Árbitros

Com personalidade forte, Alberto Michelotti colecionou polêmicas e honrarias como árbitro

Alberto Michelotti, famoso árbitro dos anos 1970 no futebol italiano, descreveu em sua biografia, escrita por Claudio Rinaldi, o que era preciso para se tornar um apitador perfeito. Para ele, era necessário ter disciplina, concretude, clareza de apresentação das ideias, lealdade, vitalidade, presença, empatia, autoridade, firmeza, inteligência, entusiasmo, maturidade emocional e motivação. O parmesão cravou os mandamentos que todo aspirante e juízes formados devem seguir, mas será que o próprio foi coerente em suas atitudes com o apito na boca?

Michelotti nasceu em Parma, exatamente na metade de julho de 1930. Como toda a sua família, inspirada pelo avô Napoleone, um cantor, era apaixonado por música: tocou oboé no conservatório municipal até os 13 anos, quando foi ofendido pelo professor por ser filho de mãe solteira e ter origem humilde. Ao mesmo tempo, interrompeu os estudos para ajudar sua genitora no sustento da casa. Elsa – que recebera este nome por causa da ópera Lohengrin, de Richard Wagner – vendia frutas e verduras no mercado da cidade, ao passo que o jovem Alberto se tornou aprendiz em uma oficina mecânica.

A família morava bem no centro de Parma, no bairro de Oltretorrente, palco da resistência ao fascismo na cidade. Antes mesmo de o árbitro nascer, Elsa e os seus irmãos haviam integrado os Arditi del Popolo, grupos paramilitares de esquerda ativo entre 1921 e 1925, que tinham o compromisso de proteger os proletários das milícias da ditadura de Benito Mussolini. Durante a Segunda Guerra Mundial, todos se tornaram partisans e Alberto, um garoto de 13 anos, atuava como mensageiro: volta e meia deixava a sede da província e pedalava até a comuna de Varano de’ Melegari para levar informações aos tios, que ocupavam um esconderijo na região.

Certa vez, quando Alberto retornava de sua missão, acabou preso e torturado pelas forças de repressão do governo. Horas depois, quando Elsa se inteirou do burburinho que tomava as ruas de Oltretorrente e ficou ciente do acontecido, foi imediatamente até o Cassino Petito, local em que seu filho estava preso. Chegando ao prédio, vizinho ao estádio Ennio Tardini, que já estava erguido no centro parmesão daquela época, encontrou Brenno Monardi, o Bragò. O líder fascista local havia sido colega de classe de seus tios e a feirante o conhecia bem. Tão bem que exigiu (e conseguiu) a soltura de sua prole, além de ter cuspido no rosto do facínora – que, um ano depois, seria assassinado pelos partisans. Este episódio mostra o caráter combativo e a forte personalidade transmitida através das gerações da família Michelotti.

Alberto cresceu e se tornou um homem alto e parrudo, que certamente sabia se defender sozinho. Além de amar a música e ter consciência política, se afeiçoou também aos esportes. Ele praticava modalidades como natação e atletismo, mas tinha apreço especial pela luta greco-romana e pelo futebol. Nessa época de sua vida, logo após o fim da guerra, ele começou a jogar como goleiro.

No início da década de 1970, Michelotti apitou uma partida entre Roma e Inter que acabaria em confusão (LaPresse)

Ao longo de sua carreira como jogador, Berto passou pelas categorias de base do Parma e atuou em clubes das categorias amadoras, da terceira divisão para baixo – Parma Vecchia, Borgotarese, Colorno, Fidenza, Folgore Piadena e Bozzolese. Veio a encerrar sua carreira muito cedo, aos 25 anos. A escolha de se aposentar não partiu do próprio Michelotti, mas de um acidente de trabalho no qual ele se envolveu, em 1955. Em uma partida, quando foi disputar a bola com um atacante adversário, acabou quebrando a clavícula com a força do impacto.

