Cartolas

Peppino Prisco, o dirigente torcedor que se tornou o maior símbolo do ‘interismo’

Todo clube tem um torcedor símbolo, aquela figura emblemática que embala o estádio ou que representa as suas cores tanto quanto o capitão ou o craque do time. No caso da Inter, além de apoiador, Giuseppe Prisco também se tornou um importante dirigente, ocupando o cargo de vice-presidente da agremiação por quase quatro décadas. Personagem folclórico no futebol italiano, devido a seu fanatismo e às provocações aos rivais, Peppino cunhou frases que ainda hoje inspiram músicas, hinos, faixas e bandeiras.

Neste 10 de dezembro de 2021, é celebrado o centenário do “Mr. Inter”. Falecido dois dias depois do seu aniversário de 80 anos, em 2001, Prisco só descansou após ver o seu segundo maior ídolo brilhar novamente – um jogador que lhe arrebatava ao ponto de homenagear com uma foto em sua escrivaninha, ao lado de um retrato de Giuseppe Meazza, em substituição a uma imagem dos pais. Era o brasileiro Ronaldo. O vice-presidente acompanhou o martírio do craque, que ficou quase duas temporadas parado por lesão, e viu o atacante voltar a balançar as redes pelos nerazzurri na vitória por 3 a 1 sobre o Brescia de Carlo Mazzone. No dia seguinte, o cartola faleceu.

Angelo Moratti, Prisco e a taça do Mundial Interclubes: poucos dirigentes venceram tanto quanto Peppino (RCS)

Duas décadas depois de sua morte, Peppino ainda segue bastante presente na torcida interista, em especial entre as organizadas da Curva Nord, com as quais construiu uma relação bastante especial ao longo de sua vida – de inspiração para cânticos, mas também de repreensão quando os ultras cruzavam a linha do respeito. Ao longo de seus 80 anos, Prisco compartilhou mais de 50 deles vivendo a Inter diariamente.

A paixão pela Inter nasceu na juventude, no final dos anos 1920. No caso de Prisco, nascido e criado em Milão, mas de pai de origem napolitana, o que realmente mudou a sua relação com o futebol foi o primeiro e grande ídolo, Giuseppe Meazza, com quem dividia o apelido Peppino. Entre a escola e a arquibancada da Arena Civica, o garoto tentava repetir as jogadas do ídolo nas ruas de seu bairro.

Prisco foi vice-presidente da Inter da década de 1960 até o início dos anos 2000 (RCS)

A primeira viagem para torcer para a Inter, na época chamada Ambrosiana por conta do ultranacionalismo fascista, foi bastante especial. Em abril de 1938, ainda com 16 anos, seguiu o time para Bari. Era a última rodada de 1937-38, e a vitória por 2 a 0 sobre os donos da casa, com gols de Meazza e Annibale Frossi, garantiu o quarto scudetto dos nerazzurri. A equipe ficou apenas dois pontos à frente da Juventus, que empatou com o Milan no San Siro.

A única pausa na paixão pela Inter aconteceu durante a guerra. Aos 18 anos, Prisco serviu o exército durante a II Guerra Mundial e, como tenente da tropa de montanhistas, participou da campanha italiana na Operação Barbarossa – a invasão do Eixo à União Soviética em 1941. Peppino foi apenas um dos três sobreviventes entre os 159 alpinistas de seu batalhão, e sua participação no fronte lhe valeu uma medalha de prata e uma experiência única, que sempre carregou com muito orgulho.

De volta à sociedade, Prisco dividiu seu tempo entre os jogos da Inter e os estudos na Universidade de Milão, onde se formou em Direito, em 1944. Posteriormente, Giuseppe se tornou um respeitado advogado criminalista, presidente da Ordem dos Advogados de Milão e também conselheiro do Banco Ambrosiano. Em paralelo a isso, Peppino trocou as arquibancadas pela tribuna de honra do San Siro a partir dos anos 1940, quando se tornou sócio do clube nerazzurro.

Apesar de tirar sarro dos rivais, Prisco tinha boa relação com vários deles – como Nereo Rocco, do Milan (imago/Buzzi)

Prisco se tornou secretário da Beneamata em 1949 e conselheiro da agremiação a partir do ano seguinte. Foi ganhando ainda mais responsabilidades com o passar do tempo e, na histórica gestão de Angelo Moratti, se tornou o braço direito do principal mandatário do clube: ascendeu à vice-presidência em 1963 e ocupou o cargo até a sua morte. “Não é verdade que servi cinco presidentes. Eu procurei servir sempre, e tão somente, a Inter”, destacou Peppino em uma das suas célebres entrevistas.

É justamente essa frase que norteia “C’è solo l’Inter”, uma das músicas mais emblemáticas sobre a equipe nerazzurra de Milão. Composição do músico Elio, da banda Elio e le Storie Tese, e interpretada por Graziano Romani, a canção não é “apenas” um hino extraoficial da Beneamata, entoado pela Curva Nord em todos os jogos no San Siro. É uma homenagem feita a Prisco, e foi lançada alguns meses depois de sua morte – não à toa, o único personagem citado na letra é o advogado e dirigente.

