Brasileiros no calcio

Maxwell e Inter, a simbiose perfeita entre jogador e clube num período vitorioso

A Inter foi dominante na Itália durante a metade final da década de 2000. O trabalho iniciado por Roberto Mancini e potencializado por José Mourinho trouxe grandes conquistas para os nerazzurri, o que, evidentemente, fez com que muitos jogadores se destacassem naquele período. Um deles foi Maxwell. Na Beneamata, o brasileiro se consolidou como um excelente lateral-esquerdo e incluiu cinco títulos em seu encorpado currículo, o que o ajudou a se tornar um dos jogadores mais vitoriosos da história do futebol.

Maxwell é natural de Cachoeiro de Itapemirim, sul do Espírito Santo. Na infância, ele fazia natação e jogava futsal. Às vezes, o garoto tinha compromisso nos dois esportes na mesma hora, mas sempre dava prioridade ao futebol de salão – ainda que, na faixa dos 11 anos, fosse tido como um dos nadadores mais rápidos do seu estado. A família dava muito conforto e suporte a Maxwell, para que ele não precisasse se mudar para outra parte do país para jogar futsal. Porém, quando passou em um teste no Cruzeiro, com quase 15 anos de idade, não houve alternativa.

Já em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, Maxwell integrou a equipe infantil da Raposa. Em meio à forte concorrência no clube celeste, o jogador viajou com a delegação do time juvenil para os Países Baixos, onde disputaria um torneio. O Cruzeiro venceu a competição, o jogador foi um dos destaques e acabou chamando a atenção do Ajax, que mais tarde o compraria por R$ 3 milhões. Antes de deixar Minas Gerais, o capixaba foi campeão da Copa do Brasil, em 2000, apesar de não haver entrado em campo durante a campanha.

A vitoriosa aventura de Maxwell pela Europa teve início em 2001, quando ele tinha apenas 20 anos. O atleta chegou a Amsterdã junto a um também desconhecido Zlatan Ibrahimovic, de quem se tornaria uma espécie de fiel escudeiro para a vida toda. O lateral-esquerdo já contou, em diversas entrevistas, que a amizade entre os dois começou depois que o atacante torrou seu primeiro salário adquirindo um carro de luxo e, assim, ficou sem dinheiro para comprar outras coisas essenciais – como alimentos, por exemplo.

Ibra, então, perguntou se poderia permanecer por duas semanas (período até que o próximo salário caísse na conta) na casa do defensor. Arranhando o inglês na época, o capixaba concordou em hospedar aquele que viria a ser um grande amigo de longos anos. Aliás, a parceria entre o sul-americano e o nórdico se estenderia também para dentro de campo, com Maxwell servindo e Ibrahimovic empurrando as bolas para as redes. E, embora tenham personalidades diferentes, ambos traziam algumas particularidades em comum: o ano de nascimento (1981), o desejo se tornarem estrelas no futebol e o polêmico agente Mino Raiola como empresário.

Antes de fardar pela Inter, Maxwell foi registrado pelo Empoli (imago/AFLOSPORT)

O lateral-esquerdo permaneceu cinco anos no Ajax e ajudou o time de Amsterdã a conquistar seis títulos – duas Eredivisie, duas Copas da Holanda e duas Supercopas da Holanda. Também foi eleito o melhor jogador da liga local em 2004, ano em que recebeu sua primeira chamada para servir a seleção brasileira – ele já tinha defendido a Canarinho em um torneio pré-olímpico, classificatório à Olimpíada de Atenas.

O treinador Carlos Alberto Parreira o convocou para os jogos contra Venezuela e Colômbia, em outubro de 2004, valendo pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2006. O defensor permaneceu na reserva de Roberto Carlos em ambas as partidas. De volta aos Países Baixos, Maxwell manteve o alto nível pelo time neerlandês, mas, em abril de 2005, passou por um momento muito tenso em sua carreira.

O Ajax enfrentava o Willem II, pela semifinal da Copa da Holanda, quando o jogador sofreu uma grave lesão: rompimento do ligamento cruzado anterior do joelho direito. O tempo de recuperação foi mais longo do que o normal, já que, em dezembro do mesmo ano, ele seria acometido por outra contusão, desta vez no menisco. Por isso, o capixaba não esteve disponível para a temporada 2005-06.