O ano de 1955 foi mesmo importante para Alberto: além do incidente que mudou sua trajetória profissional, ele se casou com Laura Abbati, que se tornaria companheira para uma vida inteira. Em 1958, porém, o parmesão voltou aos gramados. Mas, dessa vez, vestindo “paletó negro”. Incentivado pelo árbitro veneziano Ferruccio Bellè, e também por um técnico de arbitragem bolonhês, Valdo Franceschi, com os quais havia feito amizade através do trabalho como mecânico, Berto encontrou uma nova forma de se manter próximo do futebol, dessa vez como juiz. Segundo ele, conhecer os valores de diversos esportes foi um fator que lhe ajudou a ter sucesso na profissão, que conciliava com a oficina.

Michelotti começou apitando competições de menor expressão e, desde o começo de sua carreira, se espelhando no exemplo de Concetto Lo Bello, o “Tirano de Siracusa”, mostrava personalidade e autoridade – assim como descrito pelo parmesão em seu livro. O desejo de salientar o seu poder era tamanho que em sua partida de estreia, na sétima divisão, Berto nocauteou um jogador com um cruzado no queixo após o atleta proferir xingamentos à sua mãe. Não contente, o árbitro ainda o expulsou de campo. Talvez a paixão pela luta greco-romana tenha ido longe demais neste dia e resultou na sua suspensão por um mês.

Com 36 anos, Michelotti estreou na Serie B e, duas temporadas depois, iniciou suas atuações na elite do Campeonato Italiano. O jogo que abriu os trabalhos dele no futebol que tinha todos os holofotes do país? Um Napoli-Varese, no qual os donos da casa levaram a melhor por uma goleada de 5 a 0. A peleja inaugurou uma trajetória de 13 temporadas e 145 atuações na primeirona, além de 86 compromissos em nível internacional.

O italiano esteve presente em algumas grandes partidas internacionais, como em embates do Bayern Munique de Franz Beckenbauer (imago)

Tal qual Lo Bello, Berto se envolveu em muitas polêmicas – muitas delas por não temer decisões impopulares, mas que julgava corretas. Logo em 1969, num Inter-Verona, se colocou contra um San Siro lotado ao expulsar Mario Corso após reclamações acintosas (o nerazzurro pegou um gancho de cinco jogos) e, na sequência, marcar um pênalti para os visitantes – que acabaria desperdiçado, de modo que o duelo foi concluído em 0 a 0. Na época se dizia que, com Michelotti, se uma partida devesse terminar empatada sem gols, ela terminaria dessa forma. De certa forma, era um elogio à retidão do árbitro.

Em 1970, foi a vez de Orfeo Pianelli, presidente do Torino, se desentender com o apitador. O dirigente se irritou com faltas que, segundo ele, não foram marcadas sobre o atacante Paolo Pulici, num empate por 1 a 1 contra a Lazio. Para mostrar seu descontentamento, o cartola tentou invadir o vestiário da arbitragem, levantando a voz, e foi contido pelo próprio Alberto, que reagiu com o seu típico palavreado, carregado de sotaque e expressões próprias do dialeto parmesão. Michlòt, como era conhecido em Parma, não se limitou ao gogó: simplesmente usou a força para agarrar Pianelli, um baixinho robusto, levantá-lo do chão e expulsá-lo do recinto, empurrando-o após cruzar a porta, que trancou na sequência.

Três anos depois, o pivô de um novo entrevero com o emiliano foi Gianni Rivera, craque do Milan. Em 12 de março, numa partida do Diavolo contra o Cagliari, Michelotti concedeu o pênalti que deu a vitória aos casteddu por 2 a 1. Para Berto, Angelo Anquilletti teria usado a mão para evitar um drible do atacante Luigi Riva, o que revoltou a todos do time milanês. Rivera, então capitão dos rossoneri, soltou o verbo ao final do jogo e afirmou que aquele seria o terceiro campeonato roubado pelos juízes designados por Giulio Campanati, chefe da comissão de arbitragem da época. O camisa 10 terminou suspenso por dois meses e meio. Por outro lado, a diretoria milanista conseguiu mexer os seus pauzinhos e Alberto não dirigiu embates dos lombardos por três anos.

