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Vinicio Verza vestiu a 10 da Juventus e brilhou por Milan e Verona

Giovanni Ferrari foi um dos precursores. Depois dele, jogadores como Omar Sívori, Fabio Capello, Michel Platini, Zinédine Zidane e Alessandro Del Piero vestiram, e com muito estilo, a camisa 10 da Juventus. Porém, ao contrário de tantos craques, alguns atletas se destacaram por não conseguirem se firmar com a malha bianconera. Vinicio Verza foi um deles, embora tenha contribuído diretamente para a conquista do 19º scudetto pela Velha Senhora. Na sua carreira, o meia daria a volta por cima com passagens frutíferas por Milan e Verona.

Vinicio nasceu no fim de 1957 em Boara Pisani, no Vêneto, mas ainda garoto se mudou com a família para o Piemonte. Assim, iniciou a sua trajetória em clubes pequenos da região, até ser descoberto pela Juventus, maior agremiação daquelas bandas. Podendo atuar pela ponta direita ou como meia-atacante, Verza passou pelas divisões de base dos bianconeri, mas estreou profissionalmente perto de sua cidade natal.

Em 1976, o Vicenza servia como espécie de incubadora de jovens talentos da Juventus: Verza, o lateral-esquerdo Luciano Marangon e o atacante Paolo Rossi passariam aquele ano cedidos aos lanerossi. Vinicio não chegou a ser titular sob o comando de Giovan Battista Fabbri, mas aproveitou as suas chances. O jogador atuou em 30 partidas, com dois gols marcados, e ajudou os vênetos a serem campeões da Serie B.

Depois de ajudar os berici a regressarem ao mais alto escalão do futebol italiano, Verza voltou à Juventus para ser reserva de Franco Causio, fazendo seu debute com a camisa juventina antes de fazer 20 anos, num duelo da Coppa Italia, vencido por 4 a 2 sobre o Verona. “Minha estreia no Comunale foi maravilhosa. Fiquei com vergonha e tinha medo de não corresponder às expectativas”, contou o jogador ao blog Il Pallone Racconta.

Levando habitualmente o número 7 nas costas, o jovem jogador realizou um sonho de menino ao conquistar o scudetto, mesmo tendo uma ínfima participação – somente cinco aparições. A Juventus tinha um elenco estelar, com nomes como Dino Zoff, Gaetano Scirea, Marco Tardelli e Roberto Bettega, e era mesmo difícil para um garoto ganhar a posição de Causio ou Romeo Benetti. Pietro Fanna, por exemplo, sofreu com o mesmo problema. Ainda assim, nessa mesma temporada, Vinicio marcou o seu primeiro gol com a camisa bianconera, em uma vitória contra a Atalanta, em Bérgamo.

Alguns momentos de brilho não bastaram para que Verza deslanchasse na Juventus (RCS)

Além da concorrência com muitos craques e jogadores renomados, Verza ainda foi prejudicado por uma lesão sofrida em abril de 1978, que o afastou dos gramados por mais de seis meses. Fora dos campos, as noitadas com Domenico Marocchino também não lhe ajudavam a manter a melhor forma física ou a ganhar pontos com o técnico Giovanni Trapattoni. Trap admirava o futebol de Vinicio: o considerava “meio brasileiro” pela facilidade de driblar e pela elegância na condução da bola.

Diante desse cenário, o vêneto jamais se firmou na quatro temporadas em que integrou o elenco principal da gigante de Turim: em nenhuma das campanhas superou a marca de 1200 minutos em campo. O feito, que não seria tão expressivo assim, deixa claro que Verza nunca conseguiu superar a condição de alternativa para rodízio do elenco. Em sua passagem pelo clube, Vinicio somou 60 jogos, 11 gols e três títulos – duas edições da Serie A e uma Coppa Italia.

O momento mais importante de Verza pela Juventus, sem dúvidas, aconteceu no estádio San Paolo, na penúltima rodada da Serie A 1980-81, contra o Napoli. Naquela partida, Vinicio foi escalado no lugar do machucado Causio e, no segundo tempo, completou um cruzamento de Marocchino para as redes, dividindo com o volante Mario Guidetti. Pelo regulamento da época, como o napolitano desviou a bola, foi assinalado gol contra.