O Ajax não renovou o contrato de Maxwell. Assim, em janeiro de 2006, aos 24 anos, fechou com a Inter. O clube italiano não possuía mais espaço para jogadores extracomunitários em seu plantel. Assim, o atleta acabou emprestado ao Empoli. O brasileiro, contudo, jamais entrou em campo pela equipe toscana, visto que ainda se recuperava de lesão. Ele se juntaria ao grupo nerazzurro no verão europeu de 2006, firmando vínculo até junho de 2010. Em Appiano Gentile, ele reencontraria seu amigo Ibrahimovic, grande aquisição interista para o ataque.

Além da inclusão de Maxwell ao plantel, a Inter anunciaria a chegada de mais dois reforços: o meio-campista Olivier Dacourt (ex-Roma) e o lateral-direito Maicon (ex-Monaco). Os três, sobretudo os defensores brasileiros, ajudariam a Beneamata a empilhar títulos na Itália até o fim da década 2010. O lateral-esquerdo pegou a camisa 6 e, inicialmente, começou no banco, mas logo tomaria a vaga de titular, desbancando o campeão do mundo Fabio Grosso e fazendo Mancini avançar o capitão Javier Zanetti para o meio-campo, onde formaria um tripé ao lado de Esteban Cambiasso e Patrick Vieira – ou Dacourt e, em algumas ocasiões, com Dejan Stankovic recuado ao setor.

Em sua primeira temporada pela Inter, Maxwell disputou 29 jogos (considerando todas as competições), marcou um gol e forneceu uma assistência. Ganhou o scudetto com vantagem, mas perdeu a Coppa Italia para a Roma, na final. De todo modo, o saldo foi positivo, e o seu primeiro gol pelo time interista prova isso. Na vitória por 2 a 0 sobre o Parma em abril de 2004, pela Serie A, o camisa 6 marcou um golaço que animou o público de San Siro – e também o comentarista José Altafini, que acompanhava a partida na Sky ao lado do narrador Pierluigi Pardo. Ele impediu que a bola saísse na lateral, deu uma meia-lua no adversário, tabelou com Hernán Crespo, invadiu a área e bateu forte no alto.

Competente no flanco esquerdo, o capixaba viveu três anos em alta na Inter (imago/IPA Photo)

Na temporada seguinte, Maxwell não balançou as redes nem deu assistência, ainda que Mancini o tenha escalado mais avançado, como meia aberto pela esquerda, em um jogo contra o CSKA, pela Liga dos Campeões. Porém, o lateral voltaria a soltar o grito de campeão da Serie A pelo segundo ano consecutivo desde sua ida ao Belpaese. Fato negativo: a Inter sofreria duas derrotas para a Roma que lhe custariam os troféus da Supercopa Italiana e da Coppa Italia.

Se em 2007-08 Maxwell havia atuado na faixa do meio-campo, na época seguinte ele iria além. Demitido, Mancini deu lugar a Mourinho, que chegou a escalar o camisa 6 armando o jogo, na função de trequartista no esquema 4-3-1-2. O episódio ocorreu diante do Bologna, fora de casa, pela 25ª rodada da Serie A. A Inter venceu por 2 a 1, e o brasileiro jogou como armador até os 36 minutos do segundo tempo, quando foi substituído por Mario Balotelli. Ao fim da temporada, nenhuma novidade: a equipe nerazzurra levou novamente o scudetto para Appiano Gentile.

A trajetória de Maxwell pela Inter terminou em 2009, quando um jovem Davide Santon ganhava o apreço de Mourinho e o Barcelona chegava com uma oferta de 4,5 milhões de euros pelo brasileiro. Considerado negociável, por já haver sucessor definido, o lateral-esquerdo deixou o clube de Milão após 105 jogos, dois gols, quatro assistências e cinco títulos conquistados – três scudetti, duas Supercopas Italianas e uma Coppa Italia. No Barça, que também reforçava seu ataque com Ibrahimovic, o lateral-esquerdo fez parte de um time histórico comandado por Pep Guardiola. O treinador catalão, inclusive, fez Maxwell atuar até como lateral-direito.

A briga pela vaga de titular da lateral esquerda culé era com o francês Éric Abidal. No início da temporada 2009-10, Guardiola revezava os dois, porém, no fim das contas, o capixaba findou a época como titular da posição. Ainda em 2009-10, Maxwell reencontrou a Inter, na semifinal da Liga dos Campeões, mas viu seu antigo clube levar a melhor, se classificar à final e faturar a orelhuda em cima do Bayern de Munique.

