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Aristide Guarneri, o defensor cavalheiresco da Grande Inter

No futebol contemporâneo não é incomum vermos zagueiros que joguem muito limpo, cometam poucas faltas e recebam número ainda menor de cartões amarelos. Nas décadas de 1950 e 1960, tempos em que o filho chorava e a mãe não via, era diferente: os beques eram muito mais faltosos e o jogo era muito mais violento. Naquele período do esporte era raríssima a correção que marcou a trajetória de Aristide Guarneri, defensor que se destacou com a camisa da Inter. Em mais de 500 partidas como profissional, nunca foi expulso.

Natural de Cremona, sul da Lombardia, Guarneri deu seus primeiros passos no futebol justamente na província em que nasceu. Aristide começou na escolinha da amadora Juventina e, em 1956, foi notado pelo Codogno. Os blubianchi disputavam a Promozione, sexta divisão italiana, mas o defensor mostrou que tinha nível bem superior ao daquela categoria. Assim, apenas uma temporada depois de estrear, foi adquirido pelo Como e, aos 19 anos, chegou à Serie B.

Guarneri era um terzino – ou seja, para os padrões táticos da época, um zagueiro que atuava mais fixo, vigiando as zonas laterais. Nessa função, pelo lado esquerdo, o garoto foi lançado como titular dos lariani pelo técnico argentino Hugo Lamanna e não perdeu mais a posição no onze inicial. Os comascos terminaram a segundona com a oitava colocação e Aristide galgou mais um degrau: suas 32 partidas chamaram a atenção de gigantes da Serie A. Risti chegou a negociar com a Juventus, seu time do coração, mas parou na Inter – terceira maior campeã italiana àquela altura, com sete scudetti conquistados.

A Inter o adquiriu com a intenção de fazê-lo jogar na lateral. Contudo, o baixo rendimento de Amos Cardarelli como zagueiro central mudou o seu destino: o meia Giovanni Invernizzi, um dos líderes do elenco nerazzurro, sugeriu ao técnico Aldo Campatelli que testasse Guarneri naquela função. Dali, Aristide nunca mais saiu: insuperável no jogo aéreo, hábil nas antecipações e inabalável no corpo a corpo, o defensor superou dois primeiros anos medianos de uma Beneamata sem projeto definido e, a partir de 1960, sob as ordens de Helenio Herrera, se tornou um dos melhores jogadores de sua época.

Guarneri se destacou pela correção nos gestos técnicos e nos duelos com os adversários (Arquivo/Inter)

Em sua chegada, o Mago Herrera fez alterações técnicas e táticas. Pediu a contratação do veterano goleiro Lorenzo Buffon, escalou a defesa com o capitão Armando Picchi como líbero e Guarneri já adaptado ao posto de zagueiro central, além de utilizar Franco Zaglio como principal volante de contenção. Esse arranjo dava liberdade para que Mario Corso trabalhasse na ala esquerda em apoio aos atacantes Eddie Firmani e Antonio Angelillo. O rendimento da Inter melhorou e o time foi terceiro colocado da Serie A, semifinalista da Copa das Feiras (precursora da Liga Europa) e foi até às quartas da Coppa Italia.

Nas graças do treinador, Guarneri foi o jogador mais utilizado naquela temporada e nas duas seguintes: 1961-62, na qual a equipe nerazzurra foi vice-campeã italiana, e 1962-63, que marcou a conquista do scudetto e inaugurou a chamada Grande Inter. Foi justamente em 1962 que Herrera pode formar pela primeira vez a sua fantástica linha defensiva, com os já citados Risti e Picchi, o contratado Tarcisio Burgnich e o jovem Giacinto Facchetti, que galgou espaço entre os titulares. O quarteto permaneceu unido até 1967.

Naquela retaguarda, considerada como uma das mais fortes da história do futebol italiano, Guarneri nem precisava ser rude para parar os atacantes adversários. Seu tempo de bola, elegância e agilidade para se sobressair, aliados à sua correção, renderam ao jogador o apelido de “zagueiro cavalheiro”. “Sempre achei que o atleta tinha que ser justo em campo. Eu apostava minhas fichas na antecipação e sabia que Picchi completaria o serviço se eu fosse superado”, declarou Aristide ao site oficial da Inter, em 2018.

Em alta, Guarneri estreou pela seleção italiana ao fim da temporada 1962-63, num amistoso vencido sobre o Brasil de Pelé por 3 a 0. Risti se manteve no radar do técnico Edmondo Fabbri nos anos seguintes, uma vez que era um dos protagonistas de uma Inter em fase esplendorosa. A Beneamata foi bicampeã europeia em 1964 e 1965 e, nas decisões, contra Real Madrid e Benfica, Aristide brilhou: neutralizou Ferenc Puskás e Eusébio, respectivamente.

