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Pilar da Atalanta, Marino Magrin não funcionou como substituto de Michel Platini na Juventus



Não é raro ver diretorias de clubes fecharem contratações que acabam não dando certo por conta de um erro cometido na avaliação do atleta. Marino Magrin sofreu com esse problema quando assinou pela Juventus. O meia foi adquirido com a expectativa de substituir Michel Platini, mas tinha características similares às de Marco Tardelli. Era um camisa 8, que nunca poderia ter sido considerado como um 10, para a frustração dos torcedores bianconeri no fim dos anos 1980.

Assim como muitos de seus colegas jogadores, Magrin atravessou muitas dificuldades até atingir o sucesso. Ele nasceu em uma família numerosa, perdeu o pai aos seis anos e foi criado apenas pela mãe, que não se casou de novo. Para ajudar com as contas da casa, Marino e seus irmãos precisavam trabalhar: por isso, o meio-campista ganhou a vida como carpinteiro até os 21 anos. Durante algum tempo, o jovem dividiu sua ocupação na oficina com sua aventura como jogador de futebol.

Oriundo de Borso del Grappa, na região de Vicenza, Magrin cresceu em Casoni, distrito de Mussolente, comuna a cerca de 10 quilômetros de sua cidade natal. Depois de começar num time amador do município, o meio-campista foi notado pelo Bassano Virtus, aos 16 anos. Com a mesma idade, estreou profissionalmente pelos giallorossi, na Serie D da temporada 1975-76.

Marino atuava como meio-campista centralizado, pelo corredor esquerdo ou pelo direito, já que tinha destreza nos dois pés. Um autêntico número 8, com boa chegada ao ataque e poder de finalização: em sete partidas realizadas pelo clube até 1978, anotou três gols. Apesar disso, Magrin – com o perdão do trocadilho – era considerado franzino demais. E, por isso, foi negociado com o Montebelluna, da quinta divisão.

Em seis temporadas de Atalanta, Magrin teve Prandelli como companheiro no meio-campo (Eco di Bergamo)

No clube biancoceleste, o vêneto ganhou a confiança do técnico Gianni Rossi e se tornou protagonista. Em dois anos, marcou 14 gols em 57 partidas, contribuindo com duas terceiras posições do time na Serie D. Ao bater na trave pelo acesso no biênio, Magrin acabou chamando a atenção do Mantova, da terceirona. Profissionalizado, poderia, enfim, deixar a carpintaria de lado – ou, ao menos, passar a tê-la como um mero hobby.

No Mantova, Magrin se tornou o cérebro do meio-campo e ganhou até o apelido de “Riverino virgiliano”, dado pelo jornal local. Gianni Rivera era mesmo um exemplo para Marino, ainda que o vêneto jogasse mais recuado que o craque do Milan. Inspirado pelos elogios, o jovem fez uma grande temporada e ajudou os biancobandati a concluírem a Serie C1 na quinta colocação. Pelas boas atuações, foi indicado à Atalanta pelo ex-atacante Giuseppe Savoldi: a Dea acabara de cair para a terceirona e decidiu adquiri-lo.

Marino Magrin chegou a Bérgamo como se já fosse um veterano. A carteira de identidade revelava que o meio-campista tinha apenas 22 anos, mas isso não o impediu de assumir o comando da criação de jogadas do time treinado por Ottavio Bianchi, além de se tornar o seu cobrador oficial de faltas, escanteios e penalidades. Fiel escudeiro do goleador Bortolo Mutti, o vêneto concluiu a temporada do título nerazzurro da Serie C1 com seis tentos e repetiu a dose em 1982-83, já ao lado de Roberto Donadoni e Marco Pacione, contribuindo com a permanência da Dea na segundona.

Na terceira temporada pela Atalanta, Magrin teve seu futebol potencializado pelo técnico Nedo Sonetti e viveu o momento mais prolífico de sua carreira: foram 15 gols; 13 dos quais na campanha do título atalantino na Serie B de 1983-84. Marino chegou à elite na qualidade de terceiro maior goleador da categoria e, talvez por isso, foi considerado por muitos como um trequartista nato. O fato é que, num tempo em que os números de camisa correspondiam à função desempenhada pelos jogadores em campo, ele continuava vestindo a 8 e, eventualmente, a 4 – algarismos reservados a meias centrais. O vêneto também chegou a usar a 9 e a 10, quando acabava escalado mais próximo aos atacantes.

Magrin se tornou um dos pilares da Atalanta e foi capitão do time por uma temporada (Bartoletti)

Magrin estreou na Serie A três dias depois de completar 25 anos e comemorou com uma assistência para Carlo Osti no empate por 1 a 1 entre Atalanta e Inter. No decorrer de sua trajetória pelos orobici na primeira divisão, Marino dividiu as incumbências de meio-campo principalmente com Glenn Peter Strömberg, que atuava mais adiantado, mas também com o volante Cesare Prandelli e o ponta Donadoni. Fez 117 partidas no período, com 23 bolas nas redes e muito destaque nas venenosas cobranças de falta – como na que resultou num golaço decisivo contra o Milan.

O excelente meia ajudou a Atalanta a fazer duas campanhas sólidas na Serie A e a alcançar o vice-campeonato da Copa Mitropa em 1985 e o da Coppa Italia, dois anos depois – este último valeu a classificação da Dea à Recopa Uefa. Elevado ao posto de capitão, Magrin teve importância na volta dos bergamascos a um grande torneio continental após mais de duas décadas por ter atuado em 12 dos 13 jogos da campanha. Mas, principalmente, porque garantiu a passagem da sua equipe às semifinais graças a um gol perante o Parma.

