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Ícone de Torino e Napoli, Luciano Castellini só viveu amor pela Inter depois de se aposentar

São poucos os casos de jogadores que, enquanto profissionais, conseguiram atuar com destaque no clube de coração. Luciano Castellini não foi um deles. Interista declarado, o goleiro se tornou ídolo de Monza, Torino e Napoli, clubes em que jogou na carreira, ganhou títulos e quebrou recordes, mas foi somente depois de pendurar as luvas que ele enfim realizou seu grande sonho ao trabalhar por mais de uma década com a sua “segunda pele” – a camisa nerazzurra.

Quando ainda era vice-presidente de um clube de torcedores da Inter em Menaggio, cidade em que cresceu, Castellini começou a atuar como goleiro na base do Monza. O jovem foi pescado para o time principal justamente num período complicado do clube, que enfrentou uma profunda crise econômica e foi rebaixado para a Serie C na temporada 1965-66, ano de sua estreia entre os adultos. A reconstrução foi necessária e, embora o time tenha retornado imediatamente para a segundona, o espaço para os jovens foi aberto. Entre eles, Luciano, que começou a ganhar oportunidades de fato na Serie B 1967-68, quando tinha 22 anos.

Apelidado como “jaguar” – ou Il Giaguaro –, por sua agilidade, explosão atlética e pelos saltos que dava, o narigudo goleiro foi ganhando importância no elenco brianzolo e se tornou titular em definitivo na temporada 1969-70. Nessa campanha, o Monza de Luigi Radice foi um dos melhores times da Serie B, mas o acesso escapou na penúltima rodada, quando uma derrota para o campeão Varese tirou as chances matemáticas do inédito acesso dos biancorossi. Ainda assim, Castellini atuou nas 38 rodadas e comandou a melhor defesa do campeonato, tendo sido vazado apenas 19 vezes.

As ótimas atuações do goleiro pelo Monza acabaram chamando a atenção do Torino, que não tinha goleiros confiáveis aquela época. Castellini chegou para ser titular e, conhecido por andar com um caderninho no qual estudava os atacantes adversários, teria oito anos de protagonismo no gol granata. Logo de cara, o Jaguar conquistou a Coppa Italia, defendendo, inclusive, um pênalti de Gianni Rivera, na decisão contra o Milan. Na temporada seguinte, 1971-72, o Toro treinado por Gustavo Giagnoni dividiu o vice-campeonato da Serie A justamente com o Diavolo. Por apenas um pontinho, a Juventus ficou com o scudetto.

Num louco duelo contra o Mönchengladbach, pela Copa dos Campeões, Castellini foi um dos expulsos do Torino (AGE)

Pelos dois primeiros anos em Turim, parecia claro que o Jaguar estava destinado a fazer parte da história grená. E assim foi: na década de 1970, Castellini foi um dos pilares de uma equipe forte, com jogadores muito identificados com o clube, como Giorgio Ferrini, Aldo Agroppi, Renato Zaccarelli, Claudio Sala, Roberto Mozzini, Eraldo Pecci, Paolino Pulici e Francesco Graziani. Um time que ficava sempre entre os primeiros da tabela, mas viraria um esquadrão com a chegada de Radice, que fora treinador de Luciano no Monza.

Sob as ordens de Radice, o Torino e Castellini conquistariam o scudetto na temporada 1975-76: foi o primeiro título nacional granata depois da Tragédia de Superga e o último do clube desde então. Nessa mesma temporada, Il Giaguaro estabeleceu um recorde no gol do Toro: o de minutos sem sofrer gols. Foram 517, número superado apenas na temporada 2018-19 por Salvatore Sirigu, que chegou a 557.

No ano seguinte, Castellini disputaria sua única Copa dos Campeões e participaria de um momento insólito. Em casa, o Torino perdeu a partida de ida das oitavas de final contra o Borussia Mönchengladbach, por 2 a 1, e foi para a Alemanha com sangue nos olhos: teve três expulsos, entre os quais Il Giaguaro, que cometeu uma dura falta fora da área para parar o lance. O atacante Graziani foi para o gol, passou 20 minutos na meta e, mesmo com oito contra 11 e um arqueiro improvisado, o Toro segurou o 0 a 0 contra o time treinado por Udo Lattek, que tinha Berti Vogts e Jupp Heynckes como destaques. Eliminados, sim, mas de cabeça erguida.

Naquela mesma temporada, meses depois, em janeiro de 1977, Castellini fez sua única partida vestindo a camisa da Itália. O goleiro, que era um dos melhores do país, mas concorria com Dino Zoff, atuou num amistoso contra a Bélgica, com vitória italiana por 2 a 1. Luciano continuou como um dos principais arqueiros em atividade e contribuiu com dois vice-campeonatos do Torino, em 1977 e 1978. Aos 32 anos, então, cedeu a titularidade grená a Giuliano Terraneo em meados de sua última campanha pelo clube e mudou de ares.

Em Nápoles, Castellini viveu uma espécie de segunda juventude (Il Napolista)

Il Giaguaro se mudou para Nápoles, onde viveu mais grandes momentos em sua carreira, apesar de ter conseguido no máximo uma terceira colocação na Serie A 1980-81. Mesmo sem conquistar nenhum título pelos partenopei, Castellini mostrou um alto desempenho. Por exemplo, passou 94 dos 202 jogos de campeonato que fez com a camisa napolitana sem sofrer gols, e estabeleceu um recorde que ainda não foi superado. O goleiro ficou 1188 minutos sem ser vazado em jogos como mandante, entre 27 de fevereiro de 1983 (um tento de Alessandro Altobelli, da Inter) e 29 de janeiro de 1984 (bola na rede de Michel Platini, da Juventus). Foram 12 partidas inteiras e mais duas incompletas.

