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A Batalha de Santiago: quando a Itália participou do jogo mais violento da história das Copas



Quando o assunto é partida violenta de Copa do Mundo, a primeira lembrança que vem à cabeça de muita gente é a sanguinária Batalha de Nuremberg, protagonizada por Portugal e Holanda em 2006. Naquele jogo de oitavas de final, vencido por 1 a 0 pelos portugueses, o árbitro Valentin Ivanov distribuiu 16 amarelos e quatro vermelhos.

Porém, houve um tempo em que cartões ainda não faziam parte do futebol e era muito mais complicado manter a disciplina do que nos dias atuais. Foi nesse contexto que, em 1962, Chile e Itália protagonizaram a Batalha de Santiago, qualificada como “a exibição mais estúpida, terrível, repugnante e vergonhosa da história do esporte”.

O pré-Copa

A história da Copa de 1962 começou seis anos antes, no Congresso da FIFA em Lisboa, Portugal. Disputando com a Argentina, o Chile foi eleito como sede daquele Mundial após vencer o país vizinho por 32 votos a 10.

Apesar do resultado, a disputa entre Argentina e Chile foi bastante acirrada. Os hermanos apostavam em um discurso seguro e afirmavam que já tinham tudo pronto para sediar a Copa. Os chilenos, por sua vez, foram na contramão. Os andinos afirmavam que por não terem nada, construiriam tudo. Confiando no projeto desenvolvimentista do Chile, comandado pelo presidente Carlos Ibáñez del Campo, a FIFA deu ao país a chance de realizar a competição e alavancar a sua economia, como havia prometido o dirigente máximo da nação.

Logo que foi confirmado como sede, o Chile começou o longo trabalho de construir estádios e garantir a infraestrutura necessária para sediar uma competição do porte de uma Copa do Mundo. Porém, em 1960, a nação enfrentou um dos piores momentos da sua história. Um terremoto de magnitude 9 na escala Richter atingiu em cheio o país andino. O Sismo de Valdivia, como foi chamado, chegou ao nível XII (o máximo) de intensidade na escala Mercalli, que mede o grau de destruição de um tremor.

O terremoto devastou grande parte do país, fazendo com que quatro sedes tivessem que ser retiradas da competição – sobraram Santiago, Viña del Mar, Rancagua e Arica. Com 5.700 mortos e mais de dois milhões de feridos, o Chile teria que enfrentar o resultado de um desastre natural para manter de pé o sonho de sediar uma Copa.

Com o país abatido, o orgulho e a palavra do povo chileno estavam em jogo. Um povo que já lutava contra diversas mazelas sociais se viu diante de um cenário ainda mais catastrófico. Apesar do grande revés, o presidente afirmou que não havia a menor chance de o país sul-americano abrir mão da Copa de 1962. “O Mundial será no Chile de qualquer jeito”, disse Jorge Alessandri, sucessor de Ibáñez del Campo.

O número de policiais para conter Salvadore mostra como a partida foi atribulada (Hulton Archive/Getty)

O começo da animosidade

Em 1962, dois anos após ser atingido pelo Sismo de Valdivia, o Chile abria as portas do seu país para o mundo. O ato de superação dos andinos lhes causava orgulho. Era uma vitória sobre as dificuldades impostas pela vida; um triunfo frente a um desastre nunca antes visto por seu povo.

Com a moral em elevação, os chilenos se depararam com dois hóspedes insatisfeitos, pouco antes do início da Copa do Mundo. O gabaritado jornalista Antonio Ghirelli, do Corriere della Sera, e seu colega Corrado Pizzinelli, correspondente para os diários La Nazione e Il Resto del Carlino, foram conhecer o país e acabaram escorraçados pelos anfitriões.

Textos escritos por Pizzinelli colocavam questões como prostituição, alcoolismo, analfabetismo, desnutrição e miséria como problemas do país. Dentre muitas críticas válidas e sensatas, algumas se mostraram insensíveis e desconexas da realidade. Quando citava a pobreza do país, o jornalista falava da situação de grande parte dos países latino-americanos. Era real e inegável.

Mas as críticas não foram apenas sociopolíticas: elas foram quase pessoais. Pizzinelli chegou a dizer que os chilenos “não eram evoluídos, mas atrasados”. Ghirelli, por sua vez, reclamava da estrutura: do custo dos telegramas, da demora das cartas, da escassez de táxis, da baixa quantidade de vagas no setor hoteleiro. A falta de sensibilidade para com um país que havia feito das tripas coração para os receber doeu nos andinos.

A embaixada chilena em Roma teve acesso ao Corriere della Sera e ao La Nazione, jornais para os quais Ghirelli e Pizzinelli escreviam, e não ficaram nada satisfeitos com os relatos que leram. “Santiago é horrível”, dizia um dos jornalistas sobre a capital chilena. Indignados, traduziram as matérias e as enviaram para o Chile. O país ficou enfurecido. Segundo Cesare Maldini, jogador da Itália em 1962, os chilenos, antes muitos simpáticos com a seleção italiana, haviam se transformado feras quando o assunto era a Squadra Azurra.

