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Entre altos e baixos, Andrea Ranocchia acabou respeitado pela torcida da Inter

De tempos em tempos, surgem notícias de jogadores reconhecidos internacionalmente que penduram as chuteiras precocemente por desgaste físico ou emocional. Promessa da geração sucessora de Fabio Cannavaro e Alessandro Nesta, Andrea Ranocchia não conseguiu se tornar o defensor regular que todos esperavam, mas superou problemas musculares e uma má fase que parecia interminável para ser peça-chave da reconstrução da Inter e figura importantíssima nos bastidores da equipe nerazzurra. Após a experiência em Milão, se transferiu ao Monza, mas optou por interromper a carreira aos 34 anos por conta de uma fratura no tornozelo, que lhe abalou profundamente.

O pequeno Andrea, nascido em Assis, na região da Úmbria, já aprontava com a bola no pé. Ele deixava os vizinhos invocados porque costumava quebrar as vidraças dos prédios ao jogar futebol. Tinha idade de menino, mas o tamanho já era de zagueiro aos 16 – apesar de atuar como atacante e trequartista pelos juniores do Bastia, time de Bastia Umbra, a pouco mais de 9 quilômetros de sua cidade natal.

Aos 12 anos, o jovem arrumou as malas para Perugia, capital da região, onde vestiu as cores do time homônimo da cidade. O clube, no entanto, declarou falência em 2005 e Ranocchia migrou para o Arezzo, após Fulvio Rondini, responsável pelas categorias juvenis, prospectá-lo no Campeonato Regional de Estudantes de Perugia. Lorenzo Rubinacci, técnico da base, concordou de imediato. Andrea se tornou grato aos dois pelo incentivo para não largar o futebol, um caminho cogitado diante da frustração depois do ocorrido na agremiação biancorossa.

Após disputar o Campeonato Primavera, o zagueiro foi alçado aos profissionais do Arezzo em 2006-07, sob a orientação de Antonio Conte. “É aquele que exige o melhor, especialmente dos jovens”, disse o ex-beque. Ele debutou na Serie B aos 18 anos e também recebeu conselhos de Mirko Conte e Moris Carrozzieri, que o ajudaram a evoluir defensivamente. A pouca idade não isolou Ranocchia no banco de reservas: ele somou 29 participações e anotou um gol em sua temporada de estreia, que terminou em rebaixamento.

Ranocchia estreou na Serie A pelo Bari e, pelos apulianos, se tornou um dos zagueiros mais promissores da Itália (Getty)

Mesmo na Serie C1, ganhou espaço no plantel sub-21 da Itália, treinado por Pierluigi Casiraghi, por conta do desempenho mostrado na campanha de quase acesso do Arezzo. Aos 19 anos, Ranocchia foi convocado para um amistoso contra a França, em 2007. Enquanto engatinhava na Nazionale, ele teve o passe adquirido pelo Genoa e acabou emprestado na sequência ao Bari, onde reencontrou o “padrinho” Conte novamente na Serie B.

Ranocchia esquentou o banco até conquistar a titularidade no segundo turno. Com 17 aparições, marcou um tento na campanha de acesso dos galletti à elite do futebol italiano – alavancada pela defesa menos vazada do campeonato, vencido pelo próprio Bari. Ele também garantiu as passagens para os Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim, mas Casiraghi sequer o relacionou nas partidas da Itália.

Com a partida de Conte para a Atalanta, o Bari passou a ser tocado pelas ordens de Gian Piero Ventura. Em 2009-10, os apulianos repetiram a dose e montaram uma defesa digna de Serie A para frearem os gigantes de Milão e vencerem a Juventus. Para isso, foi fundamental manter Ranocchia, que permaneceu por empréstimo após seus direitos econômicos serem adquiridos na totalidade pelo Genoa, junto ao Arezzo. Leonardo Bonucci chegou da Inter e o entrosamento não foi problema com o novo companheiro. A consistência da dupla colocou os biancorossi como o segundo time com menos gols sofridos na virada do ano.

Isso também é consequência da evolução técnica e mental de Ranocchia. Mais vigilante na primeira divisão, o zagueiro diminuiu a frequência de erros por desatenção e aprendeu a jogar de forma refinada para desarmar os adversários. Porém, uma lesão no ligamento cruzado anterior do joelho direito emperrou a sequência da boa fase e, mais do que isso, anulou as chances do beque aparecer na convocatória de Marcello Lippi para a Copa do Mundo de 2010, na África do Sul. Na época, Andrea era considerado mais promissor do que Bonucci, que acabou sendo chamado pelo tetracampeão mundial.