No Derby della Madonnina de 1959-60, Guarneri já era titular nerazzurro (Arquivo/Inter)

Além dos títulos da Copa dos Campeões de 1964 e 1965, Guarneri conquistou o bi do Mundial Interclubes nos mesmos anos e acrescentou a seu currículo os scudetti de 1965 e 1966. Aristide era absoluto no time mais vitorioso da Itália na época, mas isso não garantiu a sua vaga entre os titulares da seleção na Copa do Mundo da Inglaterra. Fabbri optou por Francesco Janich, do Bologna – o zagueiro rossoblù, inclusive, apelidou o interista como Polpaccio (“batatão”, em livre tradução), em virtude das avantajadas panturrilhas do colega. Risti só entrou em campo uma vez na competição: justamente na derrota contra a Coreia do Norte, que resultou na vexatória eliminação azzurra.

Sem qualquer culpa pela queda, Guarneri foi um dos que remanesceram na seleção mesmo depois do baque e da demissão de Fabbri. Em novembro de 1966, inclusive, o lombardo fez o seu único gol pela Itália ao decretar a vitória por 1 a 0 sobre a União Soviética do mitológico arqueiro Lev Yashin. Aristide teve lugar cativo na Nazionale de Ferruccio Valcareggi até 1968, quando disputou as finais da Eurocopa contra a antiga Iugoslávia e se sagrou campeão continental em sua derradeira partida com o manto azul.

Àquela época, o defensor já havia deixado a Inter. O fizera em 1967, juntamente a Picchi: veterano, Armando foi para o pequeno Varese, enquanto Aristide, que ainda tinha lenha para queimar, rumara ao Bologna. Guarneri passou apenas uma temporada na Emília-Romanha por dificuldades de adaptação, mas foi titular no período, ajudando os rossoblù a ficarem com a quinta colocação da Serie A (dividida com a própria Inter) e entre os quatro primeiros da Coppa Italia e da Copa das Feiras.

Com 30 anos, Aristide iniciava sua decadência física. Depois de sua única temporada no Bologna, passou por um ano infeliz no Napoli e, em 1969, voltou à Inter – já treinada pelo paraguaio Heriberto Herrera. Guarneri, porém, quase não teve vez com o xará do treinador que o potencializara: só entrou em campo cinco vezes em toda a campanha nerazzurra e acabou rescindindo o contrato. No total, o zagueiro fez 335 partidas pela Beneamata.

Pela Itália, o defensor jogou uma Copa do Mundo e ganhou uma Eurocopa (imago/Pressefoto Baumann)

Guarneri passou alguns meses sem clube e chegou a rejeitar uma oferta do Palermo, que disputava a segunda divisão. Em janeiro de 1971, então, seguiu o seu coração e acertou com a Cremonese, equipe de sua cidade, então na Serie D. Pelos grigiorossi, Risti utilizou a braçadeira de capitão, triunfou na quarta categoria e ainda disputou duas temporadas na terceirona. A Cremo chegou a brigar pelo acesso, mas não foi promovida. Aos 35 anos, depois de considerar que não tinha mais a oferecer ao time como atleta, o zagueiro decidiu se aposentar.

Aristide iniciou sua carreira como técnico na própria Cremonese, assim que deixou os gramados. Na sua primeira temporada na nova profissão, foi campeão do torneio Berretti com a equipe sub-19 grigiorossa. Apesar de o título apontar para uma trajetória de prestígio pela frente, Guarneri nunca decolou e sequer se afastou muito de sua terra: na década de 1980, depois de seis anos afastado do esporte, trabalhou em clubes de divisões inferiores e de cidades próximas a Cremona. Teve passagens por Sant’Angelo (como auxiliar e técnico), Parma (assistente), Soresinese e Fiorenzuola.

Em janeiro de 1992, Guarneri voltou à agremiação em que fora protagonista como jogador depois que a Inter decidiu dispensar Corrado Orrico e confiar em Luis Suárez para terminar a temporada como interino. O espanhol, então, convidou o amigo – com quem dividiu vestiários na Beneamata por parte dos anos 1960 – para ser seu braço direito. Depois de cumprida a tarefa, Aristide manteve seu lugar no quadro de funcionários dos nerazzurri e passou a atuar como olheiro do clube na região de Cremona. Como lhe convinha, se manteve ligado à sua cidade e em serviço ao clube em que foi uma discreta estrela.

Aristide Guarneri
Nascimento: 7 de março de 1938, em Cremona, Itália
Posição: zagueiro
Clubes: Codogno (1956-57), Como (1957-58), Inter (1958-67 e 1969-70), Bologna (1967-68), Napoli (1968-69) e Cremonese (1971-73)
Títulos: Serie A (1963, 1965 e 1966), Copa dos Campeões (1964 e 1965), Mundial Interclubes (1964 e 1965), Eurocopa (1968) e Serie D (1971)
Carreira como treinador: Sant’Angelo (1982-83 e 1984-85), Soresinese (1983-84) e Fiorenzuola (1986)
Seleção italiana: 21 jogos e 1 gol

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