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O atacante Pierino Prati ofuscou Johan Cruyff e cravou seu nome na história do Milan



Marcar três gols em uma partida oficial é especial para qualquer jogador. Se for em jogo grande, a sensação é melhor ainda. Agora, imagine anotar uma tripletta na final da maior competição de clubes do mundo? Em toda a história da Liga dos Campeões, apenas três jogadores sentiram esse gostinho: Alfredo Di Stéfano, Ferenc Puskás e Pierino Prati. Este último, embora menos conhecido do que os dois primeiros, fez parte de um Milan que venceu tudo entre os anos 1960 e 1970. De quebra, tornou-se o último atleta a marcar três gols em uma decisão do máximo torneio europeu.

Natural de Cinisello Balsamo, comuna de Milão, Prati começou sua carreira na base do Milan, setor comando à época pelo sueco Nils Liedholm. Sua estreia como jogador profissional, contudo, não foi vestindo vermelho e preto. Aos 18 anos, após vencer o Campeonato Primavera pelos rossoneri, em 1965, o jovem atacante acabou emprestado à Salernitana para a disputa da terceira divisão. Não decepcionou: marcou dez gols em 19 jogos e, mesmo lesionado por quase metade da temporada, foi o grande artífice do acesso granata à Serie B.

O bom desempenho pela Salernitana fez Prati voltar ao Milan para a temporada seguinte. Ele até chegou estrear na primeira divisão, mas logo seria cedido novamente, desta vez ao Savona, na Serie B. O italiano encerrou a temporada 1966-67 com 15 gols em 29 partidas, como um dos vice-artilheiros da competição, e por pouco evitou o descenso dos lígures: os biancoblù caíram por causa de dois pontos. Pierino retornou para Milão no verão de 1967.

Prati teve grande destaque ainda jovem, com a camisa do Milan (Interleaning)

Determinado a mostrar seu valor, o atacante se tornou um dos destaques do time comandado por Nereo Rocco. Com o número 11 às costas, Prati repetiu o desempenho da temporada anterior e marcou outros 15 gols, só que desta vez contra times da elite do futebol italiano e em menos jogos (23). Ele foi o artilheiro da Serie A e contribuiu decisivamente na campanha rossonera que culminou no scudetto.

A fome de títulos não parou no campeonato nacional: com quatro tentos do atacante, incluindo um sobre o Bayern München nas semifinais, o Milan venceria também a Recopa Uefa. Na decisão, vencida por 2 a 0 sobre o Hamburgo, quem apareceu com uma doppietta foi o sueco Kurt Hamrin, um dos dois veteranos do trio de ataque – o outro era o ítalo-brasileiro Angelo Sormani. Porém, se seus companheiros se aproximavam do fim de suas carreiras, Prati, então com 21 anos, ainda tinha muita lenha para queimar.

Em evidência no país, o jogador do Milan ganhou um apelido sugestivo: por ser um atacante devastador, Prati passou a ser chamado de “Pierino la peste”. Atroz como poucos, Prati logo chegou à seleção italiana. Em 1968, o então técnico da Squadra Azzurra, Ferruccio Valcareggi, convocou o atacante milanista para a fase final da Eurocopa, realizada em solo italiano.

Na campanha da Recopa Uefa, Prati marcou na semifinal contra o Bayern (imago/WEREK)

Seu debute pela Nazionale veio um pouco antes, nas quartas de final do torneio, contra a Bulgária. Ele deixou sua marca tanto no jogo de ida quanto no de volta – naquela época, o modelo de disputa da Euro era diferente do atual. A Itália superou os búlgaros por 4 a 3 no agregado. Nas fases seguintes, Prati jogou a semifinal e a final, mas não balançou as redes. De todo modo, a Itália bateu a Iugoslávia por 2 a 0 na decisão, em Roma, e conquistou sua primeira e única Euro.