Após o sucesso no Bari, Andrea teve rápida passagem pelo Genoa, onde também brilhou (Getty)

Como previsto devido ao alto rendimento, o mercado de zagueiros no Bari foi movimentado na janela de verão. Enquanto Bonucci deu início a uma longa jornada na Juventus de Andrea Agnelli e Giuseppe Marotta, Ranocchia assinou com a Inter, num negócio que previa a aquisição de metade de seu passe mais o empréstimo de Mattia Destro ao Genoa. Porém, o contrato previa mais uma temporada do defensor na capital da Ligúria.

O alto investimento do presidente Enrico Preziosi, entretanto, não deu muito certo: o técnico Gian Piero Gasperini foi dispensado após não dar continuidade aos resultados satisfatórios de outrora e foi substituído por Davide Ballardini na 11ª rodada da Serie A. Ranocchia continuou presente em quase todos os jogos do Genoa. Ele foi o destaque da quarta melhor retaguarda do campeonato no primeiro turno de 2010-11 e ganhou o prêmio Armando Picchi de melhor defensor sub-21. Naquele mesmo ano, estreou pela seleção principal da Itália, atuando num amistoso contra a Romênia.

Em janeiro de 2011, por conta de uma séria lesão sofrida por Walter Samuel, a Inter apressou sua chegada e comprou a metade remanescente de seu passe. Trajado de nerazurro, o zagueiro mostrou personalidade para ter a confiança de Leonardo, em um clube entorpecido pela conquista da tríplice coroa na temporada anterior. Ranocchia chegou para ser parceiro de Lúcio numa zaga que ainda tinha Cristian Chivu à esquerda e Maicon na lateral direita. A configuração somou importantes vitórias no decorrer campanha, como diante de Roma, Lazio e Bayern Munique. Além disso, Andrea conseguiu o segundo troféu da carreira ao ajudar a Beneamata a faturar a Coppa Italia sobre o Palermo.

Até 2014, passaram pelo comando da Inter os técnicos Leonardo, Andrea Stramaccioni e Walter Mazzarri. Apesar das diferenças táticas entre os treinadores, havia um entendimento em comum entre todos eles: a liderança de Ranocchia, que segurava as pontas de uma equipe que não conseguia bons resultados. Até como centroavante, na hora do aperto, o beque chegou a ser utilizado. Além disso, como era comparado a Marco Materazzi, chegou a vestir a camisa 23 que era do tetracampeão mundial.

Depois de um início promissor, Ranocchia perdeu a confiança e até a faixa de capitão da Inter (Getty)

O prestígio acumulado ao longo dos anos o deixou bem posicionado para receber a braçadeira de capitão de Javier Zanetti, em 2014-15, logo depois da aposentadoria do lateral e das saídas de Samuel, Esteban Cambiasso e Diego Milito, que estavam à sua frente na hierarquia. Durante esse período, Andrea foi frequentemente convocado pela Nazionale e apareceu nas listas preliminares da Squadra Azzurra para a Euro 2012 e a Copa do Mundo de 2014. No entanto, Cesare Prandelli não incluiu o jogador em nenhuma das convocatórias finais.

Durante a atribulada campanha de 2014-15, Mazzarri foi trocado por Roberto Mancini e, então, a carreira de Ranocchia virou de ponta-cabeça. O retorno a um sistema com quatro zagueiros e a coexistência com veteranos, como Nemanja Vidic e Hugo Campagnaro, ou peças que ainda eram consideradas verdes para o futebol italiano, como os brasileiros Jonathan e Juan Jesus, deixou Andrea em parafuso.

Exposto, o capitão passou a errar em demasia todos os fundamentos e gestos técnicos que constituem um bom zagueiro: posicionamento, botes, jogadas aéreas, antecipações… Assim, a Inter amargou a oitava posição no campeonato e o umbro, imerso em inconsistência e incapaz de lidar com a pressão, perdeu a titularidade no ano seguinte. Pior: teve de passar a faixa para Mauro Icardi. Os problemas cresciam como uma bola de neve e Ranocchia parecia não acreditar mais em seu futebol.

Desacreditado e sem a confiança do treinador, sentado no banco de reservas, Ranocchia fez apenas 10 partidas pela Inter em 2015-16. O defensor também fez as últimas aparições com a camisa da Itália nesse período, quando voltou a ser comandado pelo seu mentor Conte nas qualificatórias da Euro 2016. Portanto, para seu próprio bem e talvez também do time, ele decidiu se afastar e aceitar um novo destino: retornar a Gênova, agora para ostentar as cores da Sampdoria, rival do Genoa, sua antiga equipe. Andrea atuou 14 vezes na reta final da campanha dos blucerchiati, que garantiram a permanência na elite com três rodadas de antecedência. Por lá, também não brilhou e colecionou falhas.

