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Alessandro Renica liderou a defesa do Napoli no período de maiores glórias do clube

O preconceito contra os napolitanos está entranhado na cultura do norte da Itália há alguns séculos. É penoso admitir a existência de um fenômeno tão infeliz, mas não é possível deturpar os fatos. Também não dá para esconder que Verona, uma das principais cidades do Vêneto, abriga grande parte daqueles que proferem tal discurso de ódio. A hostilidade se acirrou nos anos 1980 e passou de vez ao futebol com a popularização das torcidas organizadas e a disputa de Hellas e Napoli por títulos. Na mesma década, porém, a ironia prevaleceria e um filho de família veronesa faria história em Nápoles. Seu nome? Alessandro Renica.

Os Renica compõem uma linhagem diminuta, que se espalha principalmente por duas províncias contíguas: Bréscia, na Lombardia, e Verona, no Vêneto. Alessandro, porém, nasceu bem longe dali. Seus pais foram tentar a sorte na França e o rebento veio ao mundo no vilarejo costeiro de Anneville-sur-Mer, banhado pelo Canal da Mancha. Quando o garoto tinha três anos, em 1965, a família decidiu deixar a Normandia, voltou para a Itália e se instalou na cidade de Romeu e Julieta.

Alessandro deu os seus primeiros passos no futebol no Golosine, time de bairro veronês. Ele chegou a ser sondado pelo Hellas, clube pelo qual torcia, em virtude da idolatria que tinha pelo atacante Gianfranco Zigoni. Apesar desse sentimento, aos 13 anos foi acolhido pelas categorias de base do maior rival: o Vicenza. Renica era um zagueiro canhoto e que, por seu físico esbelto, parecia até mais alto do que de fato era – tinha 1,82m. Por essas características físicas, ganhou o apelido de “Fenicottero” (ou “flamingo”, em português).

Renica começou a se destacar na Serie A com a camisa da Sampdoria (imago/Buzzi)

O magrão se profissionalizou na temporada 1979-80 e estreou pelo Vicenza na Serie B, aos 17 anos. Contudo, só recebeu mesmo oportunidades em 1981-82, quando os lanerossi estavam na terceira divisão. Renica se destacou pela nobre provinciana e, após ajudá-la a conquistar o título da Coppa Italia da Serie C, foi para um clube mais ambicioso.

Antes mesmo de completar 20 anos, desembarcou em Gênova para fechar com a Sampdoria, que era dirigida por Paolo Mantovani e retornava à elite do futebol local com o objetivo de incomodar os grandes. Para se ter uma ideia, o líbero foi uma das aquisições de um mercado em que os blucerchiati também contrataram Roberto Mancini, Liam Brady, Trevor Francis e Dario Bonetti.

Durante sua primeira temporada no Marassi, o jovem Renica foi considerado pelo técnico Renzo Ulivieri como opção a outros defensores um pouco mais rodados, mas que também estavam no início da carreira: Bonetti (21), Luca Pellegrini (19) e Giovanni Guerrini (22). Mesmo assim, Alessandro recebeu uma quantidade razoável de minutos e mostrou sua verve prolífica, que lhe acompanharia durante sua trajetória – foram 26 gols como profissional. Em 1982-83, o franco-italiano marcou nos empates contra Verona e Genoa.

O tento no clássico da Ligúria, no fim de uma temporada em que a Samp ficou na sétima colocação, catapultou Renica para o time titular: Bonetti retornou para a Roma, em fim de empréstimo, e Alessandro assumiu sua vaga. Líbero incontestável para Ulivieri, o jogador disputou, por completo, 28 das 30 rodadas da Serie A. Como protagonista, contribuiu fortemente para que a equipe fosse novamente sétima no campeonato, além de quadrifinalista na Coppa Italia. Por sua grande fase, Renica ganhou espaço na seleção sub-21 da Itália e a defendeu na Eurocopa da categoria, em 1984 – os azzurri ficaram com a terceira posição.

