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Massimo Palanca, o reizinho de Catanzaro

Adriano, o Imperador. Paulo Roberto Falcão e Francesco Totti, reis de Roma. Títulos de nobreza são comuns no futebol italiano, mesmo que a realeza nem sempre se encontre nas mais influentes praças esportivas do país. O tamanho e o prestígio de um reino, contudo, não interferem na deferência dos súditos a vossas majestades. Que o diga Massimo Palanca, reizinho de Catanzaro e especialista em gols olímpicos.

Massimo não nasceu na realeza – e nem na Calábria. Marquesão, Palanca é originário de Loreto, mas cresceu na vizinha Porto Recanati, às margens do Mar Adriático. Lá mesmo, o atacante começou a jogar futebol e, entre os 10 e os 17 anos, passou pelas categorias juvenis da Recanatese. Assim que fez 17, deixou para trás sua numerosa família (tinha sete irmãos) e saiu de casa para atuar pelo Camerino, time de sua província que disputava a Serie D.

Em três anos pelos biancorossi, Palanca disputou uma vez a quarta divisão e, duas vezes, a quinta. Na Promozione, o marquesão marcou 29 gols em 55 partidas e atraiu o interesse do Frosinone, que estava na Serie C e pode lhe pagar um salário 10 vezes maior. Vestindo a camisa ciociara, o atacante voltou a brilhar, anotando 18 gols em 38 partidas – os frusinati marcaram 30, no total. Palanca estava destinado à Reggina, mas como os grenás não subiram para a Serie B, a negociação caiu por terra e o baixinho passou para outro time da Calábria: o Catanzaro.

O primeiro campeonato de Palanca pelos giallorossi não foi bom: longe de ser notado como rei, ele parecia apenas no máximo um vassalo. As críticas da torcida afetaram o jovem jogador, de apenas 21 anos, que marcou apenas quatro vezes em 35 jogos da campanha da equipe. Por pouco o Catanzaro não subiu para a Serie A: fez 45 pontos, como o Verona, mas perdeu o jogo de desempate.

Palanca foi um jogador muito respeitado e arrebanhou um séquito de fãs na Calábria (Catanzaro nel Pallone)

Em 1975-76, porém, tudo mudou de figura e o baixinho Massimo, de apenas 1,70m, começou a merecer o apelido de ‘O Rey – rei, no dialeto local. Treinados por Gianni Di Marzio, os calabreses ficaram com o vice-campeonato da segundona e garantiram o acesso à elite. Palanca marcou 11 gols em 33 partidas e foi o autor do tento que definiu a promoção, na vitória por 2 a 1 sobre a Reggiana.

Na segunda participação do Catanzaro na Serie A, Di Marzio concedeu pouquíssimo espaço a Palanca – que, de quebra, ainda perdeu parte da temporada por causa do serviço militar obrigatório. O atacante passou a maior parte da campanha no banco, sendo pouco utilizado em partidas mais físicas, em gramados mais pesados. de acordo com o técnico, pai do jornalista Gianluca Di Marzio, o estilo lépido e veloz do reizinho não é adaptado a tais campos. As águias do sul acabaram amargando o rebaixamento e Palanca, mesmo com apenas 18 jogos, foi o artilheiro do time, com cinco gols – um deles, de bicicleta, sobre a Inter.

Caminhando para a maturidade, Palanca não se deixou abalar pela escassa utilização em seu debute na elite. ‘O Rey permaneceu no Catanzaro e foi fulcral para o retorno imediato dos sulistas à primeira divisão: com 18 gols, foi o artilheiro da Serie B e, novamente, foi o autor do tento que definiu o acesso. Conhecido como “pé de fada”, por sua chuteira número 37, Massimo colocou a canhotinha para funcionar e marcou um golaço contra o Como, deixando um adversário na saudade e batendo entre o canto do goleiro e a trave.

O prêmio de artilheiro da segundona impulsionou a carreira do reizinho. Carlo Mazzone assumiu o Catanzaro para a disputa da elite e, ao contrário de Gianni Di Marzio, apostava em Palanca como sua estrela. O camisa 11 não decepcionou e fez uma temporada história com a camisa do time giallorosso, que passou a ser conhecido como “o terror do norte”, já que complicava a vida dos adversários da parte setentrional da Itália.

