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‘Una vita da mediano’, uma ode aos volantes interistas

“Uma vida de volante, a recuperar bolas, nascido sem pés habilidosos, um trabalhador que usa os pulmões. Uma vida de volante, com tarefas precisas, a cobrir certos espaços e jogar generosamente. Ali, sempre ali, ali no meio, enquanto o fôlego durar, ficar ali.

Uma vida de volante, de quem sempre marca poucos gols, de quem deve dar a bola a quem finaliza o jogo. Uma vida de volante, a quem a natureza não deu o talento do atacante ou do camisa 10. Que pecado. Ali, sempre ali, ali no meio, enquanto o fôlego durar, ficar ali.

Uma vida de volante, daquele que se cansa primeiro, porque depois de ter dado tanto, deve sair e dar o seu lugar. Uma vida de volante, trabalhando como Oriali, anos de cansaço e carrinhos e, quem sabe, vencer o Mundial. Ali, sempre ali, ali no meio, enquanto o fôlego durar, ficar ali.”

Confira aqui a letra original.

Duas décadas atrás, Luciano Ligabue lançava “Una vita de mediano”, primeiro single do álbum Miss Mondo, hoje um dos seus maiores sucessos, especialmente pela conexão com o futebol. A música traz à memória Gabriele Oriali, volante de Inter e Fiorentina nos anos 1970 e 1980, campeão mundial em 1982 com a Itália. Na canção, ele é citado como exemplo de um jogador que não nasceu com um talento natural para o esporte e precisou trabalhar duro para ter sucesso.

Ligabue é membro de uma família associada à Resistência italiana e foi um conselheiro do Partido Comunista Italiano nos anos 1970. Luciano trabalhou com tudo e mais um pouco antes de fazer sucesso como cantor. Na canção, o compositor associa o trabalho exaustivo do volante (mediano, em italiano) ao dos trabalhadores comuns do dia a dia. Gente simples que precisa dar tudo de si para conseguir viver, sem depender de um pretenso talento inato.

Interista declarado e visitante recorrente da Pinetina, o cantor emiliano nunca escondeu a paixão pelo futebol e as influências do esporte no seu trabalho. Por isso, mais do que a referência a Oriali, a música também dá uma oportunidade de explorar a história dos volantes da Inter – equipe que tem uma dinastia de ídolos na posição. Desde a fundação do clube, em 1908, até os tempos atuais, os nerazzurri contaram com nomes de peso para exercer a função.

Tudo começou com Virgilio Fossati, um dos primeiros jogadores do clube. Fossati serviu como capitão, membro da comissão que tomava as decisões técnicas e táticas da equipe e também foi o primeiro interista a representar a seleção italiana. Titular do time que ganhou o primeiro scudetto nerazzurro, em 1910, está registrado na memória interista pelo trágico final de vida: abandonou a carreira futebolística para ir ao front da Primeira Guerra Mundial, morrendo em 1916.

Nos anos 1920 e 1930, Armando Castellazzi e Pietro Serantoni formaram o meio-campo da Inter, à época Ambrosiana por causa da lei racial e da repressão fascista. Os dois conquistaram o terceiro scudetto do clube, sendo que o primeiro foi campeão mundial com a seleção italiana em 1934 e o segundo em 1938. Serantoni ainda era considerado um dos maiores meio-campistas da época, justamente pela dedicação, que colocava acima do talento. Por sua vez, Castellazzi treinou a equipe que ganhou o quarto título nacional interista.

O legado teve continuidade com Aldo Campatelli, onipresente no meio-campo nerazzurro por mais de uma década, entre os anos 1930 e 1950. Já sob o comando de Helenio Herrera, Carlo Tagnin fez o seu nome com a partida da sua vida. O volante não teve uma grande carreira e nem mesmo era titular habitual da Grande Inter do Mago, mas foi o responsável por marcar Alfredo Di Stéfano na final da Copa dos Campeões de 1964, anulando o craque do Real Madrid.

Tagnin perdeu espaço por causa do jovem Gianfranco Bedin, que surgiu como um fenômeno na formação de Herrera e foi titular do meio-campo azul e preto por uma década. Como o antecessor, anulou outro grande craque na final da Copa dos Campeões de 1965: o meia-atacante Eusébio. Bedin também conquistou a Copa Intercontinental, no final daquele ano, e três scudetti.