Depois do sucesso continental pela Itália, Pierino voltou ao Milan e retomou a parceria com Sormani e Hamrin. O trio letal era municiado pelo craque e capitão rubro-negro, Gianni Rivera, e tomou a Europa de assalto. Prati mostrava cada vez mais predicados: ótimo drible curto, aceleração, bom trabalho de bola com a canhota (ele era destro), finalização apurada de cabeça… Foram três gols na Copa dos Campeões até a decisão contra o Ajax do jovem Johan Cruyff, em 1969, naquela que seria a atuação mais emblemática da carreira da “peste”.

Impetuoso, Prati marcou três gols na goleada por 4 a 1 diante dos holandeses treinados por Rinus Michels. De cabeça, abriu o placar a favor dos rossoneri, após bela jogada de Sormani pela esquerda. No segundo tento, Rivera deixou de calcanhar para o artilheiro acertar um potente chute no ângulo esquerdo do goleiro Gerrit Bals. A tripletta do camisa 11 também contou com assistência de Rivera, que driblou o arqueiro, esperou o avanço de Pierino e cruzou na medida para o atacante cabecear às redes.

Aos 23 anos, Pierino já havia levantado todas as taças que disputou pelo Milan (imago/WEREK)

O camisa 11 pintou e bordou contra a defesa holandesa no Santiago Bernabéu. Até os dias atuais só ele, Di Stéfano e Puskás são os únicos a alcançarem a proeza de anotar três tentos em uma final de Liga dos Campeões. “[Prati] não sabe jogar, mas sabe fazer gols e é isso que mais importa no futebol”, sentenciou certa vez Rocco, técnico do Milan à época, sobre o seu atacante.

Depois da glória na Espanha, o atacante não só comprou um Porsche com o prêmio de melhor jogador da final como também faturou mais um título com o Diavolo: a Copa Intercontinental. Em dois jogos de muita pancadaria, os italianos superaram o Estudiantes por 4 a 2, no placar agregado. Em 1970, o atacante foi convocado para a Copa do Mundo, competição na qual a Itália perdeu a decisão para uma extraordinária seleção brasileira.

Prati foi chamado de última hora por Valcareggi, devido a uma insólita lesão nos testículos, sofrida por Pietro Anastasi. O juventino acabou sendo cortado da seleção juntamente ao meia Giovanni Lodetti, uma vez que o técnico optou por preencher a lacuna no grupo com mais força ofensiva, com Prati e Roberto Boninsegna. Enquanto Bonimba assumiu a titularidade ao lado de Luigi Riva e marcou dois gols, Pierino não entrou em campo naquele Mundial realizado no México.

Momento histórico: Prati marca um dos seus três gols na final da Copa dos Campeões, entre Milan e Ajax (imago/Buzzi)

No início dos anos 1970, Prati ajudou o Milan a levantar mais troféus: duas Coppa Italia (1972 e 1973) e mais uma Recopa Uefa (1973). O camisa 11 também somou mais um vice-campeonato da copa e três da Serie A – em 1971, marcou 19 gols e só ficou atrás de Boninsegna, campeão com a Inter.

Em 1972-73, porém, Pierino começou a temporada de forma arrasadora, com um tento na vitória no Derby della Madonnina e uma tripletta no incrível 9 a 3 sobre a Atalanta – a partida com o maior total de gols na história da Serie A em pontos corridos. Prati tinha seis gols no campeonato quando passou a ser acometido por uma pubalgia e caiu bruscamente de rendimento.

O atacante não mais anotou na campanha e pouco ajudou o Diavolo, que competia em três frentes. Quatro dias depois do título da Recopa, frente ao Leeds, o Milan perdeu sua última partida na Serie A para o Verona, por 5 a 3, e foi ultrapassado pela Juventus, que se sagrou campeã com um gol de Antonello Cuccureddu sobre a Roma, aos 87 minutos. A vingança ocorreria na decisão da Coppa Italia, em julho, terminada com título rossonero. Pierino também não atuou em nenhuma dessas partidas e findou sua trajetória na agremiação lombarda depois de 209 jogos e 102 gols.

