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Jornais, novas mídias, programas de TV: como anda o jornalismo esportivo na Itália?

O jornalismo enfrenta uma crise financeira sem precedentes. Veículos tradicionais cortam gastos ou fecham as portas, profissionais perdem o emprego, as condições de trabalho são desanimadoras: essas são apenas algumas das situações lamentáveis que hoje assolam a profissão. Atualmente, a editoria de esportes – no Brasil, quase que 80% dela pautada pelo futebol – é uma das que mais gera audiência para os meios de comunicação. E na Itália, como anda o jornalismo esportivo? A Calciopédia foi investigar.

Em quase um mês de pesquisa e entrevistas com profissionais da área, fizemos uma imersão no mercado jornalístico do Belpaese, focando no futebol, a fim de mostrar os bastidores do mercado. Antes disso, porém, salientamos um fato: embora o futebol também seja o carro-chefe esportivo na Itália, a cobertura é muito mais diversificada, oferecendo generosos espaços para outros esportes, como automobilismo (MotoGP e Fórmula 1), ciclismo, basquete, vôlei, polo aquático, natação, tênis, esgrima, rugby, futebol americano e esportes de inverno.

Com a ajuda de jornalistas, esmiuçamos o cenário atual dos três principais jornais esportivos do país, a dificuldade para se renovar na área, as novas mídias, as fake news, o sensacionalismo e os programas televisivos. Ademais, abordamos o sucesso de ex-jogadores como comentaristas, as mulheres no jornalismo esportivo, a rixa entre os gurus do calciomercato, Gianluca Di Marzio e Alfredo Pedullà, e, por fim, uma comparação entre o jornalismo esportivo da Itália e o do Brasil. Desfrute!

Gianni Brera, de óculos e cachimbo, na tribuna de imprensa dos Jogos Olímpicos de Montréal, em 1976 (Doppio Zero)

Situação dos jornais

É impossível falar de jornalismo esportivo na Itália sem citar a Gazzetta dello Sport. Fundado em 3 de abril de 1896, o jornal baseado em Milão é, segundo a ADS – Accertamenti Diffusione Stampa (Instituto Verificador da Imprensa, em tradução livre), o quarto mais lido de todo o Belpaese. Antes de o futebol cativar os italianos, o esporte que mais despertava interesse na população durante a passagem do século XIX para XX era o ciclismo – a primeira página do lançamento do periódico foi dedicada totalmente a ele.

A Gazzetta revolucionou a maneira de organizar os esportes na Itália. Em 1899, o jornal promoveu uma partida de esgrima. Dois anos depois organizou a corrida Milão-Monza-Milão. A “rósea” também foi a criadora do Giro d’Italia, prova ciclística de maior sucesso no país. Em alusão à cor das páginas do jornal, o atleta que lidera a classificação utiliza uma camiseta rosa. A importância que o ciclismo exercia sobre os italianos naquela época era tanta que ofuscou o pentacampeonato consecutivo da Juventus, em 1935: a Gazzetta não deu a notícia na capa justamente porque o Giro estava acontecendo naqueles dias.

O jornal também acolheu um dos maiores jornalistas italianos de todos os tempos, Gianni Brera. Com uma abordagem inovadora e criativa, Brera revolucionou o modo de escrever textos jornalísticos, acrescentando novidades linguísticas ao dicionário. É considerado o rei dos neologismos por criar muitos apelidos e termos que emplacaram não só no futebol, como na sociedade italiana – para saber mais, confira nosso glossário. Ele entrou para a rósea em 1945 e, quatro anos mais tarde, assumiu a função de diretor do periódico, aos 30 anos – até hoje, o mais jovem a ocupar o cargo na imprensa italiana. Brera modificou a maneira de fazer jornalismo esportivo na Itália.

>>> Leia também: Gianni Brera, o primeiro jornalista a abordar aspectos táticos no futebol italiano

Mas a história não se limita a apenas à Gazzetta. Além do periódico milanês, a Itália tem atualmente outros dois jornais esportivos, o Corriere dello Sport e o Tuttosport. O primeiro foi criado em 1924 e está sediado em Roma – com redações em Bologna, Milão e Nápoles –, enquanto o segundo nasceu em 1945 e fica localizado em Turim, cobrindo os dois principais times da cidade, Juventus e Torino. De acordo com dados da ADS, o CorSport é o nono jornal mais lido da Bota; o Tuttosport aparece em 13º lugar na lista.

A realidade, no entanto, é que os três jornais de esportes da Itália estão perdendo leitores. Dados da ADS mostram que Gazzetta, Corriere dello Sport e Tuttosport perderam 6,2%, 20,4% e 18,8% de leitores, respectivamente, num intervalo de um ano, entre junho de 2017 e junho de 2018. Números que nos fazem refletir, uma vez que, segundo estatística da Audipress 2018/I, divulgada em maio passado, quase 70% dos italianos acima de 14 anos têm alta frequência de leitura.

Desses três jornais, o que recebe mais críticas é o Tuttosport. O tabloide piemontês crava muitas especulações furadas – sobretudo ligando jogadores famosos à Juventus – que acabam virando piada na internet e ganharam até um perfil de paródia no Twitter: o Ruttosporc, que faz um jogo de palavras com o título do jornal e as palavras italianas “rotto” (podre) e “sporco” (sujo). Por exemplo, o meio-campista Sergej Milinkovic-Savic, um dos maiores destaques da Lazio, já foi protagonista de inúmeras matérias de capa do periódico, que o colocava como um reforço praticamente certo na Juventus. O jogador segue defendendo a equipe da capital, no entanto.

