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Nicolás Burdisso teve longa carreira na Itália, capitaneou o Genoa e acumulou títulos

A última semana ficou marcada pelo anúncio da aposentadoria de um dos zagueiros estrangeiros com mais partidas na Serie A. Também um dos argentinos mais vitoriosos no futebol, mas que curiosamente não teve uma repercussão à altura das suas conquistas. Multicampeão com Boca Juniors e Inter, Nicolás Burdisso pendurou oficialmente as chuteiras, depois de ficar sem clube no final da última temporada e passar alguns meses até tomar sua decisão.

Dos 19 anos de carreira como jogador profissional, Burdisso passou 14 deles na Itália, onde jogou mais de 400 partidas por Inter, Roma, Genoa e Torino, sendo 326 delas na Serie A. Nico fica atrás apenas de Javier Zanetti, Roberto Sensini e Hernán Crespo na lista de argentinos com mais presenças na elite do futebol italiano. O zagueiro também fez carreira pela seleção nacional: foi titular em duas Copas do Mundo, além de ter conquistado o título mundial sub-20 e o ouro olímpico.

Desde jovem, Burdisso foi foi tido como o substituto de Walter Samuel – que é três anos mais velho. As semelhanças vão desde a criação na base do Newell’s Old Boys, o sucesso no Boca Juniors até as passagens por Inter e Roma, além dos títulos com a Argentina na base. Revelado pelos xeneizes em 1999, Nico virou titular justamente quando o compatriota foi vendido para a Roma, em 2000.

O jogador nascido em Altos de Chipión já era campeão argentino, sul-americano e mundial (como reserva), quando, em 2001, virou definitivamente protagonista e líder da defesa boquense, ao lado de Rolando Schiavi. Com os dois no centro da zaga, o Boca deu sequência aos sucessos com a conquista da Libertadores daquele ano. Na campanha, eliminou Vasco e Palmeiras e bateu o Cruz Azul na grande final. Depois de passar 2002 em branco, Burdisso repetiu o triplete em 2003, dessa vez como titular absoluto: faturou os títulos do Apertura, da Libertadores e da Copa Intercontinental.

No mesmo ano, também entrou no radar da seleção principal junto com Fabricio Coloccini, companheiro no Boca Juniors e na seleção sub-20. A dupla ainda conquistou o ouro olímpico em Atenas, nos Jogos de 2004. Com o Boca, Burdisso acabou batendo na trave na final da Libertadores contra o surpreendente Once Caldas. Nico marcou o gol do empate, que levou a disputa para os pênaltis, mas errou sua cobrança – assim como outros três companheiros.

A perda do título não impediu que a Inter fosse atrás do zagueiro. A Beneamata ficou ainda mais argentina no verão de 2004, quando também contratou Esteban Cambiasso e Juan Sebastián Verón – o elenco já tinha Zanetti, Kily González e Julio Cruz. Apesar disso, o começo da experiência italiana não foi tão memorável para Burdisso, já que sua filha foi diagnosticada com leucemia no final do ano, o que tirou o defensor de ação por diversos meses. Ainda assim, Nicolás deu sua contribuição na campanha do título da Coppa Italia e teve o apoio de Massimo Moratti para seguir na Argentina durante a recuperação da filha.

Burdisso conquistou seus primeiros títulos na Itália com a camisa da Inter (Getty)

Nico retornou para Milão somente no outono de 2005, quando acabou reencontrando o ídolo Samuel, que fora contratado junto à Roma. Mesmo atrás na preferência de Roberto Mancini, que contava com Iván Córdoba, Samuel e Marco Materazzi, Burdisso sempre arranjou um jeito de encontrar seu espaço. Uma das formas de jogar mais foi aceitar as improvisações do treinador, que transformou o argentino num faz-tudo do time. Com a camisa interista, Burdisso foi zagueiro, lateral-direito, esquerdo e volante.

A partir de 2006, com as saídas dos reservas Giuseppe Favalli, Zé Maria e Sinisa Mihajlovic, o argentino ganhou ainda mais importância no sistema de revezamento de Mancini e passou a ser uma figura ainda mais presente nas formações da equipe, mesmo nos jogos grandes. Neste mesmo ano, Nicolás Burdisso também se tornou o último jogador da Inter a usar a camisa de número 3, que foi aposentada em homenagem ao ídolo nerazzurro Giacinto Facchetti, que falecera em setembro. O argentino passou vestir a 16. 

