Brasileiros no calcio

Warley começou como prodígio, mas só colecionou fracassos após passagem pela Udinese

Quando falamos de brasileiros na Udinese, o nome de Zico rapidamente vem à mente. Na época de ouro do futebol italiano, o Galinho foi a maior estrela do time friulano, que já contava com o zagueiro Edinho. O ex-meia ficou apenas dois anos em Údine antes de voltar ao Flamengo, em 1985. Quase uma década se passou depois da saída da dupla até que outro jogador nascido no Brasil conseguisse encantar a torcida bianconera. Tratava-se de Márcio Amoroso. O ex-centroavante marcou um caminhão de gols e fez os fãs esquecerem o artilheiro alemão Oliver Bierhoff, que havia assinado com o Milan. Após Amoroso deixar o clube para se juntar ao endinheirado Parma, em meados de 1999, as zebras contrataram Warley para substitui-lo, mas o tiro saiu pela culatra.

Natural de Sobradinho, Distrito Federal, Warley despontou para o futebol no Gama e teve uma rápida passagem pelo Coritiba. Mas foi no arquirrival do Verdão, o Atlético Paranaense, que o atacante chegou ao profissional. Em 1998, aos 18 anos, o atacante marcou sete gols em sete jogos pela equipe rubro-negra, foi campeão paranaense e despertou o interesse da Udinese.

O clube italiano via nele potencial para assumir o lugar de Amoroso, estrela do time e, à época, na mira do Milan. Assim, os bianconeri compraram, em janeiro de 1999, metade do seu passe por 4 milhões de dólares. Seu empresário, Juan Figer, ficou com o restante. O brasileiro, no entanto, não iria direto para a Itália: a Udinese o emprestou até julho para o São Paulo.

Durante esse período, Warley impressionou na equipe paulista e chegou à seleção olímpica. Em abril, ele marcou o terceiro gol da goleada por 7 a 0 do Brasil sobre os Estados Unidos, no Mané Garrincha, em Brasília. O amistoso foi apenas um aperitivo para o que estava por vir, já que, no início do segundo semestre de 1999, ele disputou a Copa das Confederações. Warley atuou em quatro dos cinco jogos que o escrete canarinho realizou naquela competição, cujo vencedor foi o México – que bateu o próprio Brasil na final.

Após o tempo de empréstimo ao São Paulo, o veloz atacante viajou à Itália para se apresentar à Udinese. Curiosamente, outro são-paulino também estava de partida para o Belpaese. Tratava-se do meia/lateral-esquerdo Serginho, que se tornaria ídolo no Milan nos anos 2000. Embora tenha sido integrado ao grupo da Udinese em julho, Warley só foi estrear na Serie A no dia 19 de setembro de 1999. Não deu sorte: ficou em campo os 90 minutos contra a Juventus, em Turim, e viu sua equipe perder por 4 a 1. O primeiro gol saiu em seu segundo jogo pela liga italiana, contra o Bari, empate em 1 a 1, fora de casa. Naquela temporada, ele entrou em campo 15 vezes e marcou três gols, ajudando o time friulano a terminar o campeonato na oitava posição.

A temporada seguinte deveria ser a da afirmação do jovem Warley, então com 22 anos, em Údine. Entretanto, um escândalo interromperia, pelo menos momentaneamente, sua trajetória no futebol europeu. Em setembro de 2000, o brasileiro viajou com a delegação bianconera para Varsóvia, na Polônia, onde os italianos enfrentariam a equipe local pela Copa Uefa. Ao desembarcar no aeroporto da capital polonesa, ele e outros três sul-americanos – Alberto Valentim, Jorginho Paulista (brasileiros) e Alejandro Da Silva (paraguaio) – foram pegos com passaporte português falsificados. Os jogadores foram detidos no local.

De acordo com os policiais italianos, a embaixada de Portugal na Itália relatou que os passaportes não foram assinados por funcionários da organização. Curiosamente, o camisa 28 foi liberado para jogar aquela partida e marcou o gol da vitória por 1 a 0 sobre o Polonia Varsóvia. Após a polêmica com os documentos, Warley foi emprestado ao Grêmio, enquanto Alberto conseguiu visto para permanecer na Itália e continuar na Udinese.