Maior jogador da história do Catanzaro, o atacante esteve presente na maior parte dos momentos mais gloriosos do clube (Il Fatto Quotidiano)

Em 1978-79, o Catanzaro teve uma das melhores campanhas de sua história: ficou com a nona posição na Serie A e avançou até as semifinais da Coppa Italia, fase em que foi eliminado pela Juventus, a campeã do ano. Palanca, claro, foi o destaque. Na copa, jogou sete vezes e marcou oito tentos, que lhe renderam a artilharia do torneio. Pelo campeonato, ‘O Rey entrou em campo nas 30 rodadas e foi o goleador do time, com 10 gols.

A temporada também lhe reservou a maior atuação de sua carreira. Em abril de 1979, o reizinho anotou uma tripletta na vitória por 3 a 1 sobre a Roma, em plena Cidade Eterna. Palanca abriu a contagem com um gol que fez jus ao nome do estádio: com apenas cinco minutos de jogo, cobrou um escanteio primoroso e fez um dos 13 gols olímpicos de sua carreira; todos com a magistral canhotinha. Naquela campanha, já havia castigado a Loba no primeiro turno, com um corner cheio de efeito, que Francesco Rocca – involuntariamente – rebateu para as próprias redes. Piedino d’Oro ainda balançou as redes outras três vezes contra a Lazio (doppietta no sul e gol de honra em derrota na capital) e consolidou a fama de carrasco das agremiações romanas.

No ano seguinte, o Catanzaro manteve quase todos os seus jogadores e o técnico Mazzone. Palanca continuou jogando bem, marcou nove gols – quatro contra os romanos– e chegou até mesmo a ser testado por Enzo Bearzot num amistoso não-oficial da seleção italiana contra a Alemanha Ocidental, em Gênova. A equipe, contudo, teve um rendimento inferior ao de 1978-79 e não saiu da zona mais baixa da tabela: ficou na antepenúltima posição e só não foi rebaixada porque eclodiu o escândalo Totonero. As apostas ilegais mexeram na classificação e Milan e Lazio acabaram indo para a segundona.

Em 1980-81, o Catanzaro recuperou o status de “terror do norte”. A equipe sulista, dessa vez comandada por Tarcisio Burgnich, manteve Claudio Ranieri, Massimo Mauro e Palanca em sua espinha dorsal e terminou a Serie A numa excelente oitava posição. O pezinho de fada do camisa 11 nunca esteve tão calibrado: Palanca marcou 13 gols e foi o vice-artilheiro da Serie A, atrás apenas de Roberto Pruzzo, da Roma. O atacante, obviamente, marcou sobre os giallorossi da capital, mas é mais lembrado naquela campanha por uma doppietta sobre a Udinese. Num dos gols, não poupou a ousadia e encobriu o goleiro Carlo Della Corna.

O camisa 11 é, disparado, o maior artilheiro dos giallorossi (Storie di Calcio)

Ao fim da histórica campanha, o Catanzaro recebeu uma proposta irrecusável e Massimo Palanca foi tentar manter a sua coroa em outro clube. O Napoli ofereceu 1,35 bilhão de velhas liras e os giallorossi aceitaram a oferta, no intuito de investirem o montante para reforçar o elenco como um todo. ‘O Rey, que já tinha 28 anos, também entendia que essa poderia ser a sua última chance de brilhar num clube maior. Dessa forma, a transação saiu do papel.

Na Calábria, a temporada 1981-82 foi de festa. O Catanzaro contratou Sergio Santarini, Costanzo Celestini e Edi Bivi e terminou a Serie A na sétima posição, recorde histórico. Palanca, por sua vez, iniciava o pior momento de sua carreira. Em seus primeiros jogos com a camisa azzurra, pela Coppa Italia, o atacante perdeu dois pênaltis – algo incomum para Massimo, que era extremamente hábil em bolas paradas. Isso condicionou sua afirmação no San Paolo: em 29 jogos, ‘O Rey só marcou uma vez, cobrando uma falta contra o Cesena.

