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Francesco Mancini, o pequeno grande goleiro-líbero que brilhou no sul da Itália

A Itália é historicamente reconhecida por ser um celeiro de grandes defensores, em especial, goleiros e zagueiros. Dentre os arqueiros, os nomes mais conhecidos são os do capitão e campeão da Copa do Mundo de 1982, Dino Zoff, os de Walter Zenga, Angelo Peruzzi, Gianluca Pagliuca, Francesco Toldo e, o daquele que, provavelmente, é o maior de todos: Gianluigi Buffon.

Para a torcida do Foggia, em particular, há um goleiro que poderia tranquilamente figurar na relação acima. Trata-se de Francesco Mancini, nascido em Matera, cidade localizada na região de Basilicata, sul da Itália, e que se tornaria famosa no meio audiovisual por ter servido de locação para a gravação de diversos filmes bíblicos – por exemplo, A Última Tentação de Cristo (1988), A Paixão de Cristo (2004) e Ben-Hur (2016).

Foggia: uma casa para chamar de sua

Desde cedo, Franco começou a jogar futebol e não tardou para que chamasse a atenção das pessoas. Em 1984, aos 16 anos, assinou com o Matera, time pelo qual se profissionalizou meses mais tarde. Em duas temporadas, disputou cerca de 60 partidas na Serie C2. Em outubro de 1987, passou um mês no Bisceglie antes de fechar com o Foggia, que disputava a terceirona. Ele mal poderia imaginar que aquele seria o clube mais marcante de sua carreira – desenvolvida quase inteiramente no sul da Itália.

Mancini permaneceria no Foggia por quase uma década e, lá, teria a oportunidade de conhecer Zdenek Zeman, o treinador que moldou e alavancou sua trajetória nos gramados. Isso porque o checo chegaria aos satanelli para o lugar de Giuseppe Caramanno na temporada 1989-90, o terceiro ano de Franco no clube, então na Serie B.

O goleiro praticamente não havia jogado até aquele momento. Porém, com a chegada do novo treinador sua situação mudou para melhor. Tornou-se titular em um 4-3-3 armado por Zeman, que começava a montar um time extremamente divertido de se ver no ataque. Era o nascimento da Zemanlândia, nomenclatura sugerida pelos jornais da época em virtude da diversão e do arrojo apresentados pelos rossoneri. Era um futebol que pregava a ofensividade e a velocidade, características muito presentes na atualidade.

Mancini começou a se destacar no Foggia, e rapidamente virou ídolo da torcida rossonera (Arquivo pessoal)

Após um oitavo lugar na segundona, o Foggia venceu a Serie B no ano seguinte, contando com um forte setor de ataque – comandado por Francesco Baiano, autor de 22 gols e goleador máximo ao lado de Walter Casagrande (Ascoli) e Abel Balbo (Udinese). Na defesa, o destaque foi Mancini, que não foi vazado em 10 rodadas.

Além do futebol, o arqueiro tinha outra paixão: a música. Em especial, o reggae, e se fosse na voz de Bob Marley, seu maior ídolo, melhor ainda. Franco possuía uma vasta coleção de discos e fitas cassete e, por gostar tanto deste gênero musical, tocava bateria e tinha uma pequena banda, com a qual ocasionalmente se apresentava nos pubs de Foggia. Durante o período, era comum vê-lo carregar o instrumento consigo para as concentrações durante o período de pré-temporada.

Vivendo uma estupenda fase, Mancini chegava à Serie A, um sonho particular. A elite do futebol enfim teve a oportunidade de conhecer a Zemanlândia, sensação que tomara conta da segunda divisão nos anos anteriores. A campanha terminou com um honroso nono lugar (repetindo o melhor desempenho do clube na primeira divisão, em 1964-65), além de notáveis 58 gols marcados, muito por conta do respeitável tridente de ataque formado por Giuseppe Signori, Ciccio Baiano e Roberto Rambaudi.

O ponto fraco foi o setor defensivo em si, que esteve frágil e concedeu outros 58 gols, zerando o saldo – Zeman, a bem da verdade, jamais se caracterizou por buscar uma retaguarda impenetrável. Mancini, a propósito, não teve culpa alguma e operou diversos milagres. Sua contribuição individual foi reconhecida e ele foi eleito o terceiro melhor goleiro da Serie A, ficando atrás somente de Fabrizio Lorieri, do lanterna Ascoli, e de Luca Marchegiani, do terceiro colocado Torino.

No Foggia, Mancini se destacou pelo jogo com os pés (Getty)

Por ser um goleiro de estatura baixa (1,77 m), Mancini compensava este “pequeno problema” para a posição, com o perdão do trocadilho, com uma agilidade típica dos felinos, além de se notabilizar como exímio pegador de bolas em lances à queima-roupa. Ele era capaz de encurtar o campo ao sair de grande área e se apresentar como opção de passe.

