Brasileiros no calcio

Letal na bola parada, Marcos Assunção fez parte de um dos maiores esquadrões da Roma

Italianos, franceses, argentinos, brasileiros e um japonês. Jogadores dessas nacionalidades estão eternizados na história da Roma pela conquista do scudetto de 2000-01, o terceiro do clube. Entre os cinco jogadores nascidos no Brasil, estavam os lendários Cafu e Aldair, além de Antônio Carlos Zago, Emerson e, o mais jovem entre eles: Marcos Assunção, um especialista nas jogadas de bola parada.

O futebol entrou oficialmente na vida do ex-volante em 1993. Natural de Caieiras, no interior de São Paulo, Marcos Assunção, aos 17 anos, passou a jogar nas categorias de base do Rio Branco, de Americana. Não demorou muito para o jogador chamar a atenção de grandes equipes. Em cinco anos, passou por Santos e Flamengo, antes de acertar seu vínculo com a Roma.

Após estourar no interior paulista, foi negociado com o Santos e teve sucesso precoce, já deixando claro que a bola parada seria um dos seus pontos fortes. Com menos 1,70m, na época, Marcos Assunção mostrava força física, bom passe e atributos de ótimo finalizador. No período entre 1995-97 e 1999, nas duas primeiras passagens pelo Peixe, fez 111 jogos e marcou 24 gols – alguns deles de falta ou aproveitando rebotes com finalizações de fora da área.

Em 1998, após o Campeonato Paulista, Marcos Assunção foi envolvido em uma troca com o Flamengo. Ele e Caio Ribeiro desembarcaram no Rio de Janeiro, enquanto Athirson e o meia Lúcio fizeram o percurso inverso. Dos 42 jogos que disputou pelo time rubro-negro, marcou sete vezes. Voltou ao Peixe, mas logo no início da temporada europeia de 1999-00, foi negociado com a Roma.

A adaptação extracampo não parecia difícil. Mesmo com 22 anos e vivendo em uma cidade bem diferente de locais como Caieiras, Americana e Santos, Marcos Assunção contou com a ajuda dos companheiros sul-americanos – entre eles os brasileiros Aldair, Cafu, Zago e Fábio Júnior no primeiro ano – para acelerar sua ambientação. Os colegas orientaram o ex-volante em aspectos ligados a estadia, compras, rotina e entretenimento; em suma, tudo que envolve uma mudança de país. Dentro de campo é que as coisas foram um pouco mais complicadas no início.

O jogo italiano, como tradição, é mais rápido e tático do que comparado com o praticado no Brasil, e essa diferença era mais clara principalmente no início do século 21. A altura do gramado, também distinta, dificultou o jogo do ex-volante. Mesmo assim, Marcos Assunção ganhou oportunidades na sua primeira temporada, alternando a titularidade com o atual treinador da Roma: Eusebio Di Francesco, que formava dupla com Damiano Tommasi, à frente dos defensores Zago, Aldair e Amedeo Mangone. Dos 46 jogos realizados pela Roma na temporada 1990-00, 28 tiveram a presença do brasileiro. Esta foi a campanha em que o paulista mais vezes foi utilizado pelos giallorossi.

Estilo atlético do meia casava com a Itália, mas a concorrência na Roma era dura (Allsport)

O scudetto da Lazio no final da temporada, porém, modificou o panorama para os romanistas e para Marcos Assunção. O presidente Franco Sensi sentia que era preciso dar uma resposta ao título da principal rival e isso, no início, foi feito pela direção com contratações que recheariam o plantel comandado por Fabio Capello. Walter Samuel, Jonathan Zebina (zagueiros), Emerson (volante) e Gabriel Batistuta (atacante, contratado após histórica passagem pela Fiorentina) foram algumas das principais adições ao elenco, que já tinha Vincenzo Montella, Marco Delvecchio e Francesco Totti.

Para Marcos Assunção, o início da temporada 2000-01 foi um pesadelo. Em setembro, parte da torcida romana o contestou de maneira pesada, o que quase fez com que o brasileiro deixasse a Roma. “No início, pensei em sair. Tive momentos de pânico, mas meus familiares, o clube e meus colegas me ajudaram a superar”, declarou ao jornal La Repubblica, em 2001. Pouco depois, porém, uma lesão no joelho afastou o meio-campista dos gramados por três meses. Na mesma entrevista, Assunção declarou que o técnico Capello foi importante na travessia desse momento, no qual chegou a ter um princípio de depressão.

O relacionamento com o treinador, porém, não era idílico. Nos momentos em que estava disponível, Assunção sofria com a concorrência no setor e as variações de sistemas táticos utilizados por Capello fizeram com que o ex-volante tivesse poucas oportunidades. Anos depois de deixar a Cidade Eterna, porém, o brasileiro reconheceu que a teimosia de sua juventude foi a responsável pelas rusgas – já resolvidas – com o comandante. “Naquela época eu era jovem demais para entender algumas coisas que ele me pedia. Depois de muito tempo, entendi que teria sido melhor ouvir os conselhos dele. Eu teria evoluído mais rápido. Foi um dos treinadores que mais me ensinaram”, disse à revista online Futebol Magazine.