Além do próprio título e refrão inspirados pela fala de Peppino, outras famosas declarações do dirigente influenciou versos emblemáticos da canção. A seguinte estrofe: “E mi torna ancora in mente l’avvocato Prisco / Lui diceva che la Serie A è nel nostro DNA / Io non rubo il campionato / Ed in Serie B non son mai stato” – “E ainda me vem à mente o advogado Prisco / Ele dizia que a Serie A está no nosso DNA / Eu não roubo o campeonato / E na Serie B jamais estive”, em tradução livre.

Peppino trabalhou com Angelo e Massimo Moratti, e também com Facchetti nas vestes de jogador e dirigente (RCS)

Prisco era um falastrão de língua ferina. Por isso, suas frases ainda são usadas por torcedores da Beneamata para provocar os rivais milanistas e juventinos. São sentenças como “a Inter nasceu de uma briga no Milan, o que é uma prova de que dá para fazer algo grande a partir do nada” ou “em Milão há duas equipes: a Inter e a Primavera da Inter”. E ainda a mais quente delas: “depois de apertar a mão de um milanista, corro para lavá-la. Se aperto a de um juventino, conto os meus dedos”. Apesar das afrontas, Peppino era admirado pelos adversários pelo fato de ser boa-praça, polido e decididamente apaixonado pelo seu clube do coração.

Além de exacerbar o seu lado torcedor sempre que julgava conveniente, Prisco foi porta-voz da diretoria por muitas décadas e também teve a oportunidade de exercer a sua profissão a favor do seu clube. Tal qual o gol de Jair da Costa na final da Copa dos Campeões de 1965 ou a defesa de Julio Cesar no chute de Lionel Messi pela semifinal da Liga dos Campeões de 2010, o advogado teve atuação decisiva em uma das decisões mais controversas da história do futebol.

Bökelbergstadion, Mönchengladbach, oeste da Alemanha. O dia era 20 de outubro de 1971. No jogo de ida das oitavas de final da Copa dos Campeões, o que era para ser mais uma disputa quente entre alemães e italianos dentro de campo, um ano e poucos meses depois do emblemático “Jogo do Século” no Azteca, virou uma batalha nos tribunais. Dentro das quatro linhas, uma sonora goleada por 7 a 1 do Borussia sobre a Inter.

Símbolo interista, Prisco tinha escritório decorado com itens do clube (EFE)

Jupp Heynckes abriu o placar logo aos 7 minutos, porém Roberto Boninsegna empatou aos 20. Na jogada seguinte, Ulrik le Fevre voltou a colocar os anfitriões na frente do placar. Até que, aos 29, os nervos à flor da pele fizeram uma infame lata de Coca-Cola protagonizar uma das cenas mais polêmicas do esporte. O objeto lançado por um torcedor do Gladbach acertou de raspão a grande estrela dos visitantes, Bonimba.

O árbitro neerlandês Jef Dorpmans mandou o jogo seguir. O episódio desestabilizou ainda mais os nerazzurri, que não foram páreo para o forte time alemão, na época bicampeão nacional e com a melhor geração de sua história – todos os seus cinco títulos da Bundesliga foram conquistados naquela década. Atrás do placar por um gol de diferença, a equipe milanesa foi para o intervalo perdendo por 5 a 1 e viu a derrota ser ampliada para 7 a 1 na etapa final.

Mas nada disso valeu, por conta de um recurso da agremiação italiana. Agora Prisco já não era mais o torcedor ou o vice-presidente, e sim o advogado. Em uma reunião entre a comissão disciplinar da Uefa e representantes dos clubes em um hotel de Genebra, a versão apresentada por Peppino convenceu os dirigentes da Uefa a dar razão à Inter, cancelando o segundo 7 a 1 mais famoso do futebol. Assim, pela primeira vez no futebol europeu, uma equipe foi responsabilizada pelo comportamento de sua torcida.

Dias antes de falecer, Prisco acompanhou Ronaldo, seu ídolo, em ação beneficente (DFP/Inter)

No jogo da volta, disputado duas semanas depois, vitória da Inter por 4 a 2 em um San Siro lotado. A decisão da Uefa foi polêmica, pois terminou por inverter os mandos de campo – já que partida na Itália ocorreu antes do duelo que teria os alemães como mandantes. A entidade ainda levou a eliminatória a um campo neutro, em Berna, e sem a presença de torcida. O Gladbach conseguiu reverter esta decisão e conseguiu transferir o duelo para a capital Berlim, e com mais de 80 mil pessoas no Olympiastadion. Em campo, um nervoso empate sem gols, com direito a um pênalti defendido por Ivano Bordon, classificou os italianos.

No auge da rivalidade entre Itália e Alemanha, Prisco, alvo de muitos xingamentos dos anfitriões, se apresentou no estádio Olímpico de Berlim com um cachecol tricolor, nas cores do Belpaese. Advogado e dirigente, mas sempre torcedor. Naquela temporada, a Inter ainda passou pelo Standard de Liège e vingou a derrota para o Celtic em Glasgow quatro anos antes, porém não foi páreo para o Ajax de Johann Cruyff na final de Roterdã.

Maior símbolo do interismo, Peppino Prisco estará sempre vivo na mente e no coração dos torcedores nerazzurri.

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