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Bicampeão italiano, Carlos Tévez foi um digno herdeiro da camisa 10 da Juventus

A aposentadoria de Alessandro Del Piero deixou maiores problemas de ordem técnica do que de liderança na equipe da Juventus. Apesar de Delpi ser um dos maiores ídolos da história do clube, outras referências no time, como Gianluigi Buffon e Giorgio Chiellini, ainda ofereciam essa experiência. No entanto, no ataque, demorou até que Antonio Conte encontrasse um elemento diferenciado. Vários nomes passaram por lá: Fabio Quagliarella, Vincenzo Iaquinta, Sebastian Giovinco, Mirko Vucinic, Alessandro Matri, Luca Toni, até o folclórico Nicklas Bendtner… E ninguém chegou perto do estrondoso sucesso que Carlos Tévez teve depois que desembarcou em Turim.

Carlos Alberto Martínez Tévez nasceu, como muitos já sabem, em Fuerte Apache, um bairro localizado em Ciudadela, na região metropolitana de Buenos Aires, capital da Argentina. Lá, viveu uma infância pesada, na qual as drogas e os assassinatos faziam parte de seu “cotidiano”, em suas próprias palavras. Não chegou a conhecer seu pai biológico, que morreu assassinado pela polícia após tentar assaltar uma cafeteria. Sua mãe, Fabiana Martínez, o deixou antes que ele completasse um ano de idade. Quem assumiu sua criação foi a tia, Adriana, casada com Segundo Raimundo Tévez, tio de quem herdou o sobrenome.

Entre diversos momentos difíceis, a história mais conhecida é a que está gravada em sua pele. Quando ainda era um bebê de 10 meses, alcançou uma chaleira de água fervente e acabou derrubando sobre si mesmo. O resultado foram queimaduras de terceiro grau, que afetaram praticamente metade de seu próprio corpo. A situação piorou quando seus tios o enrolaram em uma manta, ação não recomendada nesse tipo de situação.

Depois do acidente doméstico, Carlos sobreviveu. Para o resto da vida, passou a carregar consigo algumas cicatrizes, as mais conhecidas na região do pescoço. Nunca quis removê-las ou alterá-las com cirurgias plásticas por entender que elas o fazem lembrar de quem ele é.

Entre tantos traumas e adversidades, o argentino encontrou seu caminho no futebol, uma das poucas vias de mobilidade social dentro do país. Sendo a exceção, claro, escapou do mundo da criminalidade pelo esporte e conseguiu chegar no time dos sonhos. Antes, aos 5 anos de idade, ingressou no modesto All Boys. Lá ficou até 1997, quando chamou atenção do Boca Juniors.

Os dirigentes xeneizes foram conversar diretamente com os pais adotivos do garoto, na tentativa de facilitar a negociação e já pressionar o pequeno clube argentino. A proposta de 10 mil dólares do Boca foi aceita e a transferência estava feita. Vice-presidente do All Boys na época, Néstor Piccone chegou a reclamar do valor em entrevista ao Clarín, em 2001. De mãos atadas, reconhecia que tinha um diamante em mãos, mas sem poder de negociar por mais.

No gigante da Argentina, Tévez se formou enquanto atleta e viveu mais um episódio dramático de sua vida. Enquanto ascendia como futebolista, seu melhor amigo, Darío “Cabañas” Coronel, não teve a mesma sorte. O apelido de Darío veio pela semelhança física com o atacante paraguaio Roberto Cabañas, seu compatriota. Lembrado como um jogador talentoso, dividia os gramados com Carlitos, porém encarou uma perda irreparável: sua mãe o abandonou quando ele ainda tinha 11 anos e voltou ao país natal. Desamparado, e com problemas familiares, abandonou a carreira no esporte aos 15. Antes do Mundial Sub-17, o futuro craque teve sua última conversa com o amigo, que terminou morto pela polícia após um assalto a um cassino.