Por outro lado, o Tuttosport inovou ao criar em 2003 o prêmio Golden Boy, entregue ao melhor jogador sub-21 atuando na Europa. Estrelas como Lionel Messi, Wayne Rooney, Sergio Agüero e Cesc Fàbregas já levaram o troféu para casa. Dos brasileiros, apenas o volante Anderson (ex-Manchester United, em 2008) e o atacante Alexandre Pato (ex-Milan, em 2009) venceram a premiação. O francês Kylian Mbappé, do Paris Saint-Germain, foi o último ganhador.

Especulações para vender jornal? Milinkovic-Savic segue na Lazio

Dificuldade para se renovar?

Segundo alguns estudos de comportamento, a autoproteção mental do ser humano faz com que as pessoas tendem a rejeitar aquilo que é novo. O italiano, especificamente, parece levar mais tempo para se adaptar a algo diferente. Um dos técnicos mais revolucionários da história, Arrigo Sacchi enfrentou uma legião de críticos – sobretudo na imprensa – quando deixou de lado o conservadorismo, mudando a concepção de futebol na Itália à frente do Milan no fim dos anos 1980. Ele desconstruiu a ideia do catenaccio para dominar a Europa com um estilo de jogo propositivo, cativante, fascinante.

Em sua biografia, Calcio Totale, lançada em 2015, o icônico treinador revelou que os italianos o viam como um herege. “O ambiente do futebol e uma parte dos jornalistas me consideravam um subversivo, um diferente, um adversário, porque coloquei em crise a sua liderança e seu o papel como detentores de conhecimentos antiquados, velhos, enquanto os jovens e os menos conservadores me olhavam com interesse”, escreveu.

A dificuldade para se reinventar e criar algo novo, tal como Sacchi fizera com o Milan há duas décadas, também atinge o jornalismo esportivo do país. A Gazzetta dello Sport é um dos veículos que melhor tenta buscar algo novo no setor. Em 1995, o jornal milanês, junto com os tradicionais La Stampa e Corriere della Sera, foi um dos pioneiros a colocar conteúdo na internet. Dois anos depois, a GdS finalmente lançou o Gazzetta.it, deixando para trás uma versão básica. A título de comparação, Corriere dello Sport e Tuttosport, os outros dois periódicos esportivos do Belpaese, só foram lançar uma versão online em 2007 e 2008, respectivamente.

Em outubro de 2002, o grupo editorial que opera o jornal de Milão, o RCS MediaGroup, apresentou um serviço pago para que o público pudesse ler online a edição da Gazzetta – inclusive assinantes estrangeiros. Treze anos mais tarde, especificamente 26 de fevereiro de 2015, a rósea voltaria a inovar ao apostar em um canal televisivo, a Gazzetta TV. No entanto, a TV sucumbiu em janeiro do ano seguinte após não bater uma meta estipulada pelo RCS MediaGroup no início do projeto. Eles pelo menos transmitiram a Copa América de 2015.

Especialista em futebol italiano, o jornalista Gian Oddi, da ESPN Brasil, admite que houve uma queda no consumo dos jornais, mas enaltece a Gazzetta e sua estrutura “ainda muito grande” em meio à crise. “Eu assino a Gazzetta na sua versão digital. Acho que é um mérito dela: saber continuar em outras mídias e não apenas ficar ali no jornal rosa impresso. Mas o jornal ainda é muito bom, de grande qualidade. Sinceramente, eu continuo consumindo muito, principalmente a Gazzetta. Acho que os outros, principalmente o Corriere, especulam demais”, avalia.

A questão, porém, é que a mídia como um todo enfrenta dificuldades para se atualizar. Os números corroboram essa afirmação. Dados do Instituto Verificador da Imprensa mostram que, exceção feita a Il Fatto Quotidiano, todos os jornais italianos caíram em vendas, tanto em papel quanto em suas edições digitais. Os números foram registrados entre os meses de novembro de 2015 e 2016.

O recente encerramento do Premium Sport, um dos canais de esportes mais importantes da Itália, evidencia ainda mais esse momento conturbado. Segundo rumores da mídia local, a distribuição dos direitos de TV – comprados a preço de ouro pela agência multinacional IMG – e a situação econômica da Mediaset, empresa que transmitia o Premium Sport, levaram ao fechamento do canal no dia 1º de agosto deste ano. Assim, alguns jornalistas foram remanejados de setor; outros, demitidos.

Ivan Zazzaroni, que já morou no Brasil, dirige o CorSport e o Guerin Sportivo, além de ser comentarista da Rai, da rádio Deejay e… da Dança dos Famosos italiana (LaPresse)

Jornalismo independente e fake news

Com a grande mídia em declínio, meios independentes – como a própria Calciopédia – surgem como alternativa tanto para um determinado público quanto para jornalistas que estão desempregados. As revistas L’Ultimo Uomo e Undici, dois dos melhores projetos da Itália que não estão ligados a grandes grupos, vêm atraindo muitos fãs, por exemplo. A primeira nasceu em 2013, enquanto a segunda foi concebida um ano depois. Até o momento de produção desta reportagem, elas tinham cerca de 135 e 56 mil curtidas/seguidores, respectivamente, juntando Facebook e Twitter.

Já o Guerin Sportivo, publicação dedicada ao esporte mais antiga do mundo, não acompanhou as transformações do mercado e sofre para se renovar. A revista, que nasceu como um jornal em 1912, em Turim, abriu mão da periodicidade semanal para se tornar mensal no ano de 2010. Essa mudança causou furor entre os leitores e, consequentemente, reduziu a equipe editorial do veículo. Hoje, com menos de 30 mil curtidas/seguidores nas redes sociais, o “Guerino” está sob direção de Ivan Zazzaroni, um dos jornalistas esportivos mais prestigiados da Itália, desde junho passado. A publicação luta como pode para se restabelecer na mídia alternativa do país. Transformações para se adequar à nova era.

