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Felice Borel precisou só de três anos em alta para entrar para a história da Juventus e da Itália



Como uma espécie de mantra motivacional, volta e meia ouvimos alguém dizer que o melhor está por vir. Essa frase deve ter passado diversas vezes pela cabeça de Felice Borel, importante atacante dos primórdios do futebol na Itália. Aos 21 anos, ele já havia sido duas vezes artilheiro da Serie A, tricampeão da mesma competição e ainda havia faturado uma Copa do Mundo. Conquistar mais do que isso era difícil, mas Borel tinha tempo pela frente. Tempo, principalmente, para tentar se recuperar da séria lesão que o fazia almejar por dias melhores.

O sobrenome Borel era um dos mais célebres do futebol de Turim no início do século XX. Isso porque o progenitor, Ernesto, fez carreira como atacante da Juventus, antes de partir para a Riviera Francesa, onde jogou no Cannes, de 1914 a 1919. Foi na região de grande influência italiana, vizinha ao Piemonte, que nasceu o nosso Felice Placido, feliz e calmo. Aldo Giuseppe, seu irmão mais velho, também veio ao mundo em Nice, principal cidade daquelas bandas. Todos eles foram atacantes e todos atuaram pela Juventus.

Aldo e Felice também vestiram brevemente a camisa do Torino. Os dois, aliás, começaram na base do clube grená. O primogênito, menos talentoso, estreou profissionalmente pelo Toro e rodou o país até chegar na Juve quando já era mais experiente. O mais novo, não: aos 18 anos foi tirado da rival pela Velha Senhora para causar impacto imediato.

Se Borel I (Aldo) era medíocre, Borel II (Felice) era um craque em potencial. Atacante magro, ágil e elegante, o baixinho de 1,66m, rapidamente ganhou o apelido de Farfallino (“borboletinha”). E ele zanzava entre os adversários, que tinham muita dificuldade em pará-lo.

Felice Borel estreou profissionalmente por uma Juventus que acabara de conquistar o bicampeonato italiano, em 1931 e 1932, e tinha jogadores como Gianpiero Combi, Umberto Caligaris, Virginio Rosetta, Giovanni Ferrari, Luis Monti, Raimundo Orsi e Renato Cesarini. Os craques daquele esquadrão contribuíram para que o jovem jogador, de apenas 18 anos, se integrasse rapidamente e começasse a fazer a diferença. Carlo Carcano, treinador do time na época, também teve méritos pela coragem de tê-lo lançado.

Primeiros anos em alto nível colocaram Borel em posição de destaque na Juventus (Lettera43)

Logo em suas duas primeiras temporadas, Borel impressionou ao se sagrar artilheiro da Serie A, com 29 e 31 gols, respectivamente. O garoto, estreante no Campeonato Italiano, chegou a marcar mais vezes do que jogou em 1932-33: foram 28 aparições e 29 bolas nas redes. Tal feito só foi igualado 70 anos depois, quando Christian Vieri foi o máximo goleador nacional ao anotar 24 em 23 presenças pela Inter, em 2002-03. Gonzalo Higuaín, no Napoli de 2015-16, repetiu a dupla.

Em forma estrepitosa, Farfallino foi capaz de marcar em seis dérbis de Turim consecutivos, entre 1932 e 1935. Borel conquistou três scudetti consecutivos pela Juventus e se tornou uma das principais peças de uma Juventus histórica, cuja sequência de conquistas só viria a ser superada pela própria Velha Senhora nos anos 2010.

O protagonismo no Quinquennio d’Oro, é claro, abriu as portas da seleção italiana para o jovem Borel. Antes de completar 20 anos, o bianconero estreou com gol diante da Hungria, num jogo válido pela Copa Internacional, e logo depois de somar mais um ano de vida, foi convocado por Vittorio Pozzo para integrar o elenco da Nazionale que conquistou a primeira Copa do Mundo, em 1934. Devido à concorrência de Giuseppe Meazza e Angelo Schiavio, o jovem só atuou em uma partida na competição. Acabaria sendo sua última aparição com a camisa azzurra.