A temporada 2006-07 também foi aquela em que o defensor anotou mais gols: foram dois decisivos no campeonato, vencido com recorde de pontos, e duas doppiettas na Coppa Italia, a qual a Inter acabou perdendo a final para a Roma. Nessa mesma temporada, Burdisso também protagonizou uma das cenas lamentáveis mais memoráveis do futebol europeu nos anos 2000.

Nas oitavas de final da Liga dos Campeões, depois de um 2 a 2 em San Siro, Inter e Valencia voltaram a se enfrentar no Mestalla. No final do jogo, ainda 0 a 0, Burdisso se envolveu em uma confusão generalizada que começou com Carlos Marchena e evoluiu até o murro de David Navarro, que quebrou o seu nariz. O zagueiro espanhol foi perseguido por Cruz e Córdoba – e depois por Francesco Toldo, que invadiu o vestiário adversário. Após o fuzuê, os valencianos acabaram se classificando.

No verão de 2007, as chegadas de Cristian Chivu e Nelson Rivas não diminuíram seu espaço no elenco. Burdisso continuou sendo uma importante peça para revezar com Córdoba, Samuel e Materazzi, mas acabou atuando em mais partidas no campeonato que os titulares, que tiveram problemas físicos. Mesmo considerado como o elo mais fraco da defesa nerazzurra, o zagueiro deu conta do recado na Serie A.

A mudança no comando técnico, com a saída de Mancini e contratação de José Mourinho, além da promoção do jovem Davide Santon ao time profissional também não representaram grandes mudanças na estrutura do sistema de revezamento da defesa interista. Somente no verão de 2009, quando a Inter contratou Lúcio, é que houve uma revolução no setor – e no próprio elenco, que um ano depois conquistaria o histórico Triplete. A possibilidade de perda de espaço fez com que Burdisso decidisse deixar o clube depois de nove títulos obtidos. Anos depois, Nico revelou que foi exatamente esse o motivo de sua saída, mesmo que Mourinho tivesse tentado demovê-lo da ideia.

Em Roma, Burdisso recuperou o espaço que vinha perdendo na Inter (AP)

Emprestado para a Roma para jogar com mais regularidade e em sua posição de origem, o argentino tomou espaço de Philippe Mexès e fez dupla com o brasileiro Juan. O novo treinador da equipe, Claudio Ranieri, também chegou a usar Burdisso na lateral canhota. A equipe brigou com unhas e dentes pelo scudetto com a própria Inter e ficou muito perto de interromper a hegemonia nerazzurra. A Loba fez grande segundo turno, mas perdeu a liderança na 35ª rodada. Para piorar, caiu novamente para os nerazzurri na final da Coppa Italia e não comemorou nenhum título em maio de 2010.

Com as boas atuações, Burdisso foi contratado em definitivo pelos giallorossi, mas viu a equipe cair de rendimento com Ranieri. A Roma deixou a disputa pelo título e brigou mais embaixo na tabela, além de ter ficado em vias de ser eliminada pelo Shakhtar Donetsk nas oitavas de final da Champions League – o que levou ao pedido de demissão do treinador, que foi substituído por um iniciante Vincenzo Montella. A queda para os ucranianos se consumou depois de derrota por 3 a 0 na Ucrânia (os romanos já haviam sofrido 3 a 2 no Olímpico), e a Roma ainda terminou o campeonato apenas na sexta posição.

A temporada 2011-12 se mostrou ainda pior para a Roma, que estava sob nova direção. O norte-americano Thomas DiBenedetto adquiriu o clube e optou por dar o comando técnico a Luis Enrique, que falhou miseravelmente – justo em um ano especialmente ruim de Francesco Totti. Burdisso perdeu boa parte da campanha por causa de uma grave lesão no joelho esquerdo, sofrida em novembro de 2011, com a seleção argentina. O problema físico também encerrou sua trajetória pela Albiceleste, depois de sete anos e duas Copas do Mundo como titular.