Alberto teve muitos problemas com outro jogador que passou pelo Milan: Luciano Chiarugi, que atuou pelo Diavolo entre 1972 e 1976. O ponta era um verdadeiro cai-cai e irritava muito Michelotti, com quem discutia frequentemente. Volta e meia, o árbitro ameaçava o atleta de expulsão pela reiterada malícia ou lhe ironizava, afirmando que, se ele não se corrigisse, não marcaria falta nem em caso de soterramento pelo adversário. Em 1977, Berto compareceu a uma mesa-redonda esportiva e usou o termo “chiarugismo” para se referir à prática da simulação. Acabou suspenso por um mês pela comissão de arbitragem, ainda que seus superiores concordassem com suas palavras.

Disciplinador, Michelotti impunha respeito em jogos grandes, como na semifinal da Copa dos Campeões entre Hamburgo e Real Madrid (imago/Kicker/Liedel)

Na temporada 1972-73, Berto apitou uma partida entre Roma e Inter que também entrou para os anais da crônica esportiva. No dia seguinte, um pequeno jornal romano estampou em sua capa: “Michelotti assassino”. Por quatro dias seguidos, o Corriere dello Sport dedicou manchetes principais de gosto duvidoso sobre a qualidade do árbitro e sua índole.

Tudo isso aconteceu porque o emiliano apitou um pênalti a favor dos visitantes aos 89 minutos de jogo, o que acabou garantindo a vitória da Inter por 2 a 1: no lance, Giorgio Morini derrubou Sandro Mazzola, mas houve a dúvida se a falta ocorreu sobre a linha da grande área ou fora dela. A marcação despertou a ira dos torcedores da Loba, que atiraram objetos no gramado e invadiram o campo – alguns ainda tentaram alcançar o árbitro no vestiário.

O clima esquentou e, tanto dentro quanto fora do Olímpico, pessoas se feriram e foram presas. Os protestos tomaram outros bairros da capital, enquanto parte da torcida foi reclamar na sede da FIGC, a Federação Italiana de Futebol. Além de ter sido escoltado, Michelotti foi aconselhado pelo presidente da Roma, Gaetano Anzalone, a pegar um caminho alternativo (e mais longo) para o seu retorno a Parma, evitando a autoestrada: de acordo com o dirigente, torcedores romanistas certamente estariam preparando uma emboscada para Alberto numa das cancelas do pedágio. De fato, a oficina de Michlòt, na Emília-Romanha, chegou a ser apedrejada por alguns giallorossi.

Além de multada, a Roma ficou impedida de utilizar o Olímpico por duas partidas. Michelotti não apitou embates da Loba por quase dois anos e só retornou à Cidade Eterna para dirigir um jogo da equipe em uma ocasião tão especial quanto perigosa: um Derby della Capitale vencido pela Lazio, em outubro de 1976. Temor era uma palavra que não constava no vocabulário daquele grandalhão emiliano.

Apesar da reconhecida qualidade, Alberto não foi para a Copa de 1978 por questões políticas (imago)

Michelotti apitou várias partidas importantes em âmbito nacional. Além desse dérbi romano, dirigiu uma vez os clássicos de Milão, Gênova e Úmbria, duas o de Turim e, em incríveis oito oportunidades, foi o juiz do Derby d’Italia. Também foi o responsável por garantir a disciplina em nove confrontos diretos entre Inter, Juventus, Milan, Napoli e Roma. Por fim, Berto foi o árbitro de três finais da Coppa Italia: a de 1975, entre Fiorentina e Milan, e as de 1980 e 1981, ambas entre Torino e Roma.

