Jogos históricos

Na Supercopa Uefa de 2010, a Inter perdeu seu primeiro duelo com o Atlético de Madrid

Yuri Said

Inter e Atlético de Madrid são dois dos times mais tradicionais de Itália e Espanha, respectivamente. Contudo, o destino quis que, até a Supercopa Uefa de 2010, eles jamais tivessem se enfrentado em partidas oficiais. Aquela decisão, que seguiu como único embate entre as equipes até as oitavas de final da Champions League 2023-24, terminou com título colchonero e antecipou limitações no trabalho de Rafa Benítez, então novo técnico nerazzurro.

Naquela época, a Supercopa Uefa acontecia no estádio Louis II, em Mônaco, reunindo o campeão da Champions League e o vencedor da Liga Europa – em 2010, respectivamente, Inter e Atlético de Madrid. José Mourinho, treinador que conduziu os nerazzurri à glória europeia, havia deixado o comando da equipe rumo ao Real Madrid, grande rival colchonero. O presidente Massimo Moratti escolheu Benítez, desafeto do português, como seu substituto, confiando na experiência e no sucesso do treinador em seus trabalhos por Valencia e Liverpool. Já o Atleti manteve o treinador vitorioso, Quique Sánchez Flores.

A partida era a segunda da Inter na temporada. Apesar da vitória sobre a Roma por 3 a 1 na Supercopa Italiana e da manutenção da maior parte do elenco que faturou a tríplice coroa, os mecanismos da equipe não eram os mesmos dos tempos de Mourinho e persistiam as dúvidas sobre a adaptação ao novo comando. Por isso, ainda que 10 dos 11 titulares da final contra o Bayern Munique estivessem em campo em Mônaco – a única troca foi a entrada de Dejan Stankovic no lugar de Goran Pandev –, não era possível tratar os nerazzurri como francos favoritos. Até porque, do outro lado, o Atlético mantinha jogadores fundamentais na conquista da Liga Europa, como Sergio Agüero, Diego Forlán e David De Gea.

Benítez começou o seu trabalho na Inter sob questionamentos (Getty)

A Inter ficou responsável pelo pontapé inicial e rapidamente partiu para o ataque. Com apenas 1 minuto de jogo, Maicon cobrou um lateral buscando Wesley Sneijder dentro da área. O holandês, encontrando-se sozinho, finalizou de primeira, mas por cima do gol de De Gea.

O jogo continuou com grande intensidade, apresentando um vai e vem entre os ataques. O Atlético de Madrid chegou com perigo em um cruzamento de Forlán pelo lado esquerdo. Walter Samuel interceptou o lance no momento em que José Antonio Reyes se preparava para finalizar de frente para Julio Cesar. Na jogada seguinte, Simão buscou Agüero, que caiu em disputa com Cristian Chivu e não conseguiu alcançar a bola. Ele pediu pênalti, mas a arbitragem de de Massimo Busacca considerou a disputa limpa e prosseguiu com a partida.

Até aquele momento, não era surpresa a Inter basear sua criação ofensiva em Sneijder. O trequartista era o responsável pela organização com a bola e pelas cobranças de faltas e escanteios no forte jogo aéreo nerazzurro. A inclusão de Stankovic entre os titulares proporcionou mais força ao meio-campo, permitindo que a Beneamata controlasse a posse da pelota, ainda que o sérvio atuasse bem aberto pela direita.

Reyes aproveitou uma Inter sem ímpeto e abriu o placar para o Atleti (Getty)

O Atlético impôs grande dificuldade com uma marcação intensa em todo o campo. A Inter buscava frequentemente os lados para escapar da pressão, e era pelo direito, com Maicon, que conseguia desafogar e avançar ao ataque. Em uma dessas jogadas por aquele setor, o brasileiro conseguiu um escanteio, e Samuel cabeceou com muito perigo. Do outro lado, Samuel Eto’o encontrou espaço em um lance individual, cortou para o meio e chutou rasteiro, mandando a bola muito próxima à trave direita colchonera.

Respondendo rapidamente, Agüero recebeu sozinho dentro da área e finalizou com a perna esquerda. Julio Cesar, bem posicionado, apenas acompanhou a bola saindo ao lado do gol. O argentino ainda teve uma segunda boa chance: após tabela com Simão, entrou na área com a pelota dominada e, de pé direito, chutou a muito por cima da baliza.