Rocco foi o grande mentor do atacante (Storie di Calcio)

Aos 26 anos, o jogador atendeu ao chamado de Liedholm, homem que o lançou para o futebol, e foi atuar pela Roma. Embora o bomber tenha balançado as redes na estreia da Serie A pelos giallorossi (vitória por 2 a 1 sobre o Bologna, no Olímpico), sua primeira temporada na Cidade Eterna não foi fácil. Afinal, a arquirrival Lazio faturou o scudetto, a Roma concluiu o campeonato na oitava posição e Pierino teve um rendimento abaixo do esperado: oito gols em 26 partidas.

A situação melhorou na época 1974-75. O atacante acompanhou o crescimento de Agostino Di Bartolomei e Bruno Conti, pilares do time romanista, e ajudou a Roma a alcançar um terceiro lugar na Serie A, atrás apenas da campeã Juventus e do Napoli, vice: foram 14 gols na campanha e 22 no total, somando os oito realizados na Coppa Italia. Mas foi só. O desempenho do bomber caiu nas temporadas seguintes, ele não teve regularidade, parou de ser convocado para a seleção italiana e os giallorossi amargaram duas posições de meio de tabela.

No outono europeu de 1977, o jogador, já em visível declínio técnico, deixou a capital após algumas aparições na copa e partiu para Florença, onde assinou contrato com a Fiorentina. Ficou somente uma temporada na Viola, sem encontrar o caminho das redes, e se transferiu ao Savona, clube pelo qual já havia defendido por empréstimo no início da carreira. Aos 31 anos, estava na quarta divisão italiana.

Na capital, Prati teve apenas uma temporada de destaque (Arquivo/AS Roma)

A passagem pela equipe biancoblù também foi curta. Após dez gols pela equipe, em 1979, o italiano aceitou uma proposta do Rochester Lancers, time dos Estados Unidos. A experiência no exterior foi decepcionante, a ponto de Prati voltar à Itália no mesmo ano de sua transferência ao time da NASL, a liga norte-americana. Assim, Pierino retornou ao Savona, jogou mais duas temporadas, com 12 gols em cada uma das participações na Serie C2, e encerrou a carreira, aos 34 anos.

Quase três anos depois de pendurar as chuteiras, o ex-atacante iniciou sua jornada como treinador. Porém, não obteve muito êxito e só treinou times de divisões inferiores – todos da Lombardia. O milanês começou no Lecco, em fevereiro de 1984, e depois passou por Solbiatese (1988-89), Bellinzago (1989-90) e Pro Patria (1990-91).

Em 22 de junho de 2020, Prati morreu após perder a batalha contra uma doença que lhe acometia há muito tempo. Aos 73 anos, ele morava em Montorfano, comuna de Como, na Lombardia. Querido por muitos, o ex-jogador ganhou várias homenagens, sobretudo do Milan, clube pelo qual obteve maior sucesso. Ele será lembrado como um dos atacantes mais fatais do final da década de 1960 e início dos anos 1970.

Pierino Prati
Nascimento: 13 de dezembro de 1946, em Cinisello Balsamo, Milão
Morte: 22 de junho de 2020, em Montorfano, Itália
Posição: atacante
Clubes como jogador: Salernitana (1965-66), Milan (1966 e 1967-73), Savona (1966-67, 1978-79 e 1979-81), Roma (1973-77), Fiorentina (1977-78) e Rochester Lancers (1979)
Clubes como treinador: Lecco (1984), Solbiatese (1988-89), Bellinzago (1989-90) e Pro Patria (1990-91)
Títulos como jogador: Serie C (1966), Recopa Uefa (1968 e 1973), Serie A (1968), Eurocopa (1968), Copa dos Campeões (1969), Copa Intercontinental (1969) e Coppa Italia (1972 e 1973)
Títulos como treinador: Serie D (1989)
Seleção italiana: 14 jogos e sete gols



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