A Copa do Mundo Sub-17 representou um dos primeiros bons momentos de Tévez jogando em alto nível – anotou gols sobre França e Omã. Sua primeira temporada profissional com o Boca começou um pouco depois da competição pela seleção, em 21 de outubro de 2001. Se inserir entre os titulares não foi fácil, ainda mais em um time que tinha acabado de se sagrar campeão da Copa Libertadores e do Mundial Interclubes em cima do Real Madrid. Carlitos não impressionou em um primeiro momento.

Tévez nasceu num bairro violento da Grande Buenos Aires e ganhou o mundo, se tornando ídolo da Juventus (Getty)

Seu primeiro gol saiu em uma partida de Libertadores, já em 2002. Nas quartas de final da competição, contra o Olimpia, o jovem atacante argentino abriu o placar aos 18 minutos. Em um cruzamento da esquerda para a direita, ele chegou completando, de primeira, sem muitas dificuldades. O Boca terminaria eliminado pelos paraguaios na soma das duas mãos, mas isso não tirou o brilho da temporada de Tévez.

Se em 2002 ele começava a se firmar, 2003 foi o palco para a explosão de seu talento. Formando uma dupla de ataque memorável com Marcelo Delgado, faturou a Libertadores daquele ano, marcando cinco gols na competição. Na final, anotou o primeiro do Boca contra o Santos em um Morumbi lotado. Enquanto fazia um pivô, Tévez tabelou com Sebastián Battaglia e, em uma troca de passes de primeira, bateu no cantinho de Fábio Costa, aumentando a vantagem no agregado para três tentos. O jogo terminou em 3 a 1 para os xeneizes em pleno território brasileiro.

Esse gol específico demonstrou um dos pontos fortes de Tévez: sua versatilidade. Um avante completo, sem exageros. Poderia ser um 9, já que tinha uma excelente finalização e sabia jogar de costas, da mesma forma que poderia ser um 10, com qualidade técnica para armar jogadas e achar bons passes. A forma que o deixava mais confortável em campo era de segundo atacante, função na qual podia aproveitar de seus chutes potentes de média distância e também sua velocidade, que, combinada com a capacidade de drible, o fazia um dos jogadores mais letais do mundo – ao mesmo tempo que contava com um espírito inabalável de um guerreiro.

No Mundial de Clubes daquele ano, o Boca Juniors encontrou uma esquadra italiana: o Milan de Carlo Ancelotti, que havia batido a Juventus na final da Champions League. Um time recheado de estrelas, como Kaká, Andriy Shevchenko, Paolo Maldini, entre outros, empatou no tempo normal com os argentinos. Nos pênaltis, Andrea Pirlo, Clarence Seedorf e Alessandro Costacurta desperdiçaram suas cobranças e fizeram os xeneizes serem campeões do mundo.

Em 2003, Carlitos ainda faturou o Apertura e marcou oito gols. No ano seguinte, a campanha na Libertadores foi frustrada por uma grande zebra. Eliminando o São Caetano nas quartas e o River Plate nas semi, o time azul e dourado encontrou o Once Caldas na decisão. Dois empates e decisão por pênaltis. Nenhum certo para o lado dos argentinos, e consagração para os colombianos.

Especulado em diversos clubes, principalmente da Europa, Tévez não ficou na Argentina e foi negociado. Quem o conseguiu tirá-lo de lá foi, surpreendentemente, o Corinthians. Em uma parceria nada transparente com a MSI, o Timão gastou cerca de 15 milhões de euros para adquirir a estrela – um valor estratosférico para qualquer agremiação brasileira.

Tal qual em outros clubes, Carlitos precisou de pouco tempo para conquistar a fiel torcida. Em uma temporada espetacular, Tévez foi eleito Rei da América em 2005, assim como nos dois anos anteriores. Líder técnico, foi artilheiro da equipe no Brasileirão, com 20 gols. Entre diversas exibições marcantes, sua tripletta contra o Santos em uma goleada histórica por 7 a 1 ficou marcada na história.

