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Marek Jankulovski chegou ao ápice no Milan e recusou ser envolvido em troca com a Inter

O histórico recente de laterais-esquerdos no Milan não é dos melhores. Na “banter era” (período sombrio do clube sob a batuta de Silvio Berlusconi), os rossoneri sofreram com muitos jogadores fracos para a posição até a chegada de Ricardo Rodríguez, em junho de 2017. O último lateral canhoto a fazer sucesso pelo lado vermelho e preto de Milão havia sido Marek Jankulovski, que defendeu o time por seis anos. O checo atingiu o ápice de sua carreira pela equipe milanista e, em 2010, recusou ser envolvido em uma troca com a Inter.

Filho de pai macedônio e mãe checa, Jankulovski nasceu em 1977 na cidade de Ostrava, terceira maior da República Checa – ou Chéquia, como o país prefere ser chamado atualmente. Começou a jogar bola no Baník Ostrava, passando pelas divisões de base até estrear no profissional, em 1994, aos 17 anos. Em seis anos pelo clube checo, o lateral-esquerdo ajudou na campanha que culminou na terceira e na quarta posições no campeonato nacional, em 1993-94 e 1997-98, respectivamente.

Visto como um promissor lateral ofensivo do futebol local, já que marcara oito gols em 27 jogos na temporada 1999-2000, Marek acabou pinçado pelo Napoli a pedido de Zdenek Zeman, seu compatriota. Ele, que fez companhia a Edmundo na agremiação do sul, foi disputar sua primeira partida pelo novo clube só em novembro de 2000, pois a Serie A começou mais tarde devido à Olimpíada de Sydney. Aliás, o jogador esteve a serviço da seleção checa nos Jogos Olímpicos. Os europeus ficaram na lanterna do Grupo C, e o defensor deixou a sua marca no empate em 2 a 2 com a seleção norte-americana.

Antes da Olimpíada, o jovem Jankulovski também fez parte do selecionado checo que disputou a Eurocopa de 2000, realizada na Bélgica e na Holanda. Seu primeiro gol pela equipe nacional saiu numa derrota por 3 a 1 ante a Islândia, em Reykjavík, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2002, em setembro de 2001.

A primeira época de Jankulovski em terras italianas foi boa individualmente – entrou em campo 20 vezes e anotou três tentos –, mas ruim do ponto de vista coletivo. Afinal, os partenopei terminaram a Serie A em penúltimo lugar e caíram para a segunda divisão. Marek permaneceu para a disputa da segundona e, em fevereiro de 2002, a Udinese decidiu pagar 3,5 milhões de euros ao Napoli para contar com seu futebol. Efetuada a compra, a diretoria bianconera o deixou emprestado à equipe napolitana até o fim daquela temporada.

O Napoli foi o primeiro clube de Jankulovski na Itália (Getty)

Uma das maiores virtudes de Jankulovski era poder atuar em várias posições do lado esquerdo do campo – e não só. No Napoli, foi utilizado como lateral-esquerdo, ala pelo flanco canhoto e até foi improvisado como meio-campista central. Não à toa, balançou as redes nove vezes em 53 jogos. A situação foi semelhante na Udinese, clube em que Marek se tornaria peça fundamental.

A boa campanha no Italianão de 2002-03 levou os friulanos à Copa Uefa, visto que terminaram o campeonato na sexta colocação. Com cinco gols em 27 jogos, Janku continuou se destacando no grupo zebrado. Na temporada seguinte, disputou seu primeiro jogo de competição europeia, aumentou a média de partidas e estufou as redes mais vezes. Ele já estava visado entre os grandes times da Itália. Em 2004, então, a Udinese renovou o contrato de Marek por mais quatro anos.

O acordo, no entanto, não foi suficiente para evitar sua saída do clube – na verdade, ao renovar o vínculo, o presidente Giampaolo Pozzo esperava conseguir um montante maior com a venda do jogador. Jankulovski, que chegou a ser especulado na Juventus e no CSKA Moscou, assinou com o Milan por três temporadas no verão europeu de 2005. O lateral, que havia ajudado a Udinese a se classificar para a Liga dos Campeões 2004-05, custou 8,5 milhões de euros aos cofres milanistas. Em Milão, teria a concorrência de Paolo Maldini (que futuramente seria convertido em zagueiro), Serginho e Kahka Kalazde.

O jornal Gazzetta dello Sport repercutiu assim a nova contratação do Milan: “Por muito tempo Jankulovski esteve na lista de desejos de [Carlo] Ancelotti: sua flexibilidade é uma arma importante porque durante a temporada o checo pode ser utilizado na defesa, no meio-campo e até no ataque. Sua função preferida é a de ala ofensivo do meio-campo, mas na seleção ele tem jogado frequentemente como lateral-esquerdo, mostrando facilidade em arrancadas e boa propensão para cruzamentos. Sua interpretação dessa função é muito similar à de Cafu e, por esse motivo, não será fácil ver o brasileiro e o checo em campo ao mesmo tempo”.

Jankulovski gozava de muito prestígio com Ancelotti, mas não pôde ser usado imediatamente. É que o polivalente jogador chegou ao Milan lesionado: havia fraturado o tornozelo após uma forte entrada do zagueiro Leandro Cufré durante uma partida contra a Roma, no Olímpico, pela Coppa Italia, em maio de 2005. Por isso, o lateral demorou a entrar em forma e, assim, conseguir espaço no onze inicial. Ele foi titular na maior parte em jogos da copa, nos quais o técnico geralmente mandava a campo um time misto.

