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Na Juventus, Marcelo Zalayeta construiu reputação de herói improvável

Na década de 1990, o Uruguai foi campeão e vice da Copa América. Tanto a geração daqueles tempos quanto a que floresceu no início do século XXI foram muito ligadas ao futebol italiano. Charruas daquela época, como Fabián Carini, Paolo Montero, Fabián O’Neill, Álvaro Recoba e Marcelo Zalayeta escreveram seus nomes nos principais clubes da Serie A. Este último fez história na Juventus, onde se consagrou com improváveis gols decisivos na Champions League. A agilidade e força física do atacante resultaram no apelido El Panterón, uma referência a sua imponência como uma “grande pantera” que eternizou memórias para os bianconeri, sem deixar cicatrizes de arranhões.

Marcelo nasceu em Montevidéu e começou a jogar profissionalmente no Danubio, time que leva um de seus sobrenomes, em 1996. Fez 12 gols em 32 aparições na primeira temporada como jogador, o que lhe capacitou para reforçar o Peñarol em seguida. Zalayeta correspondeu ao investimento e estufou as redes por 13 ocasiões no mesmo número de partidas, tornando-se campeão uruguaio e da copa nacional. No mesmo ano, comandou o ataque na histórica campanha da Celeste no Mundial Sub-20 da Malásia. O atacante foi eleito o segundo melhor jogador do torneio, atrás do companheiro Nicolás Olivera, apesar da derrota na final, para a Argentina.

Em dezembro, integrou a lista de convocados para a edição de estreia da Copa das Confederações, realizada na Árabia Saudita. Zalayeta foi lançado como titular em quase todos os jogos, em exceção ao duelo contra a África do Sul, e anotou um gol na trajetória do Uruguai, que ficou com o terceiro lugar. Um mês antes, a Juventus havia feito acordo com o Peñarol para contratá-lo por 5 bilhões de velhas liras. Aos 18 anos, desembarcou em Turim ao lado do compatriota César Pellegrín, que também atuara no Mundial Sub-20. Marcello Lippi, entretanto, não o introduziu de forma imediata no time principal.

Antes disso, ele precisou de um atalho – e a equipe Primavera veio a calhar. Zalayeta estreou na Copa Viareggio e surpreendeu a todos com seu toque suave e lento, mas imparável como uma pantera. “Os primeiros meses foram terríveis, mas os meus compatriotas [Daniel] Fonseca e [Paolo] Montero me ajudaram muito a superar aqueles momentos; meus outros companheiros, com os quais criei laços imediatos, também me receberam muito bem. Depois, comecei a aprender italiano, fiz algumas amizades e me adaptei rapidamente”, conta o avançado uruguaio.

Entre os profissionais, Zalayeta foi escanteado no banco de reservas ou, em algumas ocasiões, nas arquibancadas. Líder isolada da Serie A, a Juventus se deu ao luxo de usá-lo quando bem entendesse. Quis o destino, contudo, que o sul-americano mostrasse serviço logo na estreia. Ele foi acionado por Lippi aos 71 minutos, no lugar de Edgar Davids, pouco depois do empate sofrido pela Juve contra o Napoli. O jogo estava mais disputado do que o previsto, visto que os azzurri estavam agarrados à lanterna, e o atacante o destravou de forma quase imediata, aos 75, quando recebeu de Angelo Di Livio e venceu dois defensores napolitanos para desviar de cabeça. A Velha Senhora perdeu a vantagem nos acréscimos, mas Marcelo deixou o seu recado para o técnico.

Com ótimo desempenho no início da carreira, Zalayeta foi adquirido pela Juventus, mas demorou a se firmar em bianconero (imago/Weckelmann)

Porém, a Juventus ostentava Alessandro Del Piero, Filippo Inzaghi, Nicola Amoruso e Fonseca, de modo que Lippi não tinha pressa alguma em utilizá-lo. A paciência era tanta que, depois de comemorar a conquista do scudetto, o uruguaio foi emprestado ao Empoli, em 1998-99. O time azzurro, na figura do técnico Mauro Sandreani, deu mais cancha ao garoto, que teve dificuldade para engrenar e marcou duas vezes em 17 jogos. Após ser campeão italiano na temporada anterior, Marcelo experimentaria o primeiro rebaixamento. A Juve tinha confiança no potencial do jogador e o cedeu ao Sevilla, desta vez por duas épocas, para Zalayeta ganhar projeção no futebol espanhol.

Na seleção, por outro lado, sua presença como titular era incontestável na ótica de Víctor Púa, que fora seu comandante na sub-20 celeste. Com três gols em seis partidas, ele esteve diretamente envolvido em todos os jogos do vice-campeonato do Uruguai na Copa América de 1999, vencida pelo Brasil. No Sevilla, não mostrou o nível esperado e chegou a articular sua saída na janela de inverno, o que não se concretizou. Zalayeta foi mantido e aumentou a assiduidade em campo, mas não evitou o segundo rebaixamento da carreira. Os ultras sevillistas, conhecidos como Biris, apelidaram-no carinhosamente de “El monstruo de las galletas” – O Monstro das Bolachas, em tradução livre –, em referência a Come-Come, da Vila Sésamo, pelo apetite voraz à frente do gol.