Warley começou bem, mas se tornou uma grande decepção na Udinese (Ansa)

Vale ressaltar que outros atletas sul-americanos, como Álvaro Recoba, Dida e Fábio Júnior, também foram pegos no esquema. Em junho de 2001, o comitê disciplinar da FIGC, a Federação Italiana de Futebol, puniu 12 jogadores por um ano, até 30 de junho de 2002. O argentino Juan Sebastián Verón, ex-meio-campista da Lazio, foi o único absolvido. Os clubes dos jogadores envolvidos na polêmica, Internazionale, Lazio, Milan, Roma, Sampdoria, Udinese e Vicenza, foram condenados a pagar entre 500 mil e 1 milhão de dólares.

Esse imbróglio aconteceu porque, na época, somente três jogadores extracomunitários poderiam atuar em cada time italiano. Isto é, havia limites para atletas sem cidadania de um dos 15 países (atualmente são 27) pertencentes à União Europeia. Visando ludibriar a lei, dirigentes e procuradores agiam nos bastidores – com ou sem anuência dos interessados – para obter passaportes europeus falsificados para eles, o que os tornaria cidadãos europeus.

Warley jogou emprestado ao Grêmio nos últimos meses de 2000 e durante o ano inteiro de 2001. Nesse meio-tempo, ele foi campeão estadual, campeão da Copa do Brasil e convocado para seleção brasileira. Contudo, a sanção imposta ao atacante e a outros sul-americanos, cuja proibição valia para toda a Europa, foi reduzida. Assim, em janeiro de 2002 o brasileiro retornou à Udinese na tentativa de corresponder às expectativas. No dia 13 daquele mês, ele atuou por 15 minutos na derrota por 3 a 1 sobre o Torino, em Turim. Mas enquanto o brasileiro esteve fora, o clube contratou três centroavantes: David Di Michele, Siyabonga Nomvethe e Vincenzo Iaquinta – este virou ídolo da torcida friulana. Por isso, ele fez seis jogos até o fim da temporada.

As oportunidades começaram a sumir de vez na época 2002-03. Sob a batuta de Luciano Spalletti, atual técnico da Inter, Warley pouco produziu em campo. Não à toa encerrou a temporada sem balançar as redes – em 18 jogos. Sem convencer no time bianconero e com apenas quatro tentos em 42 partidas, o atacante arrumou as malas e voltou para o Brasil em meados de 2003. Ele via no São Caetano uma oportunidade para recuperar o prestígio e, quem sabe, retornar aos holofotes do futebol estrangeiro. Ajudou o Azulão a conquistar o Campeonato Paulista de 2004, mas o desempenho não foi satisfatório, e no ano seguinte se transferiu novamente.

Depois de deixar o São Caetano, Warley rodou por várias equipes do futebol brasileiro: Palmeiras, Brasiliense, Naútico, ABC, Madureira, Villa Nova-MG, Treze, Campinense, River-PI e Botafogo-PB. Pendurou as chuteiras em setembro do ano passado, aos 39 anos, vestindo a camisa do time botafoguense, onde, inclusive, assumiu cargo como dirigente logo depois. Uma curiosidade: Warley é o único jogador a ter conquistado o Campeonato Paraibano quatro vezes por três clubes diferentes (Treze, Campinense e Botafogo-PB).

Em janeiro deste ano, o agora cartola quase perdeu a vida. Isso porque ele levou uma facada nas costas em João Pessoa, e perdeu muito sangue. O ex-jogador afirma que foi surpreendido próximo a um banco por dois bandidos que tentaram levar seu carro. Com dois cortes profundos nas costas, Warley teve que passar por procedimento cirúrgico num hospital da capital. Hoje, encontra-se estável e segue como cartola do Xerifão do Nordeste.

Warley Silva dos Santos
Nascimento: 13 de fevereiro de 1978, em Sobradinho, Distrito Federal
Posição: atacante
Clubes: Atlético-PR (1997-98 e 2006), São Paulo (1999), Udinese (1999-2000 e 2001-03), Grêmio (2000-01), São Caetano (2003-04), Palmeiras (2005-06), Brasiliense (2006-07), Naútico (2007-08), ABC (2008-09), Villa Nova-MG (2009-10), Treze (2011), Campinense (2012), Botafogo-PB (2013-14 e 2016-17) e River-PI (2014-15)
Títulos: Campeonato Paranaense (1998), Copa do Brasil (2001), Campeonato Gaúcho (2001), Campeonato Paulista (2004), Campeonato Brasiliense (2007), Campeonato Paraibano (2011, 2012, 2013 e 2017) e Série D do Campeonato Brasileiro (2013)
Seleção brasileira: 4 jogos

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