Apesar do feito na copa, a Atalanta não terminou a temporada 1986-87 com o sorriso tão largo quanto se poderia imaginar. No Italiano, a Dea não manteve o ritmo mostrado no mata-mata nacional e acabou rebaixada. Valorizado e com passagem pela seleção olímpica italiana naquele ano, Marino não voltou para a B. Após ter desempenhado papel mais ofensivo do que de costume na campanha orobica, rumou à Juventus para substituir Platini.

O ex-meia nerazzurro chegou ao Piemonte avisando que não seria capaz de fazer a torcida esquecer de Platini. Não só porque não tinha a mesma qualidade técnica do craque francês, mas porque sabia que, por suas características, era muito mais capaz de ocupar o posto que foi de Tardelli por uma década. De fato, Magrin nunca utilizou a camisa 10 na Juventus – seu dono era Luigi De Agostini. Na Velha Senhora, Marino foi o 8. E só de vez em quando, já que teve dificuldade de se firmar entre os titulares de um time imerso em confusão.

O habilidoso Magrin recebeu uma missão ingrata na Juventus: atuar fora de sua posição de origem para preencher lacuna deixada por Platini (LaPresse)

Sob as ordens de Rino Marchesi, a Juventus não encantava em 1987-88. Era um momento de renovação e quase todos os atletas que passaram pelo clube no final dos anos 1980 acabaram chamuscados – até mesmo craques como Ian Rush. Assim como todo o elenco bianconero, Marino teve altos e baixos. Por um lado, decidiu duelos contra Como, Ascoli e (sobretudo) Inter, além de anotar uma doppietta ante o Empoli; por outro, sofreu um estiramento que o tirou de ação por dois meses e foi afetado pela concorrência de De Agostini, Beniamino Vignola, Angelo Alessio, Michael Laudrup e do jovem Renato Buso. A depender do módulo tático adotado, Marchesi revezava as peças.

Magrin fez 34 partidas e seis gols numa temporada medíocre da Juventus: a equipe alvinegra terminou a Serie A na sexta colocação, além de ter caído nas oitavas de final da Copa Uefa e nas semis da Coppa Italia. Marino teve sua permanência confirmada para a temporada 1988-89, mas perdeu espaço. O comando do time parou nas mãos de Dino Zoff, que relegou o vêneto ao banco de reservas: das 30 aparições de Marino naquele ano, apenas oito foram na condição de titular.

Oleksandr Zavarov era o responsável pela escassez de oportunidades a Magrin. No verão de 1989, a diretoria bianconera deixou claro ao italiano que queria continuar apostando no soviético. Ao mesmo tempo, Marino recebeu (e aceitou) uma oferta do adversário no seu último jogo pela Juventus: o Verona. Assim, o meia deixou o Piemonte depois de 64 aparições e sete gols.

Marino voltou a morar no Vêneto, onde nasceu, mas não foi muito feliz nesta passagem pela região. Magrin atuou no Hellas até 1992, num período em que o grande time de Osvaldo Bagnoli se desfez e os butei viraram um ioiô: caíram para a Serie B em 1990, retornaram à elite no ano seguinte e, de imediato, foram rebaixados pela segunda vez.

Depois de altos e baixos na Juventus, Magrin passou pelo Verona (LaPresse)

Nas três temporadas pelo Verona, o meio-campista foi colega de alguns grandes jogadores. Magrin dividiu vestiário com atletas como Angelo Peruzzi, Luciano Favero, Alessandro Renica, Luca Pellegrini, Robert Prytz, Dragan Stojkovic, Pietro Fanna, Maurizio Iorio e Florin Raducioiu, mas o bom nível dos elencos montados não foi suficiente para que os gialloblù decolassem. A década de 1990 seria dura para os mastini.

Após 90 partidas e cinco gols pelo Hellas, Magrin já pensava em encerrar a carreira. Mas, como está escrito na Bíblia, do pó vieste e ao pó retornarás. Seguindo essa premissa, Marino aceitou disputar a quinta divisão de 1992-93 pelo Bassano Virtus, clube que o revelou para o futebol. Só então é que deu um ponto final na sua trajetória como futebolista, aos 33 anos.

Em 1998, o ex-jogador teve uma de suas poucas experiências como treinador de times profissionais. Magrin comandou o Mantova, então na quarta divisão, por apenas 17 partidas. Ele foi demitido e só arrumou outro trabalho no ramo na temporada 2006-07, pelo Tritium, pequeno clube da região de Milão. É exatamente na Lombardia que Marino mora até hoje: por lá, trabalhou nas categorias de base da Atalanta e também foi treinador do infantil do Milan por cinco temporadas. Para ele, que cresceu como torcedor milanista, foi uma grande honra.

Apesar de rossonero, Magrin também desenvolveu grande afeto pelo nerazzurro – o de Bérgamo. Ligado à Atalanta até hoje, é um dos maiores ídolos do clube. Em 1984, por exemplo, Marino chegou a ser convidado para cantar no single “Forza Atalanta”, álbum compacto lançado com o homônimo hino dos bergamascos na época. Em 2007, quando a agremiação comemorava seu centenário, Marino regravou a canção com o coral do clube de torcedores orobici de Val Gandino. Sem dúvidas, um ícone da Dea.

Marino Magrin
Nascimento: 13 de setembro de 1959, em Borso del Grappa, Itália
Posição: meio-campista
Clubes como jogador: Bassano Virtus (1975-78 e 1992-93), Montebelluna (1978-80), Mantova (1980-81), Atalanta (1981-87), Juventus (1987-89) e Verona (1989-92)
Títulos: Serie C1 (1982) e Serie B (1984)
Clubes como treinador: Mantova (1998), Tritium (2007) e Milan (infantil; 2011-16)



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