Para tentar resgatar o “Guerino”, o diretor trouxe consigo uma equipe de peso, recheada de veteranos: Marco Montanari, Carlo Felice Chiesa, Adalberto Bortolotti, Roberto Beccantini e o lendário Italo Cucci, que comandava a publicação no ápice de sua popularidade. “É uma tentativa de levar a revista às glórias novamente. Ela tem uma aceitação muito forte. Tem gente que cresceu com o Guerin. Eu vi [o auge e o que aconteceu] com a Placar, o Olé, El Gráfico… Precisávamos de uma mudança. Vamos ver se dá para sobreviver com esse modelo”, diz Zazzaroni.

O jornalista sabe bem do que está falando quando menciona as publicações sul-americanas. Afinal, Zazzaroni morou em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, de 1979 a 1980, onde trabalhou como intérprete. No Brasil, Ivan também se aproximou de Juca Kfouri e chegou a fazer algumas colaborações para a Placar, na época em que o comentarista da ESPN Brasil e colunista da Folha de S. Paulo dirigia a histórica revista de esportes da Editora Abril. Para Zazzaroni, a publicação brasileira tinha um estilo muito parecido com o Guerin Sportivo. “Só que o Guerin abordava mais coisas”, pondera o italiano, que voltou ao impresso depois de 16 anos trabalhando em outras frentes no jornalismo. Hoje, ele escreve a página 3, com o editorial do Guerino.

O advento das redes sociais fez com que se proliferassem os sites independentes e impulsionou transformações nos veículos tradicionais, mas também deu espaço para o lançamento de portais com finalidades jornalísticas cujo tema central fosse um time específico. FC Inter News, Milan News, Tutto Juve, Tutto Napoli, entre outros, recebem muitas visitas e até mesmo chegaram a ser incorporados, como parceiros, à audiência de grupo maiores, como o RCS e o TMW, do Tutto Mercato Web. Esses sites noticiam tudo relacionado às equipes citadas, desde especulações até reportagens pós-jogo. Os repórteres desses veículos são considerados “setoristas” dos times.

Huerta reside em Turim e escreve para o Toro News (Twitter @gago_mario)

Correspondente das rádios Cooperativa e Onda Cero na Itália, o jornalista espanhol Mario Gago Huerta também escreve sobre estatísticas no Toro News, site que cobre o dia a dia do Torino. Huerta sinaliza que as novas mídias agilizam o processo do jornalista durante coberturas esportivas, mas ainda pecam na interação com o público jovem. “O jornalismo esportivo ganha em imediatismo. As declarações dos treinadores em coletiva de imprensa são refletidas rapidamente em diferentes mídias, por exemplo, mas perde em análise. A mídia escrita contribui muito mais, mas eles precisam saber como mudar o chip para atrair o público mais jovem”, analisa.

Por outro lado, a maré dos novos sites alternativos facilitam a disseminação de “fake news”. O coordenador da editoria de esportes do site theWise Magazine, Claudio Agave, destaca o “terreno fértil” para a disseminação de notícias falsas. “Não é coincidência, na verdade, que em nosso país as fake news tenham uma proeminência preocupante e uma base de consumidores muito grande. Infelizmente, é um problema difícil de combater porque as pessoas, além de tudo, não podem mais confiar como antes nos meios de comunicação mais conhecidos”, afirma.

Em maio passado, houve um caso cômico envolvendo notícias falsas no jornalismo esportivo italiano. O programa Sport Mediaset, da Meadiset, deu a notícia de que o meio-campista Arturo Vidal estava no aeroporto Capodichino, em Nápoles, para assinar com o Napoli. Porém, logo depois que a notícia estava no ar, eles descobriram que tudo foi uma armação. Acontece que o Sport Mediaset caiu na “pegadinha” do comediante napolitano Peppe Iodice: foi ele quem tuitou a foto com o sósia de Vidal no aeroporto. Ainda, depois de propagar a fake news, Iodice compartilhou a matéria e ironizou: “Sou o rei do mercado”.

Antes desse acontecido, no início de 2017, diversos meios de comunicação do Brasil e da Itália caíram numa pegadinha que foi inventada com o intuito de, supostamente, desmascarar o imediatismo como prática de maus jornalistas. Nesta ocasião, um perfil chamado Udine Notizia & Sport, informava (em um italiano grosseiro) que havia uma nota do Tuttomercatoweb sobre o interesse da Udinese no atacante Clayson, então na Ponte Preta. Depois que alguns veículos brasileiros noticiaram o boato (que incluía ainda o empréstimo de Samir), sites italianos repercutiram o falso negócio.

Capas do Tuttosport antes da chegada de CR7 tinham um logotipo específico, com os dizeres “a contratação do século”

Caça-cliques, CR7 e sensacionalismo

À procura de cliques, sites que produzem conteúdo sobre futebol estão aderindo à tática do sensacionalismo para atrair a atenção do leitor. No Brasil, não é difícil se deparar com matérias apelativas, cujos nomes de jogadores e times são escondidos, visando atiçar a curiosidade do internauta. Exemplo: “Clube italiano mira contratação de ‘promessa’ do Flamengo”. Com uma manchete dessas, a probabilidade de gerar mais cliques e engajamento é muito maior do que um site que prefere revelar na chamada quem é o time e o atleta: “Udinese mira contratação de Felipe Vizeu, promessa do Flamengo”.

Outra estratégia adotada para induzir o leitor ao clique é incluir nomes de jogadores muito famosos nos títulos; o de Neymar é um dos mais utilizados em terras tupiniquins: “Companheiro de Neymar no PSG estava sendo chantageado por vídeo com críticas a técnico”, dizia a chamada de um relevante portal que cobre esportes. Na Itália, a bola da vez dos veículos é Cristiano Ronaldo.