O fiasco na Campânia fez com que Palanca acabasse emprestado ao Como, então na Serie B. Na Lombardia, o atacante reencontrou o técnico Burgnich, mas também passou longe de brilhar: 20 jogos e duas bolas na rede depois, retornou a Nápoles. Os desentendimentos com o treinador Rino Marchesi limitaram seu tempo em campo, embora Massimo também não correspondesse: em 19 partidas, anotou um mísero gol. Com apenas quatro tentos em três temporadas, aos 31 anos, Palanca parecia acabado.

Foram meses de sofrimento para o bigodudo, que chegou a ficar inativo. Massimo, porém, não queria parar daquela maneira e decidiu aceitar uma proposta do Foligno, que disputava a Serie C2 – a quarta categoria da Bota. A cerca de 50 quilômetros de Camerino, onde iniciou sua vida, Palanca recuperou seu futebol. Talvez incentivado por seu companheiro de clube, Lamberto Boranga, conhecido por ser muito positivo. O time umbro era muito fraco e chegou a ser rebaixado para a quinta divisão, mas o camisa 11 voltou a encontrar o caminho das redes e anotou 18 gols em duas campanhas.

Palanca tentou a sorte no Napoli, mas passou longe de expandir seu reinado para a Campânia (Guerin Sportivo)

Aos 33 anos, em outubro de 1986, Palanca retornou ao Catanzaro. O time já não vivia um bom momento – estava na Serie C1 –, mas o exótico estádio Nicola Ceravolo, conhecido por abrigar uma frondosa árvore em uma de suas tribunas, voltou a lotar por causa do ídolo. ‘O Rey retribuía o carinho e se convertia novamente no salvador daquela pátria ao oferecer resultados de imediato: anotou 17 gols em 29 aparições, fez a equipe sair do meio da tabela e devolveu os giallorossi à segundona. A simbiose entre clube e jogador não precisava mais ser posta à prova.

O Catanzaro quase conseguiu o segundo acesso consecutivo e, novamente, Palanca esteve em evidência. O camisa 11 começou a temporada aprontando sobre a Lazio, na Coppa Italia, e marcou uma doppietta no 4 a 0 dos giallorossi. Na Serie B, o bigodudo foi dor e delícia. Marcou 14 vezes, alternando golaços e cobranças de pênaltis perfeitas, mas desperdiçou uma penalidade no último minuto de jogo contra a Triestina. Mesmo com 34 anos, chorou como uma criancinha, por não ter conseguido tirar o zero do placar. Ainda era fevereiro de 1988, mas parecia que Palanca já sabia que, ao fim da campanha, o Catanzaro não retornaria à Serie A por causa de apenas um ponto.

Palanca ainda ficou dois anos no Catanzaro. Neles, usou a faixa de capitão e atingiu a marca de 367 partidas e 136 gols pelo clube – do qual é o maior artilheiro, disparado. Em 1988-89, ‘O Rey marcou 13 gols e foi fundamental para salvar as águias do rebaixamento, mas sucumbiu à idade na temporada seguinte: o ataque catanzarês produziu pouco e Massimo só foi às redes duas vezes. Ao mesmo tempo, o clube adentrava numa crise financeira profunda. O resultado foi o rebaixamento à Serie C1 justo no momento da aposentadoria de seu maior ídolo. Sem Palanca, os giallorossi caíram mais uma vez e passaram 12 anos consecutivos na quarta divisão.

Depois de se aposentar, Palanca foi comentarista num canal de televisão regional e voltou a viver na região das Marcas. Por lá, Massimo ajuda a descobrir jovens locais. O ex-atacante vive em Camerino e gerencia, com sua esposa, uma loja de roupas no centro histórico da vizinha Castelraimondo. Em 2016, o casal teve de reconstruir o negócio depois que a estrutura foi destruída por um terremoto. Na ocasião, Palanca recebeu a solidariedade e a ajuda do povo de Catanzaro. Afinal, quem é rei nunca perde a majestade.

Massimo Palanca
Nascimento: 21 de agosto de 1953, em Loreto, Itália
Posição: atacante
Clubes: Camerino (1970-73), Frosinone (1973-74), Catanzaro (1974-81 e 1986-90), Napoli (1982-82 e 1983-84), Como (1982-83) e Foligno (1984-86)
Títulos: Serie B (1976) e Serie C1 (1987)
Seleção italiana: 1 jogo (não-oficial)

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