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Pierluigi Orlandini, o ‘garoto de ouro’ italiano que jamais conseguiu explodir no futebol

Momentos definem o sucesso da carreira de um atleta. No caso de Pierluigi Orlandini, foi necessário apenas um chute despretensioso, na final da Euro sub-21 em 1994, para colocar seu nome nos livros. A vasta trajetória em mais de nove clubes italianos terminou com pouquíssimo brilho, mas a euforia que lhe tomou quando anotou primeiro gol de ouro da história do futebol ainda resvala no imaginário do ex-meia. Aquele instante definiu a vida inteira que ele podia ter vivido e, no entanto, não desfrutou.

Mas isso sequer passava pela cabeça do jovem Orlandini, então cria da base da Atalanta. Nascido em San Giovanni Bianco, uma comuna de cinco mil habitantes da província de Bérgamo, ele tentava emular seu ídolo Roberto Donadoni nos juvenis – e, assim como ele, atuava como meia pela direita. No verão de 1990, logo após assistir a Copa do Mundo na televisão, foi convocado pelo técnico Pierluigi Frosio para um retiro junto ao time principal.

Orlandini se comprometeu com a rotina de um atleta profissional: não ia dormir tarde e se alimentava bem, o que proporcionava atenção especial da comissão técnica diante da sua tendência de engordar. Em toda a sua carreira, a bem da verdade, sempre teve físico robusto. Ligeiramente rechonchudo, até. Compleição física que não lhe impediu de brilhar nos primeiros anos de sua trajetória.

O reconhecimento dos esforços de Gigi veio em 20 de janeiro de 1991, no embate entre Atalanta e Torino, quando deu os primeiros passos como profissional no Comunale de Bérgamo, o antigo Atleti Azzurri d’Italia. A estreia passou despercebida, não somente por se tratar de um garoto, mas pelo fato de os holofotes estarem voltados ao reencontro dos nerazzurri com o técnico Emiliano Mondonico.

Cria da frutífera base da Atalanta, Orlandini surgiu como uma grande promessa do futebol italiano (imago/Allstar)

Orlandini somou apenas mais seis aparições naquela temporada pouco marcante em Bérgamo, concluída com o 10º lugar na Serie A e com uma eliminação para a Inter nas quartas de final da Copa Uefa. Em 1991-92, sob o comando de Bruno Bolchi, Gigi foi acionado 12 vezes e terminou notado por Cesare Maldini, que o convocou pela primeira vez para defender a seleção italiana sub-21.

O meio-campista foi emprestado na janela de verão de 1992 ao Lecce, da Serie B, para ter mais oportunidades como titular. Entre os companheiros de plantel, um promissor Antonio Conte. E não deu outra: Orlandini ganhou a titularidade, com 29 jogos e três gols anotados. A boa impressão no Via del Mare deu moral a Gigi na volta do empréstimo. Em 1993-94, o ala se destacou em meio a um elenco apagado da memória dos nerazzurri: cinco tentos em 23 aparições não impediram o rebaixamento da Atalanta.

Naquela mesma temporada, Orlandini também estendeu o seu bom momento individual à Euro Sub-21, disputada na França. Circunstâncias de jogo e a implementação de uma regra, aliados a sua fase positiva, mudariam o restante da sua vida. Na final entre Itália e Portugal, estiveram em campo jogadores como Francesco Toldo, Fabio Cannavaro, Christian Panucci, Filippo Inzaghi, Abel Xavier, João Pinto, Rui Costa e Luís Figo. Mas o brilharia seria todo de Gigi.

Após brilhar na Euro Sub-21, Orlandini teve uma chance de ouro na Inter (imago/Allstar)

Aquela decisão ficou marcada pela implantação do gol de ouro – uma inovação polêmica, que carrega saudosistas e críticos até hoje. Orlandini assistiu o jogo no banco de reservas até que, convenientemente, a grande final terminou zerada no tempo regulamentar. Alguns diriam destino. Inzaghi saiu para a entrada do meia, já nos acréscimos, e logo a mudança de Maldini surtiu efeito.

Aos oito minutos da prorrogação, o jovem bergamasco conduziu a bola da ponta direita para o centro e arrematou de esquerda, acertando no local em que a coruja dorme. Foi o primeiro gol da história que resultou em vitória e título de forma instantânea. A Itália se sagraria bicampeã europeia da categoria e daria continuidade a um ciclo vitorioso – de 1992 a 2004, faturou cinco das sete edições do torneio.

Coberto de glórias, o jovem ala vestiria nerazzurro novamente em 1994-95. Mas, dessa vez na gigante de Milão: Ottavio Bianchi, técnico recém-chegado à Inter, indicou Orlandini para ser uma alternativa na equipe campeã da Copa Uefa. Uma mudança de ares e de prestígio. Antes titular incontestável no time de coração, Gigi passou a não ser mais reconhecido nas ruas e teve que buscar seu espaço.

Numa tentativa relativamente bem-sucedida de recuperar a carreira, o meio-campista passou pelo Verona (Allsport)

Embora reserva no começo, Orlandini ganhou mais minutos gradualmente e acumulou 28 aparições, com seis gols marcados. Um deles deu início à virada contra o Padova, pela Serie A, que carimbou a vaga dos nerazzurri na Copa Uefa. Além disso, pode guardar na memória os dois tentos anotados em duas edições do Derby della Madonnina, válidas pelas oitavas de final da Coppa Italia, que contribuíram na dobradinha de 2 a 1 para eliminar o Milan da competição.