Na expectativa de recuperar seu futebol, o defensor aceitou ser emprestado a algumas equipes, como a Sampdoria (Getty)

De volta à Inter no verão, Ranocchia também foi escanteado por Frank De Boer e Stefano Pioli. Porém, quando foi utilizado, comprometeu de forma avassaladora – participando de derrotas pesadas para Chievo, Napoli, Hapoel Be’er Sheva e Sparta Praga, ocasião em que foi expulso e acabou aumentando o vexame nerazzurro na péssima campanha pela Liga Europa.

Depois dessas performances espaçadas e sem brilho, o zagueiro foi cedido por empréstimo novamente. O destino foi o Hull City. Na Inglaterra, o italiano conseguiu apresentar um saldo razoável, com 16 partidas e dois gols marcados. Mas não foi o suficiente para evitar o descenso dos Tigres nem apagar falhas decisivas como em um dos tentos no confronto direto contra o Crystal Palace.

Depois disso, o zagueiro não recebeu ofertas. Era, então, hora de pegar o voo para Milão e encarar uma realidade indigesta: o banco da Inter. Com Luciano Spalletti na área técnica, Ranocchia foi limitado a 11 jogos em 2017-18 e, ainda assim, balançou duas vezes as redes. Apesar de não acionar o beque com frequência, o treinador reconheceu a influência dele no vestiário. “Ele é o verdadeiro capitão porque é aquele que fala com frequência. Você não o nota, mas diz o que precisa ser dito durante as dificuldades”.

Inclusive, de forma relativamente inesperada, Andrea voltou a ter um papel importante com a camisa nerazzurra. O respaldo que tinha nos bastidores passou a pesar em sua performance: sempre que utilizado, embora a conta-gotas, Ranocchia correspondia. Não à toa, chegou a chorar de emoção quando a Inter conseguiu se classificar para a Liga dos Campeões, em 2018. A Beneamata acabou eliminada precocemente do torneio, mas, naquele mesmo ano, o defensor anotou seu primeiro gol em competições europeias com um baita voleio ante o Rapid Vienna, pela Europa League.

A volta por cima veio na própria Inter: Ranocchia jogou pouco, mas ofereceu segurança no fim da carreira (Getty)

A chegada de Conte à Inter, em 2019, renovou as esperanças de Ranocchia, que imaginava uma maior utilização. Isso não chegou a ocorrer, visto que Milan Skriniar, Stefan De Vrij, Diego Godín e Alessandro Bastoni estavam à frente na hierarquia e o treinador mantinha suas firmes convicções – nelas, Andrea só poderia ser a peça de centro na linha de três defensores, de modo que só jogou quando o holandês foi escolhido para descansar.

De qualquer forma, o zagueiro completou a marca histórica de 200 partidas vestido de nerazzurri na vitória contra o Ludogorets, pela Europa League. O ciclo chegou ao fim em grande estilo: além do vice no torneio continental e da Serie A, em 2020, Ranocchia conquistou o scudetto em 2021, ainda sob a batuta de Conte, e, já na gestão de Simone Inzaghi, ganhou uma Supercopa nacional e mais uma Coppa Italia, em 2022. No mata-mata, aliás, ele foi fundamental para iniciar a reação contra o Empoli, nas oitavas de final, com um lindo gol de voleio nos acréscimos do segundo tempo. Em junho de 2022, sua aventura com a Beneamata se encerrou após 226 jogos, 14 gols e quatro títulos.

Três semanas depois, Ranocchia foi convencido a embarcar na empreitada ambiciosa de Silvio Berlusconi e Adriano Galliani no Monza. Como prometido a ele, o recomeço foi como titular na vitória contra o Frosinone, pela Coppa Italia. Em sua estreia pela liga, na segunda rodada, porém, a derrota para o Napoli ficou ofuscada. O defensor saiu do jogo após tentar evitar a saída de bola para escanteio. Os exames indicaram uma fratura exposta na fíbula, com tempo de recuperação previsto para três meses. Andrea, contudo, anunciou a aposentadoria exatamente 30 dias depois.

“Não tenho mais nada para dar dentro de mim. Eu e Galliani ficamos amigos. Ele é um cavalheiro e entendeu. Agora, aproveito para juntar essas emoções que chegaram nos últimos meses e pensamentos para o futuro. Não vou voltar a jogar futebol, não é isso que eu quero”, publicou no Instagram. Um fim de carreira longe do que Ranocchia merecia, na mesma medida em que ele não atingiu o potencial que tinha dentro de si.

Andrea Ranocchia
Nascimento: 16 de fevereiro de 1988, em Assis, Itália
Posição: zagueiro
Clubes: Arezzo (2006-08), Bari (2008-10), Genoa (2010) e Inter (2011-16, 2016-17 e 2017-22), Sampdoria (2016), Hull City (2017) e Monza (2022)
Títulos: Serie B (2009), Coppa Italia (2011 e 2022), Serie A (2021) e Supercopa Italiana (2021)
Seleção italiana: 21 jogos

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