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A derrota da Itália para a Coreia do Norte, em 1966, mudou os rumos do futebol na Bota

Em que medida uma derrota pode determinar o destino esportivo de um país e os acontecimentos dos anos seguintes? Muitos brasileiros se perguntaram sobre isso após o traumático 7 a 1 de Belo Horizonte, aplicado pela Alemanha na Seleção, em plena semifinal da Copa do Mundo de 2014. A Itália viveu algo parecido 48 anos antes, mas nem teve tempo de se questionar, pois medidas drásticas foram adotadas quase que de imediato pela Federação Italiana de Futebol (FIGC) e mudaram o panorama do esporte nacional por mais de uma década.

Em 1966, a seleção italiana vivia um momento oposto ao dos clubes do país. Inter e Milan dominavam o futebol local e, juntamente com Real Madrid e Benfica, eram os reis do cenário europeu: os rossoneri haviam vencido a Copa dos Campeões em 1963 e os nerazzurri fizeram a dobradinha europeia e mundial na sequência. Antes deles, a Fiorentina fora finalista da competição, em 1957.

Apesar disso, desde 1950 a Itália não conseguia classificação à segunda fase da Copa do Mundo. Em 1958, a Nazionale nem mesmo se qualificou – o que ocorria pela primeira vez na história –, enquanto quatro anos depois, a expedição ao Chile ficou marcada por polêmicas e pela violentíssima Batalha de Santiago. Para que a seleção entrasse nos eixos, a FIGC apostou no emergente técnico Edmondo Fabbri, que surpreendera no comando do pequeno Mantova.

O ciclo mundial de Fabbri foi positivo: foram 16 vitórias, seis empates e apenas três derrotas até a estreia na Copa, disputada na Inglaterra. Por triunfos importantes, como os obtidos sobre Brasil, Dinamarca, Argentina e Áustria (quebrando um tabu de 35 anos sem vencer no país); além de goleadas contra Turquia, Finlândia, Polônia, Bulgária, País de Gales e México; o treinador teve todas as suas decisões respaldadas pela federação. Até mesmo as mais polêmicas, como a exclusão do líbero Armando Picchi, que era o capitão da Grande Inter, em detrimento de Francesco Janich, do Bologna.

Fabbri se reúne com alguns de seus jogadores dias antes da viagem para a Inglaterra (Mondadori/Getty)

 

As escolhas de Mondino não fizeram com que o elenco italiano deixasse de ser forte o suficiente para competir com os principais favoritos ao título – Inglaterra, Alemanha Ocidental e um Brasil envelhecido, mas bicampeão. A sequência de quatro vitórias no mês de amistosos preparatórios para o Mundial ainda deu ânimo extra à Squadra Azzurra. A Itália parecia mais em forma do que a União Soviética, sua maior rival no Grupo 4 e candidata a outsider da Copa, ao lado de Portugal. Os resultados também mostravam o favoritismo da Nazionale sobre os outros adversários da chave: o Chile, com o qual travaria a revanche da Batalha de Santiago, e a desconhecida Coreia do Norte.

O otimismo se manteve após a estreia na competição. A Itália não chegou a jogar bem, mas se vingou do Chile com uma vitória por 2 a 0. Na segunda rodada, a derrota por 1 a 0 para a União Soviética deixou os azzurri mais distantes da primeira posição no grupo, já que os vermelhos somavam quatro pontos, contra dois dos italianos. A passagem para as quartas de final, porém, era tida como certa pela Nazionale, já que o último adversário seria a frágil Coreia do Norte. Um simples empate contra os asiáticos, em Middlesbrough, lhe bastava.

Ferruccio Valcareggi, então auxiliar de Fabbri, observou a seleção asiática antes do duelo. Ele a definiu, sarcasticamente, como “um time digno de Ridolini” – Ridolini era a alcunha com a qual o comediante norte-americano Larry Semon era conhecido na Itália. Para completar o cenário de pastelão, os norte-coreanos realizaram o aquecimento para o jogo com uma série de malabarismos. Os jogadores italianos estavam convencidos de que o adversário não tinha qualidade suficiente para batê-los, ainda que o técnico Myung Rye-hyun tivesse dito, em entrevista coletiva, que a Coreia do Norte era favorita “se a Itália mostrasse o mesmo nível que teve contra soviéticos e chilenos”.

O fato é que os norte-coreanos eram mesmo atletas amadores, já que não existia futebol profissional na totalitária Coreia dominada pela ideologia juche. Por sua vez, a Itália tinha craques em todos os setores: Sandro Mazzola, Gianni Rivera, Enrico Albertosi, Giacomo Bulgarelli, Giacinto Facchetti, Tarcisio Burgnich, Aristide Guarneri, Ezio Pascutti, Giovanni Lodetti, Luigi Meroni, Sandro Salvadore… Não faltavam estrelas e atletas acostumados a atuar num dos mais fortes campeonatos nacionais do mundo e/ou enfrentar equipes de outros países, seja pela Copa dos Campeões ou em amistosos.