Cristiano Ronaldo na Juve é uma operação que está passando por uma superexposição midiática terrível
Claudio Agave

Maior contratação da Juventus nesta década, o atual melhor do mundo é um prato cheio para jornais, sites e programas de TV. Desde que aterrissou na Itália, o marciano (apelido que o atacante ganhou dos meios esportivos depois que foi contratado pela Juve) não viu seu nome sair do noticiário – e em boa parte dos casos a notícia nem tinha a ver com algo relacionado a campo e bola. “Cristiano Ronaldo na Juve é uma operação que está passando por uma superexposição midiática terrível”, sentencia Agave. “Não vou defini-la como injustificável, mas é exagerado. Os sites irão se beneficiar muito, pois qualquer pretexto é bom para escrever algo”, completa.

Para o jornalista da theWise Magazine, o entretenimento vem assolando o jornalismo esportivo italiano há alguns anos. “Portais de futebol – e até mesmo transmissões de TV – estão se tornando mais e mais contêineres esportivos misturados com fofoca, com notícias sobre os compromissos de plantão ou sobre as relações amorosas de jogadores de futebol ou atletas em geral. São coisas que, infelizmente, geram cliques e, portanto, visitas. Mas a nível de jornalismo esportivo, é praticamente nada”, explica. Em 2015, por exemplo, o casal Gianluigi Buffon e Ilaria D’Amico teve que pedir a seu advogado, Mauro Paladini, para divulgar uma carta na qual solicitava que a imprensa respeitasse a vida privada de ambos.

Faça um teste. Abra a página de qualquer um dos grandes portais citados e conte quantas chamadas estão relacionadas a memes, galerias de fotos de namoradas de jogadores e/ou modelos ou fofocas em geral. A Gazzetta dello Sport até absorveu um portal específico sobre o tema: chama-se Golssip.

Paolo Valenti foi o primeiro apresentador do histórico Novantesimo Minuto, que está no ar há quase 50 anos (Il Messaggero)

Programas televisivos

A Rai está para a Itália como a Rede Globo está para o Brasil em relação às transmissões de futebol nacional. A estatal exclusiva do serviço público italiano foi fundada nos primeiros dias de 1954, em Roma, e, desde então, expandiu seu conteúdo com a criação de novos canais.

Através da Rai International, por exemplo, os brasileiros podem assistir a jogos da Serie A e tradicionais programas esportivos de domingo, como La Giostra del Gol e La Domenica Sportiva. Outra atração de sucesso é o 90º Minuto, que começou a ser produzida em 1970, mas não é irradiada para a América do Sul. Esses três programas são produzidos pela Rai Sport, sendo a Giostra oriunda de uma estreita parceria entre os canais Rai Italia e Rai Sport.

Em 2016, a emissora abriu uma matriz no Rio de Janeiro visando os Jogos Olímpicos. Além de TV, a Rai também opera nos setores de rádio por satélite, plataforma digital terrestre e ramo cinematográfico (produção e compra de filmes), tornando-a uma das cinco maiores empresas de comunicação da Europa. Durante o trajeto à consolidação, muitos jornalistas fizeram – e ainda fazem – parte de uma equipe que cativou o público esportivo.

As experientes Paola Ferrari e Sabrina Gandolfi marcam época na emissora. A primeira chegou à Rai ainda nos anos 1990, enquanto a segunda reforçou o time em 2003. Ambas fizeram sucesso sendo mediadoras do histórico La Domenica Sportiva, que está no ar desde o início da firma e hoje, depois de passar por uma reformulação, é apresentado por Giorgia Cardinaletti e Marco Lollobrigida – ela apresenta a primeira parte (22h30 às 23h45), enquanto ele assume o restante (23h45 à 00h30).

Giorgia Cardinaletti e Alessandro Antinelli apresentaram a Domenica Sportiva em 2017 (Rai)

Entre os homens, a Rai consagrou alguns dos principais jornalistas esportivos e narradores do país. Por lá, já passaram (ou ainda se encontram) nomes como Alessandro Antinelli, Amedeo Goria, Bruno Pizzul, Enrico Varriale, Gianni Cerqueti, Luigi Necco, Marco Civoli, Marco Mazzocchi, Paolo Valenti, Riccardo Cucchi e Adriano Bacconi. Este último foi um dos primeiros analistas táticos a obterem sucesso na televisão. Bacconi, que já trabalhou em diversos clubes, é conhecido por destrinchar as estratégias das equipes com sua indefectível vareta.

Embora venha buscando revolucionar boa parte de seus programas esportivos, a Rai ainda segue apegada ao passado, o que não é novidade – como citamos no segundo tópico desta reportagem. Prova disso é a cornetinha que soa durante as transmissões de futebol para alertar que tem gol em outros jogos. É uma versão do “bolinha na tela” que a Globo usa para informar ao telespectador que saiu gol em outra partida da rodada. Porém, ao contrário da emissora brasileira, que espera o jogo atual dar uma pausa para mostrar o tento, a Rai divide a tela na hora e exibe o lance instantaneamente.

Além disso, programas como La Domenica Sportiva aproximam o público dos jogos que encerram o domingo de Serie A na Itália. O talk show começa logo após o término das partidas, às 22h30 (horário de Roma), com comentaristas no estúdio e repórteres prontos para entrevistas com jogadores, treinadores e cartolas nas zonas mistas.

Um episódio marcante aconteceu em janeiro de 2014. Massimiliano Allegri, então treinador do Milan, estava pronto para ser entrevistado por um repórter da DS e foi informado ao vivo que Barbara Berlusconi, ex-vice-presidente do clube, estava o demitindo. Após abrir dois gols de vantagem sobre o Sassuolo, fora de casa, a equipe rossonera perdeu por 4 a 3, com direito a quatro gols do atacante Domenico Berardi.