Enquanto jogava no Napoli, Castellini daria uma alegria ao torcedor interista. Na última rodada da Serie A 1981-82, os azzurri, já classificados para a Copa Uefa, recebiam o Genoa, que brigava com o Milan contra o rebaixamento, numa ferrenha disputa ponto a ponto. Aos 85 minutos, quando o Napoli vencia por 2 a 1 e o Milan batia o Cesena por 3 a 2, Il Giaguaro cometeu um erro crasso ao tentar repor a bola em jogo e a fez sair em escanteio. Na cobrança, Mario Faccenda marcou e acabou decretando o rebaixamento dos rossoneri naquela temporada.

Há quem alegue que o erro foi proposital, por conta de seu amor declarado pelos nerazzurri. Isso, porém, é puro folclore. O fato é que tanto napolitanos quanto genoveses celebraram o rebaixamento dos milanistas. E mais. O lance levou ao gemellaggio entre as torcidas organizadas de azzurri e grifoni: a união vigorou por quase 40 anos e Castellini foi sempre lembrado enquanto a amizade durou.

Em 1984, o Napoli contratou Diego Armando Maradona e Castellini, que era um homem de poucas palavras e muito responsável, acabou sendo um dos tutores do craque. Era sua última temporada pelo clube: com quase 40 anos, o goleiro decidiu parar em alta, quando ainda era titular dos azzurri. Sua importância foi tão grande que, mesmo após mais de duas décadas depois de pendurar as luvas, Luciano foi escolhido numa eleição feita por uma rádio de Nápoles como o melhor arqueiro da história partenopea.

Pelo Napoli, o torcedor da Inter travou alguns duelos contra o seu arquirrival (Arquivo/AC Milan)

Nos seus 15 anos de Serie A, Castellini fez 403 partidas – divididas quase igualmente entre Torino e Napoli. Curiosamente, o goleiro é um dos três únicos jogadores que fizeram pelo menos 200 jogos na elite italiana com dois times diferentes. Os outros foram Giancarlo De Sisti (Roma e Fiorentina) e Ciro Ferrara (Napoli e Juventus). Como profissional, Il Giaguaro entrou em campo 593 vezes, entre clubes e seleção, com 498 gols sofridos.

Após encerrar a carreira, Luciano permaneceu no clube napolitano, no qual trabalhou durante três temporadas como preparador de goleiros, contribuindo para que o Napoli levantasse seu primeiro scudetto, em 1987. No ano seguinte, porém, um convite inesperado lhe mudou a vida. Sabendo de seu amor pela Inter, a diretoria nerazzurra o convidou para treinar os seus arqueiros. E ao amor é impossível dizer não. Tanto é que, até hoje, mais de três décadas depois, Castellini continua auxiliando a Beneamata.

Durante seu período de mais de uma década como preparador de goleiros do time principal da Inter, Castellini teve como pupilos nomes como Walter Zenga (um dos melhores, segundo Luciano), Gianluca Pagliuca, Sébastien Frey e Francesco Toldo. Diferentes gerações de grandes goleiros aprenderam com um dos melhores da posição entre os anos 1970 e 1980.

Com o passar dos anos, Castellini foi realocado como preparador dos goleiros da base – cargo que também exerceu na seleção italiana sub-21, entre 2004 e 2013, e na sub-20, de 2013 a 2015. O ex-arqueiro também se tornou olheiro da Inter e, nesta função, foi o responsável por indicar à diretoria nerazzurra nomes como Julio Cesar e Andrei Radu.

Aposentado, Castellini assumiu diversas funções no seu clube do coração (Arquivo/Inter)

Pau para toda obra na Inter, Luciano Castellini também chegou a ser técnico do time principal em duas ocasiões. Ambas, interinamente. A primeira delas foi em 1997, substituindo Roy Hodgson, que pediu demissão após perder a decisão da antiga Copa Uefa. O Jaguar conquistou quatro pontos em dois jogos e ainda fez com que a Inter terminasse na terceira colocação. A segunda vez em que comandou a Beneamata foi em 1999, quando ficou no cargo por quatro partidas, entre a demissão de Mircea Lucescu e o retorno de Hodgson.

Hoje aposentado, Castellini ainda tem informalmente o status de olheiro da Inter. Porém, o ex-goleiro passa mais tempo curtindo a tranquilidade do Lago de Como, na região em que nasceu. Volta e meia, é homenageado pelos clubes em que trabalhou. Além de ter sido eleito como ícone da meta do Napoli, em 2015, entrou para o Hall da Fama do Monza, e em 2017 recebeu uma homenagem da Inter em San Siro.

Luciano Castellini
Nascimento: 12 de dezembro de 1945, em Milão, Itália
Posição: goleiro
Clubes como jogador: Monza (1965-70), Torino (1970-78) e Napoli (1978-85)
Títulos conquistados: Serie A (1976), Coppa Italia (1971) e Serie C (1967)
Clubes como treinador: Inter (1997 e 1999)
Seleção italiana: 1 jogo

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