Brasileiros no calcio

Mazinho: o biênio do tetracampeão mundial na Bota

Iomar do Nascimento, o Mazinho, está na história do futebol brasileiro. Nascido na Paraíba, o lateral e meio-campista defensivo, foi um importante coadjuvante de luxo na campanha do tetracampeonato mundial do Brasil, em 1994 e completa 50 anos hoje, 8 de abril. Aproveitamos a oportunidade para relembrar sua passagem pela Itália, país em que atuou por Lecce e Fiorentina e que lhe deu um de seus filhos: Thiago, jogador do Bayern Munique, em 1991.

O tetracampeão começou sua carreira no pequeno Santa Cruz de Santa Rita, cidade localizada na região metropolitana de João Pessoa e logo foi notado pelo Vasco. No cruzmaltino, Mazinho atuava como lateral esquerdo e logo ganhou a titularidade de uma equipe que também teve o craque Romário, o meia Bismarck e o atacante Geovani (ex-Bologna).

Até deixar o Gigante da Colina, em 1990, o paraibano ganhou três vezes a Bola de Prata da revista Placar e entrou para a seleção do Brasileirão em 1987, 1988 e 1989 – neste último, o Vasco ainda faturou o Brasileirão, em um time que já não contava mais com Romário e Geovani, mas tinha Tita e Bebeto. Mazinho também ganhou quatro taças estaduais.

Com 22 anos, o jogador começou a ser convocado para a Seleção. Vestindo a camisa canarinha ele foi prata nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988 e campeão da Copa América do ano seguinte, com assistência para gol do baixinho Romário na final contra o Uruguai. Mazinho ainda fez parte do grupo que foi a Copa do Mundo de 1990, na Itália – não jogou e só ficou no banco em duas ocasiões. Após o Mundial, permaneceu na Bota: aos 24 anos, assinou pelo Lecce, pequena equipe do sul do país, e foi jogar a Serie A, campeonato mais forte do mundo à época.

Em seus anos de Vasco, o brasileiro chamou a atenção da diretoria do Lecce por sua versatilidade, qualidade no passe e incansável espírito de ajudar o seu time. Apesar da capacidade de atuar em vários setores, Mazinho chegou na Apúlia com a responsabilidade de assumir a lateral esquerda, antes ocupada por Ubaldo Righetti – ex-jogador da Roma campeã italiano em 1983. Mazinho, jogador com alguma rodagem e muita qualidade, logo assumiu a titularidade absoluta do time treinado por outro ex-romanista: o polonês Zbigniew Boniek, que estreava como técnico. O ex-lateral do Vasco da Gama fez 39 jogos e três gols na temporada – só não atuou uma vez, na Coppa Italia, e participou das 34 partidas dos giallorossi na Serie A.

Apesar dos esforços de Mazinho e de seus companheiros, a equipe acabou rebaixada – vale salientar que o Lecce ainda contava com outros bons valores, como o argentino Pedro Pasculli, o soviético Sergei Aleinikov e os italianos Antonio Conte, Francesco Moriero e Pietro Paolo Virdis. Embora no plano esportivo a temporada não tenha sido das melhores, o lateral brasileiro se empenhou muito e foi convocado para a disputa da Copa América de 1991. Mazinho atuou como titular na trajetória do vice-campeonato da Seleção.

Um pouco antes de jogar o torneio sul-americano no Chile, Mazinho foi pai. Em abril, perto da conclusão da campanha que vaticinava o rebaixamento dos salentinos, sua esposa, a ex-jogadora de vôlei Valéria Alcântara, dava a luz a Thiago, o primeiro filho do casal. O meia, formado no Barcelona e membro do elenco do Bayern, nasceu em San Pietro Vernotico, cidade vizinha a Lecce.

Mazinho (direita) persegue o compatriota João Paulo (centro) no dérbi da Apúlia (Cristiano Carriero)

O Lecce foi para a Serie B, mas Mazinho permaneceu na elite. Indicado por Sebastião Lazaroni, seu treinador em tempos de Vasco e seleção brasileira, fechou com a Fiorentina, equipe dirigida pelo comandante mineiro. O paraibano foi contratado por 8 bilhões de velhas liras e chegou na mesma janela que os atacantes Marco Branca e Gabriel Batistuta – o último se tornaria ídolo da torcida – e jogaria no meio-campo, ao lado de Dunga.Contratado como jogador de confiança de Lazaroni, Mazinho teve a companhia do técnico em Florença por pouco tempo. O treinador brasileiro havia sido contratado em 1990 pela gestão anterior à do então presidente Mario Cecchi Gori, e não agradava ao dirigente – os resultados, em uma época de vacas magras da Viola, também não ajudavam.

