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Sergio Battistini defendeu grandes clubes e honrou o legado dos volantes italianos

Muitos jogadores sonham com um currículo recheado de experiências por grandes times e conquistas de títulos. Poucos conseguem alcançar o sucesso. Mais do que isso, quase nenhum atinge bons resultados atuando por rivais. O caso de Sergio Battistini é um destes fora do comum. Escalado como volante ou líbero, o toscano foi um dos responsáveis por ajudar o Milan duas vezes no momento mais difícil da história do clube e pelo renascimento da Inter no cenário europeu.

Nascido em Massa, na região da Toscana, em maio de 1963, Battistini iniciou sua trajetória nas categorias de base da modesta Massese, de sua cidade natal. No entanto, foi notado pelo Milan e terminou a sua formação no gigante da Lombardia, inclusive jogando no time sub-19 ao lado de Alberico Evani – que viria a ser auxiliar de Roberto Mancini na conquista da Eurocopa pela Itália, em 2020. Eram tempos em que o setor juvenil rossonero revelava grandes nomes, como Franco Baresi, Giuseppe Incocciati, Andrea Icardi, Filippo Galli, Paolo Maldini e Alessandro Costacurta.

Battistini era considerado muito promissor e as grandes expectativas depositadas sobre seu futebol fizeram com que estreasse pelo Milan ainda com 16 anos, no fim de 1979 – disputou os minutos finais da partida de volta das quartas de final da Coppa Italia contra a Roma, terminada em 2 a 2 e na eliminação rossonera. A promoção ao time profissional foi acompanhada por um cenário bastante soturno para os milanistas.

Em 1980, eclodiu um escândalo de manipulação de resultados que ficou conhecido como Totonero. Entre os envolvidos, estavam atletas e dirigentes de diversa agremiações, incluindo o Milan, na figura do presidente Felice Colombo e dos jogadores Enrico Albertosi e Giorgio Morini. Eles foram acusados pelo Departamento de Finanças da Itália de participarem da manipulação de resultados para lucrarem com apostas ilegais e o clube acabou rebaixado para a Serie B do Campeonato Italiano.

Na temporada 1979-80, o time havia acabado na terceira colocação do torneio nacional. Já em 1980-81, o Milan passou a contar com Battistini como titular absoluto: atuando principalmente nas funções de zagueiro e de volante, mas podendo ser improvisado em outras posições na retaguarda e no meio-campo, o garoto perdeu apenas duas das 42 partidas realizada pelos rossoneri naquele ano. Com seu novo pilar, o Diavolo dominou a competição, com 50 pontos e 18 vitórias, e retornou à elite com a taça da Serie B.

Battistini, à direita, foi uma das grandes revelações do Milan na década de 1980 (imago)

Pouco após o acesso, no início da temporada 1981-82, Battistini ganhou certo relevo internacional por um feito importante. Aos 18 anos, o atleta – que já integrava a seleção sub-21 da Itália – praticamente anulou um tal de Diego Armando Maradona, que ainda tinha 20, mas já era considerado uma grande estrela.

Num amistoso entre Milan e Boca Juniors, Sergio colou no argentino e se destacou por antecipações, desarmes e um jogo limpo – justo contra o Pibe, que costumava sofrer muitas faltas. A sua atuação rendeu comparações a Giovanni Trapattoni, que impedira Pelé de “se criar” num duelo entre Itália e Brasil, na década de 1960. Mesmo assim, os xeneizes venceram os rossoneri por 2 a 1 e El Diez anotou um gol de falta. Evidentemente, Battistini não tinha como pará-lo nesse tipo de lance.

Em 1981-82, o toscano teria a chance de se consolidar na elite, mas o Milan pouco teve tempo de respirar na Serie A e sacramentou mais um rebaixamento, após um 14º lugar. O curioso é que, no mesmo ano do descenso, os lombardos ganharam uma taça internacional – a Copa Mitropa, que era disputada pelos campeões da segunda divisão de alguns países europeus, como a Itália. O Diavolo faturou o inédito troféu ao bater o Vitkovice, da Chéquia, na grande decisão.

Battistini foi um dos poucos que se salvaram na trajetória rossonera, ficando de fora de apenas uma partida e marcando cinco gols. Com moral em alta, chegou a se tornar vice-capitão da equipe, como alternativa a Baresi. O grande momento do jogador foi ratificado na temporada 1982-83, quando o Milan fez novamente uma campanha impecável na segundona e garantiu a taça mais uma vez. Naquele ano, o volante evidenciou um dos grandes atributos de sua carreira: a capacidade de se posicionar bem para balançar as redes, geralmente de cabeça. Sergio anotou 12 tentos em todas as competições e 11 na Serie B, sendo o artilheiro do Diavolo no retorno à primeira divisão.