No final do primeiro tempo, o Atlético poderia ter se sentido desapontado por não aproveitar as oportunidades de gol de Agüero: encerrou a etapa com maior intensidade e sem conceder espaço para que a Inter conseguisse criar através da posse de bola. Ainda assim, as equipes voltaram do intervalo sem alterações e produziram um cenário semelhante ao do início da partida, com chegadas pelos lados ou por meio de lançamentos que exploravam os poucos espaços em campo.

A derrota na Supercopa Italiana mostrou à Inter que os tempos de glória, alcançados com Mourinho, haviam ficado para trás (Getty)

Aos 57 minutos, Reyes recebeu um lançamento no lado direito do ataque. O espanhol cortou para a perna esquerda e bateu buscando o canto oposto. No entanto, Julio Cesar, em uma defesa espetacular, conseguiu alcançar a bola e desviar para escanteio. Pouco depois, o mesmo Reyes tabelou com Agüero e invadiu a área. Superando Maicon, ele chutou firme e rasteiro, desta vez sem chance para o goleiro brasileiro. O Atlético de Madrid abria o placar merecidamente, já que demonstrava superioridade com as melhores chances e um desempenho superior no segundo tempo.

Precisando reverter o cenário, Benítez fez sua primeira substituição, colocando Pandev no lugar de Stankovic, no intuito de ter maior presença ofensiva – ao mesmo tempo, apostava na formação que havia lhe dado a vitória na Supercopa Italiana. Sánchez Flores também aproveitou para efetuar uma alteração: sacou Reyes, autor do gol, e pôs Fran Mérida em campo. Após a mudança, a Inter conseguiu exercer mais pressão no setor ofensivo, mas sem criar grande perigo.

O momento mais destacado até a metade do segundo tempo ocorreu em um escanteio, quando Eto’o chegou antes de Lúcio e, desequilibrado, cabeceou sem direção. Do outro lado, mesmo que sem gerar ameaças claras, o Atlético sempre conseguia finalizar a gol.

Um jovem Philippe Coutinho foi lançado a campo por Benítez, mas não teve grandes oportunidades de brilhar (Getty)

Sem perceber grandes mudanças no cenário, Benítez fez uma aposta ousada, retirando Sneijder da partida. Para seu lugar, escolheu o jovem Philippe Coutinho, buscando uma abordagem nova e imprevisível. Mais uma vez, Sánchez Flores respondeu rapidamente à substituição do adversário, retirando Forlán e colocando José Manuel Jurado.

Os nerazzurri, entretanto, viram suas esperanças diminuírem rapidamente. Logo após as substituições, Simão conseguiu um cruzamento rasteiro pela esquerda e Kun Agüero, sozinho dentro da área, não teve dificuldades em colocar a bola nas redes, fazendo 2 a 0 com menos de 10 minutos para o final da partida.

A Inter viu uma chance de reação aos 88 minutos, quando Raúl García cometeu uma falta em Pandev. Bem posicionado, Busacca assinalou pênalti. O artilheiro Diego Milito foi o responsável pela cobrança e bateu firme e rasteiro, no lado direito. Só que De Gea, um goleiro em ascensão àquela altura, acertou o canto e espalmou com firmeza, assegurando o zero italiano no placar.

A vitória do Atlético foi justa, enaltecendo a equipe que apresentou o melhor futebol e demonstrou mais vontade de vencer. Para a Inter, o resultado refletiu uma passagem curta, de meia temporada, de Benítez, e o fim das glórias alcançadas por Mourinho. O time sólido construído pelo Mago de Setúbal não existia mais e o espanhol fez de tudo para descaracterizá-lo, no intuito de realizar um trabalho sem marcas de seu desafeto. O resultado foi pouco brilho dentro de campo e uma demissão precoce, mesmo após a conquista do Mundial de Clubes da Fifa, em dezembro de 2010.

Inter 0-2 Atlético de Madrid

Inter: Julio Cesar; Maicon, Lúcio, Samuel, Chivu; Zanetti, Cambiasso; Stankovic (Pandev), Sneijder (Philippe Coutinho), Eto’o; Milito. Técnico: Rafa Benítez.
Atlético de Madrid: De Gea; Ujfalusi, Perea, Godín, Domínguez; Reyes (Fran Mérida), Raúl García, Paulo Assunção, Simão (Camacho); Forlán (Jurado), Agüero. Técnico: Quique Sánchez Flores.
Gols: Reyes (62′) e Agüero (83′)
Árbitro: Massimo Busacca (Suíça)
Local e data: estádio Louis II, Mônaco, em 27 de agosto de 2010

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