Bacconi analisa o gol que a Itália levou contra Costa Rica, na Copa de 2014 (Rai)

O programa Premium Sport, da Mediaset, uma das principais concorrentes da Rai em relação a conteúdo esportivo, também fazia entrevistas pós-jogos com os atletas, mas, como relatamos anteriormente, encerrou as atividades depois de três anos no ar. Em junho passado, a emissora já havia fechado os canais em HD. O declínio resultou na perda do herói do tricampeonato mundial, Paolo Rossi, que trocou a Mediaset pela própria Rai.

É verdade que a Mediaset adquiriu com exclusividade os direitos de transmissão da Copa do Mundo da Rússia, mas não conseguiu comprar nenhuma competição nacional relevante. A Sky (TV) e o DAZN (plataforma de streaming do grupo Perform) bateram o martelo e, em negociação milionária, assinaram contrato para mostrar a Serie A até a temporada 2020-21.

Clara Albuquerque, que está vivendo a realidade da TV no país neste momento, pensa que o momento atual é de mudança no paradigma midiático italiano. “Vejo a Itália vivendo algo muito parecido com o Brasil, onde cada vez mais o modelo de consumo tradicional [canais de TV fechada e jornais impressos] dará espaço para os novos meios”, analisa a correspondente do Esporte Interativo. “A temporada 2018-19, por exemplo, será a primeira, no país, onde o Italiano está sendo transmitido no modelo on demand, sem estar necessariamente atrelado a uma TV por assinatura”, completa.

Por sua vez, a Rai renovou o contrato para ter a Coppa Italia e Supercopa Italiana por mais três anos, superando a própria Mediaset. E quem detém os direitos da Liga dos Campeões, Liga Europa e Supercopa Uefa na Itália é a Sky. Os jogos da seleção italiana também são irradiados pelo canal de Rupert Murdoch.

Pierluigi Pardo, do Tiki Taka (LaPresse)

Vale salientar que, em janeiro deste ano, a Rai fez um acordo de sublicenciamento com a Sky para exibir (apenas para a Itália) um jogo de um time italiano pela Liga dos Campeões 2018-19 às quartas-feiras, incluindo as semifinais e final. O tratado entre as duas emissoras também engloba a decisão da Supercopa Uefa, partidas da Azzurra e eliminatórias para a Eurocopa 2020 e para a Copa do Mundo de 2022.

Além disso, a Rai Internacional transmite alguns jogos da elite italiana para a América do Sul devido a um acordo firmado no Belpaese – as partidas exibidas são escolhidas pela Lega Serie A. A atualização deste mesmo acordo quase decretou o fim do 90º minuto, que tem em sua essência a exibição dos melhores momentos das partidas, mas uma flexibilização nas novas regras permitiu que o histórico programa continuasse a passar os compactos.

Para não deixar os fãs do futebol “na mão”, a Mediaset foca no futebol internacional. Depois do sucesso da Copa do Mundo, a emissora pertencente ao grupo Fininvest, de Silvo Berlusconi, ex-presidente do Milan e ex-primeiro-ministro, mostrará os melhores jogos da Liga das Nações sem custos, ou seja, na TV aberta. O conglomerado também exibirá duelos das eliminatórias para a Euro 2020 e para o Mundial de 2022. “A oferta de grande futebol internacional na Mediaset não termina aqui: em breve serão anunciados novos acordos que permitirão aos canais gratuitos do grupo transmitirem dezenas de grandes jogos estrangeiros pelos próximos quatro anos”, afirma a emissora em comunicado.

Se a Mediaset descontinuou o Premium Sport, que estava no ar havia três anos e era sucesso entre os torcedores, a empresa midiática trouxe à ativa o histórico Pressing. A atração esteve no ar de 1 de setembro de 1990 a 23 de maio de 1999, mas não teve continuidade no século XXI. Curiosamente, a conceituada jornalista Giorgia Rossi, ex-apresentadora do finado Premium Sport, comanda o programa ao lado de Elena Tambini e Pierluigi Pardo. O Pressing vai ao ar aos domingos à noite, após o fim dos jogos, trazendo debate, destaque e gols da jornada da Serie A. Ele é exibido pelo Canale 5.

Um dia depois é a vez de outro programa esportivo ganhar as telas da TV. Talk show semelhante à La Domenica Sportiva, o Tiki Taka vai ao ar às segundas-feiras à noite, no canal Italia 1, para debater a rodada completa do Italiano. Para esta temporada, a esposa/agente do atacante interista Mauro Icardi, Wanda Nara, foi contratada para ser comentarista da atração. Imparcialidade à parte, Wanda causou polêmica com o modo como negou os rumores de uma possível contratação de seu marido pela Juventus: “O único contato entre Icardi e a Juventus foram os sete gols que Mauro marcou sobre eles”, disparou.

Por fim, a Itália tem ainda as atrações esportivas da Sky, plataforma de TV via satélite. O conglomerado disponibiliza uma gama de canais por assinatura focados em esporte. Além da Serie A, os principais campeonatos do mundo, como a Premier League e a Bundesliga, são transmitidos pelo grupo – além de NBA, Fórmula 1, MotoGP, vários torneios de tênis e rugby. Com tantos canais e direitos de transmissões das melhores competições esportivas, a Sky detém uma das melhores equipes de comunicação da Bota (aprofundamos mais à frente).

Outro estilo de transmissão que faz sucesso na Itália é o do programa Diretta stadio… ed subito goal!, da emissora 7 Gold. É nesse estilo de atração que torcedores-narradores, como o interista Marco Tramontana e o milanista Tiziano Crudeli, fazem sucesso mundo afora por causa de seus vídeos comemorando gols ou zoando rivais no estúdio. Crudeli, aliás, é bem conhecido entre os internautas brasileiros por suas reações cheias de furor durante as partidas do Milan, principalmente quando o Diavolo balança as redes dos adversários. Quem nunca viu o simpático e bigodudo velhinho, usando óculos com cordinha, quase estourando a garganta ao vibrar com um gol rossonero?