É verdade que alguns calafrios eram causados nos torcedores por conta da ousadia, mas ele buscava sempre se atentar aos movimentos dos adversários para não ser surpreendido e gerar um contra-ataque mortal ou levar um gol por cobertura. Tinha tanta confiança que, às vezes, recorria ao drible para se livrar da marcação, a ponto de ser definido como um “líbero com luvas”. Com a habilidade que tinha com os pés, era considerado um goleiro-líbero que se apresentava como opção de passe quando Manuel Neuer ainda era um bebê.

O caso mais célebre foi na histórica goleada por 8 a 2 sofrida pelo Foggia para o Milan, em 1991-92, que terminou com o Diavolo conquistando o scudetto. Mancini correu para cortar uma bola viva na altura da meia-lua e tentou apará-la com a cabeça, tendo simplesmente Marco van Basten poucos centímetros à sua frente. O holandês, que anotou uma doppietta naquela tarde, interceptou de chaleira e rolou para Marco Simone empurrar para o gol vazio. Tais intervenções eram cercadas de uma dose alta de risco, mas Franco efetuou inúmeras ações bem sucedidas ao longo da carreira.

Contudo, a partir desse episódio, ele passou a ser apelidado de “Higuita de Matera”, em alusão ao arqueiro René Higuita, seu exemplo e famoso principalmente por conta de suas intervenções acrobáticas e por gostar de “viver perigosamente”, com suas saídas arriscadas: “Meu ídolo é o colombiano Higuita. Eu sou da ideia de que um goleiro deve saber fazer tudo no futebol de hoje, com os pés e com as mãos. E isso não significa fazer um show. Quando criança eu era louco por [Luciano] Castellini, porque na minha opinião ele já desempenhava um papel moderno naquela época”, disse.

Depois do sucesso pelo Foggia, Mancini atuou com regularidade pelo Bari, também da Apúlia (Icon Sport)

Fim da Zemanlândia

Nas duas campanhas seguintes, o entretenimento proporcionado pelo Foggia continuou e os resultados foram similares: 12º e nono lugares. Na temporada 1994-95, porém, Zeman aceitou o convite para dirigir a Lazio e a Zemanlândia chegou ao fim. Sob o comando de Enrico Catuzzi, os satanelli nem de longe lembraram a insinuante e bem treinada equipe dos anos anteriores e acabaram rebaixados, naquela que foi a última participação do clube na primeira divisão.

Na rodada inaugural, no empate em 1 a 1 contra a Roma, no Olímpico, Mancini sofreu o primeiro dos 307 gols que Francesco Totti, uma promessa de 18 anos, anotaria com a camisa giallorossa em sua carreira. Apesar disso, na contramão do mau momento vivido pelo Foggia, o goleiro teve uma importante marca pessoal atingida na fatídica temporada, ao estabelecer sua maior sequência de minutos sem ser vazado. Foram 492 minutos, desde o tento de Alessio Pirri, da Cremonese, na 5ª rodada, até Dino Baggio, do Parma, balançar as redes na 10ª jornada.

Na Serie B, Mancini atuou nas duas primeiras partidas, no empate em 1 a 1 contra o Perugia e na vitória por 1 a 0 sobre o Venezia, mas então surgiu a oportunidade de se reunir com Zeman, em um empréstimo para a Lazio até o fim da temporada, em razão das lesões de Marchegiani e Fernando Orsi. As oportunidades vieram a conta-gotas e ele só atuou em oito ocasiões.

Um ano depois, estava de volta ao Foggia para uma emocionante temporada de despedida. A 11ª colocação obtida pelo clube se tornou algo pequeno perto do que Mancini representou para os satanelli ao longo de uma década, com 259 partidas disputadas. Seu novo destino era o Bari, também da Apúlia, onde veria Antonio Cassano desabrochar para o futebol.

Franco contribuiu para três campanhas razoáveis do Bari na Serie A (Guerin Sportivo)

Em três anos, Mancini manteve um ótimo nível, ajudando os galletti, treinados por Eugenio Fascetti, a permanecerem na Serie A. Franco fez 108 partidas com a camisa biancorossa e, na virada do milênio, foi contratado pelo Napoli, onde se reencontrou com Zeman.

O checo tinha como missão impedir que os azzurri voltassem à segunda divisão. Porém, tudo deu errado e a esperança deu lugar à decepção, quando o time foi rebaixado. Zeman foi demitido ainda antes da queda e deu lugar a Emiliano Mondonico, que fez Franco alternar com o também experiente Luca Mondini. Já na Serie B, Luigi De Canio bancou a manutenção de Mancini entre os titulares para a temporada seguinte. O arqueiro correspondeu e atuou em todas as 38 rodadas do certame, mas o acesso não foi obtido. O Napoli bateu na trave, já que ficou em quinto lugar.