O versátil volante continuou a ter participação efetiva nas duas temporadas seguintes. Em 1983-84, Battistini ajudou o Milan a atingir uma sexta colocação no Italiano e, posteriormente, em 1984-85, uma quinta posição no torneio e um vice da copa nacional. Em 1984, Sergio ainda recebeu quatro oportunidades na seleção principal da Itália e, pelo time olímpico, teve um grande destaque na campanha que culminou no quarto lugar nos Jogos de Los Angeles. Os azzurri, sob o comando de Azeglio Vicini, acabaram caindo nas semifinais para o Brasil e perderam a disputa pelo bronze para a antiga Iugoslávia.

O versátil jogador toscano defendeu a Fiorentina por cinco anos, mas não levantou títulos pela equipe (Popperfoto/Getty)

Depois das duras e instáveis temporadas pelo clube de Milão, nas quais entregou um bom nível de atuações, Battistini deixaria a Lombardia. Dirigido pelo empresário Giussy Farina, o Milan vivia uma grave crise financeira e decidiu vender alguns de seus jogadores valorizados no mercado. Além disso, havia um consenso interno de que Sergio, ainda que tenha rendido com a camisa rossonera, não tinha atingido o potencial esperado. Dessa forma, após 201 partidas disputadas e 37 gols anotados, o atleta de 22 anos rumou para a Fiorentina no verão de 1985.

No maior time da região em que nasceu, Battistini encontrou um forte elenco, com opções robustas principalmente do meio para trás. Integravam o plantel violeta os goleiros Giovanni Galli e Paolo Conti; os zagueiros Daniel Passarella, Claudio Gentile, Renzo Contratto, Stefano Carobbi e Celeste Pin; o lateral-esquerdo Aldo Maldera; os meio-campistas Gabriele Oriali, Nicola Berti e Giancarlo Antognoni; e os atacantes Roberto Baggio (em início de carreira), Daniele Massaro, Paolo Monelli e Maurizio Iorio. Diante de tal cenário, o treinador Aldo Agroppi só poderia escalar o jovem Sergio como volante.

Battistini garantiu a titularidade na cabeça de área sem muita cerimônia. Em sua primeira temporada na Fiorentina, o volante perdeu apenas quatro partidas e contribuiu com o mesmo número de gols em uma boa campanha dos gigliati: a equipe atingiu as semifinais da Coppa Italia e a quinta colocação da Serie A em 1985-86, garantindo vaga na Copa Uefa seguinte.

O versátil toscano passou a ser utilizado mais frequentemente como líbero a partir da saída de Passarella, no verão de 1986. No entanto, nas três temporadas seguintes, a Fiorentina – treinada por Eugenio Bersellini em 1986-87 e por Sven-Göran Eriksson no biênio posterior – caiu precocemente nas copas e terminou em posições intermediárias no Italiano. Em 1988-89, o clube conseguiu uma vaga na Copa Uefa, após terminar em sétimo lugar e vencer a Roma no spareggio, o playoff de acesso ao torneio.

Sergio driblou um período de lesões recorrentes, que o acometeram entre 1986 e 1988, e ressurgiu como pilar violeta em 1989-90: naquela temporada, a Fiorentina bateu na trave em busca do inédito título da segunda mais importante competição europeia. Battistini atuou em todas as partidas feitas pelos gigliati na Copa Uefa e só não esteve em todos os minutos em campo porque, na volta das quartas de final, contra o Auxerre, se lesionou na primeira etapa. Sob o comando de Francesco Graziani, que substituiu Bruno Giorgi em março daquele ano, o clube de Florença atingiu a grande decisão do torneio, mas não foi páreo para a Juventus e ficou com o vice.

Numa Inter repleta de grandes nomes defensivos, como Bergomi, Battistini foi bicampeão da Copa Uefa (Getty)

Depois de cinco temporadas, 171 partidas e 13 gols pela Fiorentina, Battistini ganhou a chance de voltar a Milão: dessa vez, para defender a Inter, sua antiga rival. Aos 27 anos, o jogador vivia um excelente momento na carreira e foi comprado por 7 bilhões de liras – moeda corrente na Itália entre 1861 e 2002 – pela equipe nerazzurra, que havia sido campeã italiana em 1989. Sergio chegava para substituir o líbero Corrado Verdelli, negociado com a Cremonese.

Logo em sua temporada de estreia, ao lado de nomes como o goleiro Walter Zenga, o zagueiro Giuseppe Bergomi, o meia Lothar Matthäus e o atacante Jürgen Klinsmann, Battistini ajudou a Inter a garantir a taça que lhe escapara no ano anterior: a da Copa Uefa. Na final da competição europeia, a equipe nerazzurra superou a Roma.

