados derrubou o austríaco logo após o encerramento do primeiro turno. Como técnico da Samp, Ossi fez 84 partidas, somando 26 vitórias, 20 empates e 38 derrotas.

Após a demissão, Ocwirk treinou o Austria Vienna e, ao longo de cinco anos no banco violeta, faturou três títulos. Ernst também foi técnico do Köln, e, com um vice na Copa da Alemanha, o classificou para a Copa Uefa. Seu último clube foi o Admira Wacker, pelo qual também fez um trabalho razoável.

Ocwirk precisou deixar o esporte prematuramente, por motivos de saúde. Em 1980, aos 53 anos, o ex-jogador morreu prematuramente em Viena, vítima de esclerose lateral amiotrófica, uma doença degenerativa bastante agressiva. Portanto, o dia 23 de janeiro reservava mais uma tristeza ao futebol austríaco: Matthias Sindelar, lenda máxima do Wunderteam, falecera na mesma data, 41 anos antes. Ambos foram eleitos, em 2001, para a seleção do século da Áustria.

Ernst Ocwirk
Nascimento: 7 de março de 1926, em Viena, Áustria
Morte: 23 de janeiro de 1980, em Klein-Pöchlarn, Áustria
Posição: meio-campista
Clubes: Floridsdorfer (1942-47), Austria Vienna (1947-56 e 1961-62) e Sampdoria (1956-61)
Títulos como jogador: Copa da Áustria (1948 e 1949) e Campeonato Austríaco (1949, 1950, 1953 e 1962)
Clubes como treinador: Sampdoria (1962-65), Austria Vienna (1965-70), Köln (1970-71) e Admira Wacker (1971-73)
Títulos como treinador: Copa da Áustria (1967) e Campeonato Austríaca (1969 e 1970)
Seleção austríaca: 62 jogos e 6 gols

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