Na 5ª rodada, após um início ruim de campeonato, Lazaroni foi substituído por Luigi Radice, o que não ajudou Mazinho a ter tanto espaço na equipe de Florença. O jogador da Seleção foi reserva e atuou em 23 partidas naquela temporada, que acabou com a Fiorentina no meio da tabela. O volante, como se imagina, deixou poucas saudades nos torcedores: o site Viola News descreve a passagem do brasileiro como de “prestações de bom nível, se comparadas à mediocridade dos jogadores daquele elenco”. O jornalista Stefano Borgi, do Museo Fiorentina, também acredita que o clube gastou mais do que devia em Mazinho e que foi uma surpresa vê-lo campeão mundial sobre a Itália de Arrigo Sacchi, dois anos depois.

A saída da Itália significou a guinada na carreira de Mazinho, que estava com apenas 26 anos. Ele voltou ao Brasil, para defender o Palmeiras, e faz parte de uma das fases mais gloriosas do alviverde: com Vanderlei Luxemburgo no comando, ele atuou como lateral direito e volante nas conquistas dos bicampeonatos paulista e brasileiro, tendo como colegas Antônio Carlos Zago, Roberto Carlos, César Sampaio, Freddy Rincón, Edílson, Zinho, Edmundo e Evair. Em 1993, quando vivia o auge pelo Palmeiras, nasceu seu segundo filho: Rafinha, que atualmente defende o Barcelona.

A boa participação nas conquistas do timaço palmeirense fez Carlos Alberto Parreira chamá-lo para disputar a Copa de 1994. Convocado para atuar como meio-campista defensivo, Mazinho ganhou a vaga como titular ao longo da campanha do Mundial dos Estados Unidos, relegando Raí ao banco de reservas. O paraibano atuou em seis dos sete jogos da Seleção, iniciando todos os referentes ao mata-mata no onze inicial canarinho. A entrada de Mazinho no time de Parreira ajudou a dar um equilíbrio maior à equipe, algo fundamental na trajetória do tetra brasileiro.

Depois da conquista, Parreira mostrou como gostava do futebol de Mazinho e o levou junto com ele para o Valencia, da Espanha. O treinador ficou menos de um ano no Mestalla e Mazinho ficou até a temporada seguinte, quando se transferiu para o Celta de Vigo. O volante paraibano defendeu a equipe celeste da Galícia de 1996 a 2000, antes de ter uma curta passagem pelo Elche, da segundona espanhola, e encerrar a carreira no Vitória, em 2001.

Após se aposentar, Mazinho teve uma curta passagem como técnico no futebol grego, mas desde 2001 mora na Espanha, com a esposa e os três filhos. Curiosamente, todos desenvolveram carreiras como esportistas: além de Thiago e Rafinha, Thaissa, de 17 anos, é jogadora de basquete. Tão identificado com a Seleção, o tetracampeão guarda alguma mágoa pelo fato de a CBF não ter levado a sério as suas preocupações na época em que Thiago começava a ser convocado para as seleções de base da Espanha – a qual ele defende hoje, depois de ignorado pelos treinadores contratados pela entidade. Ao menos Rafinha, já convocado por Dunga, pode tentar seguir os passos do pai com a amarelinha.

Iomar do Nascimento, o Mazinho
Nascimento: 8 de abril de 1966, em Santa Rita (PB)
Posição: meio-campista e lateral
Clubes como jogador: Santa Cruz-PB (1983-85), Vasco (1985-90), Lecce (1990-91), Fiorentina (1991-92), Palmeiras (1992-94), Valencia (1994-96), Celta de Vigo (1996-2000), Elche (2000-01) e Vitória (2001)
Títulos conquistados: Copa do Mundo (1994), Copa América (1989), Campeonato Brasileiro (1989, 1993 e 1994), Torneio Rio-São Paulo (1993), Taça Guanabara (1987 e 1990), Campeonato Carioca (1987 e 1988) e Campeonato Paulista (1993 e 1994).
Clubes como técnico: Aris (2009)
Seleção brasileira: 39 jogos

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