Cartolas

Giuseppe Gazzoni Frascara refundou o Bologna e o fez viver seus últimos bons momentos



Uma vida inteira dedicada ao esporte. Assim se desenvolveu a trajetória de Giuseppe Gazzoni Frascara, notável empresário que se fez presente na esfera desportiva de Bolonha por quase metade do século XX e parte da década de 2000. Falecido aos 84 anos, neste 24 de abril de 2020, o dirigente não só foi ativo patrocinador de equipes da capital da Emília-Romanha como presidiu a Virtus, grande agremiação de basquete, e conduziu o Bologna em momentos inesquecíveis.

Giuseppe nasceu em Turim. Contudo, o Piemonte foi apenas o lugar em que veio ao mundo: a família Gazzoni Frascara é oriunda de Bolonha e lá mesmo erigiu seu império. Arturo, seu avô, criou diversos produtos alimentares e medicinais, com maior destaque para um digestivo chamado Idrolitina. O patriarca chegou a ser presidente do Bologna entre 1916 e 1918, quando substituiu temporariamente Rodolfo Minelli, mas foram seus sucessores que mais fizeram pelo esporte local.

No fim da década de 1950, Ferdinando, seu filho, deu o passo seguinte quando foi eleito presidente da Virtus, tradicional sociedade de basquete bolonhesa – segunda maior vencedora de scudetti na Itália, com 15, atrás da Olimpia Milano (28). Foi nesse momento que Giuseppe entrou em cena. Em 1960, prestes a completar 25 anos, foi encarregado pelo pai de ser seu representante na agremiação e virou comissário extraordinário da Virtus até o ano seguinte.

Os Gazzoni também patrocinaram o clube de basquete naquele período e retornariam a estampar a marca de um de seus produtos na camisa alvinegra no fim da década de 1980. Quando o segundo apoio ocorreu, Giuseppe, laureado em administração e farmácia, já estava à frente dos negócios da família e também havia patrocinado o Bologna na campanha de 1985-86. A ligação com os veltri se formalizou em 1993, no pior momento da história rossoblù. Além de terem sido rebaixados para a terceira divisão, os bolonheses faliram. Gazzoni Frascara apareceu como tábua de salvação.

Depois de obter, na justiça, a certidão que lhe permitia herdar o histórico esportivo do Bologna e transferi-lo para outra pessoa jurídica, Gazzoni Frascara trabalhou para reerguer a agremiação e deixá-la com saúde financeira renovada. Em três anos, após títulos das séries C1 e B, o time voltava à elite. E não pararia por aí: no fim da década de 1990, os bolonheses fariam excelentes campanhas no Italiano, seriam três vezes semifinalistas da Coppa Italia e disputariam competições europeias.

Nos primeiros anos de gestão, o cartola mostra camisa do Bologna (Repubblica)

Na gestão de Gazzoni, o Bologna venceu a Copa Intertoto, em 1998, encerrando um jejum de 24 anos sem taças que não fossem ligadas a acessos de divisão. O clube também disputou duas edições da Copa Uefa e foi semifinalista do torneio continental em 1998-99. A excelente trajetória dos rossoblù só foi interrompida no minuto 86 do jogo de volta contra o Marseille: o time francês foi finalista porque converteu um pênalti e se classificou por conta do gol qualificado.

O fim da década de 1990 foi o período mais glorioso da era Gazzoni Frascara, que durou até setembro de 2005. Nos 12 anos em que esteve à frente do clube, o dirigente levou ao Bologna jogadores de renome internacional, como Gianluca Pagliuca, Giancarlo Marocchi, Zé Elias, Klas Ingesson, Kennet Andersson, Igor Shalimov, Igor Kolyvanov, Igor Simutenkov, Davide Fontolan, Luís Oliveira, Theodoros Zagorakis, Julio Cruz, Giuseppe Signori e Roberto Baggio. Além disso, o clube valorizou atletas promissores ou que estavam fora do radar dos gigantes, como Francesco Antonioli, Michele Paramatti, Cristian Zaccardo, Marcello Castellini, Alessandro Gamberini, Lamberto Zauli e Carlo Nervo.

Durante a sua administração, o cartola também se notabilizou por permitir que os treinadores trabalhassem à vontade. Em 12 anos, apenas seis profissionais passaram pelo comando do Bologna, sendo que dois deles (Alberto Zaccheroni e Edy Reja) dirigiram a equipe na primeira temporada e um outro (Sergio Buso) foi uma aposta que não deu certo e rapidamente acabou sendo abortada. Os grandes técnicos da era Gazzoni Frascara tiveram projetos duradouros. Renzo Ulivieri permaneceu entre 1994 e 1998, Francesco Guidolin treinou o time de 1999 a 2003 e Carlo Mazzone teve duas passagens (1998-99 e 2003 a 2005).