Alessandro Costacurta foi comentarista da Sky por quase uma década e hoje é um dos diretores da Federação Italiana, a FIGC (Getty)

Ex-jogadores que viram comentaristas

Muitos jogadores brasileiros que penduram as chuteiras resolvem seguir no futebol exercendo outra função. Diretorias de clubes ou as beiradas do campo são os destinos de alguns. Outro, porém, são contratados por emissoras esportivas para atuar como comentaristas, uma tendência que ganha força a cada ano em países em que o futebol é visto como o esporte de maior audiência. No Brasil, o Grupo Globo acertou para a Copa do Mundo de 2018 com Ronaldo, Deco, Ricardinho, Grafite, Clarence Seedorf e Dejan Petkovic, além do técnico Cuca, que à época estava sem clube.

Na Europa, a prática também se repete, sobretudo na Itália. Os meios de comunicações trazem ex-jogadores para enriquecer as transmissões futebolísticas, tornando-os mais um atrativo aos telespectadores. A nova plataforma online de transmissão de jogos que chegou ao Belpaese, DAZN, reforçou sua equipe de comentaristas com o ucraniano Andriy Shevchenko, bandeira do Milan, e o ítalo-argentino Mauro Camoranesi, ídolo da Juventus. Com modelo on demand – fato inédito em irradiações de futebol no país –, a DAZN terá direito a três jogos por rodada da Serie A. A tarefa, no entanto, não é nada fácil: desafiar a poderosa Sky Sports Italia, detentora das outras sete partidas.

Uma fonte procurada pela Calciopédia disse que a empresa do magnata Rupert Murdoch não tem concorrência na Itália. Isso implica em salários menores a ex-jogadores e jornalistas, que acabam aceitando as propostas para trabalhar em uma das maiores empresas midiáticas do país. Para a temporada 2018-19, a Sky contratou Andrea Pirlo e Fabio Capello visando as transmissões da Liga dos Campeões. Alessandro Costacurta, Alessandro Del Piero, Esteban Cambiasso, Gianluca Vialli, Massimo Ambrosini, entre outros, também fazem parte da equipe.

Diletta Leotta, ex-Sky, e Shevchenko são atrações da DAZN para esta temporada da Serie A (Twitter @jksheva7)

De acordo com Andersinho Marques, ex-árbitro e hoje comentarista da Premium Sport HD, o público italiano já está acostumado a assistir aos jogos de futebol com ex-atletas nas transmissões, seja antes, durante ou depois da partida. “Aqui, na Itália, os comentaristas são todos ex-jogadores. Está na cultura deles há anos. Jornalistas também são comentaristas, mas o ex-jogador da vez traz mais audiência”, explica o brasileiro radicado na Itália. No entanto, Andersinho salienta algo importante que estes atletas aposentados têm: estudo. “Todos os ex-jogadores fizeram o curso para serem treinadores, então estão bem preparados para comentar”.

Mas por que muitos ex-jogadores que se tornam comentaristas no Brasil não conseguem fazer sucesso como na Itália? Para a jornalista Clara Albuquerque, o ex-jogador que vira comentarista na Bota tem algo a mais em relação aos brasileiros. Segundo ela, os gringos chegam aos estúdios de TV mais preparados devido ao conhecimento adquirido enquanto ainda jogavam.

“É meio triste falar isso, mas o que acontece é que muitos ex-jogadores no Brasil não tiveram uma educação completa. Aqui, é mais comum que os jogadores tenham ido mais longe nos estudos, tenham feito faculdade e, claro, estudado para a função depois da aposentadoria. Isso acaba fazendo muita diferença. Claro que, em se tratando de futebol e paixão, o público sempre faz críticas, mas acho que são menores e diferentes das que acontecem no Brasil”, pondera.

Leonardo Bertozzi, especialista em futebol italiano e comentarista da ESPN Brasil, corrobora a opinião de Clara. De acordo com ele, muitos ex-jogadores brasileiros focam apenas no conhecimento empírico ao analisarem jogos nas emissoras de TV. “Talvez no Brasil haja maior rejeição pelo fato de vários ex-jogadores se apoiarem apenas na experiência em campo, sem se preparar para os jogos que vão comentar. Isso se nota ao ver os comentários”, afirma.

O que acontece é que muitos ex-jogadores no Brasil não tiveram uma educação completa. Aqui, é mais comum que os jogadores tenham ido mais longe nos estudos e estudado para a função depois da aposentadoria. Isso acaba fazendo muita diferença.
Clara Albuquerque

Boa parte dos jogadores que encerram a carreira na Itália ingressa em cursos que a Federação Italiana de Futebol realiza em parceria com a Uefa . A capacitação, realizada em Coverciano, Florença, reúne todos os anos grandes ex-atletas que visam começar a carreira de técnico ou mesmo a de gestor esportivo – há cursos para ambas as modalidades. Pirlo, Thiago Motta, Fabio Cannavaro, Gabriel Bastistuta e vários outros concluíram o curso, entregaram a sua tese (quesito obrigatório para a formatura) e neste mês de setembro receberão o diploma. Com isso, os que aceitam virar comentaristas esportivos tendem a chegar aos estúdios bem mais preparados para analisar as partidas.