Não demoraria muito para o brasileiro, enfim, entrar para o seleto grupo de jogadores que conquistaram a Champions League. Isso ocorreu logo na temporada seguinte, quando o Barcelona se mostrou dominante do início ao fim e derrotou o Manchester United por 3 a 1, em Wembley, para erguer o troféu. O camisa 19 não jogou as últimas partidas da competição continental, ficando de fora até mesmo da semifinal e da decisão.

Pouco utilizado por Guardiola, Maxwell optou por deixar o Barcelona em janeiro de 2012. Ele firmou acordo com o Paris Saint-Germain, que, com ajuda de investidores, despontava como um grande projeto para os anos seguintes. Como de praxe, o brasileiro topou novamente com seu amigo Ibra, que se tornaria a principal estrela do PSG na época. Seria a quarta vez que o defensor e o atacante se encontrariam em um mesmo clube.

Com os cinco títulos que conquistou pela Inter, Maxwell se tornou um dos atletas mais vencedores do futebol (imago/Gribaudi)

As boas atuações de Maxwell pelo time parisiense o fizeram ser chamado para a seleção brasileira de Luiz Felipe Scolari. Depois de apenas ficar no banco em convocações passadas, o capixaba finalmente realizou sua estreia na Canarinho: jogou 34 minutos na derrota por 1 a 0 ante a Suíça, em amistoso disputado na Basileia, em 2013. Ele ganharia novas chances com Felipão e foi convocado à Copa do Mundo de 2014, como reserva de Marcelo. Por isso, entrou em campo somente uma vez na competição, na disputa pelo terceiro lugar, quando os brasileiros perderam por 3 a 0 para os Países Baixos. Após a Copa, Maxwell, já com 33 anos, nunca mais voltou a ser chamado pela Seleção.

No PSG, o brasileiro aumentou ainda mais sua coleção de títulos e se tornou o jogador em atividade com mais troféu na carreira (36) – sendo ultrapassado, posteriormente, por Daniel Alves. O lateral-esquerdo virou uma referência dentro do elenco parisiense, chegou a usar a braçadeira de capitão e, em sua última temporada como jogador profissional, conquistou títulos, claro. Foram 214 jogos, 13 gols, 25 assistências e incríveis 14 taças em cinco anos de Paris.

Com as chuteiras penduradas, Maxwell entrou para a diretoria do PSG, em 2017, substituindo o português Antero Henrique como diretor esportivo do clube. Permaneceu dois anos no cargo, participando, inclusive, da negociação que levou Neymar a Paris. Em 2019, no entanto, se afastou da função. A imprensa francesa relatou, na época, que as acusações de agressão feitas por sua ex-esposa, Giulia Nagamine, foram o motivo da decisão.

Segundo o boletim de ocorrência datado de 27 de março, em Belo Horizonte, Giulia estava sofrendo ameaças durante todo o relacionamento com Maxwell, com quem foi casada por 13 anos e com quem tem quatro filhos. Ainda de acordo com o registro policial, o dirigente chegou até a ameaçá-la de morte, em 2015. Maxwell, por sua vez, negou todas as acusações feitas pela ex-esposa e afirmou, em nota divulgada à imprensa, que provará sua inocência.

Maxwell Scherrer Cabelino Andrade
Nascimento: 27 de agosto de 1981, em Cachoeiro de Itapemirim (ES)
Posição: lateral-esquerdo
Clube: Cruzeiro (2000-01), Ajax (2001-06), Empoli (2006), Inter (2006-09), Barcelona (2009-12) e Paris Saint-Germain (2012-17)
Títulos: Copa do Brasil (2000), Eredivisie (2002 e 2004), Copa da Holanda (2002 e 2006), Supercopa da Holanda (2002 e 2005), Serie A (2007, 2008 e 2009), Coppa Italia (2006), Supercopa Italiana (2006 e 2008), Supercopa da Espanha (2009, 2010 e 2011), Supercopa Europeia (2009 e 2011), Mundial de Clubes da Fifa (2009 e 2011), Copa do Rei (2009), La Liga (2010 e 2011), Liga dos Campeões (2011), Ligue 1 (2013, 2014, 2015 e 2016), Supercopa da França (2013, 2015 e 2016), Copa da Liga Francesa (2014, 2015, 2016 e 2017) e Copa da França (2015, 2016 e 2017)
Seleção brasileira: 10 jogos

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