Sob o comando de Zdenek Zeman e Aurelio Andreazzoli, Nico recuperou a forma e a titularidade, mas o desempenho da equipe seguiu aquém das expectativas. A equipe até foi finalista da Coppa Italia, mas foi derrotada pela Lazio e ainda terminou o campeonato novamente na sexta posição. O verão de 2013, então, trouxe Rudi Garcia, Mehdi Benatia e Maicon para a capital, e Burdisso viu seu tempo em campo diminuir drasticamente.

Depois de apenas seis partidas na primeira parte da temporada, foi colocado à venda no inverno e vendido ao Genoa em janeiro de 2014. De cara, Burdisso se tornou uma referência na defesa de Gian Piero Gasperini. Em 2014-15, o time teve grande encaixe e chegou a ocupar a terceira posição na Serie A, além de bater Juventus, Inter, Milan e Lazio. No fim das contas, os grifoni terminaram o campeonato no sexto lugar, mas perderam a vaga na Liga Europa no tapetão, por causa de problemas administrativos.

Burdisso marca Dybala no Derby della Mole: seu último clube foi o Torino (LaPresse)

No ano seguinte, já como capitão rossoblù, Burdisso vivenciou uma nova queda de rendimento junto com sua equipe. No entanto, fez um bom returno e deu sustentação para que o trio formado por Suso, Alessio Cerci e Leonardo Pavoletti alavancasse a equipe para uma salvezza tranquila e uma grande vitória no Derby della Lanterna, contra a Sampdoria.

Seu último ano em Gênova foi um misto de emoções. A equipe lígure fez um grande início de campeonato, no qual bateu a Juventus e até foi líder por duas rodadas. A isso se seguiu um jejum de 12 partidas sem vitórias, e a demissão e a readmissão do técnico Ivan Juric. Após os percalços, a salvezza foi garantida na penúltima rodada. Nico foi o jogador que mais vezes entrou em campo na campanha.

Burdisso recebeu muitos pedidos para continuar no clube, mas optou por não renovar o contrato ainda em maio de 2017, permanecendo todo o verão sem clube. No final da janela, o beque argentino assinou com o Torino por um ano e passou algum tempo até recuperar a forma. Sua estreia com a camisa granata ocorreu somente em novembro, na 12ª rodada da Serie A. Com desempenho irregular, a equipe ficou estacionada no meio da tabela tanto com Sinisa Mihajlovic quanto com Walter Mazzarri, apesar da melhora defensiva no segundo turno. Neste período, vale destacar o bom desempenho de Burdisso.

Aos 37 anos, o veterano acabou não tendo o contrato renovado com o Toro no final da temporada. Burdisso passou o verão europeu inteiro sem clube, mesmo recebendo pedidos para retornar a Boca Juniors e Genoa. Não aceitou: o zagueiro até ficou treinando para não perder a forma física, mas nesse período também refletiu bastante e optou por encerrar a carreira. Com mais de 600 partidas disputadas e 18 títulos conquistados em 19 anos como profissional, Nico é um dos mais vitoriosos jogadores argentinos da história. Sexto na lista, ele só fica atrás de lendas como Alfredo Di Stéfano e Lionel Messi e dos ex-companheiros Cambiasso, Guillermo Barros Schelotto e Sebastián Battaglia.

“O futebol é o meu instrumento para ser feliz e crescer como pessoa, e continuará sendo. Estou orgulhoso e satisfeito por ter feito tudo que sonhei desde criança”, afirmou Burdisso em sua mensagem de despedida. Seu futuro no futebol está em aberto, mas tudo indica que ainda o acompanharemos nos bastidores do esporte ou na beira dos gramados.

Nicolás Andrés Burdisso
Nascimento: 12 de abril de 1981, em Altos del Chipión, Argentina
Posição: defensor
Clubes: Boca Juniors (1999-04), Inter (2004-09), Roma (2009-14), Genoa (2014-17), Torino (2017-18)
Títulos: Campeonato Argentino (Apertura 2000, Apertura 2003), Copa Libertadores (2000, 2001, 2003), Copa Intercontinental (2000, 2003), Serie A (2006, 2007, 2008, 2009), Coppa Italia (2005, 2006), Supercoppa Italiana (2005, 2006, 2008), Copa do Mundo sub-20 (2001), Ouro Olímpico (2004)
Seleção argentina: 49 jogos e 2 gols

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