Os irmãos Baresi: ambos foram bandeiras dos seus clubes (Getty)

Sua saída abriu espaço para Lele Oriali, outro produto da base interista que se tornaria ídolo. Durante a primeira parte de sua trajetória em Milão, Oriali jogou ao lado do baixinho Mario Bertini. Versátil, Gabriele cumpriu diversas funções em sacrifício pela equipe, mas em todos os lugares chamava atenção pela consistência e pela garra. Foi líder de uma era de vacas magras do clube, mas mesmo assim conquistou títulos importantes, como dois scudetti e duas copas nacionais. Lele ainda fez a alegria da torcida com seis gols contra o rival Milan.

Outros jogadores onipresentes no gramado do San Siro, que seguiram o legado de Oriali, foram Gianpiero Marini e Giuseppe Baresi – os dois, inclusive, jogaram com Lele no início de suas passagens pela Inter. O segundo deles mantém uma relação bastante especial com a Beneamata. Irmão mais velho de Franco, ídolo do Milan, Beppe jogou por 15 anos com a camisa nerazzurra e desde os anos 2000 trabalha no clube.

Baresi serviu como principal assistente de José Mourinho durante o Triplete e ajudou a revelar diversos talentos enquanto foi responsável pela base do clube. Bons exemplos de seu trabalho nos juniores do clube são Obafemi Martins, Goran Pandev, Leonardo Bonucci, Mario Balotelli e Davide Santon. Como jogador, conquistou duas Coppa Italia, uma Copa Uefa e dois scudetti – incluindo o “scudetto dos recordes”, sob o comando de Giovanni Trapattoni.

“Comecei como lateral, direito ou esquerdo, e zagueiro. Depois virei volante: uma função de que gostava mais, por participar mais do jogo, ainda que jogando em função dos outros. Sempre me pediam para marcar o adversário mais difícil e o fazia com grande satisfação. E até hoje sou um volante: devo trabalhar e decidir com humildade, sem olhar para trás”, declarou Baresi, sintetizando o trabalho do volante.

Os anos 1990 e 2000 também foram boas épocas para o meio-campo interista. Apesar da vida curta em Milão, Aron Winter, Zé Elias, Diego Simeone e Benoît Cauet formaram um setor bastante sólido para Ronaldo e Youri Djorkaeff fazerem a diferença no primeiro título da presidência de Massimo Moratti, a Copa da Uefa de 1998. Na mesma temporada, eles também foram importantes na campanha do vice-campeonato italiano, que culminou numa polêmica perda de scudetto para a Juventus.

Cambiasso e Zanetti comemoram um dos seus muitos títulos pela Inter (Getty Images)

Os italianos Luigi Di Biagio e Cristiano Zanetti também tiveram seus momentos no início do século, mas foram os argentinos Javier Zanetti e Esteban Cambiasso que realmente fizeram história no setor. Pupi é o jogador com mais partidas, temporadas e títulos com a Beneamata, além de eterno capitão interista. Zanetti abandonou a lateral para dar lugar a Maicon, com quem formou uma das parcerias mais marcantes na história do clube. Enquanto o brasileiro atacava, o argentino cobria suas costas e guarnecia o time ao lado do compatriota.

Cambiasso, por sua vez, foi o dono do meio-campo nerazzurro por uma década. El Cuchu dividiu espaço com Patrick Vieira e Thiago Motta, por vezes assumindo a braçadeira de capitão – o que aconteceu especialmente na temporada em que a dupla encerrou sua passagem pelo clube. Enquanto Zanetti hoje é vice-presidente, Cambiasso se prepara para ser treinador. Assistente da Colômbia de José Pékerman na Copa do Mundo de 2018, o ex-volante faz o curso da FIGC, em Coverciano.

Viúvos desde a saída da dupla, só hoje os torcedores interistas – incluindo Ligabue – começam a vislumbrar novos donos do setor. Atualmente, Beneamata conta com Radja Nainggolan, Marcelo Brozovic e Matías Vecino. O trio tem características diversas dos medianos de antigamente, mas são capazes de dar continuidade ao longo legado dos volantes nerazzurri.

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