Em 2006, buscando ajudar a equipe do Parque São Jorge conquistar a Libertadores, parou no River Plate ainda nas oitavas de final. Carlos inaugurou o placar no Monumental de Núñez, na partida de ida, com um belo chute rasteiro de fora da área, mas acabou sendo em vão. Derrota na Argentina, derrota no Brasil. No âmbito nacional, nada que chamasse atenção do Corinthians: uma nona colocação, modesta, e que seria a última com o craque argentino em seu elenco.

Logo em seu primeiro ano na Juventus, o argentino contribuiu com uma média superior a um gol a cada dois jogos da Serie A (Getty)

Por motivos óbvios, sua qualidade, sua raça, sua idade, Tévez chamava muita atenção do futebol europeu. Pela seleção, teve grandes momentos que aumentaram ainda mais os holofotes do velho continente. Em 2004, faturou a medalha de ouro na Olimpíada de Atenas, sendo artilheiro da equipe no torneio. Dois anos depois jogou a Copa do Mundo da Alemanha e marcou um gol, na goleada por 6 a 0 contra Sérvia e Montenegro. Após fintar dois marcadores, colocou a bola no cantinho.

Inegavelmente um talento, o até então camisa 10 do Corinthians se transferiu para o West Ham no último dia da janela de verão europeia, ao lado de seu compatriota Javier Mascherano. Ambos foram cedidos sem custos aos Hammers, pois pertenciam à MSI, que seguiu como dona dos direitos dos atletas – o que se mostraria um problema para o clube inglês. No fim das contas, foi um negócio que valeu, e muito, pelo excelente custo-benefício.

O resultado final foi ótimo, o começo não. Nas suas primeiras 19 partidas, Tévez sequer balançou as redes, enquanto Mascherano foi emprestado para o Liverpool. Na rodada 28, o West Ham amargava a lanterna da competição. A virada de chave só veio em março: Carlitos fez uma esplêndida reta final de Premier League, marcando sete gols em 10 jornadas e ajudando com mais quatro assistências. Entre os tentos, o mais marcante certamente foi o contra o Manchester United, em pleno Old Trafford. Vitória por 1 a 0 no jogo derradeiro da competição.

Sua passagem relâmpago por Londres terminava ali. A vítima da última partida da Premier League se tornaria a próxima casa. Sob o comando de Sir Alex Ferguson, fez uma excelente parceria de ataque jogando ao lado de Wayne Rooney, e serviu muitas vezes aquele que viria ser eleito melhor do mundo – Cristiano Ronaldo. Foram anos dourados com os Red Devils, empilhando títulos atrás de títulos.

Logo de cara, Carlitos conquistou a Premier League e a Champions League. Na campanha continental, foi peça importante para a eliminação da Roma naquele ano. No jogo na Inglaterra, marcou o único gol do duelo. Em noite de milagres de Doni, Daniele De Rossi isolou um pênalti, e Tévez marcou de peixinho. O agregado dessas quartas de final foi de 3 a 0 para os ingleses. Na final, o United bateu o Chelsea nos pênaltis, com o argentino convertendo a segundo cobrança.

Em mais uma temporada sensacional, novamente o Manchester conquistou a Premier League e ainda levou a Copa da Inglaterra e o Mundial de Clubes. Já na UCL, bateu na trave. Chegando na final, dessa vez sem italianos pelo caminho, a equipe de Ferguson não foi capaz de triunfar sobre o Barcelona de Pep Guardiola.

Essa foi a última exibição de Carlos Tévez com a camisa vermelha. Insatisfeito por não ser titular absoluto, o que se complicava ainda mais após a chegada de Dimitar Berbatov ao elenco, o argentino sentia que precisava de um projeto no qual fosse protagonista. Quem surgiu foi justamente o rival, do lado azul. Investindo pesado com o dinheiro dos, àquela altura, novos donos, o Manchester City viu no vizinho a oportunidade de levar um craque para a equipe. E não pensou duas vezes antes de desembolsar algo próximo a 25 milhões de libras.

