Árbitros

O árbitro Rosario Lo Bello, diferentemente de seu famoso pai, tentou fugir das polêmicas

“Tal pai, tal filho” é uma expressão muito utilizada quando se quer dizer que a prole herdou características muito parecidas com as do seu progenitor. Rosario Lo Bello, certamente, não é um desses casos: ele teve o pai como ídolo e se inspirou nele para tornar-se árbitro, mas as semelhanças ficam por aí. Enquanto Concetto Lo Bello, um dos mais famosos apitadores do futebol italiano, se destacava por uma espécie de estrelismo característico, Rosario se valeu de estilo reservado para ganhar respaldo no cenário nacional.

Nascido em Siracusa, na Sicília, pouco antes do fim da Segunda Guerra Mundial, Rosario praticou polo aquático e natação na infância, seguindo o mesmo caminho que seu pai. Quando completou 18 anos, resolveu dar início à carreira como árbitro de futebol – sendo influenciado fortemente por Concetto.

Após apitar jogos de competições amadoras, aos 28 faria sua estreia na Serie B, na mesma temporada que marcou a aposentadoria de seu genitor – a de 1973-74. Rosario debutou na elite na última rodada da campanha posterior, dirigindo a partida entre Sampdoria e Fiorentina, que terminou com o placar de 4 a 3 para os visitantes.

Recatado e pouco polêmico – diferentemente de Concetto, que ficara conhecido com o epíteto “O Tirano de Siracusa” –, Rosario se transformou em um dos principais árbitros da Serie A no início dos anos 1980. Na temporada 1982-83, após dirigir partidas importantes, apitou um Dérbi de Turim e, na sequência, um dos jogos da final da Coppa Italia, entre Verona e Juventus. Respeitado, o siciliano ganhou seu distintivo Uefa naquele mesmo ano e estreou internacionalmente num amistoso entre França e Espanha. Na Eurocopa de 1984, Lo Bello foi bandeirinha no jogo da semifinal entre França e Portugal, em auxílio ao compatriota Paolo Bergamo.

Pouco após a Euro, Lo Bello se envolveu numa das poucas polêmicas de sua carreira – contudo, as controvérsias que circundaram Rosario foram tão escassas quanto barulhentas. Em setembro de 1984, o árbitro recebeu uma suspensão de seis meses da comissão disciplinar da Associação Italiana de Árbitros (AIA) por causa de uma conversa considerada imprópria com a imprensa. A sentença proferida citava “graves declarações e considerações em relação à reputação de alguns árbitros italianos”.

De fato, em uma conversa com jornalistas, foi descoberto que Rosario declarara que algum compatriota seu estaria “apitando os jogos com um olho no placar”. Após a punição, Lo Bello perdeu uma parte do seu prestígio internacional recém-conquistado e foi presença pouco frequente em jogos internacionais dos anos seguintes: o siciliano não representou o seu país na Copa do Mundo de 1986 ou na Euro 1988, por exemplo. Na Copa de 1990, disputada na Itália, foi um dos cinco italianos que atuaram como quarto árbitro.

Em sua carreira, Lo Bello tentou ficar à margem das partidas e deixar os craques brilharem (imago/Buzzi)

Mas nem a punição da AIA foi capaz de ocultar a consistência de Rosario, que em 1986 recebeu o prêmio Giovanni Mauro, concedido ao melhor árbitro da temporada italiana – o mesmo que seu pai ganhara 24 anos atrás, em cenário distinto. Em sua carreira, Lo Bello apitou diversos clássicos e partidas decisivas da Serie A: os dérbis de Roma e Turim (uma vez cada), dois confrontos entre Juventus e Milan, dois Juve-Roma (numa época em que o duelo representava briga por títulos) e dois Juve-Napoli. Também dirigiu três finais da Coppa Italia: além do já citado Verona-Juve, arbitrou as decisões de 1989 e 1992, entre Sampdoria e Napoli e Juventus e Parma, respectivamente.

Lo Bello costumava ser escolhido para grandes jogos por sua qualidade como árbitro e, principalmente, por sua discrição. Dessa forma, no período em que viveu o seu auge, no fim da década de 1980, também foi o diretor de partidas importantes que envolviam Milan e Napoli, principais postulantes ao scudetto naquela época. O siciliano apitou os confrontos diretos entre as equipes em 1987 e 1988, que ocorreram na reta final da Serie A – respectivamente, na 27ª e 28ª rodadas do certame, que tinha 30 jornadas. Na prática, os resultados definiram os campeões: os azzurri venceram por 2 a 1 na primeira oportunidade e, no ano seguinte, levaram o troco (3 a 2).