O tento praticamente garantiu o 19º scudetto da gigante piemontesa – que foi confirmado na rodada seguinte, contra a Fiorentina. Verza, que ainda foi expulso pelo árbitro Alberto Michelotti por fazer cera no fim da partida, considera aquele tento como um último agrado à Velha Senhora. “Foi meu presente de despedida à Juventus, que retribuiu me negociando com o Cesena [onde teria mais espaço]”, afirmou a Il Pallone Racconta. “A Juve oferece muito a você, mas pede que seja digno de sua tradição. Na Juventus você não pode oferecer a mesma contribuição que poderia ser bem-vinda em outros clubes”, completou.

Talentoso, com muito estilo e técnica, além de ser dono de chutes de muita precisão, Verza era um jogador muito versátil, mas não conseguiu ser o 10 que a Juventus precisava. Assim, rumou ao Cesena, que voltava à elite, a pedido de Fabbri, treinador que o revelara no Vicenza. Diferentemente do que ocorrera no Vêneto, o comandante decidiu apostar em Vinicio na função de meia central, porque considerava que o italiano poderia ser o “novo Falcão“.

No Milan, Verza teve alguns dos melhores momentos na carreira (imago)

Entretanto, o peso dessa responsabilidade, que vinha acompanhado do fato de atuar em uma função que não estava acostumado a desempenhar, atrapalhou o jogador de 23 anos. Verza não se adaptou ao posto – apesar de ter anotado o seu primeiro gol pelo clube contra a Juventus, numa derrota por 6 a 1 – e voltou a desfilar sua categoria apenas no segundo turno. Fabbri foi demitido na 14ª rodada e Renato Lucchi, seu sucessor, devolveu Vinicio a sua posição original. O Cesena se salvaria do rebaixamento graças à 10ª colocação na Serie A.

A derradeira partida de Verza pelo Cesena ocorreu contra o Milan, que seria o seu destino seguinte. Na ocasião, o Diavolo venceu por 3 a 2, mas acabou rebaixado porque o Genoa arrancou um pontinho do Napoli graças a um gol de Mario Faccenda. Na ânsia de reconduzir o gigante à elite, o presidente Giussy Farina fez negócios com a rival – mandou Fulvio Collovati à Inter, em troca de Nazzareno Canuti, Giancarlo Pasinato e Aldo Serena –, além de buscar nomes experientes, como Oscar Damiani, e atletas com os quais já havia trabalhado. Vinicio se encaixava no último grupo, já que Farina era o máximo dirigente do Vicenza na época em que defendera os lanerossi.

Verza iniciou sua passagem por Milanello com um gol na estreia, diante do Pescara, pela Coppa Italia. Era um prenúncio do que viria adiante, pois Vinicio se tornou um dos destaques da equipe na campanha que devolveu os rossoneri de volta à primeira divisão. O meio-campista contribuiu com seis assistências e 10 tentos na Serie B, chegando a emendar uma sequência de cinco rodadas seguidas encontrando as redes (numa delas, guardou uma tripletta contra o Varese), e foi um dos vice-artilheiros do time, ao lado de Joe Jordan e Damiani – Sergio Battistini, com 11, foi o goleador. Ao longo de 1982-83, colocou a bola na casinha 12 vezes e deu oito passes decisivos em 40 aparições.

Curiosamente, Vinicio chegou a admitir certa frustração pela transferência ao Milan, uma vez que deixaria de disputar a elite do futebol nacional. No entanto, o meio-campista não se arrependeu da escolha. “Mudar para Milão foi uma escolha dolorosa, porque poderia continuar na Serie A com o Cesena. Mas nunca me arrependi, pois foi uma satisfação ajudar na recuperação do Diavolo”, declarou. Nos tempos de Lombardia, ele ainda teve uma breve participação no filme “Il volatore di aquiloni”, interpretando a si próprio.

Dentro dos gramados, Verza manteve a titularidade e continuou a colaborar com a retomada do Milan no biênio seguinte. Na mediana campanha da Serie A 1983-84, terminada na oitava posição, vestiu a camisa 10 e atuou centralizado, encostando nos atacantes. Após a saída de Ilario Castagner e a chegada de Nils Liedholm, o vêneto viu a sua posição mudar na temporada seguinte. Como Vinicio fumava e era irregular, o sueco preferiu lhe dar a 7 e o deixar mais longe de uma zona em que precisaria demonstrar mais intensidade – assim, deslocou o jogador para a ponta direita.