Jogadores em volta do árbitro e caídos ao chão, massagista e câmeras no campo: confusão total (imago/United Archives)

O clima no Chile era hostil aos italianos. Com Ghirelli e Pizzinelli fora do país por questões de segurança, os chilenos pediam aos seus jogadores que colocassem os italianos no seu devido lugar. O esperado confronto entre as seleções estava marcado para 2 de junho de 1962. A partida, válida pela fase de grupos da Copa do Mundo, garantiria muito mais do que uma vaga na próxima fase da competição. Ela era uma questão de honra para os chilenos.

Era vingança. E a sede de vingança era tão grande que nem a tentativa da seleção italiana de amenizar a situação foi bem vista. No momento em que entrou em campo para encarar o Chile, o grupo azzurro entregou enormes buquês de cravos brancos para tentar, simbolicamente, selar a paz com a torcida chilena. A ação, porém, foi retribuída com insultos, vaias e tentativas de agressões por parte dos mais de 66 mil presentes no estádio Nacional.

A faísca acesa pelos jornalistas se somou a outros fatores menores que desagradavam os chilenos: a federação italiana era favorável ao Mundial na Argentina e os azzurri usavam atletas naturalizados, os oriundi. A fagulha, então, se transformou em um incêndio incontrolado naquele junho de 1962, quando foi realizada a partida mais violenta da história das copas.

David Coleman, narrador da BBC responsável por gravar o duelo para os ingleses (na época, os jogos não passavam ao vivo), avisava os telespectadores na abertura da transmissão: eles veriam “a exibição mais estúpida, terrível, repugnante e vergonhosa da história do esporte”. Ele ainda pontuou que “algo deveria ser feito” para impedir que outros times repetissem o espetáculo de pancadaria – e citou a expulsão da delegação do torneio como possível medida. Foi o próprio Coleman que cunhou, naquela transmissão, o termo “Batalha de Santiago”.

Ferrini é colocado para fora pelo árbitro Aston e policiais chilenos (imago/UnitedArchives)

O jogo

O confronto entre Itália e Chile acontecia pela segunda rodada do Grupo 2 do Mundial. Os chilenos haviam caído numa chave complicada, que ainda tinha Alemanha Ocidental e Suíça, mas haviam batido os helvéticos na estreia, enquanto italianos e alemães empataram. Uma vitória garantiria os sul-americanos nas quartas de final.

Os europeus precisavam de recuperação e, por isso, Paolo Mazza (presidente da federação e chefe da comissão técnica que comandava a Itália na Copa), decidiu fazer seis alterações em relação ao time que enfrentou a Alemanha Ocidental. Saíram o goleiro Lorenzo Buffon, os defensores Giacomo Losi, Cesare Maldini e Luigi Radice, além dos atacantes Gianni Rivera e Omar Sívori; entraram Carlo Mattrel, Mario David, Paride Tumburus, Francesco Janich, Bruno Mora e Humberto Maschio. Não funcionou.

A partida em Santiago foi a primeira grande apresentação do que seria conhecido como vale-tudo. Depois de apenas quatro minutos de futebol, quando a Itália se mostrou melhor, o jogo se transformou em uma verdadeira guerra. O primeiro ato de violência aconteceu aos quatro minutos e meio, quando Giorgio Ferrini, ao tentar recuperar uma bola no chão, acertou um chute em Honorino Landa. No bate-boca que se formou, o ítalo-argentino Humberto Maschio deu um murro no rosto de Leonel Sánchez, mas o árbitro Ken Aston não viu.

O jogo recomeçou e Ferrini e Landa voltaram a se estranhar. O chileno agarrou e deu uma pancada por trás no italiano, que abriu de vez a sua caixa de ferramentas, e revidou com outro chute, na frente de Aston, que imediatamente o retirou do jogo. Ou melhor, nem tanto: como não existiam cartões na época, o jogador do Torino se recusou a sair de campo.

Os jogadores italianos faziam pressão junto ao árbitro inglês, enquanto dezenas de policiais, seguranças e fotógrafos entravam em campo, assim como os membros das delegações que estavam nos bancos de reservas. Ferrini, que fazia seu terceiro jogo pela seleção, só saiu porque foi escoltado pela polícia chilena. A partida foi interrompida por alguns minutos: o meia foi advertido aos 7 e só saiu mesmo aos 12.

Mario David reclama com Aston após cometer falta duríssima sobre Sánchez (Keystone/Hulton Archive/Getty)

Aston, que seria conhecido posteriormente por inventar os conceitos de cartão amarelo e vermelho, viu ali que estava diante de um punhado de dinamites com meiões e chuteiras. Ele diria, mais tarde, que pensou em terminar o jogo bem antes do tempo regulamentar, mas que (caso o fizesse) não conseguiria garantir a segurança dos jogadores italianos. Com quase 70 mil pessoas querendo as suas cabeças, o árbitro achou melhor não interromper a peleja e deixar que ela acabasse aos 90 minutos.