É verdade que o entusiasmo da reta inicial da gestão não durou tanto. Nos anos 2000, o Bologna só fez uma ótima campanha em 2001-02, quando foi sétimo colocado. Aquela era a primeira temporada em que Renato Cipollini atuava como presidente: Gazzoni Frascara mantinha a propriedade do clube, mas o grosso da parte executiva, realmente operacional, ficava com o outro diretor. É que a Victoria 2000, holding do industrial, que incluía o gerenciamento do próprio clube, passava por problemas financeiros e chegaria a falir – Giuseppe tinha de dividir as atenções.

Em 2005, o Bologna acabou sendo rebaixado para a Serie B depois de ser derrotado pelo Parma, no placar agregado, nos jogos-desempate do chamado spareggio. Meses depois, Giuseppe vendeu o clube a Alfredo Cazzola, empresário bolonhês que também havia feito história como presidente da Virtus. Mas a história de Gazzoni Frascara com o clube não terminava ali.

Gazzoni Frascara, nomeado presidente honorário, cumprimenta Joe Tacopina e Renzo Ulivieri (Divulgação)

Nos últimos momentos de sua presidência, Gazzoni Frascara denunciou irregularidades perpetradas por agremiações adversárias. Segundo ele, alguns clubes falsificavam documentos fiscais ou contábeis, e balanços através de lucros fictícios, o que configuraria o famigerado “doping administrativo”. A prática foi comprovada em operações de pente fino entre o apagar das luzes da década de 2000 e o fim da de 2010, e resultou em punições na forma de multas e pontos subtraídos a equipes. O problema é que, em 2018, o próprio Giuseppe também foi condenado pela justiça por bancarrota fraudulenta, no caso da holding Victoria 2000.

O dirigente rossoblù também foi um dos mais contundentes acusadores do esquema que viria a ser conhecido como Calciopoli. No campeonato 2004-05, que resultou no rebaixamento do Bologna, Gazzoni Frascara disparou contra arbitragens questionáveis de diversas partidas da reta final da competição. Depois dos grampos das primeiras conversas telefônicas que revelaram o escândalo, os jogos perdidos contra Fiorentina e Juventus, ocorridos em sequência, em dezembro de 2004, entraram na lista de duelos investigados pela justiça desportiva.

“Os cartões aplicados pelos árbitros contra nossos jogadores visavam enfraquecer o time e deixá-lo em apuros, para que a meta estabelecida pelo ‘sistema’ fosse atingida: nossa queda para a Serie B”, declarou o dirigente numa entrevista ao jornal L’Avvenire. “Os últimos jogos daquele campeonato foram rigorosamente manipulados. Quem trabalhou melhor e nas sombras se salvou, enquanto o meu Bologna, que se preocupou apenas com o campo e não com outras esferas, não conseguiu”, lamentou.

No final de todo o processo, Massimo De Santis, que apitou o clássico contra a Fiorentina, foi considerado culpado e acabou banido do futebol. Já Tiziano Pieri, árbitro do jogo contra a Juventus, foi absolvido. Mesmo já fora da diretoria do Bologna, Gazzoni Frascara entrou com uma ação na justiça desportiva, visando a repescagem do time, mas era tarde: os duelos ocorreram na temporada 2004-05 e o esquema só foi desbaratado no verão de 2006. Em outra disputa judicial, o cartola também pediu ressarcimento financeiro à Juve e à Viola (70 milhões de euros a serem pagos à Victoria 2000 e ao Bologna), mas não obteve êxito.

A luta incansável pelo Bologna, porém, lhe deu enorme respaldo. Gazzoni Frascara era adorado pelos torcedores do clube por seu estilo assertivo e sábio, e sempre era bem recebido quando ia ao estádio Renato Dall’Ara. Como prova da sua importância, em novembro de 2014 o então executivo-chefe Joe Tacopina – em acordo com Joey Saputo, atual dono do time –, concedeu a Giuseppe o título de presidente honorário felsineo. Com isso, o experiente cartola passou a frequentar com maior frequência os jogos da equipe e a viver o seu dia a dia. Ao menos quando estava bem de saúde. A mesma saúde que, no trágico abril de 2020, lhe faltou em definitivo.



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