O zagueiro canhoto era responsável por iniciar as jogadas do Napoli (imago)

Tudo corria bem para o líbero, mas uma troca no comando da Samp alterou seus planos. Mantovani optou por não renovar com Ulivieri e repatriar Eugenio Bersellini, que mudou Renica de posição. O Sargento de Ferro decidiu escalá-lo como lateral-esquerdo para potencializar a forte defesa, armada com Pellegrini e Pietro Vierchowod no centro, além de Moreno Mannini no flanco direito. Alessandro e os blucerchiati tiveram um excelente rendimento: o time foi o quarto colocado da Serie A, com a segunda melhor defesa (21 gols sofridos), e conquistou a primeira Coppa Italia de sua história.

Apesar de ter jogado bem e ter sido titular, o magrão não gostava de atuar como lateral e pediu para ser negociado. Como Renica estava na lista de jovens mais promissores do país, a fila de interessados era grande e Alessandro rapidamente encontrou uma nova casa: seria aquela Nápoles tão malfalada pelas ruas de Verona.

Ao lado de Claudio Garella e Eraldo Pecci, Renica faria parte do ambicioso projeto do Napoli, conduzido pelo presidente Corrado Ferlaino e pelo diretor esportivo Italo Allodi. Na temporada anterior, vale destacar, o clube já tinha acertado com Diego Maradona. Esses jogadores seriam comandados pelo técnico Ottavio Bianchi, outro recém-chegado.

Renica assumiu o posto de líbero azzurro de imediato, logo atrás de uma linha defensiva formada por Moreno Ferrario, Ciro Ferrara e o capitão Giuseppe Bruscolotti. Mais uma vez, Alessandro integrou a segunda zaga menos vazada da Serie A e contribuiu para que o Napoli ficasse com a terceira posição no campeonato – e, consequentemente, com uma vaga na Copa Uefa. No entanto, a cereja do bolo viria em 1986-87.

Renica se consolidou num Napoli que tinha Maradona como maior estrela (AIC)

O zagueiro de origem veronesa foi confirmado por Bianchi como pilar de sua equipe, de modo que não participaria apenas de uma partida e meia durante toda a Serie A. Titularíssimo, Renica tinha o dever de iniciar as jogadas dos azzurri e, de vez em quando, aproveitando-se de sua mobilidade, aparecia na intermediária para participar das trocas de passes. Ou mesmo na área rival para concluir a gol.

Renica também tinha uma bomba na perna canhota e, por isso, cobrava algumas faltas, em revezamento com Maradona. Foi justamente num tiro livre que, no returno, marcou um dos gols da importante vitória por 2 a 1 sobre a Juventus, que impulsionou o Napoli a seu primeiro scudetto. Alessandro também foi responsável por um canudo na ida da final da Coppa Italia contra a Atalanta, vencida pelos partenopei por 3 a 0. Aos 24 anos, o líbero celebrou a dobradinha nacional como protagonista.

Na temporada 1987-88, o franco-italiano manteve o posto na defesa campana e ganhou sua única convocação para a seleção da Itália. Renica substituiu Franco Baresi na lista de Azeglio Vicini para um jogo contra a Suécia, válido pelas Eliminatórias da Euro 1988. O jogo ocorreu no San Paolo, em novembro de 1987, mas Alessandro não foi utilizado. Outra decepção viria meses depois, quando o Napoli perdeu em casa para o Milan, foi ultrapassado pelo rival e amargou o vice-campeonato italiano.

Renica e o Napoli dariam a volta por cima na campanha seguinte. O zagueiro anotou novamente em partidas importantes, como no 5 a 3 sobre a Juventus em Turim, e contribuiu para que os azzurri fossem vice-campeões nacionais. Alessandro também deixou sua marca na ida da final da Coppa Italia contra a Sampdoria, vencida por 1 a 0. Contudo, sua antiga equipe virou a parada e acabou campeã. Ficar no “quase” em dois campeonatos não seria bem uma volta por cima, certo? Mas o Napoli também levantou uma taça em 1988-89.

