Jogos históricos

Gols de Gianluca Vialli deram o primeiro título europeu à Sampdoria, em 1990

Quando Paolo Mantovani assumiu a presidência da Sampdoria, no final da década de 1970, os genoveses não haviam conquistado nada além de uma Serie B e tampouco frequentavam torneios europeus – com exceção de uma participação na extinta Copa das Feiras, que não era organizada pela Uefa. No meio da era Mantovani, os três títulos faturados da Coppa Italia permitiram ao time uma constante presença entre os grandes do continente.

A primeira aventura internacional dos blucerchiati aconteceu na Recopa Uefa de 1985-86. No entanto, a participação não durou muito: os comandados de Eugenio Bersellini caíram para o Benfica, na segunda eliminatória. Nessa mesma competição, cerca de três anos depois, o esquadrão treinado pelo sérvio Vujadin Boskov chegou à final, mas tentos de Julio Salinas e Luis López Rekarte deram o título ao Barcelona. Mais uma chance surgiu na temporada seguinte, e a boa campanha culminaria, enfim, na inesquecível decisão contra o Anderlecht.

As jornadas até a finalíssima em Gotemburgo

Em 1989, a Samp de Gianluca Vialli e Roberto Mancini derrotou o Napoli na final da Coppa Italia. Para além do troféu, os dorianos ganharam a vaga na Recopa Europeia, extinta competição em que os clubes campeões das taças nacionais duelavam entre si. Era a oportunidade de superar a amarga decisão do ano anterior, perdida para os blaugranas.

Sampdoria e Anderlecht chegaram à decisão após caminhos complicados, mas só um time jogou em Gotemburgo (imago)

O primeiro desafio, contra o Brann, não foi tão difícil. Na partida disputada na Noruega, Vialli marcou com assistência de Giuseppe Dossena. Após um magistral domínio, Mancini fez o segundo gol. Já no Marassi, o esloveno Srecko Katanec marcou.

Nas oitavas, a Samp encarou o Borussia Dortmund. Um gol de Jürgen Wegmann assustou os dorianos, no Westfalenstadion, onde uma multidão acompanhava os alemães. Com sorte, a bola sobrou para Mancini nos minutos finais e ele não desperdiçou, decretando o 1 a 1. Em Gênova, já aos 74 minutos, Vialli entrou dentro da área driblando o zagueiro aurinegro, que cometeu um pênalti atrapalhado – convertido pelo atacante. Já no fim da peleja, Mancini fez boa jogada e passou para Fausto Salsano, mas o meia deixou a bola para Vialli anotar a sua doppietta e garantir a classificação italiana.

Treinado por Ottmar Hitzfeld, o Grasshopper, da Suíça, foi o adversário dos dorianos nas quartas de final. Na primeira partida, no Marassi, Mancini bateu falta e Pietro Vierchowod completou de cabeça. Perto do fim, o zagueiro Urs Meier fez um bizarro gol contra e fechou o placar em 2 a 0. Em Zurique, Toninho Cerezo abriu o placar; os helvéticos empataram minutos depois, mas um tento de Attilio Lombardo confirmou a classificação dos blucerchiati.

Carboni teve papel importante na semifinal, mas pouco apareceu na decisão contra o Anderlecht (Allsport)

O Monaco, comandado por um jovem Arsène Wenger, entrou no caminho doriano como o time a ser batido. Os monegascos contavam com os talentosos Ramón Díaz e George Weah no ataque. Em Fontvieille, comuna no principado de Mônaco, onde localiza-se o estádio Louis II, milhares de torcedores – alguns da Samp – ocupavam as arquibancadas.

Quando em sintonia, Weah e Díaz causavam pânico na zaga blucerchiata. Ainda no primeiro tempo, o liberiano abriu o placar com uma cabeçada. Mas a Samp também tinha seus atacantes. Vialli sofreu pênalti aos 75 e ele mesmo o converteu. Bastaram três minutos para o segundo gol do lombardo, ocasionado após um certeiro cruzamento de Mancini. No jogo dos artilheiros, Díaz pôs a bola nas redes outros 180 segundos depois.

A decisão ficou para o jogo de volta, disputado no Marassi. Na partida, aos 9 minutos os dorianos já haviam marcado, com Vierchowod aparecendo no ataque. Mais adiante, Amedeo Carboni passou para Lombardo, que fez 2 a 0. Um ano depois do desenlace em Berna, contra os culés de Johan Cruyff, a Samp tinha mais uma chance de conquistar um título europeu.

O nigeriano Keshi tentou conter Mancini, mas a Sampdoria mandou no jogo mesmo assim (Allsport)

O concorrente, Anderlecht, também teve ótima campanha. A equipe belga era treinada por Aad de Mos, vencedor do torneio com o Mechelen, em 1988, começou bem: na primeira fase, atropelou o Ballymena United, da Irlanda do Norte, construindo placar agregado de 10 a 0. Nas quartas, os mauves et blancs enfrentaram o Barcelona. Em Bruxelas, surpreendentemente, superaram os campeões por 2 a 0. Já na volta, os catalães repetiram o placar. A partida foi para prorrogação, e um estrelado Marc Vanderliden fez o tento da classificação.