De Canio deixou os azzurri e a temporada 2002-03 foi conturbada. No comando técnico, Franco Colomba chegou a ser substituído por Franco Scoglio e acabou retornando na reta final. No fim, um misto de alívio e aborrecimento pela 16ª colocação, somente a dois pontos do Catania, que abria a zona de descenso. Aos 34 anos, Mancini voltou a jogar a Serie C1 ao defender as cores do Pisa.

Em seguida, foi para a Sambenedettese e teve uma campanha empolgante, chegando à semifinal dos playoffs de acesso, mas o Napoli de Edoardo Reja levou a melhor e freou a empolgação da Samb. Teramo, Salernitana, Martina e Fortis Trani foram os últimos clubes na carreira do arqueiro, que, já sem muito destaque, pendurou as luvas em 2008, aos 39 anos.

Um súbito adeus

Levou uma temporada para que ele voltasse para o futebol e passasse um biênio na dupla função de assistente técnico e preparador de goleiros do Manfredonia, antes de receber (e prontamente aceitar) um convite feito por Zeman, seu mentor, para treinar os arqueiros no velho conhecido Foggia. A experiência durou um ano, pois o checo trocou os rossoneri pelo Pescara em 2011 e, como não poderia ser diferente, foi acompanhado por Mancini, a quem considerava como um filho. Os delfini contavam com jogadores que despontariam para o mais alto escalão do futebol italiano: Marco Verratti (cria do clube), Ciro Immobile (emprestado pela Juventus) e Lorenzo Insigne (cedido pelo Napoli).

A última experiência de Mancini na Serie A foi com a camisa do Napoli, onde se alternou com Mondini (LaPresse)

Em março de 2012, veio a tragédia. Pela manhã, Mancini se despediu de Chiara, sua esposa, e dos filhos, Francesco e Alessandro, para mais um dia de trabalho nos delfini, visando a partida do dia seguinte, contra o Bari. Aquele foi o último treinamento e também um dos derradeiros momentos da vida do ex-goleiro, que sofreu um ataque cardíaco fulminante à tarde e não resistiu. Chiara o encontrou caído no chão quando chegou em casa e ligou imediatamente para a emergência. Duas ambulâncias chegaram, além de Ernesto Sabatini, médico do Pescara. Logo foi constatado pelos profissionais de saúde que ele falecera havia algumas horas.

Tanto Pescara quanto Bari, dois clubes em que ele trabalhou, tentaram adiar o confronto em virtude da fatalidade, mas a Lega Serie B não acatou o pedido, alegando não haver tempo hábil para paralisar o campeonato. Os times foram a campo com faixas de luto nos braços e um minuto de silêncio foi reservado à memória de Mancini. Nos 90 minutos, o Bari venceu por 2 a 1.

Franco tinha apenas 43 anos e a notícia de sua morte entristeceu a todos, especialmente Zeman, que chorou copiosamente assim que soube do ocorrido. Em uma comovente cerimônia na catedral de San Lorenzo Maiorano, em Manfredonia, cidade adotiva de Mancini, cerca de cinco mil pessoas, entre elas ex-companheiros de equipe, treinadores e admiradores, compareceram. O caixão estava envolto pelas cores do Foggia, clube de sua vida, que nomeou a Curva Nord de seu estádio, o Pino Zaccheria, em homenagem ao saudoso arqueiro.

Outro gesto que sensibilizou muito a família de Mancini foi quando Buffon e Marco Storari vestiram camisetas com os dizeres “Ciao, Franco”, durante o aquecimento para a partida entre Juventus e Napoli. Inclusive, foi Storari quem levou a coroa de flores para o rito de despedida. Em 2013, um grupo de amigos do ex-goleiro criou o “Mancio Reggae Fest”, um festival de reggae em tributo a ele, em Foggia. Nada mais justo.

Francesco Mancini
Nascimento: 10 de outubro de 1968, em Matera, Itália
Morte: 30 de março de 2012, em Pescara, Itália
Posição: goleiro
Clubes: Matera (1985-87), Bisceglie (1987), Foggia (1987-95 e 1996-97), Lazio (1995-96), Bari (1997-2000), Napoli (2000-03), Pisa (2003-05), Sambenedettese (2005), Teramo (2005-06), Salernitana (2006-07), Martina (2007-08) e Fortis Trani (2008)
Título: Serie B (1991)

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1 Comentário

  • Fiquei triste de saber que ele morreu, um dos melhores goleiros do meu jogo favorito (CM9900), pegava demais no jogo e pelo visto na vida real também.

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