Renica era cobrador de faltas e dividia a incumbência com Maradona (imago/Kicker/Liedel)

Antes da decisão da copa local, Renica foi, novamente, carrasco da Juventus. No penúltimo minuto da prorrogação das quartas de final da Copa Uefa, o magrão apareceu de surpresa na área bianconera e, de ombro, fez o gol do 3 a 0 que reverteu a derrota sofrida por 2 a 0, em Turim. Na fase seguinte, os partenopei triunfaram ante o Bayern Munique e, na decisão, venceram o Stuttgart. Com isso, o time napolitano foi campeão continental pela primeira vez em sua história.

Alessandro Renica estava no auge de sua maturidade e também caminhava para o ápice físico. Tudo levava a crer que a temporada 1989-90 poderia ser aquela em que atingiria maior destaque e, talvez, lhe permitisse ganhar espaço e integrar o elenco italiano na Copa do Mundo de 1990. Alberto Bigon substituiu Bianchi no comando do Napoli e manteve o franco-italiano no time. Logo na segunda rodada da Serie A, o defensor retribuiu com o gol da vitória sobre a Udinese. Até aí, tudo bem.

Na quinta jornada, porém, o defensor se lesionou. Ao se arriscar na lateral canhota, cruzar para a área e ver Stefano Pioli desviar contra o próprio patrimônio, Renica iniciou a reação do Napoli na vitória por 3 a 2 sobre a Fiorentina – uma das mais importantes na campanha do segundo scudetto azzurro. Por outro lado, também sofreu um estiramento na coxa esquerda. Apesar de ter sido fulcral no início da temporada, o líbero nunca conseguiu se recuperar totalmente da lesão e perdeu a titularidade para Giancarlo Corradini.

Depois de atuar em apenas oito jogos na campanha do bicampeonato, Renica continuou no banco de reservas em 1990-91. Disputou um número maior de partidas (15), revezando com Giovanni Francini e Marco Baroni, mas nunca mais foi o mesmo. Ao fim do campeonato, o líbero se transferiu para o Verona e voltou a viver na cidade em que cresceu.

Renica foi protagonista do Napoli por quatro anos, até sofrer uma lesão grave (imago/Kicker/Liedel)

O Hellas ao qual Renica aportava estava longe do nível do time campeão italiano de 1985. Os butei haviam sido rebaixados em 1989 e retornavam à elite após um ano na segundona. No Bentegodi, Alessandro recuperou a titularidade e até marcou um gol decisivo para a vitória sobre o Parma, mas foi só: o Verona amargou mais um descenso. Apesar da queda, o líbero não jogou na segundona e rescindiu o contrato com os gialloblù em meados da temporada 1992-93. Na sequência, decidiu se aposentar com apenas 30 anos de idade.

Depois de pendurar as chuteiras, Renica tirou alguns anos de descanso e, em 1997, iniciou uma modesta trajetória como treinador. À beira do gramado, só comandou times semiprofissionais, profundamente amadores ou juvenis, e sempre da quarta divisão para baixo. Trabalhou, também, quase que exclusivamente no Vêneto: a única exceção se deu com o período pela Grumellese, equipe de Bérgamo. No submundo do futebol da Bota, Renica teve como maiores destaques as passagens por Chioggia Sottomarina, Trissino e pelo time sub-19 do Vicenza. Muito pouco, se comparado a sua vitoriosa carreira como líbero.

Alessandro Renica
Nascimento: 15 de setembro de 1962, em Annevile-sur-mer, França
Posição: líbero e lateral-esquerdo
Clubes como jogador: Vicenza (1979-82), Sampdoria (1982-85), Napoli (1985-91) e Verona (1991-93)
Títulos: Coppa Italia da Serie C (1982), Coppa Italia (1985 e 1987), Serie A (1987 e 1990), Copa Uefa (1989) e Supercopa Italiana (1990)
Clubes como treinador: Caldiero (1997-98), Chioggia Sottomarina (1999-2001, 2003-04 e 2009-10), Vicenza (juniores; 2001-02), Trissino (2011-12), Trissino-Valdagno (2012-13), Sona M. Mazza (2016-17) e Grumellese (2017)

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