O emiliano foi promovido a árbitro Fifa em 1973, ganhando assim o passe internacional para apitar jogos fora da Itália – e não foram poucos. Michelotti e seu “paletó preto” estiveram em campo, inclusive, em diversas partidas amistosas e oficiais de clubes brasileiros, como Santos, Flamengo, Botafogo, Palmeiras e Cruzeiro. O italiano, aliás, foi um dos bandeirinhas no duelo realizado no Mineirão entre a Raposa e o Bayern Munique, pela Copa Intercontinental de 1976 – 0 a 0 deu o título aos alemães, que haviam vencido a ida. Berto já havia sido auxiliar noutra peleja importante: a final da Copa Uefa de 1974, entre Feyenoord e Tottenham.

Michelotti foi selecionado para representar a Itália nos Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976, e apitou em duas partidas – nas quais marcou três pênaltis e distribuiu cinco cartões vermelhos.O árbitro também dirigiu alguns duelos importantes nas competições continentais, como a semifinal da Copa do Campeões 1979-80, entre Hamburgo e Real Madrid (5 a 1), e a decisão da Copa Uefa 1978-79, entre Mönchengladbach e Estrela Vermelha (1 a 0).

Embora possuísse larga experiência, tivesse conquistado o prêmio Giovanni Mauro de melhor árbitro do país, em 1974, e vivesse o ápice de sua maturidade profissional, Michelotti nunca teve a oportunidade de participar de uma Copa do Mundo. Após grandes atuações no ano de 1978, chegou a ter cogitada a sua indicação ao torneio, mas havia um entrave: estar à esquerda do espectro político no período em que a Argentina, sede da competição, encarava uma ditadura militar de direita.

Em 1980, seu penúltimo ano como árbitro, Michelotti representou a Itália na Eurocopa (imago/WEREK)

O também competente Sergio Gonella foi o escolhido para representar a Itália no campeonato e foi o primeiro árbitro do país a apitar a final, enquanto Michlòt acabou ficando com a Euro 1980, disputada na Velha Bota. Em Roma, Berto dirigiu o duelo da fase de grupos entre Checoslováquia e Alemanha Ocidental.

O emiliano encerrou sua carreira no mesmo palco em que deu início à sua trajetória na Serie A: o San Paolo de Nápoles. Em maio de 1981, dirigiu um decisivo Napoli-Juventus, pela penúltima rodada do Italiano, disputado por duas equipes que ainda brigavam pelo scudetto – os azzurri estavam dois pontos atrás da Velha Senhora e, assim como a Roma, corriam por fora. Alberto foi homenageado pela torcida partenopea e fez uma arbitragem limpa na partida, terminada com vitória do time de Turim.

Depois de pendurar o paletó preto e o apito (apenas em jogos oficiais, já que seguiu comandando amistosos até completar 67 anos), Berto permaneceu filiado à AIA, a Associação Italiana de Árbitros, e ocupou cargos na direção de clubes como Spezia e Brescello. Além disso, se dedicou a outros esportes: por oito edições, contribuiu à parte de logística do Giro d’Italia, no ciclismo de estrada, e, por quatro temporadas, foi o presidente da Liga Nacional de Voleibol.

Michlòt também se tornou comentarista em programas esportivos na televisão. Atuou em alguns programas da TV Parma, onde desfilou conhecimento sobre futebol, comentários irônicos e críticas carregadas de sotaque local, conquistando a audiência dos telespectadores. Em 2020, foi inserido no Hall da Fama da FIGC e, meses depois, conseguiu comemorar os seus 90 anos com a esposa, as duas filhas e seus netos. Foi o último aniversário que celebrou ao lado de sua amada Laura, que faleceu no início de 2021.

Embora tenha se envolvido em polêmicas durante sua carreira, Michelotti conseguiu manter o que pregou em seu livro, sobretudo o quesito da autoridade. Certamente, não foi o juiz perfeito cujas características elencou em sua biografia, porque não existe ninguém infalível. Porém, marcou época no futebol italiano e, para muitos, foi o “rei dos árbitros” no país.

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