Sergio ganhou o respaldo do lendário Trapattoni, a quem já fora comparado como jogador, superando Andrea Mandorlini e Giuseppe Baresi na hierarquia interista. Escalado pelo treinador quase sempre como volante titular da Beneamata, o toscano foi peça importante na boa campanha do clube na Serie A: além de ter sido pilar do meio-campo, quando a Inter ainda liderava o campeonato, Battistini marcou um gol em vitória no clássico contra a Juventus, pela 24ª rodada. O time nerazzurro acabou perdendo confrontos diretos para Milan e Sampdoria na sequência do certame e ficou com o terceiro posto.

Na temporada seguinte, a Inter teve de lidar com o fim do ciclo de Trapattoni e sofreu sem o treinador. As mudanças de técnico em 1991-92 resultaram em quedas precoces nas copas e num mísero oitavo lugar na Serie A, além de bastante tempo no banco de reservas para Battistini. Com Osvaldo Bagnoli, o volante recuperou o seu postou entre os titulares em 1992-93 e ajudou os nerazzurri a conquistarem um segundo lugar no Italiano de 1992-93.

Em 1993-94, Battistini teve a sua última temporada no mais alto nível. Naquele ano, a torcida da Inter viveu um misto de alívio e alegria, já que a equipe passou por problemas na Serie A e chegou a flertar com o rebaixamento, mas teve trajetória impecável na Copa Uefa. Depois de garantir a permanência no certame nacional, a Beneamata – comandada pelo interino Gianpiero Marini – derrotou o Salzburg por 1 a 0 tanto na ida quanto na volta do torneio e garantiu mais uma taça europeia. Foi a despedida perfeita para Sergio, que atuou em 156 partidas pelos nerazzurri, com 13 gols anotados.

Muito combativo, Battistini teve quatro anos destacados pela Inter (imago/GEPA Pictures)

Com dois títulos conquistados por cada uma das equipes de Milão, o polivalente jogador trocou de cidade na Lombardia: assinou com o Brescia, que retornava à elite após um ano na Serie B. Apesar de sua experiência e de sua qualidade, Battistini não encontrou o sucesso com a camisa biancazzurra, já que o time amargou descenso retumbante à segundona em 1995 e quase caiu para a terceira divisão na temporada seguinte – somou apenas um ponto a mais que o Fidelis Andria, primeiro rebaixado.

Vítima de algumas lesões, Sergio não pode oferecer grande contribuição para uma equipe desorganizada, que teve quatro treinadores no período de sua militância. A temporada de sustos marcou o ponto final de Battistini no Brescia e antecipou o que o líbero teria pela frente. Em 1996-97, o toscano assinou com o Spezia, integrante da Serie C1, e os problemas físicos lhe permitiram que atuasse apenas em 17 partidas da campanha do descenso dos bianconeri para a quarta divisão. Então, aos 34 anos, o jogador decidiu se aposentar.

Battistini tentou ser treinador, mas não levou sorte à beira dos gramados. Todas as suas experiências por times profissionais foram curtas e ocorreram em clubes pequenos da Toscana – Pietrasanta, Massese, Viareggio e Versilia. Nas categorias de base, contudo, Sergio teve maior durabilidade: comandou o sub-15 da Fiorentina entre 2004 e 2007 e o sub-17 do Spezia em duas ocasiões (2007-08 e de 2010 a 2013). Além de revelar atletas, o ex-volante também deixou como legado o filho Matteo, zagueiro com passagens por equipes das divisões inferiores da Itália.

Definitivamente, a sorte não sorriu para Battistini na empreitada fora dos campos. Há quem defenda, inclusive, que o destino também não foi bondoso com ele durante a sua trajetória como jogador – embora o polivalente atleta tenha vestido camisas pesadas e conquistado títulos importantes, sempre tendo um lugar de destaque nos times que representou. Muito se especula sobre qual seria o tamanho de Sergio para o futebol italiano se ele tivesse permanecido no Milan por mais tempo e feito parte da reformulação promovida pela gestão de Silvio Berlusconi, iniciada em 1986. Esta provocação nunca terá uma resposta.

Sergio Battistini
Nascimento: 7 de maio de 1963, em Massa, Itália
Posição: volante e zagueiro
Clubes como jogador: Milan (1979-85), Fiorentina (1985-90), Inter (1990-94), Brescia (1994-96) e Spezia (1996-97)
Títulos como jogador: Serie B (1981 e 1983), Copa Mitropa (1982) e Copa Uefa (1991 e 1994)
Clubes como treinador: Pietrasanta (1997), Massese (1998, 1999 e 2016), Viareggio (2000-01) e Versilia (2002)
Seleção italiana: 4 jogos e 1 gol

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