Jogos históricos

Em 1998, Juventus parou no Real Madrid e perdeu segunda final seguida de Champions League

Yuri Said

A final da Champions League da temporada 1997-98, entre Juventus e Real Madrid, foi altamente aguardada. De um lado tínhamos um gigante adormecido, que não disputava uma decisão do principal torneio de clubes da Europa havia 17 anos e, do outro, uma das equipes dominantes da década. A Velha Senhora chegava a sua terceira finalíssima consecutiva, tendo conquistado o título em Roma, sobre o Ajax, em 1996, e amargado o vice perante o Borussia Dortmund, em Munique, na sequência. Em Amsterdã, a Juve teve o seu tira-teima e não pode dizer que viveu um desfecho feliz.

Aquela Juventus, além de ter alcançado três finais europeias consecutivas, havia conquistado três títulos da Serie A italiana nas últimas quatro temporadas. A equipe era liderada elo técnico Marcello Lippi, futuro campeão do mundo, e contava com uma mistura de peças que haviam triunfado em 1996 e reforços de peso contratados a posteriori. O primeiro grupo era formado por nomes como Angelo Peruzzi, Moreno Torricelli, Ciro Ferrara, Gianluca Pessotto, Angelo Di Livio, Didier Deschamps, Antonio Conte e Alessandro Del Piero, enquanto o segundo tinha Paolo Montero, Zinédine Zidane, Edgar Davids e Filippo Inzaghi.

Em Amsterdã, capital dos Países Baixos, os holandeses Seedorf e Davids estiveram em destaque na final europeia (Allsport)

A jornada dos bianconeri na Liga dos Campeões teve início no Grupo B, ao lado de Manchester United, Feyenoord e Kosice. A Juventus foi vice-líder da chave, acumulando 12 pontos após quatro vitórias e duas derrotas, e se classificou como uma das melhores segundas colocadas – na época, a Champions League tinha seis grupos. Assim, encarou o emergente Dynamo Kyiv, comandado por Andriy Shevchenko e Serhiy Rebrov, nas quartas de final.

A Juventus começou o mata-mata empatando por 1 a 1 em casa, mas Pippo Inzaghi daria um show na Ucrânia e, com uma tripletta, calaria mais de 100 mil presentes no Olímpico de Kyiv. Com 0 4 a 1 fora de casa e o 5 a 2 no placar agregado, a Velha Senhora avançou para enfrentar o Monaco, liderado por jovens talentos como Thierry Henry e David Trezeguet, nas semifinais. Contra os franceses, foi Del Piero que brilhou com um hat-trick na ida. Assim, um novo triunfo por 4 a 1 foi suficiente para que a derrota por 3 a 2 na volta não impedisse a passagem dos italianos para a final.

No outro lado do campo na decisão, a Juventus enxergava o Real Madrid. O time merengue amargava um jejum de 32 anos sem títulos da Liga dos Campeões e disputara a sua última final em 1981, com derrota para o Liverpool. Os blancos vinham tentando se reerguer no cenário internacional ao mesmo tempo em que buscavam ocupar o vácuo deixado pelo fim do Dream Team do Barcelona em solo espanhol.

Grande organizador da Juventus, Zidane foi contido pela defesa do Real Madrid durante a decisão (imago/WEREK)

Sob o comando do alemão Jupp Heynckes, o Real Madrid contava com uma equipe de respeito. Além de ter o italiano Christian Panucci, o elenco incluía nomes como Bodo Illgner, Manuel Sanchís, Fernando Hierro, Roberto Carlos, Fernando Redondo, Christian Karembeu, Clarence Seedorf, Raúl, Fernando Morientes, Predrag Mijatovic, Sávio e Davor Suker. Com essa trupe, os espanhóis lideraram o Grupo D, deixando Rosenborg, Olympiacos e Porto para trás, e se impuseram sobre dois rivais germânicos no mata-mata: Bayer Leverkusen (4 a 1) e o então campeão Dortmund (2 a 0).

A final da Champions League de 1997-98 prometia ser um confronto histórico entre duas equipes de prestígio e o palco para o embate era dos melhores: uma novíssima Amsterdam Arena, inaugurada dois anos antes em Amsterdã, capital dos Países Baixos. O épico começou até de forma clichê, com um pouco de sangue – afinal, Roberto Carlos precisou ser atendido após sofrer um corte na cabeça.

A Juventus contava com parte importantíssima do meio-campo que seria campeão mundial pela França alguns dias depois da final da Champions League. Deschamps e Zidane eram dois dos responsáveis por organizar a equipe bianconera e os homens que deviam servir Del Piero e Inzaghi no ataque. Foram exatamente os franceses que levaram perigo primeiro para a defesa espanhola.

Artilheiro daquela edição da Champions League, Del Piero era uma das grandes esperanças da Velha Senhora (Allsport)

No outro lado do gramado, a retaguarda bianconera tinha os olhos atentos aos garotos Raúl e Morientes, mas também ao experiente Mijatovic. Em uma das jogadas em que carregou a bola do meio-campo para o ataque, o iugoslavo foi derrubado por Deschamps, próximo à entrada da área. Na cobrança de falta, Hierro soltou uma bomba e Peruzzi precisou espalmar a bola para escanteio.

