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Tão talentoso quanto indolente, Domenico Marocchino não se firmou na Juventus

A evolução periódica do futebol mundial provocou diversas alterações no jogo, dentro e fora dos gramados, incluindo o comportamento de atletas que praticam a modalidade. Já se foi muito comum enxergar o que hoje é designado falta de profissionalismo como algo normal tempos atrás. Alinhado a isso, muitas carreiras não deslancharam como deveriam, com diversos exemplos marcantes. Um destes foi o ponta-direita italiano Domenico Marocchino. O ex-jogador tinha muito talento, mas a falta de dedicação fez com que nunca deslanchasse. Meco ou Marocco, como também era conhecido, deixou a sensação de que poderia ter trilhado uma trajetória mais gloriosa.

Domenico nasceu na cidade de Vercelli, na região do Piemonte, no dia 5 de maio de 1957, e cresceu em Tronzano Vercellese, pequena comuna dos arredores da sede da província. Criado para o futebol nas categorias de base da Juventus, Marocchino iniciou sua carreira profissional na temporada 1976-77, num empréstimo ao Casale, que militava na Serie C.

Insinuante e driblador, apesar da estatura (1,86m), o ponta-direita atuou 35 vezes e anotou dois gols numa boa campanha dos nerostellati na terceirona. Marocchino subiu de divisão e passou a atuar pela Cremonese, na Serie B 1977-78. Ainda que a equipe grigiorossa tenha sido rebaixada para a terceirona, Meco se destacou novamente, com 34 partidas e mais dois tentos. Balançar as redes, a bem da verdade, não era o seu principal forte: o piemontês se notabilizava por sua capacidade de condução de bola e de criação de chances para os parceiros de time.

Jovem e visado por sua habilidade, Marocchino foi promovido para atuar na primeira divisão italiana em 1978, quando foi cedido pela Juve à Atalanta. O meia-atacante estreou pela Dea em uma partida da Serie A contra a Fiorentina, encerrada sem gols, e entrou em campo mais 17 vezes pelos nerazzurri. Assim como ocorrera em Cremona, terminou o ano rebaixado, mas as suas exibições foram suficientes para fazer com que sua equipe de coração finalmente lhe aproveitasse.

Aos 22 anos, Marocco retornou a Turim chancelado pelo presidente Giampiero Boniperti, que o conhecia desde adolescente. Treinado por Giovanni Trapattoni, Domenico teria grandes momentos em sua carreira e atingiria o ápice de sua trajetória no futebol. Um apogeu descontínuo, contudo.

Formado pela Juventus, Marocchino viveu altos e baixos pela equipe bianconera (imago/WEREK)

Em uma primeira temporada de altos e baixos, como em boa parte de sua carreira, Marocchino foi designado, juntamente ao igualmente jovem Pietro Fanna, como reserva do veterano Franco Causio, ponta-direita titular da época. Os dois, porém, acabaram ganhando mais espaço devido ao baixo rendimento de Pietro Paolo Virdis.

Em 1979-80, Meco atuou por ambos os flancos e também como segundo atacante, apoiando Roberto Bettega. O ponta estreou num duelo triunfo por 2 a 0 sobre o Györ, da Hungria, pela Recopa Uefa, e marcou o seu primeiro pelo time bianconero numa vitória pelo mesmo placar sobre a Roma. No total, somou 32 aparições e dois tentos. Já a Velha Senhora terminou aquele ano sem conquistas: amargou o vice na Serie A e duas eliminações em semifinais, na Coppa Italia e no torneio continental.

Marocco começava a ser levado em consideração pela Juventus, mas não mudava os seus hábitos. Se dedicava pouco aos treinamentos, o que gerava atritos com Trapattoni e com o capitão Giuseppe Furino, e era um notório bon vivant. Domenico fumava bastante, vivia em noitadas e era vigiado de perto por pessoas contratadas pelo presidente Boniperti, que informavam ao cartola até quando o jogador traía as namoradas. Brincalhão, Meco também chegou a atirar uma bexiga cheia d’água na esposa de Trap durante um jantar no CT de Villar Perosa – escondido, é claro. Não é difícil imaginar que, por seu temperamento, as multas que a diretoria lhe aplicava eram constantes.

Em 1980-81, o ponta atendeu ao pedido de Dino Zoff e reduziu a quantidade de cigarros fumados diariamente – antes, chegava a consumir quase um maço a cada 24 horas. Marocchino começou a temporada no banco, saindo dele para entrar nas partidas na segunda etapa. Porém, o irlandês Liam Brady, adquirido na janela de transferências daquele verão, teve dificuldades de se adaptar ao futebol italiano e Meco aproveitou a baixa do colega para se inserir no time.

Capaz de desempenhar todas as funções no ataque, Marocco ganhou a posição no returno e foi importante para a conquista do scudetto, com cinco gols marcados em 24 partidas. Contudo, a sua maior contribuição foi uma assistência na última rodada: cruzou à meia altura para Antonio Cabrini anotar o tento da vitória sobre a Fiorentina, que garantiu o título nacional da Velha Senhora. Em entrevista ao Guerin Sportivo, em 2010, o jogador revelou que, logo após o duelo, tomou banho e se dirigiu aos vestiários em que havia se preparado para a peneira que determinou a sua aprovação para as categorias de base da Juventus. Lá, acendeu um Marlboro e repassou o filme de sua vida até então.