Dois anos após apitar a partida que encaminhou o scudetto para o time treinado por Arrigo Sacchi, o árbitro siciliano seria posto no meio do fogo cruzado entre os dois times outra vez. Lo Bello foi escalado para apitar o jogo entre Verona e Milan, na penúltima rodada da Serie A 1989-90, que manteria os rossoneri na briga pelo título em caso de vitória no Vêneto e de um tropeço do Napoli na visita ao Bologna. Se as equipes tivessem os mesmos resultados naquele domingo, iriam à derradeira jornada empatadas em pontos.

No tenso jogo disputado no estádio Marcantonio Bentegodi, o Milan abriu o placar com Marco Simone, que chutou de longe e contou com colaboração do goleiro Angelo Peruzzi. No segundo tempo, Sacchi reclamou acintosamente com Lo Bello por dois supostos pênaltis a favor dos rossoneri, sobre Daniele Massaro e Marco van Basten. Acabou expulso. Na sequência, aos 63 minutos, o argentino Víctor Sotomayor, de cabeça, empatou o jogo. Àquela altura, o Napoli já vencia o Bologna por um tranquilo 3 a 1.

O Milan, então, perdeu a cabeça. A partida ficou ainda mais tensa com o passar do tempo e, aos 82 minutos, Frank Rijkaard levou o segundo cartão amarelo por uma falta – segundo Lo Bello, o holandês ainda o insultou e cuspiu em seus pés. Cinco minutos depois, Rosario marcou uma falta comum no meio-campo, mas Van Basten se revoltou: possesso com a decisão do juiz, tirou a camisa e a atirou no chão. Naturalmente, também foi expulso.

Respeitado em campo, Lo Bello apitou grandes jogos na carreira (Liverani)

Com dois a menos, o Milan ainda viu o Verona virar aos 89 minutos, com Davide Pellegrini. O atacante recebeu em profundidade e, com bela finalização, encobriu Andrea Pazzagli. Ao reclamar com o bandeirinha por uma possível posição de impedimento no gol, Alessandro Costacurta também foi para o chuveiro mais cedo. Lo Bello, portanto, expulsou três jogadores e o técnico do time rossonero.

O ocorrido em Verona foi amplamente comparado com o jogo que as mesmas equipes realizaram em 1973. Na ocasião, o Hellas venceu o Milan por 5 a 3 e tirou o scudetto do time rossonero – por isso, o duelo de 1990 recebeu a alcunha de segundo “Fatal Verona”, ainda que os gialloblù tenham acabado rebaixados logo na sequência. Também houve comparação com a arbitragem de Concetto Lo Bello em um Lazio e Milan daquele mesmo 1973, que terminou com a expulsão de Nereo Rocco.

Em entrevista concedida à Calciopédia, Lo Bello disse não se importar com as criticas que recebeu pelo polêmico Milan e Verona. O ex-árbitro também lembrou que, convenientemente, algumas pessoas esqueceram que também foi dele a arbitragem do jogo que deu o scudetto ao Diavolo em 1988. Segundo o siciliano, a diretoria do time rossonero lhe pediu desculpas pelas ofensas dos jogadores e do técnico ainda nos vestiários, mas mudou de tom em declarações feitas à imprensa.

Em 2020, no lançamento de sua autobiografia, Van Basten declarou que o árbitro havia feito “de tudo” para que o Milan perdesse e que a situação parecia “armada”. Foi processado pelo árbitro. Naquele mesmo ano, em entrevista ao jornal Il Fatto Quotidiano, Lo Bello também criticou a sua escolha para a partida, que gerou muita repercussão entre a imprensa e os torcedores por fatos do passado, que evocavam o seu pai: para ele, a situação poderia ter sido evitada. O fato é que, depois de todas aquelas controvérsias, Rosario nunca mais apitou uma partida dos rossoneri. Ainda assim, o siciliano reclamou de, em suas palavras, ter sido perseguido por uma década pela rede de televisão Mediaset, da qual Silvio Berlusconi é proprietário.

Rosario encerrou sua carreira em 1992, poucos meses depois de ter que encarar a morte de seu pai: sua derradeira aparição nos gramados ocorreu na partida de ida da final da Coppa Italia daquele ano. Logo ao se aposentar, colaborou com a Uefa e virou dirigente da AIA, permanecendo na associação até 2007.

Ainda hoje, afastado do futebol, o ex-árbitro guarda grandes recordações de ter dirigido partidas de craques como Franco Baresi, Ruud Gullit, Diego Maradona, Paulo Roberto Falcão e Michel Platini. “Vivi numa grande época e essas coisas jamais voltarão”, declarou.

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