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Christian Karembeu passou pela Sampdoria e colocou a Nova Caledônia no mapa do futebol



Pelos brasileiros, Christian Karembeu é muito mais conhecido pela caneta que levou de Edílson “Capetinha”, no duelo entre Real Madrid e Corinthians, no Mundial de Clubes de 2000. Contudo, o jogador francês tem uma rica história, marcada por títulos pelos merengues e na fase mais vitoriosa da seleção de seu país. Sua carreira ainda conta com uma passagem, em meados da década de 1990, pela Sampdoria de Sven-Göran Eriksson, que o alçou ao mais alto patamar.

Karembeu é oriundo de uma tribo canaca de Lifou, na Nova Caledônia, um dos tantos arquipélagos da Oceania. Quando jovem, Christian tinha suas responsabilidades, como tantos neocaledônios de sua faixa etária. Uma delas era buscar pão a alguns quilômetros de distância de sua casa, para alimentar a sua família. A cada dia ele tentava percorrer a distância mais rapidamente para poder se sentar à frente da TV e ver os destaques do Campeonato Francês.

Rápido e forte, Christian foi um dos melhores nas disputas de atletismo durante o período escolar, mas foi no futebol, mais precisamente no Naitcha, que deu seus primeiros passos. A presença do esporte na vida, porém, se tornou um entrave quando começou a prejudicar seu desempenho escolar.

Em uma conversa entre o seu pai e Marc Kaynan Case, neocaledônio que se destacou no futebol francês nas décadas de 1960 e 1970, isso mudou. O patriarca Karembeu se convenceu da qualidade do filho e permitiu que ele fosse para a Europa. Naquele momento, em plenos anos 1980, a Nova Caledônia, território dependente da França, vivia uma turbulência política, com revoltas separatistas. Christian se afastou do caldeirão em que o arquipélago se transformou ao se transferir ao Nantes, clube pelo qual rapidamente mostrou seu talento e assinou o primeiro contrato profissional.

Nos Canários, Karembeu teve sua primeira experiência no time B, na terceira divisão, mas estreou na equipe de cima já em 1990-91, com 20 anos. Rapidamente, ele se consolidou no elenco principal, formando, ao lado de Claude Makélélé, uma dupla de volantes que se tornou estrutural para o Nantes dos anos seguintes.

Em 1992, prestes a completar 22 anos, Karembeu recebeu sua primeira convocação para a seleção francesa e estreou num jogo das Eliminatórias da Copa de 1994, contra a Finlândia. O meio-campista continuou sendo chamado para defender os Bleus porque continuou em trajetória ascendente pelo Nantes, coroada com o sétimo título nacional da Maison Jaune, em 1995. De quebra, pelo desempenho naquela mesma temporada, Christian ainda levaria o prêmio de melhor jogador nascido na Oceania.

O neocaledônio foi um dos reforços de uma Sampdoria ambiciosa no mercado (Professional Sport/Popperfoto/Getty)

Paris Saint-Germain e Sampdoria fizeram propostas por Karembeu no verão de 1995, e foi o clube presidido por Enrico Mantovani que levou a melhor, por 7 bilhões de velhas liras. Após perder nomes como David Platt e Vladimir Jugovic, o dirigente doriano decidiu abrir a carteira para não ficar distante do topo da tabela e, além de Karembeu, contratou jovens de valor, como Sinisa Mihajlovic e Clarence Seedorf.

Na teoria, a Samp tinha um time (que já contava com Walter Zenga, Moreno Mannini, Riccardo Ferri, Alberigo Evani, Roberto Mancini e Enrico Chiesa) para brigar por vagas em competições europeias. Apesar disso, não correspondeu às expectativas e colocou em prática uma realidade diferente da esperada pela torcida. O time não foi além da oitava colocação na Serie A e amargou eliminação precoce na Coppa Italia para o Cagliari.

Se o desempenho da equipe não foi o desejado, Karembeu teve sucesso individual – comprovado pelo prêmio de melhor futebolista da Oceania, ganho quando já estava na Sampdoria. O francês nascido na Nova Caledônia rapidamente demonstrou seu talento nos campos italianos, se tornando um dos melhores jogadores da temporada e um dos mais utilizados por Eriksson. “Eu nunca tinha visto alguém com tanta capacidade de trabalho. Quando ele fazia treinos intervalados, ninguém conseguia acompanhar”, admitiu o treinador.