Para Gian Oddi, existe, “na média”, uma diferença muito grande do nível dos comentaristas da Itália para os do Brasil. “Infelizmente, acho que é um reflexo também da capacidade cultural dos jogadores por aqui. Sabemos que jogador de futebol no Brasil vem de classes mais baixas, com menos acesso à educação, à cultura, então são caras que talvez, num certo aspecto, não estejam tão preparados para fazer uma parte desse trabalho de comentarista de futebol. Mas tem uma outra parte na qual certamente eles são melhores que os jornalistas”, analisa.

Paola Ferrari apresentou os principais programas esportivos da Rai por anos, mas sempre teve função de mediadora, e não de comentarista (Rai)

Presença feminina no jornalismo esportivo italiano

Não são novidade os casos de ódio, racismo, machismo, homofobia e xenofobia na Itália. E, claro, o discurso de intolerância é levado ao futebol, o que afasta as pessoas dos estádios. No último mês de agosto, por exemplo, ultras da Lazio emitiram um comunicado proibindo as mulheres de frequentarem as primeiras fileiras da Curva Nord do estádio Olímpico, em Roma. Esse machismo também pode ser visto no jornalismo esportivo do país.

A reportagem verificou que a editoria de futebol da Gazzetta dello Sport, um dos jornais esportivos mais prestigiados em toda a Europa, conta com 60 jornalistas, sendo somente três mulheres. Uma delas é a experiente Fabiana Della Valle, a serviço do periódico desde 2002. Ela vê o papel da mulher no jornalismo esportivo, especialmente as que cobrem futebol, como “marginalizado”, e acredita que os homens são mais cautelosos quando concedem entrevistas a repórteres mulheres. Porém, Fabiana pondera: “Se você se colocar no caminho certo e mostrar que sabe trabalhar, eles apreciam e respeitam você”.

Segundo pesquisa da comissão parlamentar “Jo Cox”, divulgada em julho do ano passado, 20% dos entrevistados acham que os homens da Itália são líderes empresariais e políticos melhores que as mulheres, e 32,9% não consideram necessário aumentar o número de mulheres em cargos públicos.

Questionada sobre o espaço das mulheres no jornalismo esportivo italiano, a baiana Clara Albuquerque assegura que a situação é “muito pior do que no Brasil”. Ela está na Itália desde janeiro de 2017, residindo em Turim. Clara e Fabiana são as únicas mulheres entre cerca de 20 jornalistas que cobrem o dia a dia da Juventus.

“Existe pouquíssimo espaço até mesmo para repórteres, algo que no Brasil temos bastante. A mulher ainda é muito colocada aqui como objeto de beleza, figuração, enfeite”, lamenta. “Nos programas de televisão, por exemplo, fazem sempre o papel da apresentadora bonita, mas que não opina muito e ainda existem muitas matérias, principalmente nos jornais, sobre musas, mulheres de jogadores, exaltando [apenas] a beleza ou características físicas”, acrescenta.

No entanto, apesar do ambiente hostil, a Rai vem dando visibilidade às mulheres diante do microfone. A jornalista Tiziana Alla, por exemplo, começou narrando jogos da segunda divisão, e hoje é escalada para jornadas da Serie A. Além de Tiziana, há também a ex-jogadora Katia Serra, que, após encerrar sua carreira em 2011, foi convidada pela Rai para ser comentarista de futebol feminino. Ao lado de Sara Tardelli, filha de Marco Tardelli, ela foi por alguns anos comentarista do clássico programa La Giostra del Gol, transmitido para o mundo através da Rai International.

Em 2016, ela ganhou destaque ao compor a equipe de comentaristas da emissora para a Eurocopa, junto com os lendários Arrigo Sacchi e o próprio Tardelli pai, além de outros jornalistas. A partir daí, as críticas a seu trabalho se acentuaram. “Não foi nada fácil. (…) Quando estava envolvida com o futebol feminino, eu não encontrei nenhum obstáculo, mas a partir do momento que eu comecei a comentar futebol masculino, encontrei inúmeras dificuldades”, disse Katia, em entrevista à AGI.

Sacchi, Katia e Zazzaroni nos estúdios da Rai durante a cobertura da Euro 2016 (Instagram @katia.serra)

“O caminho foi difícil, muito difícil, porque no começo não conseguiam explicar como eu poderia ter a competência para falar de futebol, então muitos pensaram que eu tinha sido empurrada porque era ‘filha de’ ou ‘mulher de’. Eu não fui levada a sério porque ninguém conhecia o meu passado em campo. Superei várias situações pouco simpáticas sendo paciente, e persegui o meu objetivo. Não é uma questão de gênero, mas de capacidade e profissionalismo”, completou a ex-atleta, que conquistou o Oscar del Calcio como melhor jogadora do ano de 2007.

Determinada, atualizada e aficionada por futebol feminino e masculino, Katia visa ser uma pioneira para todas as mulheres que almejam uma carreira como comentarista de programas esportivos na TV. “Espero que o meu exemplo seja uma força motriz. Conheço muitas mulheres competentes que não têm a chance de poder demonstrar isso. Neste ambiente não é fácil se impor ou ser capaz de se desenvolver nele sem olhares ou piadas inapropriadas”, advertiu. Maurizio Sarri, por exemplo, já provocou polêmicas por ter sido machista em coletivas.

Atualmente responsável pelo setor feminino da Associação Italiana de Jogadores, Katia comentou a Copa do Mundo da Rússia pela Sky Sports Italia. Nos bastidores do prêmio Libero Bizzarri, realizado na comuna San Benedetto del Tronto, em agosto, ela alegou que a Rai a demitiu, há cerca de um ano, “de um dia para o outro, com um simples SMS, sem explicações”. “Até hoje eu não entendi, mas talvez quando você tem qualidade e é uma mulher, em um país medido pela régua dos homens, não é fácil construir seu próprio caminho”, lamentou.