Apesar da irregularidade, Meco conseguiu desempenhar um papel importante para os scudetti da Juve em 1981 e 1982 (imago/WEREK)

A grande fase do meia-atacante foi consolidada na temporada seguinte, através de linhas tortas: a grave lesão de Roberto Bettega. Meco fez os bianconeri esquecerem o acontecimento desagradável, se tornou titular da equipe, acumulando 29 presenças em 30 rodadas da Serie A, e foi peça importante na conquista do scudetto de 1981-82 – o 20ª da gigante do Piemonte, que lhe permitiu adornar o seu uniforme com a segunda estrela. O próprio Domenico acredita que aquela foi a campanha em que mais teve segurança de sua qualidade como jogador.

Justamente durante aquela época, diante de suas excelentes aparições com a camisa juventina, Marocchino foi convocado para a seleção. O piemontês estreou pela Squadra Azzurra em dezembro de 1981, numa vitória magra sobre Luxemburgo, em partida válida pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo do ano seguinte – que seria conquistada pelos italianos. Foi a primeira e única aparição do talentoso e inconstante jogador pela Nazionale.

Aliando sua inconsistência dentro dos gramados às chegadas de Michel Platini e Zbigniew Boniek a Turim, Domenico voltou a perder espaço na Velha Senhora de Trapattoni em 1982-83. O treinador, inclusive, muitas vezes “quebrou a cabeça” para tentar fazer com que o atacante enfim emplacasse, testando-o em diferentes posições por trás do centroavante: Marocco foi ponta, trequartista e segundo atacante. Nada disso sustentou o talentoso jogador, que, indolente, não fazia qualquer esforço para se afirmar ou mudar os seus hábitos.

Certa feita, Marocchino dormiu demais e chegou a perder a hora para encontrar a delegação antes de uma viagem a Verona. Quando acordou, atrasado, foi informado por um funcionário da Juventus que deveria se dirigir à cidade em veículo próprio. Domenico pegou o seu carro, acelerou o máximo que pode na rodovia e acabou encontrando o ônibus do time – o que não impediu que fosse multado. Ante o próprio Hellas, ao fim de 1982-83, o meia-atacante conquistou o seu último título: a Coppa Italia.

Marocco deixou a Juventus em 1983, após 136 jogos e um total de 12 gols marcados. Com apenas 26 anos, o playboy trocava o glamour das grandes decisões – pela Velha Senhora, acabara de ser vice-campeão europeu, derrotado pelo Hamburgo – por uma trajetória declinante. O mesmo acontecia com o seu físico: a pinta de galã começava a dar lugar a um jeitão de pândego meio descuidado. Ficavam no passado os tempos em que não eram incomuns situações de incontrolável tietagem por parte de suas fãs. Quando a Juve viajou à Polônia para encarar o Widzew Lódz, naquela mesma época, garotas polonesas exibiram uma faixa no aeroporto de Lódz, através da qual convidavam Domenico para uma noitada numa discoteca local.

Em trajetória descendente, Marocchino defendeu o Bologna em três temporadas da Serie B (Arquivo/Bologna FC)

O destino de Marocchino, naquele verão de 1983, foi a Sampdoria, que defendeu em apenas 18 partidas. Sua falta de profissionalismo não agradava ao rígido Renzo Ulivieri, que pouco o utilizou – com Eugenio Bersellini, o Sargento de Ferro, que sucederia o técnico doriano, as chances seriam ainda menores. Domenico, então, rumou ao Bologna, que acabara de retornar à Serie B após um ano na terceira divisão.

Como jogava apenas por hobby, Meco acabou tendo continuidade num Bologna que se acertava após problemas econômicos e não tinha uma ambição maior do que a de simplesmente permanecer na categoria. Ao longo de três temporadas na capital da Emília-Romanha, formou uma dupla trava-línguas com Giancarlo Marocchi e alcançou a sua segunda melhor marca de partidas por uma equipe na carreira (79). Na campanha seguinte à saída de Marocchino, o time rossoblù retornou à elite.

Com apenas 30 anos, Domenico já parecia intencionado a encerrar sua trajetória no futebol. Dessa maneira, retornou para as proximidades de Vercelli, onde nascera: mais exatamente ao Casale, que lhe abrira as portas em divisões inferiores, e disputou uma temporada pelos nerostellati na Serie C2. Marocchino ficou alguns meses sem contrato, até que assinou com a minúscula Valenzana, também da região, ainda em 1988. Meco defendeu a equipe por quatro campanhas e, em 1992, após o seu rebaixamento para a sexta divisão, pendurou as chuteiras. Até chegou a ser treinador por um curto período, mas a função não lhe fazia sentido.

Trapattoni, o maior técnico que Marocchino teve na carreira, considera que Meco foi o atleta que mais lhe decepcionou na pele de comandante. “Ele tinha grande habilidade e poderia ter sido fundamental [para a Juventus] por quatro ou cinco anos, e não apenas em um”, declarou Trap, em diversas ocasiões. A longevidade em alto nível, contudo, não interessava àquele jovem Domenico, que só queria brincar de jogar futebol, curtir a noite e pregar peças sobre quem quer que fosse. Hoje, ocupando o posto de comentarista da Rai, o ex-ponta tem outra cabeça e diz que faria diferente, se a maturidade da velhice já lhe acompanhasse. Tarde demais, naturalmente, mas Marocco não se arrepende de nada.

Domenico Marocchino
Nascimento: 5 de maio de 1957, em Vercelli, Itália
Posição: ponta-direita
Clubes como jogador: Casale (1976-77 e 1987-88), Cremonese (1977-78), Atalanta (1978-79), Juventus (1979-83), Sampdoria (1983-84), Bologna (1984-87) e Valenzana (1988-92)
Títulos como jogador: Serie A (1981 e 1982) e Coppa Italia (1983)
Clubes como técnico: Vigor Lamezia (1996-97), Puteolana (1997-98) e La Chivasso (1998-99)
Seleção italiana: 1 jogo

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