A lesão de Bulgarelli, no primeiro tempo, condicionou o jogo (Central Press/Hulton Archive/Getty)

A Itália começou jogando para frente, mas não conseguia marcar. A primeira chance saiu dos pés do atacante Marino Perani, do Bologna: ele recebeu na grande área e girou com um chute forte, que foi defendido magistralmente pelo goleiro Li Chan-Myung. O camisa 17 teve outras duas ótimas oportunidades na sequência, mas – mesmo frente a frente com o arqueiro – finalizou mal e as desperdiçou.

O grande baque para a Nazionale ocorreu ainda no primeiro tempo. Por volta dos 30 minutos, o capitão Bulgarelli trombou com Pak Seung-zin e machucou o joelho. O regista do Bologna não estava 100% fisicamente, mas era tido como “indispensável” para Fabbri. O treinador fizera sete modificações em relação ao time que entrou em campo contra a União Soviética, mas optou por manter o camisa 4 no time. Acabou pagando caro pela escolha, já que Giacomo deixou o gramado de maca e, naquela época, não era permitido fazer substituições. A Itália teria de jogar com 10 jogadores por cerca de uma hora.

Enquanto os azzurri tentavam se adaptar à nova condição no gramado de Ayersome Park, a Coreia do Norte crescia no jogo. Fabbri ficou nervoso no banco de reservas, mas orientou o time a manter o que foi planejado para a partida mesmo depois de ficar em inferioridade numérica. A ideia era investir na força física. Três minutos antes do intervalo, porém, Pak Doo-ik recebeu um lançamento à frente do grandalhão Janich, e, antes de Guarneri chegar na cobertura, finalizou de primeira. Albertosi saltou, mas a bola foi bem colocada e estufou as redes.

Os italianos ficaram chocados com a vantagem da Coreia do Norte. Fabbri poderia ter aproveitado o intervalo para acalmar os jogadores e passar-lhes novas instruções, mas não foi o que aconteceu. O desorientado Mondino não conseguiu resolver os conflitos no vestiário ou simplesmente ter serenidade para pensar em novas estratégias, de modo que a Itália voltou para o segundo tempo tão assustada quanto desorganizada. Os azzurri tentavam encontrar Paolo Barison com chuveirinhos, mas não era suficiente. A melhor chance ocorreu com um chute de fora da área de Rivera, mas Li Chan-Myung fez outra grande defesa.

Com um a menos, a Itália tentou se valer da estatura contra os norte-coreanos (Central Press/Hulton Archive/Getty)

Os ponteiros do relógio deram voltas e mais voltas, e a Itália não conseguiu chegar nem mesmo ao empate, que lhe garantiria na próxima fase. Os norte-coreanos, então, ficaram com a vitória e a vaga nas quartas de final: foi a primeira seleção da Ásia a alcançar o feito. O triunfo asiático foi, também, um sucesso da soberba europeia.

A seleção norte-coreana foi subestimada pelos italianos e isso ficou mais claro alguns dias depois, quando o time de Myung Rye-hyun deu trabalho a Portugal. A Coreia do Norte fez 3 a 0 em 25 minutos e só levou a virada por conta de Eusébio, que chamou a responsabilidade, anotou quatro gols e levou os patrícios para as semifinais – vitória por 5 a 3. Pak Doo-ik certamente não era um mero dentista em seu país natal, como chegou a ser repetido na Itália até se transformar numa lenda urbana.

Após o vexame, a delegação azzurra voltava para a Itália com a convicção de que “se a partida ocorresse 100 vezes, os italianos teriam vencido 99”. Dessa vez, não por arrogância, mas por uma análise fria e factual: as melhores chances foram mesmo dos itálicos, que, de fato, tinham mais qualidade técnica do que os norte-coreanos. O grupo sabia que seu pecado fora a maneira como abordou o confronto.

Fabbri, contudo, não tinha a mesma impressão. Publicamente, assumiu culpa integral pelo ocorrido. No íntimo de seus pensamentos, porém, ele maquinava uma teoria da conspiração: acreditava ter sido vítima de um boicote. Depois que a comitiva azzurra foi hostilizada no aeroporto de Gênova (sendo até alvo de tomates e frutas podres por parte dos presentes), o demitido Mondino passou alguns meses tentando colher provas e montar um dossiê. O treinador estava certo de que o médico Fino Fini havia administrado propositalmente substâncias que diminuíram a performance dos jogadores.

Mazzola e Salvadore reagem com ironia ao serem hostilizados na saída do aeroporto de Gênova (imago/United Archives International)

O documento elaborado por Fabbri tinha como tese central um complô de Fini e Artemio Franchi (chefe da delegação) contra Giuseppe Pasquale – presidente da FIGC que renunciou ao cargo um ano após o desastre de Middlesbrough e foi sucedido por Franchi. No entanto, nada foi provado e Edmondo acabou recebendo um gancho de seis meses por comportamento antiético.