Gianluca Di Marzio, um dos gurus do calciomercato (Sky)

Troca de farpas entre Di Marzio e Pedullà

Gianluca Di Marzio e Alfredo Pedullà são dois dos mais renomados especialistas em mercado de transferências da Itália. Eles deram origem a uma das maiores rivalidades da imprensa esportiva do país nos últimos anos. Nessa última janela de transferências, a rixa de ambos ficou ainda mais evidente depois de uma indireta de Pedullà ao seu rival.

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Di Marzio, jornalista da Sky Sports Italia, afirmou em 20 de julho que representantes do atacante Karim Benzema, do Real Madrid, junto com o intermediário do jogador, Ludovic Fattizzo, haviam se encontrado com Gennaro Gattuso e Massimiliano Mirabelli, respectivos técnico e diretor esportivo do Milan – o cartola foi demitido e substituído pelo brasileiro Leonardo – no início daquela semana. A torcida rossonera ficara esperançosa com a possibilidade de o francês chegar ao San Siro, mas não demorou muito para vir o balde de água fria. O agente de Benzema, Karim Djaziri, usou emojis de risos no Twitter para indicar que a especulação era furada.

Em seguida, o próprio Benzema rechaçou o rumor. O camisa 9 do Real Madrid utilizou os stories do Instagram para chamar Di Marzio de mentiroso. “Di Marzio, é você quem precisará mudar de empresa. #Mentiroso”, escreveu. O jornalista, porém, rebateu as críticas, assegurando tudo que havia reportado. “[O agente de Benzema] pode rir o quanto quiser… talvez não rirá quando o jogador mudar de agente. E quando descobrir que Benzema fez outros intermediários falarem com o Milan. E ele falou com o próprio Gattuso. Eu não rio… eu digo o que eu verifiquei”, tuitou.

Além disso, Di Marzio publicou em seu site uma declaração do tal intermediário. “É verdade, conheci os executivos do Milan com os representantes de Karim Benzema, mas não posso dizer mais nada”, disse Ludovic Fattizzo, segundo o jornalista. Entretanto, o agente do atacante entrou em cena novamente para negar a história e chamar Di Marzio de “palhaço”. “(…) Posso lhe dizer que @DiMarzio é um palhaço que nos faz rir com suas mentiras para alimentar seu mercado”, escreveu Djaziri, em resposta a um tuíte.

Ok, mas onde Pedullà entra nessa história? É que o jornalista havia colocado o espanhol Álvaro Morata, centroavante do Chelsea, na mira do Milan. Com a especulação de que Benzema poderia se transferir ao clube milanês, porém, o rumor relatado por Pedullà perdeu força.

Só que depois de o empresário do madridista rechaçar mais uma vez a informação de Di Marzio, Pedullà correu ao Twitter para “agradecer” ao atacante e reafirmar que apenas Morata estava na pauta do Diavolo. “Benzema, obrigado pela assistência. Hoje há apenas Morata para o ataque do Milan”, postou. Benzema ainda voltou a atacar o jornalista da Sky Sports Italia. “Definitivamente a mentira continua #mentiroso. Pare os caras”, publicou em seus stories do Instagram.

No fim da história, nem Benzema nem Morata reforçaram o Milan, que acabou fechando com Gonzalo Higuaín, ex-juventino. Mas os dois jornalistas continuaram divergindo nas especulações durante a janela. Por exemplo, Di Marzio foi um dos primeiros a informar que o meio-campista Jorginho, ex-Napoli, tinha um acordo com o Manchester City, mas, após muita novela, não só o ítalo-brasileiro como o treinador Maurizio Sarri assinaram com o Chelsea. Pedullà cravou no Twitter a ida de ambos para o time londrino.

Embora sejam considerados gurus do calciomercato, Di Marzio e Pedullà não têm uma fama muito boa nos bastidores da imprensa esportiva. A Calciopédia apurou que ambos acabam mentindo sobre determinadas especulações e fazem média com intermediários de jogadores. Uma fonte, inclusive, disse à reportagem que “Di Marzio e Pedullà têm rabo preso com procuradores para falar bem dos jogadores”.

Mentirosos ou não, Di Marzio e Pedullà construíram uma rivalidade que rende muita zoeira na internet, vide esse vídeo de rap:

Jornalismo esportivo italiano versus jornalismo esportivo brasileiro

Brasileiros e italianos são completamente fanáticos por futebol. Essa paixão se deve, sobretudo, ao sucesso das seleções: a do Brasil é pentacampeã mundial, ao passo que a da Itália tem apenas um título a menos. Entretanto, qual a diferença entre o jornalismo esportivo desenvolvido na Bota para o de terras tupiniquins? Fizemos essa pergunta para alguns de nossos entrevistados.

Clara Albuquerque
“Acho que a principal diferença é que, no dia a dia, o futebol não é tratado como entretenimento, algo que tem crescido no Brasil. Existe uma atenção maior às coisas básicas do futebol, como escalação e esquemas táticos. Existe, claro, muita polêmica e exagero em diversas situações, mas elas normalmente estão muito mais ligadas ao que acontece dentro de campo”.

Gian Oddi
“Para mim, a diferença mais relevante e significativa mesmo é que na mídia impressa italiana a gente vê muito investimento num jornalismo que a gente gostaria de ver por aqui [no Brasil], com correspondentes em todos os lugares, com gastos para fazer as matérias, gente viajando, investimento em infográficos, levantamento de dados. Então, como eu consumo bastante a mídia italiana, o que faz mais diferença é isso. Lá, nós temos uma mídia impressa que nos fornece conteúdos que, infelizmente, nós não vemos mais por aqui. Lá, a mídia impressa é muito mais útil para o fã de futebol, porque o consumo é bem maior”.

Leonardo Bertozzi
“Em linhas gerais, vejo muitas semelhanças, principalmente na concentração de discussões em cima de poucos times de massa”.

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