A adaptação rápida ao San Siro colocou Orlandini na prateleira dos jovens mais valorizados da Itália. Ciente disso, a Inter guardou seu talento e pupilo de Bianchi a sete chaves. Porém, o desempenho pobre no início da temporada 1995-96, e a eliminação precoce na Copa Uefa deixaram insustentável a posição do técnico. O inglês Roy Hodgson ocupou o cargo e a sintonia jogador-treinador deixou de existir. Isolado e rebaixado à reserva, Gigi não hesitou em aceitar a proposta do recém-promovido Verona, comandado por Luigi Cagni, que enxergou a oportunidade de mercado.

O Hellas não se sustentou por mais do que uma temporada na Serie A, mas este não seria o caso de Orlandini, um dos poucos destaques da equipe – em 33 aparições, somou sete tentos e quatro assistências; ou seja, uma participação direta em gol a cada três jogos. O Parma de Carlo Ancelotti, postulante ao scudetto, foi o novo destino do jogador lombardo, que teria uma nova chance de mostrar que poderia ser importante num time do mais alto nível. Prestes a fazer 25 anos, ainda podia dar a volta por cima.

Embora tenha chegado ao Milan, Gigi não se sentia suficientemente estimulado para seguir carreira no futebol (imago/Ulmer)

Gigi reconheceu a forte concorrência que enfrentaria para ser titular, mas não podia deixar de integrar uma equipe competitiva, e que disputaria a Liga dos Campeões pela primeira vez em sua história. Em sua passagem pela Emília-Romanha, atuou em 41 partidas e passou em branco em todas. Em entrevista à Sky Sports, em 2011, Orlandini revelou que, em meio à desvalorização na época, a apatia substituiu a ambição na carreira: “A partir daí começou o declínio. Perdi os estímulos, não tinha mais o desejo e o entusiasmo que tinha no início”, contou.

Discreto, Orlandini não foi tão prestigiado por Ancelotti quanto se esperava. Mesmo assim, ganhou sequência para a nova temporada, agora com Alberto Malesani à beira do campo. É verdade que recebeu ainda menos minutos, porém, pode acrescentar a seu currículo os títulos da Copa Uefa e da Coppa Italia.

Sem espaço na Emília-Romanha, o meia ficou sem saber para onde ir, até que o campeão italiano da época adquiriu seu passe. Gigi retornou a Milão, agora para o lado rossonero, respaldado pelo técnico Alberto Zaccheroni, que planejava aproveitar as suas características no sistema 3-4-3. Na prática, entretanto, era notório que deixar o Parma como reserva e acertar com os donos do scudetto não representaria uma ascensão convertida em titularidade.

Com a camisa do Venezia, Orlandini marcou seu último gol na elite (imago)

Dito e feito: a passagem de Orlandini por Milanello se limitou a cinco partidas e um gol, em menos de seis meses. Em janeiro de 2000, arrumou as malas e se transferiu ao Venezia, sua única vítima com a camisa rossonera, e time pelo qual balançaria as redes pela última vez na Serie A. Pelos arancioneroverdi, Gigi colecionou mais um rebaixamento.

Orlandini ainda completaria 28 anos em 2000, mas o prazo de validade de sua carreira se aproximava do fim. O meia chegou no Brescia em 2000-01, mas teve sua utilização quase restrita a jogos da Coppa Italia e só atuou 11 vezes pelo time biancazzurro. Em seguida, a Atalanta reabriu as portas ao prata da casa, para lhe proporcionar um fim de ciclo mais digno. Contudo, o retorno não gerou nenhum impacto para ambas as partes e, no fim, o descenso à Serie B deu tom melancólico à história entre o jogador e seu clube formador.

O Brindisi, então militante na Serie C2, foi o destino de Orlandini. Pelos adriáticos, foi campeão da Coppa Italia da Serie C e ainda resvalou numa promoção à terceirona, mas nada além disso. Sem qualquer empolgação para jogar futebol, Gigi ainda defendeu os minúsculos Nardò, Mesagne, Montalbano e Racale antes de se aposentar e virar técnico. Praticamente toda a sua carreira à beira do campo foi desenvolvida na Apúlia, onde treinou times juvenis e profissionais – Taranto, Toma Maglie, Atletico Tricase, Brindisi, Virtus Francavilla e Grottaglie. O ex-atleta ainda teve uma experiência na base do Pontisola, de Bérgamo.

Em suma, a carreira de Orlandini como treinador não decolou, repetindo a sua trajetória como atleta. Oscilante e subjugado pelos técnicos, Gigi poderia ter sido responsável por causar mais gritos de júbilo, mas nunca se mostrou capaz de fazer isso regularmente. Bom, de qualquer forma, nenhum outro brado ecoaria tanto quanto o provocado pelo êxtase do primeiro gol de ouro.

Pierluigi Orlandini
Nascimento: 9 de outubro de 1972, em San Giovanni Bianco, Itália
Posição: meio-campista
Clubes: Atalanta (1989-92, 1993-94 e 2001-02), Lecce (1992-93), Inter (1994-96), Hellas Verona (1996-97), Parma (1997-99), Milan (1999-2000), Venezia (2000), Brescia (2000-01), Brindisi (2002-03), Nardò (2003-04), Mesagne (2004-05), Montalbano (2005-06) e Racale (2006-07)
Títulos: Europeu Sub-21 (1994), Copa Uefa (1999), Coppa Italia (1999) e Coppa Italia da Serie C (2003)
Clubes como técnico: Toma Maglie (2008), Atletico Tricase (2008-10) e Grottaglie (2018-19)

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