A má campanha dos italianos acabou sendo atribuída a uma série de fatores. Em primeiro lugar, os jogadores estavam insatisfeitos pelos valores das premiações e pela falta de suporte dos dirigentes, que os mantiveram isolados numa instalação distante de centros urbanos. Todo o resto ficou na conta de Fabbri: o desgaste nos treinamentos; o nervosismo demonstrado pelo técnico, que não teria sabido lidar com a pressão desde que aportou na Inglaterra; as rusgas com atletas, por seu temperamento difícil. Tudo isso poderia ter ficado em segundo plano, não fosse a arrogância com a qual a Itália se preparou para enfrentar a Coreia do Norte.

A eliminação da Itália, que marcou o ponto mais baixo do pior momento da história da Nazionale, não deixou consequências apenas no topo da cadeia administrativa da FIGC e na vida de Fabbri. Recém-empossado como presidente do órgão máximo do futebol italiano, Franchi cedeu a setores que viam nos estrangeiros o grande problema da Serie A.

A convocação de descendentes de italianos (os oriundi) por parte de treinadores da Squadra Azzurra já havia sido alvo de severas críticas nos anos anteriores, ainda que esses jogadores fossem craques como Alcides Ghiggia, José Altafini, Angelo Sormani, Juan Alberto Schiaffino e Omar Sívori. O mesmo argumento não existia quando a Itália foi bicampeã em 1934 e 1938 com o brasileiro Filó, o uruguaio Miguel Andriolo e os argentinos Luis Monti, Raimundo Orsi, Enrique Guaita e Atilio Demaría. Porém, quando existe uma crise, é fácil buscar um bode expiatório – historicamente, os estrangeiros e os diferentes ocuparam esse posto em diversas situações.

Em 1974, Franchi cochicha com Stanley Rous, ex-presidente da Fifa, enquanto João Havelange, recém-empossado, está atento (imago)

Para manter sua força e seu prestígio político na federação, Franchi atendeu aos pedidos de motivação xenófoba, supostamente nacionalista. Assim, entre as medidas de renovação de práticas em setores da entidade, o dirigente decidiu fechar as fronteiras para a contratação de jogadores estrangeiros. Assim, nenhum atleta de outro país poderia ser comprado pelos clubes do Belpaese. Aqueles que já estivessem no futebol local poderiam permanecer.

No fim das contas, o tempo mostrou que não era necessário ter tomado uma atitude drástica. Em 1968, a Itália seria campeã europeia e, dois anos depois, ficaria com o vice-campeonato mundial. Em ambas as ocasiões, a seleção foi comandada por Valcareggi – o mesmo que disse que a Coreia do Norte era um time de comediantes –, e contava com atletas que viajaram até a Inglaterra: 10 e seis, respectivamente. Facchetti, Mazzola e Rivera, os maiores craques italianos daquele período, continuaram sendo protagonistas.

A portaria que determinava o fechamento das fronteiras foi revogada em 1980. Com o fim do veto, aportaram na Serie A os brasileiros Paulo Roberto Falcão (Roma), Enéas (Bologna), Juary (Avellino) e Luis Sílvio (Pistoiese), os argentinos Daniel Bertoni (Fiorentina) e Sergio Fortunato (Perugia), os holandeses Michel van de Korput (Torino) e Ruud Krol (Napoli), o alemão Herbert Neumann (Udinese), o austríaco Herbert Prohaska (Inter) e o irlandês Liam Brady (Juventus).

No período em que a a Itália não recebeu estrangeiros, a seleção participou de mais uma Eurocopa (1980, como anfitriã) e colheu resultados díspares em Mundiais: foi eliminada precocemente em 1974, ainda na fase de grupos, e quarta colocada em 1978. A geração formada nessa década totalmente italiana acabaria sendo campeã mundial em 1982, o que, para muitos, foi efeito da medida – ela teria permitido que os jovens do país fossem utilizados pelas equipes. A história diz que depois de se abrir para estrangeiros novamente, a Nazionale foi campeã mundial em 2006, vice em 1994 e terceira colocada em 1990, além de ter ficado com a segunda posição na Eurocopa em 2000 e 2012.

Coreia do Norte 1-0 Itália

Coreia do Norte: Li Chan-Myung; Lim Zoong-sun, Shin Young-kyoo, Ha Jung-hwon, Oh Yoon-kyung; Pak Seung-zin, Pak Doo-ik, Im Shung-hwi; Han Bong-zin, Kim Bong-hwan, Yang Song-guk. Técnico: Myung Rye-hyun.
Itália:
Albertosi; Landini, Guarneri, Janich, Facchetti; Bulgarelli, Fogli; Perani, Mazzola, Rivera, Barison. Técnico: Edmondo Fabbri.
Gol: Pak Doo-ik (42′)
Local e data: Ayersome Park, em Middlesbrough (Inglaterra), em 19 de julho de 1966
Árbitro: Pierre Schwinte (França)

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