O bom relacionamento com a torcida não colocou Zalayeta nos planos de Joaquín Caparrós. Excluído do planejamento, principalmente pelo teto de estrangeiros no plantel, o uruguaio não encontrou nenhum outro destino para ir. A Juventus recusou a sua devolução, e também não tinha a intenção de emprestá-lo a um rival da Serie A. O desejo da Velha Senhora era a permanência do atacante na Espanha para obter a dupla nacionalidade e, portanto, não fazer parte do contingente de estrangeiros quando voltasse à Itália.

Sem acordo, Zalayeta engoliu seco e permaneceu treinando com o restante do elenco do Sevilla, sem poder jogar. Tudo mudou a partir de dezembro. Surpreso com o profissionalismo demonstrado pelo jogador, Caparrós passou a utilizá-lo frequentemente, e o uruguaio viria a se tornar peça-chave na formação titular. Atuando em alto nível, ele marcou alguns gols essenciais na promoção dos blanquirrojos à LaLiga. O atacante se mostrou disposto a negociar um contrato definitivo, mas o interesse da Juve em seu retorno pesou na balança. Marcelo somou 50 jogos e 10 bolas na rede na Andaluzia.

Na volta para a Itália, em 2001-02, precisou se contentar com o papel de coadjuvante, enquanto a concorrência composta por Del Piero, David Trezeguet, Marcelo Salas e Amoruso comandou a conquista do scudetto. Enfim, na temporada seguinte, a paciência se mostrou uma virtude determinante no crescimento e evolução de Zalayeta. Relacionado mais regularmente, colecionou 36 participações em jogos, cinco passes para gol e balançou as redes em oito oportunidades. Uma, em especial, nunca foi esquecida pelos bianconeri.

El Panterón nem sempre teve chances em Turim, mas marcou território com gols decisivos na Champions League (imago/Ulmer)

Zalayeta substituiu Marco Di Vaio no intervalo do jogo entre Barcelona e Juventus, válido pela volta das quartas de final da Champions League 2002-03, e sacramentou a classificação da Velha Senhora no minuto 114, em pleno Camp Nou. Alessandro Birindelli cruzou e El Panterón completou com categoria, para desempatar o placar. Na decisão contra o Milan, além das cobranças de Trezeguet e Montero, Dida adivinhou o lado na batida do uruguaio. O atacante desferiu um chute forte e rasteiro, mas o brasileiro saltou com segurança e venceu o duelo. No fim das contas, o Diavolo levantou sua sexta orelhuda.

O desdobramento da melhor temporada na Itália até então não cumpriu as expectativas. Em 2003-04, teve muito menos espaço com Lippi e, sem chances no onze inicial bianconero, não teve outra alternativa senão aceitar um novo empréstimo em janeiro. O destino da vez era o Perugia – onde se instaurara um pandemônio arquitetado pelo presidente Luciano Gaucci, devido à contratação de Al-Saadi Gaddafi, filho de Muammar Gaddafi, ditador da Líbia, e a tentativa de integrar jogadoras no futebol masculino. Em meio a um rebaixamento iminente, concretizado nos playoffs, Zalayeta se limitou a cinco partidas disputadas após sofrer uma grave lesão na tíbia e na fíbula.

Com a resiliência de uma pantera, o uruguaio tinha muitos recursos e, enfim, teve a sorte ao seu lado. De volta a Turim, assumiu a responsabilidade de substituir Trezeguet, que lesionou o ombro em partida contra a Udinese. Sempre pronto, ele correspondeu no mesmo jogo e fez o gol da vitória do time treinado por Fabio Capello. Zazà também retribuiu a confiança ante Messina, Roma, Chievo, Inter e Bologna. Mas o êxtase após marcar no mata-mata da Champions League não se compara.

Foi o que aconteceu no Delle Alpi, em 3 de setembro de 2005, quando a Juventus precisava da vantagem de dois gols para superar o Real Madrid e avançar às quartas. Trezeguet anotou o primeiro, mas coube a Zalayeta, aos 116, emendar uma pancada de direita e estufar as redes de Iker Casillas. Além de sacramentar uma classificação histórica pela segunda vez, também fincou os pés no hall de heróis bianconeri. “Por fora posso não demonstrar, mas por dentro estou muito feliz. Por dentro eu tenho o inferno queimando. Meu sonho é um gol na final da Liga dos Campeões”, falou em entrevista após o jogo.

Uma temporada perfeita e uma desolação em seguida: esse é o looping na carreira de El Panterón. Essencial em momentos-chave nas Eliminatórias do Mundial de 2006, a exemplo da tripletta contra a Colômbia, que deixou a Celeste viva na disputa pela última vaga, Zalayeta desperdiçou a chance de consagrar a sua trajetória na seleção. Era a oportunidade para dar a volta por cima, após ser excluído da convocação para a Copa de 2002 por Púa.