Sair diretamente para um rival, ainda mais reclamando do treinador, lenda do clube, não é algo que faria a despedida de Tévez ser mais amorosa – muito pelo contrário. Detestado pelos torcedores dos Red Devils, Carlitos chegava no City com impacto e referência de um novo projeto esportivo. O sucesso foi imediato: mesmo com a equipe terminando em quinto lugar, o camisa 32 teve uma prestação fantástica, terminando em quarto na artilharia geral, marcando 23 gols.

Além de um número elevado de gols, que ajudaram a Juventus a faturar taças, Tévez também anotou tentos em clássicos, como contra o Milan (Getty)

Na temporada seguinte, mesmo com menos bolas na rede, foi crucial para tirar o Manchester City de uma fila de mais de 30 anos sem títulos. Inicialmente, Tévez ajudou os citizens a levantaram a FA Cup. Inclusive, com a faixa de capitão, foi ele quem levantou o troféu na decisão contra o Stoke. Ídolo absoluto, agora teria a chance de disputar novamente a Champions League, já que sua equipe terminou o campeonato nacional na terceira posição. Porém, seria no torneio continental que viveria sua maior crise.

Em um confronto válido pela fase de grupos, o Bayern Munique vencia os comandados de Roberto Mancini quando o treinador decidiu colocar Tévez em campo. A surpresa veio com a negativa do argentino. Mancio, claro, ficou furioso com a situação e até expôs o episódio em uma entrevista pós-jogo. O caso não pegou bem, o jogador foi afastado e a torcida ficou insatisfeita com a postura do craque.

Foram bons meses até Carlitos voltar aos gramados. Em outubro de 2011, antes de um clássico de Manchester disputado no Old Trafford, os adeptos de ambos os lados se uniram pelo ódio ao argentino. Foram colocadas caçambas, das cores vermelha e azul, com a seguinte frase, em inglês: jogue sua camisa do Tévez fora. O momento conturbado durou até que ele se desculpasse formalmente com seu treinador, o que aconteceu somente na reta final da temporada. Ele até jogou algumas partidas, mas o protagonismo do ataque ficou com outro portenho, Sergio Agüero, autor do gol que garantiu o título da Premier League.

Alternando entre o time titular e a reserva, Tévez teve mais uma boa presença no Inglês. Desta vez, em 2012-13, balanceou mais gols e assistências, com 11 e 12, respectivamente. na liga. Na Champions League, ficou devendo – e o clube foi eliminado pelo Borussia Dortmund nas oitavas. No seu último ato defendendo o Manchester City, guardou um tento contra o Chelsea na Community Shield, a Supercopa da Inglaterra. Uma marretada da entrada da área deixou Petr Cech imóvel e ajudou o a equipe a conquistar o troféu, em agosto.

Com apenas um ano de contrato restante, os dirigentes do Manchester City decidiram que era melhor vender o atacante do que perdê-lo de graça. Entre a concorrência de vários times, quem se deu melhor foi a Juventus. Bicampeã italiana sob o comando de Conte, a Vecchia Signora viu ali a oportunidade de melhorar um dos setores carentes da equipe – que, apesar de vitoriosa, ainda precisava de um elemento diferente no ataque.

Antes da aquisição do argentino, os atacantes da equipe estavam devendo. Vucinic, o melhor no italiano, fez apenas 10 gols. Quagliarella vinha atrás, com nove, e depois Matri, com oito, e Giovinco, com sete. Os tentos estavam pulverizados e ninguém era unanimidade na dupla de frente de Conte. Del Piero, em sua última temporada com a camisa bianconera, se despediu com três bolas nas redes na Serie A e deixou a 10 vaga. Camisa aposentada? Que nada, a nova contratação chegou e a pegou para si.

Em um primeiro momento, a atitude causou estranhamento na torcida bianconera, que fez bastante festa na chegada do reforço. Indiferente à desconfiança, Tévez negou sentir qualquer pressão de substituir o ídolo da Juve, e citou até que usou a camisa que pertencia a Diego Maradona enquanto atuava no Boca. Enfim, dito e feito. O impacto foi imediato e Carlitos também não foi a única contratação a fazer a diferença.