Com futebol “brasileiro”, Vinicio alternava períodos de brilho intenso a sumiços nas partidas (imago)

Os resultados deram razão ao comandante, já que o Diavolo melhorou de rendimento: os rossoneri foram vice-campeões da Coppa Italia e ficaram com a quinta colocação na Serie A. Verza seguia no onze inicial, mas a relação com o treinador azedou por conta da troca de posicionamento e a sua transferência no mercado de verão de 1985 passou a ser considerada iminente. A torcida milanista protestou, mas não houve jeito: depois de 106 jogos e 17 gols pelo Milan, Vinicio mudou de ares.

O jogador, então com 27 anos, foi contratado pelo campeão nacional da época. O Verona, que surpreendeu em 1984-85, buscava um meia para substituir Fanna, negociado com a Inter após a conquista do scudetto pelos gialloblù. No entanto, a primeira temporada de Verza no time do Vêneto foi decepcionante: acometido por frequentes lesões, atuou em apenas 29 partidas.

A maior parte das vezes que Verza entrou em campo em 1985-86 se deu nos extremos da campanha dos mastini, que ficaram na 10ª posição da Serie A e terminaram eliminados nas quartas de final da Coppa Italia e nas oitavas da Copa dos Campeões. Curiosamente, os melhores momentos do meia aconteceram em partidas diante do Como: anotou uma doppietta sobre os lariani na terceira rodada do Italiano e, no mata-mata nacional, marcou um icônico gol ao arrancar de sua intermediária e deixar três adversários para trás, com direito a caneta em Enrico Todesco.

Em 1986-87, Vinicio teve o seu ano mais positivo pela equipe treinada por Osvaldo Bagnoli. Bem fisicamente, só ficou de fora de três partidas dos butei e contribuiu para que o Verona se classificasse à Copa Uefa após garantir o quarto lugar na Serie A. Além das assistências fornecidas para Preben Elkjaer Larsen e o amigo Rossi, Verza marcou cinco vezes – sendo duas na goleada sobre o Brescia, grande rival dos gialloblù.

Apesar da expectativa gerada pelo bom futebol mostrado em sua segunda temporada pelo Verona, o meio-campista não deu sequência ao momento positivo. Desconectado, o vaga-lume Verza passou a frequentar o banco de reservas e pouco contribuiu para mais uma campanha mediana do Hellas. Ao fim do certame, no verão de 1988, assinou com o Como.

Verza disputou três temporadas pelo Verona, mas se destacou mesmo apenas em uma delas (imago)

Aos 31 anos, o atleta se via em final de carreira e não era sequer considerado um titular da equipe – muitas vezes, viu jogadores mais jovens serem escalados em seu desfavor. Em 16 partidas, Verza não anotou um gol sequer e não conseguiu evitar o rebaixamento dos lariani à Serie B. No fim de sua trajetória pelo clube, chegou a ser barrado pelo técnico Angelo Pereni.

A passagem pelo pequeno clube da Lombardia fez Verza perceber o quão descontente estava com o futebol profissional. Não se divertia mais com o esporte e sequer tinha motivação para entrar em campo e ter suas canelas perseguidas pelos marcadores. “No Como me deparei com a dura realidade de uma agremiação que me colocou de lado para dar espaço aos jovens que precisavam ser valorizados e, depois, bem vendidos. A decepção foi tão grande que me levou à decisão de parar de jogar. Não me arrependo de nada. Pelo contrário, fiquei muito contente com a escolha que fiz, porque tive a oportunidade de estar mais perto da minha família”, explicou.

Apesar de ter optado pela aposentadoria, Verza teve uma “recaída” pouco depois. O profissionalismo ficou mesmo de lado, mas Vinicio voltou aos gramados para atuar em algumas partidas por Arzignano e Treviso, times do Vêneto, na quinta divisão. Em 1992, finalmente pendurou as chuteiras de uma vez por todas.

Fora dos campos, o ex-meia se dedicou aos negócios da família e passou a exercer a profissão de corretor de imóveis em Vicenza, deixando o esporte apenas na memória. “Hoje não penso mais em futebol. Assisto na TV quando posso, mas para mim não é uma obsessão. Desde que pendurei as chuteiras nunca mais entrei em um estádio”, garantiu. O verdadeiro ponto e basta.

Vinicio Verza
Nascimento: 1º de novembro de 1957, em Boara Pisani, Itália
Posição: meio-campista
Clubes: Vicenza (1976-77), Juventus (1977-81), Cesena (1981-82), Milan (1982-85), Verona (1985-88), Como (1988-89), Arzignano (1990-91) e Treviso (1991-92)
Títulos: Serie A (1978 e 1981), Serie B (1977 e 1983) e Coppa Italia (1979)

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