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O criativo Eraldo Pecci comandou o Bologna e foi vital para o último scudetto do Torino



Quando ainda era um menino, Eraldo Pecci escrevia muito bem, mas sempre fugia do tema proposto. Era um artista dos floreios, dos ornamentos, do pensamento que não anda em linha reta. Não tinha físico de jogador, não tinha a mentalidade de jogador e tudo indicava que ele seria um artista ou algo do tipo. Bom, ele se tornou jogador e de certa forma, também foi artista.

Eraldo nasceu em San Giovanni in Marignano, uma pequena cidade na província de Rimini, no litoral adriático italiano, em 1955. Depois de jogar em vários times de base da região, Pecci chegou aos juvenis do Bologna em 1972, time pelo qual também foi lançado como profissional, na temporada seguinte. O meia já começou jogando, com espaço na equipe titular, ao lado de Giacomo Bulgarelli, um de seus ídolos.

Executando a famosa função de regista, Pecci era um verdadeiro diretor – mas não de cinema ou teatro, como o termo originalmente italiano denomina. Eraldo atuava como um armador, entre a linha defensiva e os volantes, tendo proteção e tempo para lançar bolas, sem precisar da velocidade de um apoiador que joga atrás do centroavante.

Ainda muito jovem, Pecci comandou o meio-campo do Torino campeão da Itália, em 1976 (Soccer Nostalgia)

Andrea Pirlo e Paulo Roberto Falcão foram mestres dessa posição, que praticamente não existe em campos brasileiros. É um papel extremamente difícil de ser praticado, já que o esquema tático da equipe deve funcionar de forma a maximizar o potencial do regista. O jogador que executa a função ainda deve compensar sua eventual lentidão nos movimentos com grande senso de posicionamento, excelência técnica e altíssima criatividade para fazer a bola correr. Atributos que, definitivamente, Eraldo Pecci possuía.

Em sua primeira temporada, o jovem Eraldo teve o dever de bater o quinto pênalti da final da Coppa Italia, na disputa contra o Palermo, e não fez feio: converteu a cobrança e garantiu o segundo título dos bolonheses na competição. Depois de disputar 24 partidas no ano subsequente, Pecci chamou a atenção de alguns clubes, principalmente pelos seus passes longos de trivela, e o Torino fechou a contratação do jovem romanholo com facilidade, já que o Bologna não fez nenhum esforço em manter o regista. O presidente Luciano Conti chegou a argumentar que o meio-campista teria um problema crônico nas costas.

Gigi Radice conseguiu enxergar em Pecci – então com 20 anos – um grande jogador, que poderia trazer benefícios ao Toro. Os grenás vinham de um sexto lugar na Serie A de 1975 e se beneficiaram enormemente pela aposta feita pelo treinador lombardo: afinal, o Torino chegou a seu sétimo e último título nacional. Eraldo foi titular indiscutível daquele time, que ainda tinha o goleiro Luciano Castellini, os meias Patrizio Sala e Renato Zaccarelli, o ala Claudio Sala e os atacantes Francesco Graziani e Paolino Pulici.

Pecci foi um dos grandes nomes do Torino no final dos anos 1970 (LaPresse)

Pecci declarou posteriormente que Radice foi o melhor técnico que já teve em sua carreira. Gigi montou um time que sabia atacar e defender com intensidade, além de pressionar e jogar em contra-ataque, como a Holanda de Rinus Michels. Nesse contexto, o treinador fomentou um dos melhores trios de meio-campistas do país, aliando a classe e os passes inteligentes de Eraldo ao dinamismo de Patrizio Sala e à sagacidade tática de Zaccarelli.

O meia romanholo ficou seis anos no Piemonte e vestiu a camisa grená 203 vezes, marcando 17 gols. Nesse período, viveu os momentos mais frutíferos da carreira e chegou até a seleção italiana, que representou em seis partidas, distribuídas entre 1975 e 1978. Pecci também foi convocado para a Copa do Mundo de 1978, mas não entrou em campo pela Itália. Depois, perdeu espaço com Enzo Bearzot por conta da concorrência acirrada com Giancarlo Antognoni, Gabriele Oriali, Gianpiero Marini e Marco Tardelli, campeões mundiais em 1982.