Zalayeta também colocou seu nome na trajetória de reconsolidação no Napoli na Serie A (imago/Hoch Zwei/GN)

Depois de esbarrar em Dida, na final da Champions League de 2002-03, Zalayeta falhou contra Mark Schwarzer nas penalidades válidas pela repescagem contra a Austrália. O goleiro australiano defendeu mais duas cobranças e o Uruguai ficou de fora da Copa do Mundo. De forma melancólica, este jogo marcou a despedida do atacante da equipe nacional charrua.

As circunstâncias do retorno à Juventus não foram animadoras. Ele foi um dos poucos remanescentes do elenco após os episódios do escândalo Calciopoli, que culminaram no rebaixamento da Velha Senhora para a Serie B. Autor de quatro gols – todos decisivos, como de costume –, o uruguaio fez a sua parte na campanha do acesso, que seria a sua última trajado de preto e branco.

No verão de 2007, Capello recomendou ao amigo Edoardo Reja, técnico do Napoli, a contratação de Zazà. A Juve o cedeu em copropriedade e Zalayeta assinou contrato até 2011 com o time campano, que também retornava à elite. Em 160 aparições, El Panterón registrou um total de 34 gols pelos bianconeri: 12 na Serie A, 12 na Coppa Italia, seis na Champions League e quatro na segundona.

Zazà teve um começo avassalador no San Paolo, quando chegou a bater seu recorde pessoal na Serie A já no primeiro turno. Em março, porém, rompeu o ligamento do joelho esquerdo e encerrou a temporada mais cedo. De qualquer modo, a permanência do uruguaio no Napoli foi prorrogada por mais um ano, após os partenopei e os bianconeri entrarem em acordo para a renovação do vínculo.

O uruguaio voltou da lesão em setembro, no jogo contra o Palermo, em que anotou o segundo tento da vitória. Zalayeta passou por uma seca de 24 rodadas até reencontrar as redes em abril, frente à Sampdoria. El Panterón recuperou o faro de gol e, dois jogos depois, garantiu o triunfo dos azzurri diante da Inter. No dia 5 de maio, devido a divergências com o técnico Roberto Donadoni, não se apresentou nos treinos, o que resultou em seu afastamento do elenco. Após o esclarecimento do mal-entendido, o jogador ficou à disposição.

No Bologna, seu último time na Itália, o uruguaio contribuiu numa campanha de permanência na elite (imago/AFLOSPORT)

Napoli e Juventus entraram em acordo para prolongar a copropriedade, mas Zalayeta não foi integrado à pré-temporada. Zazà, então, deixou o clube após 56 partidas e 12 gols marcados. Após manter o condicionamento físico no Uruguai, foi cedido ao Bologna, onde deixou sua assinatura quatro vezes em 29 jogos, ajudando os rossoblù a garantirem a sua permanência na Serie A. A Inter até obteve a tríplice coroa naquele ano, mas, sendo uma das vítimas preferidas do atacante, foi vazada por ele na terceira campanha consecutiva.

Em junho de 2010, o Napoli resgatou gratuitamente a outra metade do seu passe. Mas, sem se encaixar no projeto do técnico Walter Mazzarri, Zalayeta novamente teve a presença vetada na pré-temporada. Foi necessário um mês de espera até que fosse concretizada a sua venda definitiva para o Kayserispor, da primeira divisão turca.

Apesar de uma média positiva, de 0,5 gol a cada jogo, o uruguaio se despediu do Kayserispor após 14 jogos. Ele estava determinado a vestir as cores aurinegras pela última vez e assinou com o Peñarol em março de 2011. Nas cinco derradeiras temporadas em que atuou em sua terra natal, venceu uma vez o campeonato local, sendo seu artilheiro. El Panterón avaliou que não rendia mais fisicamente e anunciou a sua aposentadoria em novembro de 2015, aos 39 anos.

Em meio a uma safra de craques na Juventus, Zalayeta roubou a cena e se consolidou como o eterno talismã da torcida bianconera. El Panterón certamente não se tornou o jogador esperado após o sucesso no Mundial Sub-20, mas foi uma opção válida por anos a fio. Os gols decisivos contra Barcelona e Real Madrid, no mata-mata europeu, não deixam dúvidas disso.

Marcelo Danubio Zalayeta
Nascimento: 5 de dezembro de 1978, em Montevidéu, Uruguai
Posição: atacante
Clubes: Danubio (1996), Peñarol (1997 e 2011-16), Juventus (1997-98, 2001-04 e 2004-07), Empoli (1998-99), Sevilla (1999-2001), Perugia (2004), Napoli (2007-09), Bologna (2009-10) e Kayserispor (2010-11)
Títulos: Campeonato Uruguaio (1997, 2013 e 2016), Supercopa Italiana (1997, 2002 e 2003), Serie A (1998, 2002 e 2003), Segunda División (2001) e Serie B (2007)
Seleção uruguaia: 33 jogos e 10 gols

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