Brasileiros no calcio

Irmão de Kaká, Digão jogou no Milan e teve a carreira encurtada por lesões

São corriqueiros os casos de irmãos que chegaram à elite do futebol e estabeleceram uma relação de nítido desequilíbrio em termos de notoriedade. Franco e Giuseppe Baresi, Fabio e Paolo Cannavaro, Filippo e Simone Inzaghi e Cristiano e Alessandro Lucarelli são histórias conhecidas do futebol italiano: todos foram bons jogadores, mas somente um em cada família teve o privilégio de desfrutar do verdadeiro significado do estrelato. Atualmente, exemplos notáveis são Lorenzo e Roberto Insigne, Sergej e Vanja Milinkovic-Savic e Antonio e Gianluigi Donnarumma. Os dois últimos, goleiros do Milan, não são os únicos fratelli contemporâneos que passaram pelos rossoneri. Um ano após a contratação de Kaká, o clube acertou com o zagueiro Digão, três anos mais novo que o ídolo milanista.

A família Santos Leite morava em Brasília, mas se mudou para a maior cidade do país quando seus filhos Rodrigo e Ricardo ainda eram crianças. Os irmãos começaram a jogar nas categorias de base do São Paulo e logo popularizaram seus apelidos: Digão e Kaká. Com 1,94 metro e bem magro, o mais novo encontrou-se na zaga e teve destaque na Copa São Paulo de Futebol Júnior, a famosa Copinha, de 2003, aos 18 anos. Permaneceu no Tricolor paulista até o ano seguinte, quando foi comprado pelo Milan sem que ainda tivesse estreado pelo time profissional são-paulino.

Antes de vestir as cores do gigante de Milão, Digão foi emprestado à Sampdoria porque os rossoneri já haviam atingido o limite máximo de jogadores extracomunitários no elenco. Em 2005, voltou ao Milan depois da experiência nas categorias de base do clube doriano e chegou a ser treinado por Franco Baresi no time sub-19 do Diavolo. O brasiliense, porém, não realizou uma boa transição entre a categoria Primavera e o profissional, de forma que não teve chances com o comandante Carlo Ancelotti. Sem espaço, Digão foi cedido ao Rimini, então na segunda divisão italiana.

A transferência para a Emília-Romanha não serviu apenas para que Digão pudesse viver numa das mais belas cidades litorâneas da Itália. Em Rimini, o brasileiro mostrou ter boa técnica e senso tático: sempre que era convocado, entregava boas atuações, o que lhe garantiu a renovação anual do vínculo. Em 2006-07, o defensor se tornou uma peça importante da defesa biancorossa e contribuiu para uma ótima campanha na segundona. Os romanholos ficaram na quinta posição, mas aquela era uma temporada atípica, em que era praticamente impossível almejar o acesso à elite: afinal, Juventus, Napoli e Genoa disputaram a Serie B e subiram com folga, sem a necessidade de playoffs.

Nos dois anos em que defendeu o Rimini, Digão realizou 25 jogos e recebeu dois cartões vermelhos. Enquanto militava na equipe alvirrubra, viu seu irmão se tornar campeão da Liga dos Campões sobre o Liverpool, em Atenas. O zagueiro retornou a Milanello no verão europeu de 2007 e tinha de brigar por posição com Paolo Maldini, Alessandro NestaKakhaber Kaladze, Daniele Bonera e Dario Simic. Tarefa fácil, não?

Embora fosse uma esperança de rejuvenescimento – tinha apenas 21 anos à época – para um setor defensivo já envelhecido, o camisa 31 entrou em campo somente três vezes durante toda a temporada 2007-08. Sua estreia ocorreu em dezembro de 2007, diante do Catania, pelas oitavas de final da Coppa Italia, e foi inesquecível, no pior dos sentidos.

Em pleno San Siro, Digão falhou nos dois gols da equipe siciliana: aos 19, furou num lançamento e permitiu que Gionatha Spinesi abrisse o placar. Sete minutos depois, rebateu mal um cruzamento e colaborou com o tento de Giuseppe Mascara. O Milan foi derrotado por 2 a 1, não conseguiu reverter o placar no jogo de volta e abriu as portas para que os etnei fizessem sua melhor campanha na competição – foram até as semifinais.