A custo zero também chegava em Turim Fernando Llorente. O centroavante espanhol também era mais um que aportava com o objetivo de colocar a bola para as redes e cumpriu sua função com primor. Uma ótima parceria se formava na Itália, e ambos, com características complementares, fizeram uma das melhores duplas de ataques da década de ouro da Juventus.

Comemoração com chupeta acabou se tornando marca registrada de Carlitos em Turim (Getty)

Já na estreia, Tévez deixou sua marca na vitória por 1 a 0 sobre a Sampdoria. Em ótima troca de passes pelo meio, Arturo Vidal encontrou Paul Pogba infiltrando na zaga blucerchiata e o francês só rolou para o Apache balançar as redes. O novo apelido, recebido na Velha Bota, é uma referência a seu bairro natal e aos índios apaches, conhecidos como guerreiros exemplares. Esse foi só o primeiro de muitos gols que encantaram a torcida bianconera.

Outro deles aconteceu contra o Milan, uma de suas vítimas favoritas. Em pleno San Siro, a Juve já vencia por 1 a 0 quando o Apache, a uma distância considerável, resolveu arriscar. Com uma sapatada, acertou a bola no travessão, mas ela explodiu no poste e desceu direto para o fundo das redes. Certamente um dos tentos mais memoráveis em sua passagem pela Itália.

Na Serie A inteira foram 19 marcados e a terceira posição na artilharia, ficando atrás apenas de Ciro Immobile e Toni. Seu parceiro de ataque, Llorente, terminou com 16 gols anotados. Ambos também contribuíram com muitas assistências: o camisa 10 deu sete, o “pivozão”, especialista em jogar de costas para a defesa, forneceu mais cinco.

Na liga, a temporada foi irretocável: 102 pontos, quase 90% dos possíveis. Nenhuma equipe italiana passou dos três dígitos de pontos. Em casa, 100% de aproveitamento, vencendo absolutamente todos os jogos. A decepção ficou pelo desempenho nas competições europeias.

Diante de Real Madrid, Kobenhavn e um forte Galatasaray, a Juventus ficou pelo caminho na fase de grupos da Champions League. A derrota na última rodada para os turcos, treinados por Mancini, graças a um gol do ex-interista Wesley Sneijder, em um jogo que foi separado em dois dias por causa da neve, foi o que sacramentou a passagem dos merengues e do time do holandês para as oitavas. Tévez ficou marcado: não guardou um tento sequer em nível continental, e era criticado por “sumir” nesse tipo de duelo.

“Rebaixada” para a Europa League, a equipe italiana passou a ter o objetivo de, claro, chegar à final da competição, que seria disputada no então Juventus Stadium. A pedra no sapato foi o Benfica: nas semifinais, Carlitos marcou na derrota por 2 a 1 no Estádio da Luz, mas os bianconeri não conseguiram sair do zero com os portugueses em Turim. Uma eliminação melancólica, visto o nível de futebol apresentado em âmbito nacional e a oportunidade de decidir o torneio continental em casa.

Mesmo sendo tricampeão italiano consecutivamente, Conte decidiu deixar a Juventus no verão de 2014. Divergências com a diretoria bianconera, principalmente por conta do comportamento no mercado de transferências (algo que iria se repetir depois, quando treinou a Inter) lhe fez optar por não seguir no comando da equipe. Para o seu lugar foi apontado Massimiliano Allegri, que potencializou seu trabalho.

Parte considerável da torcida da Juve se opunha à contratação de Allegri. Último campeão italiano antes dos bianconeri, venceu o scudetto com o Milan e vinha com objetivo de elevar o nível de competitividade do clube em nível europeu. Não precisou mais do que uma temporada para conquistar a confiança dos torcedores e, por muito pouco, já não alcançar a glória máxima.