Jankulovski foi um dos jogadores que a Udinese valorizou na primeira década deste século (LaPresse)

Embora ainda estivesse em busca de continuidade na equipe de Milão, Jankulovski era titularíssimo na badalada seleção checa. Ajudou seu país a chegar às semifinais da Eurocopa de 2004, mas não conseguiu evitar a derrota na prorrogação para a surpreendente Grécia, que viria a ser campeã do torneio. Marek também fez parte do elenco que se classificou à Copa do Mundo de 2006: os checos sucumbiram na fase de grupos, com derrotas para Gana e Itália e uma vitória inútil diante dos Estados Unidos.

Passada a eliminação no Mundial, Jankulovski voltou ao Milan em alto nível e realizou sua melhor temporada na carreira. Colocou Serginho no banco, disputou 49 jogos (somando todas as competições), marcou três gols e forneceu três assistências. Por ser um lateral com características ofensivas, Jan avançava bastante ao ataque e arriscava arremates de longa distância. O Chievo e o Livorno foram vítimas de seu potente chute. Ele foi titular na campanha que culminou no título da Liga dos Campeões ante o Liverpool, em Atenas.

O camisa 18 começou a época 2007-08 em grande estilo, guardando um bonito gol no triunfo por 3 a 1 sobre o Sevilla, pela Supercopa Uefa. Marek avançou às costas de Jesús Navas, meia aberto pela direita, Andrea Pirlo percebeu e o lançou: o lateral acertou um difícil sem-pulo e mandou na bochecha da rede adversária. Golaço. Contudo, em outubro, durante embate com o Empoli, ele sofreu uma lesão no menisco externo do joelho direito e ficou de molho por muitos jogos.

Recuperado parcialmente da lesão, jogou o Mundial de Clubes no final do ano, e ajudou o Milan a levar a taça depois de golear o Boca Juniors na decisão. Em maio de 2008, Jankulovski foi eleito o melhor jogador checo do ano de 2007. O milanista, que superou o goleiro Petr Cech e o meia Tomás Rosický, se tornou o primeiro atleta de defesa a conquistar o prêmio em 17 anos.

Jankulovski também foi convocado para a Eurocopa de 2008, na qual os checos caíram na primeira fase. Como de praxe, foi titular. Em outubro de 2009, entrou em campo pela última vez para defender a seleção da Chéquia: jogou os 90 minutos de um empate sem gols com a Irlanda do Norte, em Praga, valendo pelas Eliminatórias da Copa de 2010. Como os tricolores não se classificaram para a competição, Marek decidiu se aposentar. Até hoje, é um dos 10 jogadores com mais partidas pela equipe de seu país.

Os chutes potentes foram uma marca registrada de Jankulosvki em sua carreira profissional (Image Sport)

Marek seguiu como titular do Milan na temporada 2008-09, mas caiu de produção nas seguintes, muito em função de lesões. Com os destros Gianluca Zambrotta e Luca Antonini podendo fazer a lateral esquerda, o então técnico Leonardo não contou muito com Jankulovski na temporada 2009-10. Em janeiro de 2010, a diretoria rossonera decidiu envolver o camisa 18 em uma troca com a Inter: o checo iria emprestado aos nerazzurri, enquanto o brasileiro Mancini vestiria vermelho e preto. Marek, porém, recusou defender a Beneamata, que conquistaria a Tríplice Coroa ao fim da temporada. Mancini, por outro lado, foi cedido ao Diavolo do mesmo jeito – e fracassou.

“Ali eu não pensei duas vezes”, afirmou Jan, em entrevista ao portal MilanNews.it, em maio de 2011. “Queria continuar jogando aqui. A Inter me ofereceu um ano a mais de contrato, estava em primeiro na classificação e, no final, venceu tudo. Mas estou feliz de ter permanecido no Milan, de ter demonstrado o que vali quando tive a oportunidade e de ter terminado vencendo o scudetto com essa camisa”, completou.

Em sua última temporada pelo Milan, Jankulovski já era considerado reserva e seguiu lutando contra os problemas físicos. Teve que passar por uma cirurgia no joelho em abril de 2011, aliás. Entrou em campo apenas sete vezes, mas pelo menos pode se despedir com o único título italiano da carreira. Ao fim da época, o lateral foi liberado pelo Milan. Foram 158 partidas, cinco gols, nove assistências e quatro títulos pelo clube.

Recuperado do procedimento cirúrgico, ele retornou ao Baník Ostrava, clube que o revelou, após 11 anos. Assinou contrato de um ano. Em seu primeiro jogo pelo time checo, entretanto, foi substituído depois de oito minutos em campo. Havia rompido o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo. Em fevereiro de 2012, Jankulovski perdeu a batalha contra as lesões e anunciou aposentadoria dos gramados, com apenas 33 anos. De chuteiras penduradas, ele comentou alguns jogos para a emissora checa Prima Cool TV e hoje é dirigente do Baník Ostrava.

Marek Jankulovski
Nascimento: 9 de maio de 1978, em Ostrava, Chéquia (antiga Checoslováquia)
Posição: lateral-esquerdo
Clubes: Baník Ostrava (1994-2000 e 2011-2012), Napoli (2000-2002), Udinese (2002-05) e Milan (2005-2011)
Títulos: Liga dos Campeões (2007), Supercopa Uefa (2007), Mundial de Clubes da Fifa (2007) e Serie A (2011)
Seleção checa: 78 jogos e 11 gols

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