Antes de chegar à decisão, os violetas ainda passaram pelos austríacos do Admira Wacker (3 a 1) e pelos romenos do Dinamo Bucareste (2 a 0). Em sua quarta final da competição, os belgas teriam a chance do tricampeonato.

O jogo de Vialli

Para a partida que seria disputada no estádio Ullevi, em Gotemburgo, segunda maior cidade da Suécia, o competitivo Boskov escalou sua equipe com o que tinha disponível. Gianluca Pagliuca era o primeiro nome, seguido pelo grande líder da defesa, Vierchowod. Os dois volantes, Fausto Pari e Katanec, cobriam as aventuras de Dossena ao ataque. Na frente, os já conhecidos Mancini e Vialli constituíam a força ofensiva.

Salsano entrou na prorrogação e teve participação decisiva na vitória (Allsport)

Por sua vez, o Anderlecht contava com os bons defensores Georges Grün e Stephen Keshi, além dos meio-campistas Charly Musonda, Patrick Vervoort, Árnor Gudjohnsen e Milan Jankovic – todos nomes frequentes nas seleções de seus países; respectivamente Zâmbia, Bélgica, Islândia e Iugoslávia. No ataque, se destacavam Marc Degryse e Vanderliden, da equipe nacional belga. Os jovens atacantes Luc Nilis e Luís Oliveira, que também escreveriam suas histórias pelos Diabos Vermelhos, estavam no banco.

Cerca de 6 mil torcedores dorianos acompanhavam o jogo em Gotemburgo. Inspirada, a Sampdoria teve diversas chances no primeiro tempo, mas todas acabariam sendo desperdiçadas. Vierchowod, com uma potente cabeçada, parou no goleiro belga Filip De Wilde. Mancini, num lance oportuno, tentou uma cavadinha, mas Guy Marchoul tirou a bola quase em cima da linha. Grande nome até então, De Wilde ainda defendeu um chute à queima-roupa de Giovanni Invernizzi.

Na segunda parte, Lombardo, que tinha começado na reserva, entrou no lugar de Invernizzi. Com exceção de uma tentativa de Pari, defendida por De Wilde, nada ocorreu nos 45 minutos finais. Então, foi preciso do tempo extra. Neste capítulo, o protagonista tinha nome e sobrenome: Gianluca Vialli.

O presidente Mantovani, na chegada à Itália, exibe o troféu continental blucerchiato (Arquivo/Sampdoria)

Quando era jogado o último minuto do primeiro tempo da prorrogação, aos 105, Salsano, que havia entrado minutos antes, efetuou um potente chute, que foi desviado levemente por De Wilde e explodiu na trave. Em seguida, a bola voltou para as mãos do arqueiro, que não conseguiu segurá-la por conta do terreno acidentado. Isso permitiu que Vialli aparecesse como um raio e roubasse a pelota antes de empurrá-la para dentro.

Logo no início do segundo tempo, outra vez Vialli apareceu de forma decisiva. Após receber de Salsano, na linha de fundo, Mancini efetuou um cruzamento impecável, na direção da cabeça do camisa 9, que não deu chances ao goleiro belga. A doppietta do centroavante foi um verdadeiro balde de água fria no Anderlecht, que não conseguiu reagir. Ao fim do jogo, o capitão Luca Pellegrini levantou o inédito troféu europeu dos blucerchiati.

O título da Recopa Uefa é, até hoje, um dos mais lembrados pelos torcedores da Samp. Afinal, foi a única conquista internacional da agremiação, de modo que os gols de Vialli naquela noite dificilmente deixarão o imaginário blucerchiato algum dia. A apoteose da era Mantovani viria logo no ano seguinte, com o scudetto. E, em 1992, a final da Copa dos Campeões, novamente perdida para o algoz Barcelona, se juntaria às aventuras dorianas na Europa, como essa vivida em Gotemburgo.

Sampdoria 2-0 Anderlecht

Sampdoria: Pagliuca; Mannini, Vierchowod, Pellegrini, Carboni; Invernizzi (Lombardo), Katanec (Salsano), Pari, Dossena; Mancini, Vialli. Técnico: Vujadin Boskov.
Anderlecht: De Wilde; Grün, Keshi, Marchoul, Kooiman; Gudjohnsen, Jankovic (Oliveira), Musonda, Vervoort; Degryse (Nilis), Vanderlinden. Técnico: Aad de Mos.
Gols: Vialli (105′ e 107′)
Árbitro: Bruno Galler (Suíça)
Local e data: estádio Ullevi, Gotemburgo (Suécia), em 9 de maio de 1990

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