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Ruben Buriani foi rebaixado duas vezes com o Milan e parou cedo por grave lesão

Muitos jogadores criam identificação com determinada torcida devido a seu empenho em campo e ao amor à camisa. Podemos dizer que o italiano Ruben Buriani é um desses. Meio-campista técnico, ambidestro e incansável dentro das quatro linhas, ele esteve presente nos anos mais sombrios do Diavolo – isto é, nos dois rebaixamentos para a Serie B.

Buriani cresceu em Portomaggiore, província de Ferrara, e teve uma infância difícil. Seus pais tiveram 15 filhos, e ele foi o penúltimo a nascer. Chegou a passar fome, pois tinha que repartir a comida que vinha à mesa com seus irmãos. Desde muito novo chamava atenção também pela cabeleira muito loira, que lhe rendeu o apelido de Testagialla – “cabeça amarela”, na tradução para o português. Em Portomaggiore, disputou algumas partidas pelo time amador Portuense antes de chegar à Spal, onde se profissionalizou em 1973, aos 18 anos. Ficou apenas uma temporada nos biancazzurri, e no ano seguinte assinou com o Monza para disputar a Serie C.

Na equipe brianzola, Buriani foi campeão logo de cara: ajudou o clube a conquistar a Coppa Italia da Serie C. O jogador cresceu de produção temporada após temporada. Seu ápice pelo Monza veio em 1975-76, quando realizou 33 jogos e marcou quatro gols na campanha que culminou no título da Serie C. Agora na segunda divisão, ele seguiu jogando bem e chamando a atenção dos times da elite. Em 1977, firmou vínculo com o Milan e enfim disputaria sua primeira Serie A.

Uma das primeiras contratações da era Felice Colombo no Diavolo, Buriani chegou para ser titular absoluto do meio-campo, que já contava com Gianni Rivera, Fabio Capello, Alberto Bigon e Giorgio Morini – o jornalista Gianni Brera, inclusive, escreveu que os rossoneri continuariam no topo enquanto esses atletas permanecessem no clube. O jogador, que ganhou o apelido de “pannocchia” (espiga de milho) por causa da cor de seus cabelos, estreou contra a Fiorentina, em Florença, pela abertura do campeonato de 1977-78. O jogo terminou empatado em 1 a 1.

Cabeça amarela ou espiga de milho: o loiro Buriani se destacava no Milan (Getty)

Seis rodadas depois, o camisa 7 chamou os holofotes para si em seu primeiro Derby della Madonnina no San Siro. Os milanistas venceram por 3 a 1, e ele foi o destaque da partida ao anotar dois gols e salvar um em cima da linha. O primeiro tento, inclusive, saiu numa pancada de canhota de fora da área que morreu no canto direito do goleiro interista. O Diavolo não teve muita sorte nessa época, mas em 1978-79, os comandados do sueco Nils Liedholm conquistaram o décimo scudetto da história do Milan. Buriani foi elemento fundamental na equipe que permitiu aos rossoneri estamparem uma estrela no peito. O título marcou a despedida dos gramados do capitão Rivera, que deixava a faixa para um tal de Franco Baresi.

Em 1980, o meio-campista rossonero ganhou sua primeira oportunidade na seleção italiana de Enzo Bearzot. O técnico que levaria a Itália ao título na Copa do Mundo de 1982 o convocou para os amistosos contra Romênia (vitória por 2 a 1), em fevereiro, e Polônia (empate por 2 a 2), dois meses depois. O jogador entrou nas duas partidas e foi o suficiente para convencer Bearzot a levá-lo para a Eurocopa. No entanto, o comandante não o utilizou em nenhum duelo da competição. A Squadra Azzurra terminou em quarto lugar na Euro, e Buriani nunca mais foi convocado para servir a seleção.

No mesmo ano de 1980 veio à tona o escândalo Totonero. O vexame causou a detenção de 13 jogadores e o rebaixamento à segunda divisão de Lazio e Milan. Em junho, os clubes apelaram da sentença, mas de nada adiantou. O então presidente do Diavolo, Felice Colombo, sofreu uma dura suspensão: foi banido para sempre do futebol. Em meio a toda essa confusão, Buriani optou por seguir no Milan e, assim, disputou a Serie B em 1980-81 vestindo vermelho e preto. A equipe de Milão venceu o torneio com certa facilidade, e o camisa 7 marcou seis gols em 38 jogos pela segundona.

De volta à elite, o Milan fez uma campanha horrorosa, terminou o campeonato na 14ª posição (naquela época a primeira divisão contava com 16 times), com um ponto a menos que o Genoa, e desceu as escadas da Serie B novamente. Tal como a maioria dos jogadores, Buriani não conseguiu repetir o desempenho das últimas temporadas. Mas, por incrível que pareça, o Milan ainda assim terminou a época com uma taça continental, a Copa Mitropa – então disputada pelos campeões das segundonas de Itália, Checoslováquia, Hungria e Iugoslávia.

Pelo Cesena, Buriani marca Hansi Müller, da Inter (Cesena Calcio)

Depois de 169 jogos e 14 gols pelo Milan, Buriani viu que era a hora de trocar de clube. Escolheu um que estava na primeira divisão, o Cesena. Ironicamente, o time bianconero não conseguiu se manter na Serie A, finalizando o campeonato na penúltima colocação, a cinco pontos da salvação. Dessa vez o meio-campista seguiu com o clube rumo à Serie B. Mas seria a última temporada pelos bianconeri.

Após dois anos defendendo o Cesena, o jogador fechou com a Roma em 1984. Entretanto, permaneceu apenas uma temporada na capital, onde realizou 33 jogos. Próxima parada: sul. No Napoli, fez apenas cinco partidas antes de se lesionar gravemente e ter sua carreira prejudicada. No dia 10 de novembro de 1985, a Inter recebeu o Napoli no Giuseppe Meazza, em jogo válido pela décima rodada do Italiano. O confronto estava no segundo tempo quando Buriani sofreu uma entrada criminosa do defensor Andrea Mandorlini. Ele gritou de dor, e todos à sua volta puderam perceber a gravidade da situação. Ficou constatado que ele tinha quebrado a tíbia e fíbula.

Aos 30 anos, o meio-campista se viu forçado a interromper sua trajetória no futebol de alto nível devido à contusão. Ele ainda chegou a jogar dois anos na Serie C pela Spal, equipe que o revelou para o futebol, mas não aguentou as dores e se aposentou em 1988, aos 33 anos. Longe dos campos, ele se tornou dirigente. Trabalhou na Salernitana, na Ternana e no Padova. Voltou ao Milan em 1995 para assumir o posto de diretor esportivo do setor juvenil, mas deixou o cargo dois anos depois.

Ruben Buriani
Nascimento: 16 de março de 1955, em Portomaggiore, Itália
Clubes: Spal (1973-74 e 1986-88), Monza (1974-77), Milan (1977-82), Cesena (1982-84), Roma (1984-85), Napoli (1985-86)
Títulos: Coppa Italia da Serie C (1975), Serie C (1976), Serie A (1979), Serie B (1981), Copa Mitropa (1982)
Seleção italiana: dois jogos

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