Jogos históricos

Pippo Inzaghi calou 100 mil ao fazer a Juventus superar um forte Dynamo Kyiv, em 1998

Na segunda metade da década de 1990, a Juventus foi a grande esperança de títulos para o futebol italiano na Champions League. A conquista da competição em 1995-96 e o vice no ano seguinte mostravam a força do elenco e a competência do técnico Marcello Lippi, responsável pelo ciclo positivo. Na temporada 1997-98, o clube bianconero foi novamente até a final do torneio e, para chegar até a decisão, precisou superar, no mata-mata, um Dynamo Kyiv pentacampeão consecutivo no Campeonato Ucraniano.

Depois da derrota para o Borussia Dortmund, na final de 1997, a Juventus se sagrou campeã da Serie A e garantiu vaga direta na fase de grupos da Champions League seguinte. A equipe italiana foi sorteada no Grupo B, ao lado de Manchester United, Feyenoord e Kosice, e concluiu a sua participação com 12 pontos – perdeu para ingleses e holandeses fora de casa, mas venceu os outros quatro jogos e terminou em segundo lugar na chave.

Na época, a Champions League tinha seis grupos e apenas os dois melhores segundos colocados avançavam para as quartas de final. No ranking entre os vice-líderes, o Bayer Leverkusen ficou com 13 pontos e garantiu sua vaga. Já a Juventus empatou com o Paris Saint-Germain, com 12, mas levou a melhor no saldo de gols e se classificou para enfrentar um surpreendente Dynamo Kyiv, treinado pelo lendário Valeriy Lobanovskyi e, em campo, liderado pelos jovens Andriy Shevchenko e Serhiy Rebrov.

O Dynamo Kyiv vivia a sua melhor fase no cenário nacional: de 1992 até 2001 o time foi o campeão da liga de seu país, com direito a título invicto conquistado em 2000. Na Champions League, os bilo-syni também estavam prontos para fazer história, após superarem Barry Town (6 a 0 no placar agregado) e Brondby (4 a 3), nos playoffs de acesso à fase de grupos.

Ainda garoto, Shevchenko incomodou bastante a Juventus nos duelos com o Dynamo Kyiv (Getty/Icon Sport)

A equipe de Lobanovskyi ficou na chave C, ao lado de PSV Eindhoven, Newcastle e Barcelona, e não se acanhou. Os ucranianos somaram 11 pontos graças a resultados impactantes, como os triunfos por 3 a 0 e 4 a 0 sobre o Barcelona de Pep Guardiola, Luís Figo, Luis Enrique, Rivaldo, Giovanni e Sonny Anderson. Na goleada sobre o time treinado por Louis van Gaal, em pleno Camp Nou, Shevchenko brilhou com uma tripletta.

Juventus e Dynamo Kyiv jamais haviam se encontrado em jogos oficiais. A primeira partida entre os clubes aconteceria no dia 4 de março, no estádio Delle Alpi, e colocaria frente a frente uma equipe que buscava a terceira final consecutiva e um time que não estava cotado para disputar o título, mas vivia ascensão meteórica. Com a bola rolando, o confronto entregou o prometido.

A Juve foi dominante na primeira etapa e teve, como melhor chance, uma finalização de Alessandro Del Piero explodindo no travessão de Oleksandr Shovkovskyi. Porém, o futebol é traiçoeiro e, no começo do segundo tempo, um escanteio mudou tudo. O capitão Yuriy Kalitvintsev surgiu para cabecear, a bola rebateu em Del Piero e Andriy Husin enfiou o pé para abrir o placar para o Dynamo Kyiv.

Só que, 13 minutos depois, aos 69, Filippo Inzaghi começou a aparecer no confronto. Pippo, que reforçara a Velha Senhora no início da temporada, em sua primeira oportunidade numa gigante italiana, recebeu cruzamento de Edgar Davids e obrigou o arqueiro adversário a fazer bela defesa em sua testada. No rebote, o próprio centroavante definiu o empate por 1 a 1.

Sempre genial, Zidane forneceu três assistências e foi “coadjuvante de luxo” do show de Inzaghi na Ucrânia (Getty/Icon Sport)

Duas semanas depois, no dia 18 de março, a Juventus precisaria de uma vitória simples ou de empate por dois ou mais gols para se classificar e deixar o Dynamo pelo caminho. No entanto, a Velha Senhora precisaria lutar contra uma força maior do que a de um mero time: o estádio Olímpico de Kyiv recebeu cerca de 100 mil torcedores, que não se importavam com a temperatura de 1 grau negativo e com a chance de que a nevasca que caiu mais cedo voltasse a atormentar a capital da Ucrânia. O objetivo era incentivar a equipe e, sem dúvidas, a pulsante arena seria um ambiente hostil para os italianos.

O Dynamo Kyiv foi a campo no habitual 4-4-2 trabalhado por Lobanovskyi, enquanto Lippi fez pequenas trocas na Juventus: Gianluca Pessotto substituiu Moreno Torricelli na lateral esquerda e Antonio Conte entrou na vaga de Angelo Di Livio, o que levou o treinador a deixar de lado o espelhamento do esquema adversário para apostar num 4-3-1-2, com Zinédine Zidane em suporte a Del Piero e Inzaghi. De início, a estratégia dos ucranianos foi mais eficiente: os donos da casa mandavam no jogo e Shevchenko era muito ativo. O atacante armava jogadas, driblava com facilidade e, com apenas 21 anos, demonstrava que seria um craque.