Em 2014-15, Tévez chegou a brigar pela artilharia da Serie A (Getty)

Tévez e Llorente continuaram como a dupla de ataque da Juventus, mas o esquema mudou. O novo mister optou por uma linha de quatro defensores, deixando de lado o trio de zagueiros. Patrice Evra chegava como um lateral-esquerdo de ofício e, no meio-campo, Claudio Marchisio, Vidal, Pogba e Pirlo provaram que podiam atuar juntos, e não somente três deles, como acontecia no esquema anterior. Recordista de pontos, o time melhorou e ainda teve um reforço inesperado, que foi crucial na campanha na Champions League.

Álvaro Morata foi mais um atacante contratado em meio à saída de vários medalhões. Jovem, a promessa que vinha do Real Madrid não era cogitada como titular, e sim opção a seu compatriota. Durante a temporada, demonstrou ter uma estrela absurda, e virou o companheiro do Apache na reta final da campanha.

Indiscutivelmente o principal jogador da Vecchia Signora, Tévez fez outra Serie A soberba. Em 32 partidas no Campeonato Italiano, marcou 20 gols e ficou novamente atrás de Toni, com 22, e do compatriota Mauro Icardi, também com 22 tentos anotados. O começo arrasador de Carlitos foi algo notório.

Em seus primeiros cinco jogos, marcou seis gols, incluindo o decisivo na vitória por 1 a 0 sobre o Milan, em San Siro. Na casa do rival, o camisa 10 fez ótima tabela com Pogba e só tirou de Christian Abbiati, que caiu antes da finalização. Na comemoração, um gesto icônico: tirou uma chupeta do calção em homenagem ao seu filho.

Ainda no primeiro turno, viveu sua melhor partida com camisa do clube de Turim contra o Parma. Uma goleada arrasadora sobre os crociati: 7 a 0 fora o baile. Como se não bastasse ter feito dois gols no chocolate, Tévez provavelmente marcou o mais bonito de sua carreira. Se desvencilhando com muita garra, ainda no campo de defesa de um marcador adversário, ele partiu para cima da defesa gialloblù sozinho. Fintando um defensor após o outro, Carlitos terminou a jogada com uma meia-lua, ficando de frente para o arqueiro, e só o deslocou com um tapa sutil. Uma obra-prima, que, vira e mexe, é lembrada pelos bianconeri em suas redes sociais.

Além de driblador, o argentino também adorava os chutes de longa distância. Finalmente rendendo na Champions League, ele calou os críticos com uma exibição magistral contra o Borussia Dortmund na casa adversária, marcando duas vezes no confronto de volta das oitavas de final. Naquele que, talvez, tenha sido o melhor jogo de Tévez com a camisa bianconera, a Juventus amassou os alemães no Signal Iduna Park. Com uma bomba seca, a uma boa distância da meta, o camisa 10 abriu o placar. Na sequência, daria uma assistência para Morata e faria mais um, completando a goleada por 3 a 0.

Com uma equipe sólida, Allegri e seus jogadores foram avançando no torneio. Depois de passarem com 1 a 0 magro sobre o Monaco, o adversário pelo caminho era Real Madrid. Sem conseguir vitórias em nenhuma das duas partidas na temporada anterior, em que caíram no mesmo grupo, a Velha Senhora escreveu uma história diferente sob o comando de um novo treinador. E, desta vez, o Apache foi decisivo.

No primeiro jogo, em Turim, além da estrela de Morata, brilhou também a do craque argentino. Além de sofrer pênalti, Carlos chamou a responsabilidade para converter a cobrança. Contra um experiente Iker Casillas, foi na bola de segurança. Forte, no meio, garantindo a vantagem de 2 a 1 para o confronto do Santiago Bernabéu. Na volta, novamente o iluminado camisa 9 da Juve marcou contra sua antiga equipe e a partida terminou empatada. A Vecchia Signora estava na final.

Em dois anos, Tévez levantou três taças pela Juventus (AFP/Getty)

O adversário pela frente era o Barcelona de Lionel Messi, Neymar e Luis Suárez. Um trio de respeito, que ficou ainda mais difícil de ser parado com a lesão de Chiellini, antes do confronto. Andrea Barzagli assumiu o seu lugar, mas não foi o suficiente: três gols da equipe catalã contra apenas um dos bianconeri. Novamente, Morata foi o responsável pelo tento solitário ao aproveitar o rebote de um chutaço de Tévez. E essa foi a última exibição do camisa 10 com as cores da Juventus.