Um ano antes do tri dos azzurri, Pecci deixara o Torino: uma crise atingiu o time de Turim e o meio-campista foi vendido para a Fiorentina juntamente a Graziani. Em Florença, Eraldo jogou por mais quatro temporadas e continuou colecionando bons resultados. Por exemplo, ajudou a levar os toscanos a um vice-campeonato nacional e às semifinais da Coppa Italia. No período, o romanholo também chegou a superar a concorrência de Sócrates, em 1984-85, e foi mais utilizado do que o Doutor.

Antonello Cuccureddu, Daniel Bertoni e Eraldo Pecci formaram meio-campo da Fiorentina no início dos anos 1980 (Wikipedia)

Depois da grande temporada 1984-85, na qual anotou seis gols, Pecci deixou a Fiorentina – foram 142 partidas e 15 gols realizados pelos gigliati. Aos 31 anos, o meia foi vendido para o Napoli e teve o prazer de jogar com Diego Armando Maradona – segundo Eraldo, o único a fazer o impossível acontecer repetidas vezes. Mesmo alcançando uma terceira colocação, o regista resolveu voltar para o Bologna, que na época estava na Serie B, por motivos familiares. Ele estava se separando e tinha dois filhos pequenos.

Pecci jogou por mais três temporadas no time que começou sua carreira como profissional – todas elas como capitão. Dessa forma, teve a honra de levantar a taça da Serie B de 1988 e devolver o time rossoblù para onde merecia estar; uma satisfação apenas igualável à sentida em seus tempos de Torino, segundo conta o próprio atleta.

Após um primeiro ano opaco no retorno à Emília-Romanha, Eraldo se reencontrou de vez em 1987-88, após a chegada do técnico Luigi Maifredi. O estilo veloz e ofensivo do treinador, batizado de “calcio champagne”, acabou funcionando mesmo com Pecci, que não era conhecido pela rapidez na corrida. O regista, contudo, fazia a bola transitar por todo o campo com maestria e contribuiu muito para que Lorenzo Marronaro fosse o artilheiro da segundona, com 21 gols. O veterano também se distinguia por ser uma espécie de tutor para os mais jovens do elenco.

No final da carreira, Pecci voltou ao Bologna e, na condição de capitão, ajudou o time a retornar à elite (Bologna FC)

Em 1988-89, Pecci ainda contribuiu com a permanência do Bologna na Serie A e o vice-campeonato da Copa Mitropa. O meio-campista permaneceu para a temporada seguinte, mas decidiu deixar o clube na janela de outono, entre setembro e outubro, depois que Maifredi optou por construir seu meio-campo com jogadores mais físicos.

Eraldo se transferiu para o Lanerossi Vicenza, que disputava a Serie C1, mas anunciou aposentadoria alguns dias depois que o técnico Romano Fogli, seu amigo, foi demitido. O meia nem chegou a entrar em campo pelo time do Vêneto e optou por parar de jogar com apenas 34 anos. Como todos já sabiam desde os tempos de escola, Pecci não era um menino qualquer e tinha veia artística aflorada. Não foi surpresa que, depois de se aposentar, Eraldo não se dedicasse a ser treinador e passasse a atuar como colunista esportivo – algo similar ao que Tostão faz no Brasil.

Em 2013, o ex-jogador ainda lançou seu primeiro livro (“O Toro não pode perder”), no qual conta em primeira pessoa os principais acontecimentos de sua carreira como jogador, dando maior destaque à sua participação na campanha do scudetto do Torino, em 1975-76. Pecci também comentou jogos da seleção italiana ao lado do lendário Bruno Pizzul, nos anos 1990 e 2000.

Eraldo Pecci
Nascimento: 12 de abril de 1955, em San Giovanni in Marignano, Itália
Posição: meio-campista
Clubes como jogador: Bologna (1973-75 e 1986-89), Torino (1975-81), Fiorentina (1981-85), Napoli (1985-86) e Vicenza (1989-90)
Títulos conquistados: Coppa Italia (1974), Serie A (1976) e Serie B (1988)
Seleção italiana: 6 jogos



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