Só que quem abriu o placar foi a Juventus. Aos 29 minutos, Del Piero acionou Zidane na grande área e o francês, que se infiltrava, ganhou de Husin na velocidade e deixou Serhiy Bezhenar sentado no chão antes de apenas rolar para Inzaghi empurrar para as redes. Com a desvantagem no confronto e precisando de ao menos um gol para levar o duelo para a prorrogação, o Dynamo Kyiv ficou obrigado a sair mais para o jogo e viu a Juve criar mais, embora sem levar perigo.

O time da casa chegou ao empate no início do segundo tempo, depois da conversa que Lobanovskyi teve com os jogadores. Aos 52 minutos, os 100 mil presentes no Olímpico comemoraram o gol de Rebrov, depois de Angelo Peruzzi dar rebote no chute de longe e permitir que o atacante empurrasse para a meta vazia. Só que a alegria dos mandantes durou pouco, já que a Juventus estava disposta a esfriar novamente a noite ucraniana.

No jogo de volta, Del Piero encerrou a vitória da Juventus sobre o Dynamo Kyiv (Getty/Icon Sport)

Aos 65 minutos, Zidane cobrou escanteio na medida para Inzaghi, no primeiro pau, ganhar de Yuriy Dmytrulin e marcar outra vez, com cabeceio potente. Aos 73, praticamente um replay, mas com coadjuvantes e localizações distintas. Del Piero bateu o corner na segunda trave e Pippo superou Bezhenar para testar para as redes de Shovkovskyi. O centroavante anotava, dessa forma, a quinta tripletta de sua carreira e a primeira tanto pela Juventus quanto por competições continentais.

Oleksandr Radchenko, que entrou no time do Dynamo Kyiv na segunda etapa, teve a chance de ouro para diminuir e colocar emoção na partida, mas Peruzzi fez uma ótima defesa para evitar o tento ucraniano. A oportunidade perdida esmoreceu os mandantes, que viam a Juventus, com expressiva vantagem, cadenciar o jogo. Já no fim da peleja, quando Inzaghi tinha deixado o campo para ter um merecido descanso, os seus escudeiros no combate assumiram a bronca: Zidane efetuou sua terceira assistência da noite e Del Piero, com arremate cruzado, marcou o quarto gol.

Depois de avançar sobre o Dynamo Kyiv com placar agregado de 5 a 2, a Juventus passaria pelo Monaco nas semifinais (6 a 4) e, na decisão, seria derrotada pelo Real Madrid por 1 a 0 – gol de Predrag Mijatovic. Naquela mesma temporada, a equipe treinada por Lippi seria campeã da Serie A novamente.

O Dynamo Kyiv, por sua vez, ainda melhoraria o seu desempenho em nível continental. O time de Lobanovskyi amadureceu com a eliminação para a Juventus e, em 1998-99, com um Shevchenko imparável, simplesmente derrotou o então campeão Real Madrid nas quartas de final. Sheva anotou os três gols dos ucranianos no confronto e ainda fez mais dois contra o Bayern Munique, sem conseguir evitar a queda a um passo da decisão.

Shevchenko teria dias mais felizes na Champions League em 2002-03, quando reencontrou a Juventus – e justamente na final do torneio. Naquela temporada, os bianconeri voltaram a sentir o gostinho de alcançarem a finalíssima, o que não ocorria desde 1998. Para a infelicidade da gigante de Turim, o desfecho foi o mesmo: a Velha Senhora amargou o vice e Sheva, dando a volta por cima, converteu o pênalti decisivo para o Milan. E Inzaghi, então camisa 9 rossonero, sorriu de novo.

Juventus 1-1 Dynamo Kyiv

Juventus: Peruzzi; Birindelli (Conte), Iuliano, Montero, Torricelli (Dimas); Di Livio (Fonseca), Deschamps, Davids; Zidane; Del Piero, Inzaghi. Técnico: Marcello Lippi.
Dynamo Kyiv: Shovkovskyi; Luzhnyi (Radchenko), Holovko, Bezhenar, Dmytrulin (Volosyanko); Gerasimenko (Mykhaylenko), Kalitvintsev, Husin, Kosovskyi; Shevchenko, Rebrov. Técnico: Valeriy Lobanovskyi.
Gols: Inzaghi (69′); Husin (56′)
Árbitro: Paul Durkin (Inglaterra)
Local e data: estádio Delle Alpi, Turim (Itália), em 4 de março de 1998

Dynamo Kyiv 1-4 Juventus

Dynamo Kyiv: Shovkovskyi; Dmytrulin, Holovko, Bezhenar, Khatskevich (Radchenko); Gerasimenko, Kalitvintsev (Kardash), Husin, Kosovskyi; Shevchenko, Rebrov. Técnico: Valeriy Lobanovskyi.
Juventus: Peruzzi; Birindelli (Dimas), Iuliano, Montero, Pessotto; Davids, Deschamps, Conte; Zidane; Del Piero, Inzaghi (Tacchinardi). Técnico: Marcello Lippi.
Gols: Rebrov (54′); Inzaghi (29′, 65′ e 73′) e Del Piero (88′)
Árbitro: Marc Batta (França)
Local e data: estádio Olímpico, Kyiv (Ucrânia), em 18 de março de 1998

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