Logo depois da expulsão do camisa 21 italiano, a partida continuou muito pegada, com faltas e discussões a todo o momento. Aos 38 minutos, Sánchez, tentou driblar o volante Mario David e, quando ia sendo desarmado, caiu no chão com a bola presa por baixo do seu corpo. O ponta chileno acabou levando um chute do jogador do Milan e, filho de boxeador que era, revidou com um soco no rosto do italiano, bem na frente do bandeira mexicano Fernando Buergo.

A arbitragem não tomou nenhuma providência e Sánchez ficou impune. Se sentindo prejudicado, David (que também atuava pela terceira vez pela Nazionale) resolveu fazer “justiça” com as próprias mãos – ou melhor, com os próprios pés. Aos 41 minutos, o camisa 18 viu que o desafeto chileno recebeu um passe alto e não se fez de rogado: deu uma voadora na altura do pescoço do adversário, levando-o ao chão. A Itália, portanto, ficou com nove jogadores em campo.

As decisões bastante parciais de Aston causaram revolta na Itália. Sua atuação, diante de 70 mil chilenos furiosos, foi extremamente caseira. Enquanto os italianos eram advertidos com o rigor que mereciam, agressões chilenas saíram impunes. O brasileiro José Altafini, que defendeu a Squadra Azzurra naquela Copa, apanhou do início ao fim da peleja e pouco pode jogar. Se sentindo injustiçados, os italianos se mostravam cada vez mais nervosos e agressivos, enquanto os chilenos sentiam, do árbitro, que podiam ser violentos sem que nada os acontecesse.

A sensação de impunidade fez com que, minutos depois que David foi excluído do jogo, Sánchez desse mais um soco, o seu terceiro, em um jogador da Nazionale. Dessa vez, o direto do ponta acertou em cheio o rosto de Maschio, quebrando o seu nariz – como ainda não havia substituições, o meia teve de continuar em campo com tal desvantagem. Aston, mais uma vez, foi conivente com o camisa 11 chileno ao ignorar a agressão e o mantendo em campo.

David, expulso, foi escoltado pela polícia chilena (LaPresse)

O segundo tempo transcorreu como o primeiro: entre socos e chutes, com a bola em segundo plano e a Itália tentando resistir com dois homens a menos. Porém, aos 73 minutos, José Ramírez teve a grande chance de abrir o placar para os chilenos. E ele o fez. Depois de uma bola mal afastada por Mattrel, o camisa 7 estava bem posicionado e, de cabeça, encobriu a defesa italiana, dando ao Chile a liderança no marcador.

A vantagem de 2 a 0 não encerrou a pancadaria. Aliás, até a estimulou. Pouco depois do gol, o capitão italiano, Bruno Mora, saiu carregando a bola nas imediações do círculo central quando Jorge Toro o agarrou pela cintura e pelas pernas para lhe dar um “tackle”. O chileno não soltou o adversário nem quando caíram ao solo e ficaram trocando agressões. Aston teve de se atirar no gramado para separá-los. Aos 88, o próprio Toro deu números finais ao duelo, depois de receber na frente da grande área e acertar um belo chute rasteiro no canto esquerdo do arqueiro italiano. Ao encerramento da competição, o meia foi jogar na Itália e, além de ter somado passagens por Sampdoria e Verona, fez carreira no Modena.

Antes do apito final, houve nova – e última – confusão. Landa carregava a bola e, depois de escapar de uma tesoura, levou uma voadora de Sandro Salvadore. Aí sim, Aston encerrou a partida. Enquanto ele mandava os times para os vestiários, porém, às suas costas Maschio armava a guarda para se defender dos chilenos que se aproximavam e, em segundos, desferiu um soco no rosto do próprio Honorino. Para evitar mais tumulto, os jogadores de ambas as equipes tiveram de ser escoltados pela polícia para os seus respectivos vestiários.

O impacto da guerra declarada em campo foi sentido por dias: em Milão, o exército protegeu o consulado chileno, enquanto no Chile, torcedores italianos eram impedidos de irem a bares e outros estabelecimentos. No futebol, o classificado Chile não fez muito esforço para perder por 2 a 0 para a Alemanha Ocidental, no dia 6 de junho, e eliminar a Itália. No dia seguinte, a Nazionale apenas pode cumprir tabela e se despedir da Copa com um 3 a 0 sobre a Suíça. Foi uma das piores campanhas dos azzurri em Mundiais.

A Batalha de Santiago, “mãe de todas as pancadarias”, foi um exemplo, levado ao extremo, do futebol daquela Copa. O jogo, que se tornava cada vez mais violento, precisava de mais regulamentações. O esporte não podia sobreviver mais tempo sem punições. Oito anos depois, a Batalha de Santiago via o futebol mudar por sua causa.

A Copa de 1970 marcava o início da adoção dos cartões amarelos e vermelhos, criados para inibir a violência no esporte mais amado do planeta. Com esse ato, oficializado como parte das regras do jogo pela International Board em 1973, a FIFA dizia ao mundo que não queria que o seu jogo se transformasse em uma guerra e sim em uma arte. Chutar; só a bola. Socar; só o ar. Como Pelé.




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