Amaral marcando Zidane? E Digão pressionando Shevchenko? (Getty)

Também em dezembro, Digão não foi relacionado para o Mundial de Clubes. Por outro lado, o zagueiro foi incluído na pré-convocação de Dunga para os Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim. A sua inclusão na lista do Brasil foi relativamente inesperada, mas o irmão de Kaká nunca vestiu a camisa canarinho: foi deixado de fora da convocação definitiva pelo treinador.

Encostado no Milan, o defensor brasileiro acabou cedido por empréstimo aos belgas do Standard Liège. No entanto, ficou em campo por apenas dois minutos durante toda a temporada 2008-09, muito em função de ter rompido os ligamentos do joelho. A contusão coincidiu com uma série de problemas que Kaká teve no púbis e no menisco – o craque até fez infiltrações no joelho esquerdo para amenizar as dores e poder jogar a Copa do Mundo de 2010. Do estaleiro, Digão pelo menos assistiu seus companheiros conduzirem o Standard Liège ao título do Campeonato Belga.

A temporada seguinte também foi péssima para Digão, esportivamente falando. Isso porque o brasileiro ficou cinco meses emprestado ao Lecce e mais três ao Crotone, e só esteve em campo durante apenas 14 minutos na Serie B 2009-10. Mas, por outro lado, o jogador casou com a arquiteta Rebeca Sabino, em dezembro de 2009, na capital paulista, numa cerimônia que contou com a presença de alguns companheiros milanistas – Dida e Serginho – e até mesmo de Adriano Galliani, ex-cartola rossonero. Kaká, já jogador do Real Madrid, foi padrinho do casório. Digão e Rebeca engataram namoro no Natal de 2007 e noivaram no ano seguinte. Hoje, eles continuam casados e têm dois filhos.

Após mais uma época desastrosa na segunda divisão, o defensor retornou ao Milan, mas apenas a tempo de ser negociado com o Penafiel, que à época estava na segunda divisão portuguesa. Durante um empréstimo de uma temporada, o brasileiro conseguiu uma sequência de partidas e anotou seu primeiro e único gol como atleta profissional. Entretanto, o clube do distrito do Porto não quis contratá-lo em definitivo. No verão europeu de 2011, o brasileiro rescindiu seu contrato com o Milan. Foram sete anos de vínculo com os rossoneri, só três jogos oficiais disputados e cinco empréstimos a clubes de menor expressão.

Após o insucesso na Europa, Digão atravessou o Atlântico para tentar a recuperar a carreira na emergente Major League Soccer, a principal liga de futebol dos Estados Unidos – que mais tarde teria Kaká como capitão do Orlando City. O beque passou por uma bateria de testes no New York Red Bulls e assinou contrato após convencer os avaliadores e o diretor esportivo da franquia, Erik Soler. “Digão impressionou nossa equipe técnica durante os testes na última semana e queremos continuar avaliando-o pelo restante da temporada”, disse o dirigente.

No entanto, menos de um ano depois, Digão teve seu vínculo rompido e optou por pendurar as chuteiras, aos 27 anos. Ele disputou somente um jogo pela equipe americana e batalhou contra as lesões – mas acabou perdendo mais uma vez. Embora tenha procurado tratamento com os principais nomes da medicina esportiva, o irmão de Kaká não conseguiu se livrar dos problemas físicos que levaram ao fim de sua carreira como jogador profissional. Hoje, Digão mora no Brasil com a família.

Rodrigo Izecson dos Santos Leite, o Digão
Nascimento: 14 de outubro de 1985, em Brasília
Posição: zagueiro
Clubes: Milan (2005-11), Rimini (2005-07), Standard Liège (2008-09), Lecce (2009-10), Crotone (2010), Penafiel (2010-11) e New York Red Bulls (2012-13)
Títulos: Campeonato Belga (2009)

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