Ao fim da temporada, Karembeu mostrava amadurecimento, rigor, disciplina e competitividade, o que lhe deixou ainda mais em voga. Sua influência junto ao grupo era tanta que, logo nos seus primeiros momentos em Gênova, a maioria de seus companheiros se uniu a ele em um protesto contra o governo francês, que pretendia fazer testes nucleares no território neocaledônio, no atol de Mururoa. A equipe da Sampdoria chegou a fazer uma campanha com apoio do Greenpeace e estampar a marca da entidade em apoio.

A essa altura, o politizado Karembeu também se consolidou no selecionado francês. Na disputa da Euro 1996, o jogador foi titular durante toda a competição, até levar o segundo cartão amarelo na disputa de quartas de final, fazendo com que cumprisse suspensão no duelo contra a República Checa. Na semifinal, eliminação dos Bleus nos pênaltis.

Com a camisa da França, também viveu momentos controversos. Um dos primeiros representantes da geração pós-colonial a defender a seleção – ao lado de nomes como Zinédine Zidane, Patrick Vieira e Marcel Desailly –, Karembeu decidia não cantar o hino nacional. Versos de “A Marselhesa” evocam o sangue derramado pela metrópole na conquista de territórios fora da Europa e são incômodos para os franceses oriundos dos países subjugados. Isso gerou um embate com políticos nacionalistas de extrema direita, como Jean-Marie Le Pen, e chegou a virar parte dos próprios torcedores contra Christian anos mais tarde.

Eriksson, Mancini, Karembeu, Seedorf e Mihajlovic se manifestam contra testes nucleares na Oceania (Interleaning)

Depois da Euro, Karembeu ganhou mais colegas de peso. Em 1996 a Samp perdeu Zenga e Chiesa, mas se reforçou com Vincenzo Montella, que tinha feito uma grande temporada no Genoa, e Juan Sebastián Verón, uma grande revelação argentina – além do volante Pierre Laigle e do defensor David Balleri. O rendimento dos blucerchiati subiu e o time terminou a Serie A na sexta colocação.

As colocações da Samp eram boas, mas já havia a impressão de que o futebol de Karembeu cabia em times mais ambiciosos. O neocaledônio até iniciou a temporada 1997-98 nos blucherchiati, mas na janela de transferências de inverno, acertou sua ida para o Real Madrid. Com a camisa merengue, Christian se juntava a Seedorf, seu ex-companheiro, e se colocava como um dos grandes nomes do futebol europeu naquele momento. Karembeu era um dos nomes do presidente Lorenzo Sánz para conquistar a sétima Champions League blanca e integraria um time que ainda tinha Fernando Hierro, Christian Panucci, Fernando Redondo, Predrag Mijatovic, Roberto Carlos, Raúl e Davor Suker.

O ambiente estrelado foi um choque ao volante, que admitiu “não ter certeza do que fazer”. Em pouco tempo, porém, seu trabalho rendeu frutos ao lado de Redondo. O resultado chegaria em 1998, com o tão esperado troféu europeu. Mal deu tempo para comemorar e Karembeu seguiu para uma outra grande conquista: foi campeão do mundo com a seleção francesa.

Antes da campanha do inédito título dos Bleus, Karembeu foi alvo de ataques de Le Pen, assim como outros imigrantes já haviam sido, por não cantar “A Marselhesa”, hino considerado racista e xenófobo por alguns. “Minha família, como muitas famílias canacas, passou por experiências horríveis”, admitiu Karembeu, mais tarde. “Não canto o hino nacional francês porque conheço a história do meu povo”, completou.

Christian não estava brincando. Em 1931, um de seus bisavós foi levado da Nova Caledônia até a França para ser exposto num zoológico humano da Exposição Colonial de Paris. Tratados como canibais, os canacos sofreram com a exotização e foram trocados com um viveiro alemão por crocodilos. Como se fossem mercadoria.