Carlitos decidiu que era hora de voltar para casa. A Juventus não fez jogo duro e resolveu negociar o atacante com o Boca Juniors. Com três promessas envolvidas nas negociações, entre elas Rodrigo Bentancur, que se tornaria titular da equipe piemontesa, Tévez voltou à Argentina com status de estrela mundial, e ainda com 31 anos. Na Itália, foram 97 aparições e 50 gols marcados, no alto nível europeu, e muito se esperava de seu retorno ao futebol sul-americano.

Carlos não cobiçava mais a seleção argentina. Em 2014, ficou de fora da convocação para a Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil. Quatro anos antes, havia feito sua última aparição no torneio, com direito a um golaço contra o México, quando acertou um belíssimo chute de longe. Seu foco já estava direcionado a vencer com seu time de coração – e ele fez jus às suas promessas.

Em duas temporadas, faturou duas vezes o Campeonato Argentino. Carlitos guardou 25 gols em 56 partidas, até ser negociado com o futebol chinês. O Shanghai Shenhua fez uma proposta que seria tanto benéfica para o clube quanto para o jogador, e ambos decidiram por aceitá-la por questões financeiras. Não durou muito: depois de um ano na Ásia, novamente estava de volta, mas com outro status.

Já sendo um jogador experiente, continuou no clube argentino até o fim da carreira. Conforme a idade foi aumentando, seus minutos em campo foram diminuindo. Problemas com lesões, e claro, aquela explosão que se perdeu, levaram Tévez a perder espaço no elenco xeneize. Mas, ainda assim, era visto como uma importante figura de liderança. Depois de mais quatro anos de Boca Juniors, chegou o momento da aposentadoria.

De 2021 até o meio de 2022, Carlos teve um ano em que não jogou. Estava sem contrato, mas também não anunciou se continuaria ou não a ser profissional. A perda do pai adotivo, de acordo com Tévez, acelerou o processo do fim da carreira. Segundo era seu principal fã, e o seu falecimento, em 2021 foi uma das coisas que o desmotivou a continuar praticando futebol. “Acordei um dia e disse: ‘Não jogo mais para ninguém’. Creio que foi a única vez que pensei realmente em mim. Tinha perdido meu fã número 1 e isso fez com que não tivesse mais vontade de jogar futebol”, contou o craque à América TV.

Mas isso não significa o fim de Tévez no mundo do esporte. Decidido a seguir um novo caminho como treinador, ele já encontrou seu primeiro clube. Em junho de 2022, Carlitos foi anunciado como técnico do Rosario Central, aos 38 anos de idade. O jovem professor estreou com derrota. Independentemente disso, não se abalou. Ficou feliz com a nova experiência e certamente vai fazer valer de sua determinação e talento para chegar no topo à frente de um time de futebol.

Carlos Alberto Martínez Tévez
Nascimento: 05 de fevereiro de 1984, em Ciudadela, Argentina
Posição: atacante
Clubes: Boca Juniors (2002-05, 2015-17 e 2018-21), Corinthians (2005-06), West Ham (2006-07), Manchester United (2007-09), Manchester City (2009-13), Juventus (2013-15) e Shangai Shenhua (2017-18)
Títulos: Copa Libertadores (2003), Ouro Olímpico (2004), Campeonato Argentino (2004, 2015, 2017, 2018 e 2020), Copa Sul-Americana (2004), Mundial de Clubes (2004 e 2008), Campeonato Brasileiro (2005), Champions League (2008), Premier League (2008, 2009 e 2012), Community Shield (2008, 2010 e 2013), Copa da Inglaterra (2009), FA Cup (2011), Serie A (2014 e 2015), Supercopa Italiana (2014), Copa da China (2017) e Copa da Liga Argentina (2020)
Clubes como treinador: Rosario Central (2022-hoje)
Seleção argentina: 76 jogos e 13 gols

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