Muito dependente de Zidane, que estava muito bem isolado pela defesa merengue, a Juventus não conseguia criar muito e tentava algo através das finalizações de média distância, como num petardo de Davids. Del Piero, goleador da competição com 10 bolas nas redes, e Inzaghi, terceiro na tábua de artilheiros, com seis, apareciam muito pouco.

O Real Madrid exercia o controle da posse de bola através do imponente meio-campo formado por Seedorf, Redondo e Karembeu, e continuava a agredir a rival com Mijatovic. Melhores na partida, os espanhóis tiveram grande chance de abrir o placar aos 25 minutos, quando o iugoslavo arrancou pelo flanco esquerdo e cruzou rasteiro para Raúl, que errou o alvo mesmo finalizando da altura da linha da pequena área.

Quando a Juventus era melhor no jogo, Mijatovic aproveitou sobra de bola e definiu o triunfo do Real Madrid (EFE)

Em um primeiro tempo de pouca inspiração ofensiva das duas equipes, prevaleceram as disputas ríspidas, as faltas e os cartões amarelos – foram distribuídos seis ao longo do jogo, mas, nos critérios de outrora, muitas entradas mais duras passavam batidas. Os aspectos físicos sobrepuseram o talento dos elencos e a final certamente deixava a desejar.

No retorno do intervalo, Lippi decidiu substituir Di Livio por Alessio Tacchinardi, no intuito de reforçar o meio-campo da Juventus e equilibrar as ações no centro do gramado. No entanto, nos primeiros minutos do segundo tempo, o cenário continuava desafiador para a equipe bianconera. Mijatovic continuava a causar estragos com suas arrancadas e só era contido por faltas. A Vecchia Signora buscava acionar Zidane, mas o francês enfrentava dificuldades para dar sequência às jogadas.

Apesar dos percalços, a Juventus começou a ser mais perigosa no segundo tempo. Primeiro, após cobrança de falta levantada na área, Illgner saiu mal do gol, trombando com companheiros, e Mark Iuliano só não conseguiu mandar para a rede porque chutou travado. Depois, Inzaghi matou no peito um cruzamento vindo da esquerda e finalizou para a defesa do arqueiro alemão. Pippo ainda desperdiçaria grande oportunidade, após tiro livre disparado por Zidane ter batido na barreira e a bola ter quicado em ótimas condições para o seu arremate. Porém, o camisa 9 se precipitou e praticamente atrasou para o arqueiro.

Em noite apagada, o craque Del Piero foi um dos jogadores da Juventus que quase não viram a cor da bola (Bongarts/Getty)

Na casa dos 66 minutos, no momento em que a Juventus estava ganhando ímpeto e pressionando a defesa espanhola, um balde de água fria foi jogado na torcida italiana. Roberto Carlos aproveitou uma sobra da defesa adversária e o que parecia ser um chute inofensivo resultou em um gol inesperado. A trajetória foi torta, mas o potente disparo não foi interceptado por Iuliano, que acabou amaciando a bola para Mijatovic. O atacante driblou Peruzzi e finalizou para a baliza desguarnecida, anotando o único tento da partida e o mais importante de sua carreira.

A Juventus tentou uma resposta imediata. A partir da esquerda, Del Piero buscou Inzaghi com um cruzamento rasteiro e o atacante até se antecipou à defesa outra vez, mas finalizou para fora. Já com o meia-atacante Daniel Fonseca em campo, no lugar do lateral-esquerdo Pessotto, a Velha Senhora perdeu outra grande chance quando Davids conseguiu encontrar espaço após uma confusão na área blanca, driblou um defensor e concluiu cara a cara com Illgner. Entretanto, de forma central. Foi a última oportunidade clara dos italianos.

Após o derradeiro apito do árbitro Hellmut Krug, o Real Madrid pode comemorar a conquista de sua sétima orelhuda – a primeira nos moldes modernos da Champions League, já que a anterior havia sido levantada 32 anos antes, em 1966, nos tempos de Copa dos Campeões. Da decisão de Amsterdã em diante, os merengues chegaram em mais sete finais da competição e ganharam todas, incluindo mais uma sobre a Juventus, com direito a goleada por 4 a 1, em 2017. A Velha Senhora ficou a um triunfo da taça três outras vezes, mas segue bicampeã europeia e sem títulos do torneio desde 1985.

Juventus 0-1 Real Madrid

Juventus: Peruzzi; Torricelli, Iuliano, Montero; Di Livio (Tacchinardi), Deschamps (Conte), Davids, Pessotto (Fonseca); Zidane; Del Piero, Inzaghi. Técnico: Marcello Lippi.
Real Madrid: Illgner; Panucci, Sanchís, Hierro, Roberto Carlos; Karembeu, Redondo, Seedorf; Raúl (Amavisca); Mijatovic (Suker), Morientes (Jaime). Técnico: Jupp Heynckes.
Gol: Mijatovic (66′)
Árbitro: Hellmut Krug (Alemanha)
Local e data: Amsterdam Arena, Amsterdã (Países Baixos), em 20 de maio de 1998

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