Entre tapas e beijos com Don Fabio, o brasileiro realizou apenas 19 jogos naquela temporada 2000-01. O meio-campista só entrou em campo em 12 rodadas: apenas seis vezes como titular e com duas partidas completas, totalizando 522 minutos na Serie A. Ainda assim, Assunção marcou dois gols na campanha do terceiro título italiano da Roma, sendo um deles (na vitória por 3 a 2 contra a Inter) de falta.

Em entrevistas concedidas a portais como Yahoo Esportes e Vavel, Marcos Assunção relata que sempre foi próximo dos brasileiros e que viu Francesco Totti como referência de jogador e de idolatria. Aquele elenco também tinha muitos líderes nos vestiários. Além do camisa 10, o esquadrão de 2000-01 da Roma tinha  nomes como Aldair, Montella, Vincent Candela e Abel Balbo, que estabeleceram forte relação com o clube.

Em 2001-02, Marcos Assunção voltou a ser utilizado na rotação de jogadores titulares e defendeu a Roma em duelos de Serie A, Coppa Italia, Supercopa Italiana e Champions League. No seu último ano na Cidade Eterna, o brasileiro revezou com Tommasi, já que Emerson não costumava perder espaço entre os 11 iniciais. Ao todo, Assunção entrou em campo em 35 das 51 partidas da equipe. Também foi a temporada com mais gols marcados: seis, sendo três após cobranças de faltas. Os tentos de bola parada foram anotados no primeiro turno do campeonato, sobre Atalanta (1 a 1), Bologna (vitória por 3 a 1) e Parma (triunfo por 2 a 1).

Em três anos de Roma, Marcos Assunção não teve sequência como titular, mas participou de uma campanha de scudetto (Getty)

Após três temporadas vestindo a camisa giallorossa, Marcos Assunção somou 83 jogos e 10 gols. As boas exibições em 2001-02 não garantiram sua permanência na Itália, mas o mantiveram no futebol europeu. O ambicioso Betis, que alguns anos pagara a maior quantia da história para contratar Denílson junto ao São Paulo, o levou para a Espanha. Curiosamente, na mesma janela de transferências, um primo do ex-meia da Roma também chegava ao país ibérico. Se Marcos Senna assinou com o Villarreal e virou ídolo do Submarino Amarelo, Assunção viveu grandes momentos no clube andaluz.

Durante sua passagem de cinco anos por Sevilha, Assunção quase sempre foi titular do Betis. A bem da verdade, geralmente ficava de fora somente quando não tinha condições físicas: em 2003-04, por exemplo, perdeu quatro meses por lesão. Na campanha seguinte, deu a volta por cima e atuou em 34 das 38 rodadas de La Liga, além de ter sido importante para o segundo título da Copa do Rei dos verdiblancos. Com a camisa 20, foi um dos destaques de um time que ainda tinha o ponta Joaquín e seus compatriotas Ricardo Oliveira e Edu no comando do ataque.

Marcos Assunção deixou a Europa em 2007 e se transformou num peregrino do futebol – condição que vivenciou até pendurar as chuteiras, nove anos depois. Em quase uma década, o meio-campista defendeu outras nove equipes: duas nos Emirados Árabes Unidos e sete no Brasil. Sua assinatura, claro, continuou sendo firmada através das cobranças de faltas: quando suas finalizações venenosas não morriam no fundo das redes adversárias, levavam perigo às metas dos rivais.

Na reta final da carreira, o melhor desempenho de Marcos Assunção ocorreu no Palmeiras. O volante foi contratado pelo alviverde após passagem rápida pelo Grêmio Barueri e passou dois anos no Palestra. Entre 2010 e 2012, Assunção realizou 145 partidas e 31 gols pelo clube, chegando ao ápice com o título da Copa do Brasil. No entanto, o rebaixamento para a Série B acabou sendo o último capítulo de sua história na Academia de Futebol.

Com 36 anos, o jogador retornou ao Santos, mas não foi muito utilizado ao longo da temporada e não renovou o contrato com a equipe da Vila Belmiro. Marcos Assunção ainda defendeu Figueirense, Portuguesa, Criciúma e Sampaio Corrêa, aposentando-se em 2016, quando já era quase um quarentão.

Marcos dos Santos Assunção
Nascimento: 25 de julho de 1976, em Caieiras (SP)
Posição: meio-campista
Clubes: Rio Branco (1993-95), Santos (1995-97, 1999 e 2013), Flamengo (1998), Roma (1999-02), Betis (2002-07), Al Ahli (2007-08), Al-Shabab (2008-09), Grêmio Barueri (2009-10), Palmeiras (2010-12), Figueirense (2014), Portuguesa (2014), Criciúma (2015) e Sampaio Corrêa (2016).
Títulos conquistados: Torneio Rio-São Paulo (1997), Serie A (2001), Supercopa Italiana (2002), Copa do Rei (2005), Copa dos Emirados Árabes (2007), Copa do Brasil (2012) e Campeonato Catarinense (2014).
Seleção brasileira: 11 jogos, 1 gol.

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