Apesar de tudo, Karembeu defendia a França. No Mundial, o volante foi titular em quatro jogos – três deles na reta final. Christian ganhou a vaga nas quartas, contra a Itália, e ficou no onze dos Bleus até a decisão, compondo o meio campo com Didier Deschamps e Emmanuel Petit, até ser tirado no intervalo, com o jogo bem encaminhado. Campeão mundial, foi eleito novamente como melhor jogador da Oceania.

Karembeu passou dois anos e meio na Itália, se consolidando como um dos melhores volantes da Serie A (imago)

Depois de alçar o topo do sucesso futebolístico, Karembeu voltou ao Real Madrid machucado e vivenciou um ambiente que se tornaria conturbado meses depois. Sua situação nos merengues se complicou no ano seguinte, 1999, com a chegada de Steve McManaman. Quando os madrilenhos chegaram a mais uma decisão europeia, Karembeu viu do banco mais uma conquista.

A criação de um novo torneio mundial, disputado no Brasil, poderia vir a ser mais uma grande coroação para o neocaledônio. O Real Madrid não deu muita pelota à competição e Karembeu acabou ficando marcado pelo drible que levou de Edílson, no confronto contra o Corinthians. Apesar do lance, Christian disse numa entrevista recente que, devido à habilidade dos brasileiros, o triunfo do Timão foi “normal”.

Já desgastado em Madrid, o francês realizou o sonho de disputar a Premier League quando foi contratado pelo Middlesbrough, em 2000, pouco depois de ter vencido a Eurocopa. O fato de ter sido reserva dos Bleus na campanha europeua antecipava que o seu futebol vinha em queda, tal qual como sua forma física. Por causa disso, sua passagem pela Inglaterra se encerrou em apenas 12 meses. Lutando para obter um condicionamento atlético adequado, Karembeu não conseguiu jogar no alto nível demonstrado nos dois anos anteriores.

Aos 30, caminhando para o fim da carreira, Christian rumou para a Grécia depois de ter disputado (e vencido) a Copa das Confederações pela França. No Olympiacos, se tornou um dos jogadores mais importantes do elenco, dominando o meio-campo com talento e força. Até mesmo uma nova chance na seleção francesa o volante recebeu, num amistoso preparatório para a Copa de 2002, no qual os Bleus venceram a Escócia por 5 a 0. Contudo, a participação foi ofuscada por vaias dos torcedores que ficaram irritados com sua convocação. Foi a última partida de Christian pelo selecionado.

O jogador continuou no Olympiacos por mais dois anos e, após passagens rápidas por Servette e Bastia, iniciou sua carreira fora dos campos. Ao lado do ex-zagueiro italiano Gianluca Festa, seu companheiro de Middlesbrough, Karembeu foi sócio da A-Line, empresa de material esportivo que chegou a vestir times como Cagliari e Vicenza. Christian também foi olheiro de Portsmouth e do Arsenal, além de dirigente do Birmingham. Desde 2013, é conselheiro estratégico do Olympiacos.

Aliado a seu trabalho na Grécia, Karembeu é dedicado a causas humanitárias e visitou diversos países em situação de vulnerabilidade para tentar promover a paz através do esporte. Sem esquecer da sua Nova Caledônia, é claro. Além de colaborar com “Kanak: The Forgotten History”, premiado filme que apresentou o início de sua trajetória no arquipélago, em 2008, também ajudou a promover em sua terra um amistoso com campeões do mundo de 1998, como Fabien Barthez, Bixente Lizarazu e Zidane. Esta é uma oportunidade maravilhosa de devolver algo ao povo da Oceania”, disse o ex-volante. Um pequeno gesto para quem fez muito pelo lugar em que nasceu.

Christian Lali Karembeu
Nascimento: 3 de dezembro de 1970, em Lifou, Nova Caledônia
Posição: volante
Clubes como jogador: Nantes (1990-95), Sampdoria (1995-97), Real Madrid (1997-2000), Middlesbrough (2000-01), Olympiacos (2001-04), Servette (2004-05) e Bastia (2005)
Títulos conquistados: Ligue 1 (1995), Supercopa da Espanha (1998), Liga dos Campeões (1998 e 2000), Copa Intercontinental (1998), Campeonato Grego (2002 e 2003), Copa do Mundo (1998), Eurocopa (2000) e Copa das Confederações (2001)
Seleção francesa: 53 jogos e 1 gol



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