É que o atacante, que parecia destinado a se tornar um dos maiores atacantes italianos da história, decaiu muito cedo. Com apenas 21 anos, Borel sofreu uma grave lesão no joelho, que condicionou o restante de sua carreira. Seus números de aparições e gols caíram drasticamente nos anos seguintes, nos quais a Juventus também se redimensionou. Após a trágica morte de Edoardo Agnelli num acidente aéreo, em 1935, a diretoria optou pela austeridade nas contas e a Velha Senhora perdeu força. Em 1938, os bianconeri ainda chegaram a comemorar uma Coppa Italia, mas foi só.

Entre 1935 e 1941, Borel só teve uma temporada de relevo: em 1936-37, chegou a marcar 17 gols pela Serie A. Nos outros anos, não superou os 10 tentos pela elite e, somando todas as competições, só alcançou dois dígitos em bolas nas redes em 1937-38 e 1940-41. Esta última campanha, na qual provou ainda ter algum valor, foi a deixa para que ele experimentasse um ano de traição.

Quando ainda jogava, Borel já se interessava por tática: na foto, conversa com o técnico Carcano (Arquivo/Juventus)

Em busca de espaço, Felice se transferiu para o Torino e passou apenas um ano no clube, com o qual disputou 26 partidas e fez apenas sete gols. Apesar disso, Borel II ficou próximo do presidente Ferruccio Novo e ajudou a influenciar a formação do Grande Torino. Com suas ideias sobre o esporte, convenceu o cartola a descartar técnicos que adotassem o esquema tático conhecido como metodo e contratar os que optassem pelo sistema – explicamos mais sobre essas diferenças estratégicas aqui.

Mesmo com a pecha de traíra, Farfallino retornou à Juventus em 1942. Embora tivesse apenas 28 anos, Borel já tinha conhecimento tático e atuava como uma espécie de auxiliar dos ex-companheiros Rosetta e Monti, que eram os treinadores da equipe e gostavam das ideias do atacante, apaixonado pelo sistema. Com a saída de Monti para o Varese, Felice foi efetivado como um dos técnicos da equipe e passou a cumprir dupla função.

Como treinador e jogador, Borel teve o seu canto do cisne pela gigante bianconera. O atacante atuou em nível razoável, conseguiu se manter em forma mesmo com o encerramento das atividades esportivas por conta da II Guerra Mundial e se despediu de Turim em 1946. Ainda que seus anos prolíficos tenham ocorrido apenas no início da carreira, até hoje Farfallino é o sexto principal goleador da Juventus: foram 161 tentos marcados em 308 jogos pela Senhora.

Testado como técnico e jogador, Borel ainda cumpriu dupla função no Alessandria, na Serie A, e no Napoli, na Serie B. Depois de realizar apenas um jogo por cada uma das equipes, Felice Placido decidiu deixar os gramados aos 35 anos, em 1949. Dali em diante, teve apenas trabalhos modestos em equipes pequenas, como Cenisia, Fossanese e Ternana. Seu ponto mais alto ocorreu no Catania, que salvou do rebaixamento na Serie B de 1958-59.

Fora dos campos, Borel teve experiências como jornalista e também ocupou cargos no estafe da Juventus, como olheiro e dirigente na gestão de Umberto Agnelli. O aposentado Felice fixou residência em Finale Ligure, belíssima cidadezinha do litoral da Ligúria, e só a deixou para morrer em Turim, em 1993: foi o último dos campeões mundiais de 1934 a falecer. Justo aquele que poderia ter sido um dos maiores craques daquele time, mas entrou para a história “só” como um grande jogador.

Felice Placido Borel
Nascimento: 5 de abril de 1914, em Nice, França
Morte: 21 de fevereiro de 1993, em Turim, Itália
Posição: atacante
Clubes: Juventus (1932-41 e 1942-46), Torino (1941-42), Alessandria (1946-48) e Napoli (1948-49)
Títulos: Serie A (1933, 1934 e 1935), Copa do Mundo (1934) Copa Internacional (1935) e Coppa Italia (1938)
Carreira como técnico: Juventus (1942-46), Alessandria (1946-48), Napoli (1948-49), Cenisia (1954), Fossanese (1954-56), Catania (1958-59) e Ternana (1966-67)
Seleção italiana: 3 jogos e 1 gol



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